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Cultura

Os 50 filmes mais inteligentes de todos os tempos – Cinema de inovação

Engenhosos e imaginativos na forma e no conteúdo, eles revolucionaram a linguagem cinematográfica.

por Alexandre Carvalho Atualizado em 17 ago 2020, 19h00 - Publicado em 8 mar 2020 18h53

Engenhosos e imaginativos na forma e no conteúdo, eles revolucionaram a linguagem cinematográfica.

Texto: Alexandre Carvalho | Edição de arte: Estúdio Nono | Design: Andy Faria | Imagens: Getty Images e Divulgação


Desde que os irmãos Lumière projetaram dez curtas-metragens em Paris, no ano de 1895 – o início oficial dos filmes –, o cinema procura surpreender o público com novidades no processo criativo. Os primeiros anos já foram de inovação e invenção puras: pioneiros logo transformaram cenas de tomada única, com a câmera imóvel, em produções mais elaboradas, que passam a ter edição de cenas e artistas pensando em movimentos de câmera, ângulos distintos, closes e planos gerais. Técnicos e homens de ciência como os Lumière – que inventaram o cinematógrafo – davam lugar a autores interessados na expressão artística. E na capacidade de inovar. Os mais criativos perceberam que o cinema é campo fértil para experimentação – algo que se vê tanto na técnica (como a profundidade de campo em Cidadão Kane) quanto na narrativa (os depoimentos em flashback de Rashomon).

Cidadão Kane

Por que está aqui: modernizou tanto a técnica quanto a narrativa.

Citizen Kane | Direção: Orson Welles | Roteiro: Herman J. Mankiewicz e Orson Welles


Era véspera do Dia das Bruxas, em 1938, quando os americanos que sintonizaram seus rádios (a TV da época) na estação CBS ouviram uma intervenção jornalística: “Senhores, temos um grave anúncio a fazer. Por mais inacreditável que possa parecer, as observações científicas e a visão dos nossos olhos levam à inescapável conclusão de que os seres que pousaram em Nova Jersey são a vanguarda de um exército invasor, do planeta Marte”. Então a Terra estava sendo invadida por marcianos hostis? Mais de 1 milhão de ouvintes pensaram que sim. E entraram em pânico. Famílias colocaram toalhas úmidas nas janelas, numa tentativa de bloquear gases venenosos dos alienígenas, e um grupo de moradores de Nova Jersey, em meio à escuridão, atirou contra uma caixa d’água – imaginando tratar-se de uma máquina extraterrestre de assassinar terráqueos. Mas não. O que os EUA tinham ouvido como verdade era uma adaptação realista do clássico A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells – um radioteatro dirigido e interpretado por um homem sem freios: Orson Welles.

O artista teve de se desculpar por ter incitado o terror em massa, mas o impacto da produção lhe deu fama instantânea. E logo Welles era convidado para levar suas ousadias a uma outra mídia popular, o cinema, com um contrato que lhe dava ampla liberdade artística. Então o novo diretor resolveu mexer num vespeiro: um filme inspirado na vida do magnata da imprensa William Randolph Hearst, que controlava grande parte da mídia americana e era fã de Hitler – a ponto de publicar uma entrevista falsa com o führer, para transmitir as “boas intenções” do nazista.

Cidadão Kane mostra como o milionário Charles Foster Kane, dono de 37 jornais, fez de tudo na vida para ser amado – em larga escala e no âmbito privado –, mas caiu sozinho do topo do mundo, terminando com uma morte solitária. Este argumento, embora poderoso, não revela quão inovadores foram a narrativa e a estética com que essa história se apresenta.

É na forma de um noticiário que vemos a conquista e perda de poder de Kane, flashbacks de sua violência contra a mulher e a amante, o castelo construído para afirmar a opulência do seu império: Xanadu. Orson Welles aglutina uma variedade de inovações cinematográficas para representar essa trama de uma forma inédita.

A iluminação é expressionista – os personagens surgem envoltos pela escuridão e vistos por ângulos incomuns; e um efeito de profundidade de campo faz com que elementos próximos e distantes na tela sejam vistos em foco, ao mesmo tempo – permitindo que fixemos o olhar em qualquer parte da imagem. A força desse domínio técnico se soma ao simbolismo visual: vemos, ao longo do filme, pequenas partes da persona de Kane, às vezes desconexas; e, no final, é o próprio personagem que se olha multiplicado pelos diferentes ângulos de um espelho, uma distorção da imagem que parece dizer: nenhum desses sou eu. “É um labirinto sem um centro”, diria sobre o filme o escritor Jorge Luis Borges.

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Boyhood: da Infância à Juventude

Por que está aqui: Mostra a passagem do tempo sem truques de estúdio.

Boyhood | Direção e roteiro: Richard Linklater


Poderia ser só uma obra sobre a passagem da infância à vida adulta, sobre relacionamentos em família e sobre adaptação. Mason Jr. (Ellar Coltrane) é filho de pais divorciados e mora com a mãe (Patricia Arquette), embora encontre o pai (Ethan Hawke) de quando em quando. O filme mostra o transcorrer dos anos pelos olhos desse menino-adolescente-rapaz: os perrengues de lidar com padrastos violentos e o bullying na escola, os primeiros amores e as inevitáveis incertezas do amadurecer. O que torna o filme inovador é a maneira de contar esse enredo prosaico.

