Cidadão Kane
Por que está aqui: modernizou tanto a técnica quanto a narrativa.

Citizen Kane | Direção: Orson Welles | Roteiro: Herman J. Mankiewicz e Orson Welles
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Era véspera do Dia das Bruxas, em 1938, quando os americanos que sintonizaram seus rádios (a TV da época) na estação CBS ouviram uma intervenção jornalística: “Senhores, temos um grave anúncio a fazer. Por mais inacreditável que possa parecer, as observações científicas e a visão dos nossos olhos levam à inescapável conclusão de que os seres que pousaram em Nova Jersey são a vanguarda de um exército invasor, do planeta Marte”. Então a Terra estava sendo invadida por marcianos hostis? Mais de 1 milhão de ouvintes pensaram que sim. E entraram em pânico. Famílias colocaram toalhas úmidas nas janelas, numa tentativa de bloquear gases venenosos dos alienígenas, e um grupo de moradores de Nova Jersey, em meio à escuridão, atirou contra uma caixa d’água – imaginando tratar-se de uma máquina extraterrestre de assassinar terráqueos. Mas não. O que os EUA tinham ouvido como verdade era uma adaptação realista do clássico A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells – um radioteatro dirigido e interpretado por um homem sem freios: Orson Welles.
O artista teve de se desculpar por ter incitado o terror em massa, mas o impacto da produção lhe deu fama instantânea. E logo Welles era convidado para levar suas ousadias a uma outra mídia popular, o cinema, com um contrato que lhe dava ampla liberdade artística. Então o novo diretor resolveu mexer num vespeiro: um filme inspirado na vida do magnata da imprensa William Randolph Hearst, que controlava grande parte da mídia americana e era fã de Hitler – a ponto de publicar uma entrevista falsa com o führer, para transmitir as “boas intenções” do nazista.
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Cidadão Kane mostra como o milionário Charles Foster Kane, dono de 37 jornais, fez de tudo na vida para ser amado – em larga escala e no âmbito privado –, mas caiu sozinho do topo do mundo, terminando com uma morte solitária. Este argumento, embora poderoso, não revela quão inovadores foram a narrativa e a estética com que essa história se apresenta.
É na forma de um noticiário que vemos a conquista e perda de poder de Kane, flashbacks de sua violência contra a mulher e a amante, o castelo construído para afirmar a opulência do seu império: Xanadu. Orson Welles aglutina uma variedade de inovações cinematográficas para representar essa trama de uma forma inédita.
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A iluminação é expressionista – os personagens surgem envoltos pela escuridão e vistos por ângulos incomuns; e um efeito de profundidade de campo faz com que elementos próximos e distantes na tela sejam vistos em foco, ao mesmo tempo – permitindo que fixemos o olhar em qualquer parte da imagem. A força desse domínio técnico se soma ao simbolismo visual: vemos, ao longo do filme, pequenas partes da persona de Kane, às vezes desconexas; e, no final, é o próprio personagem que se olha multiplicado pelos diferentes ângulos de um espelho, uma distorção da imagem que parece dizer: nenhum desses sou eu. “É um labirinto sem um centro”, diria sobre o filme o escritor Jorge Luis Borges.