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Pintura nenhuma, em toda a história, conseguiu representar um relâmpago

Nenhum artista deu conta de retratar o fenômeno com a fidelidade correta. E sobrou para você: muito provavelmente, a sua ideia de como é um relâmpago também está errada.

Antes da ascensão da pintura como arte autônoma, com liberdade para abstrair o que quisesse, os academicistas se orgulhavam em dizer que suas obras eram espelhos da realidade. Bem, mais ou menos. Além da idealização de figuras e eventos (como o Napoleão, de David, ou a Independência, de Pedro Américo, que colocaram cenas históricas num patamar muito mais glamuroso do que elas tiveram de verdade), cientistas descobriram outra grande falha das pinturas na história: a forma como os relâmpagos foram retratados. Todos os relâmpagos, em todos os quadros.

Lembra do Delacoix, aquele artista francês que pintou o famoso quadro A Liberdade Guiando o Povo? Ele está na lista dos artistas que até tentaram, mas falharam na forma de retratar os raios. E o seu principal erro foi ter subestimado a quantidade de “veias” – as ramificações de eletricidade – desse fenômeno natural. Para entender melhor, dê uma olhada no exemplo abaixo:

Cavalo Assustado por uma tempestade, Eugene Delacroix

Cavalo Assustado por uma tempestade, Eugene Delacroix (Eugène Delacroix/Domínio Público)

Para toda a verossimilhança do cavalo, o pobre relâmpago mereceu pouco mais que um rabisco. 

Mas Delacroix está longe de ser o único. Segundo um estudo feito por pesquisadores húngaros da Universidade Eötvös Loránd, esse erro virou padrão: a arte nunca acertou com precisão os relâmpagos e suas veias elétricas.

E o engraçado é o que isso gerou no público: nossa imagem mental do que é um raio também está errada. Pense na cicatriz em forma de “raio” na testa do Harry Potter ou os relâmpagos no clipe do Arctic Monkeys. Todos errados. Todos inspirados na forma que a arte retrata os raios – distorcendo nossas percepções sobre um fenômeno natural que acontece na frente dos nossos próprios olhos (mesmo que por milésimos de segundos).

Para chegar nessas conclusões, os pesquisadores examinaram 100 pinturas e 400 fotografias de raios, usando um programa de computador. Eles atestaram que as pinturas e as fotos diferem principalmente no número de ramos dos raios curtos, semelhante a raízes, que ocorrem quando partículas carregadas de eletricidade tentam traçar o caminho de menor resistência através do ar.

Enquanto nas pinturas os raios tinham, no máximo, 11 ramificações, as fotos mostravam raios divididos em até 51 “braços”. O que, acredite, ainda é pouco se comparado com os números reais de ramificações que existem – mas que somem rápido demais para uma câmera captar.

Parte dos estudos de Gábor Horváth, comparando a representação dos raios nas pinturas

Parte dos estudos de Gábor Horváth, comparando a representação dos raios nas pinturas (Gábor Horváth/)

Os cientistas acreditam que esse erro está fortemente ligado a como nós, humanos, lidamos com os números. Abaixo de cinco, avaliamos a maioria das coisas sem contar (geralmente falamos “pouco”). De 6 a 10, contamos. Acima de 10, aproximamos pra baixo (ou falamos “muito”). Por isso os artistas raramente retratam relâmpagos com mais de 11 ramificações, conclui Gábor Horváth, um dos líderes da pesquisa.

A limitação ficou comprovada em experimento: os cientistas pediram que 10 pessoas avaliassem rapidamente 1.800 fotos. Os participantes conseguiam detectar com precisão até 11 ramificações nos raios. À medida que o número aumentava, as pessoas o subestimam, ou apenas chutavam.

Histórico de erros

Essa não é a primeira vez que cometem um sacrilégio com os raios. Esse fenômeno meteorológico já é injustiçado desde que sua imagem simplificada em zigue-zague foi culturalmente determinada (alô, testa do bruxinho). Os cientistas afirmam que essa representação se originou de antigas imagens greco-romanas dos raios de Júpiter ou Zeus, deus associado aos relâmpagos. 

Em meados do século 19, quando a meteorologia ainda era uma ciência nova, os primeiros estudiosos lutavam para acabar com a ideia arraigada de que o clima e seus fenômenos estavam fortemente relacionado a mitos, superstições e folclore.

Foi nessa época que as primeiras fotografias de raios foram tiradas. Uma dos pioneiros nessa essa façanha, o fotógrafo William Nicholson Jennings, queria explicitamente provar a relâmpagos não eram em zigue-zague.

A partir daí, as fotos foram eleitas pelos meteorologistas como a maneira mais objetiva e correta de se estudar o céu e seus fenômenos. Fotos de relâmpagos eram levadas para reuniões científicas, que insistiam em culpar a cultura por espalhar rumores falsos a respeito da realidade dos acontecimentos meteorológicos. 

Primeira foto de um raio por William Nicholson Jennings

Primeira foto de um raio por William Nicholson Jennings (William Nicholson Jennings/Domínio Público)

Esse estudo, longe de só querer encher a paciência dos históricos da arte por causa das imprecisões dos raios, na realidade faz parte de uma longa linhagem de pesquisas que tratam da fronteira entre representações artísticas e fotográficas dos relâmpagos. Mesmo os cientistas tendo razão, a imagem simplificada de um raio como na testa do Harry Potter ficará sempre na nossa cabeça. Agora, se você quiser pagar de cult, pode dizer que a culpa são das obras do Delacroix.