Como num experimento sociológico, Boyhood foi filmado, a cada verão, ao longo de 12 anos (2002 a 2013) com o mesmo elenco – diferente do padrão em que usam pessoas diferentes para interpretar um mesmo personagem em idades distintas. Atores e atrizes envelhecem de verdade, diante dos nossos olhos – algo que só costuma acontecer nas séries de TV. Ethan Hawke, o artista mais conhecido do elenco, tinha 31 anos nas cenas iniciais, e 42 nas últimas. Mas é a transformação do protagonista que mais chama atenção: desde seus 7 anos, vemos o garoto crescer ao longo de 2h45min de filme, até os 18 – um adulto já. Em média, cada ano na vida dos personagens toma 14 minutos – embora haja sequências maiores e menores.

A correspondência entre a passagem dos anos na ficção e na realidade emociona, deixando em primeiro plano a inexequível missão de capturar o tempo. Nunca uma obra cinematográfica sobre os ciclos da vida foi tão autêntica.

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Um Homem Com Uma Câmera

Por que está aqui: Fundou a vanguarda soviética no cinema.

Chelovek s kino-apparatom | Direção e roteiro: Dziga Vertov


Quando o papa da Nouvelle Vague, Jean-Luc Godard, fundou uma cooperativa militante de “cinema-verdade”, batizou o grupo de Dziga Vertov – homenagem a um dos cineastas mais inovadores da história. Vertov criou documentários poéticos, que exploravam os limites da linguagem. Seu Um Homem com Uma Câmera mostra um dia na vida de uma metrópole: operários, bondes, um enterro e um parto, crianças encantadas com um mágico – e outras cenas cotidianas. Só que cada sequência é uma revolução russa da técnica de se fazer cinema.

O filme foi pioneiro em recursos como telas divididas, aceleração de cena, quadros congelados e até animação em stop-motion. Vertov usa câmera lenta para dar leveza aos movimentos de atletas (sacada copiadíssima até hoje), e as imagens de uma mulher piscando são intercaladas com o diafragma de uma câmera, que abre e fecha – como um “cine-olho”. E, no entanto, esse gênio foi relegado ao ostracismo pelos soviéticos. Seu pecado: exaltar a forma estética de uma obra em detrimento do conteúdo ideológico.

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Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

Por que está aqui: É o filme mais inteligente de Woody Allen. Ponto.

Annie Hall | Direção: Woody Allen | Roteiro: Marshall Brickman e Woody Allen


A grande invenção do diretor nova-iorquino neste filme foi transformar em imagens o fluxo de consciência do personagem, como num exercício surrealista. “Era uma história em que eu podia utilizar as ferramentas do cinema”, diria no livro Conversas com Woody Allen, de Eric Lax. E toda essa sofisticação criativa sem perder sua velha arte de fazer rir.

Em uma cena, que mostra o casal Alvy (Allen) e Annie Hall (Diane Keaton) ainda estudando um ao outro, os personagens conversam sobre fotografia artística, mas o diálogo é legendado (sim, em inglês mesmo). E as legendas revelam o verdadeiro pensamento de cada um – bem diferente do papo intelectual que eles estão tendo.

Quando Alvy diz “a fotografia é uma nova forma de arte”, a legenda mostra “fico imaginando como ela seria pelada”. Quando Annie responde, com outro comentário sobre cultura, seu pensamento é “tomara que ele não acabe virando um babaca”. Em outra cena, enquanto o casal faz sexo, uma imagem de Annie Hall sai do corpo dela e fica olhando a si própria transando.

Outra passagem inventiva é a do Alvy adulto conversando com a professora e os alunos de sua classe quando era criança, ao ser repreendido por beijar uma coleguinha. “Pelo amor de deus, Alvy! Até Freud fala de um período de latência”, reclama a menina, também falando como adulta. (Pela teoria freudiana, latência é a fase do desenvolvimento em que a criança, ao entrar para a escola, esquece um pouco sua sexualidade.) “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa contém mais brilho intelectual e referências culturais que qualquer outro filme a vencer o Oscar”, destacou o crítico americano Roger Ebert.

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Rashomon

Por que está aqui: Tem a investigação de homicídio mais original da ficção.

Rashomon | Direção: Akira Kurosawa | Roteiro: Shinobu Hashimoto e Akira Kurosawa


Kurosawa virou de ponta-cabeça a narrativa do filme policial usando um conto do século 12, sobre um bandido que mata um samurai e estupra sua esposa. Quatro envolvidos dão versões bem diferentes sobre o crime, testemunhos apresentados em flashback – e que contam com a palavra do morto, que se manifesta graças a um médium. Para surpresa do espectador, em vez de alegarem inocência, eles juram que são os culpados – inclusive a vítima (!), que diz ter se matado. Era uma forma original de investigar a identidade dos criminosos numa obra de ficção, brotada de um coquetel de influências que vão da literatura russa ao cinema experimental.

O filme fez tanto sucesso que emprestou seu título a uma expressão do meio acadêmico: “efeito Rashomon” diz respeito a uma notória falta de confiabilidade de testemunhas oculares. Um estudo do MIT, de 2014, aplicou o termo à conclusão de que dois executivos dificilmente vão enxergar os fatos da empresa de uma mesma maneira – complicando a tomada de decisões estratégicas.

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