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“Rogue One” é um filme sobre política e guerra (também nas estrelas)

Mesmo acontecendo há muito tempo atrás, em uma galáxia distante, no fundo, o longa é sobre os conflitos que acontecem aqui na Terra

Quando o escritor alemão Thomas Mann falou em 1924 que “tudo é sobre política”, dificilmente ele estava pensando em naves espaciais ou alienígenas grunhindo. Mas isso não diminui nem um pouquinho o fato de que a frase de Mann atinge até mesmo uma galáxia muito distante, há muito tempo atrás. Rogue One: Uma História Star Wars é a prova disso.

A grande questão que Rogue One traz é: se você vivesse no mundo de Star Wars, como enxergaria tudo aquilo que está rolando? Pare pra pensar, os jedis, na verdade, são antigos religiosos que usam espadas para provar que estão certos. Os Rebeldes são, bem, rebeldes, que estão atacando um império e matando muita gente nesse processo –  enquanto tentam ajudar uma monarca a se restabelecer. Claro que espadas que brilham no escuro e um vilão de roupa samurai preta com respiração cavernosa ajudam a deixar tudo isso mais mágico. Rogue One vem para tirar a mágica da equação. O resultado é um Apocalipse Now – com navezinhas e pistolas de raio laser.

A primeira guerra que Rogue One aborda é a óbvia, a fardada mesmo. Os embates parecem um grande (e bem amarrado) retalho de guerras que aconteceram na Terra durante o século 20 e esse comecinho de 21. Apesar das praias e florestas vistas no filme estarem localizadas nas Ilhas Maldivas, o filme parece tentar recriar o Vietnã, a Estrela da Morte é explicitamente tratada como uma bomba nuclear, isso sem falar na cidade-santa no meio do deserto, que não é Meca, mas até rima, é Jedah.

“Rogue One” é um filme sobre política e guerra (também nas estrelas)

Esse tipo de assimilação começa a moldar um filme típico de guerra, que como qualquer filme de guerra tem que se posicionar politicamente. Isso fica ainda mais claro em um universo como o de Star Wars, onde o bem e o mal são muito bem definidos – cada um tem até mesmo um lado da Força pra chamar de seu. Não demora, então, para alguns posicionamentos e mensagens começarem a gritar na tela. Se você começa a associar os mocinhos com pessoas rebeldes enfrentando exércitos altamente armados no meio de um deserto, ou vilões com impérios que usam armas de destruição em massa para eliminar cidades inteiras começa a ficar difícil ignorar o que o time de roteiristas e diretor pensam sobre as invasões norte-americanas no oriente médio e o ataque à Hiroshima.  O roteiro ainda tenta criar dilemas internos para diminuir essa dualidade. Um líder rebelde tortura pessoas de seu próprio time. Outro personagem questiona o cumprimento de ordens sem a devida análise. Mas no fim do filme, é difícil tentar entender o lado do pessoal que segue ordens de Darth Vader.

A outra guerra de Rogue é a de fora do campos de combate. A equipe que vem comandando os filmes de Star Wars vem deixando claras algumas de suas convicções. E elas são bem óbvias. Na manhã seguinte à eleição de Donald Trump, Chris Weitz, roteirista de Rogue One, tuitou (e depois apagou) a seguinte frase: “Por favor, reparem que o Império é uma organização supremacista branca (humana)”. Logo em seguida outro escritor do projeto, Gary Whitta, respondeu com a mensagem “Combatidos por um grupo multicultural liderado por bravas mulheres”. O simples fato de não ter um homem branco como protagonista já pode ser encarado como um posicionamento. Além de Rogue One ser protagonizado pela atriz Felicity Jones, o mais próximo de um par romântico que aparece no longa é a relação dela com Diego Luna, nascido no México. Quem não gosta muito dessa diversidade reclamou. Na verdade, vem reclamando desde o ano passado, quando Despertar da Força estreou, com uma mulher e um homem negro liderando a história. Grupos conservadores americanos até organizaram boicotes aos longas. Rogue One lucrou menos que Despertar, mas mesmo assim em menos de duas semanas em cartaz atingiu a 11º maior bilheteria de 2016 – com US$ 340 milhões acumulados mundialmente até agora.

Esse tipo de conflito não é de hoje. Star Wars sempre abordou a política, mas antes talvez de um modo um pouco mais delicado. “Império do mal” era a forma como o então presidente dos EUA, Ronald Regan, se referia à União Soviética. Isso acontecia em 1983 – o mesmo ano de estreia do Retorno de Jedi.  Mesmo assim, há quem diga que a política está nos olhos de quem vê. O atual chefão da Disney, Bob Iger, afirmou ao Hollywood Reporter que “Não há o menor posicionamento político em Rogue One”.  Como disse Yoda no Episódio II: “Limpa sua mente deve estar, se você quer descobrir os verdadeiros vilões por trás dessa história”.