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Os 50 filmes mais inteligentes de todos os tempos – Enigmas

Enredos em que nada é evidente, filmes que se abrem à interpretação de quem os assiste.

Texto: Alexandre Carvalho | Edição de arte: Estúdio Nono | Design: Andy Faria | Imagens: Divulgação


Não importa o seu tipo de cinema preferido, é provável que a maioria dos filmes que já viu tenha saído de Hollywood. O negócio que habita esse distrito de Los Angeles, por mais que se baseie na criação artística, é isso mesmo: um negócio. E não se ganha dinheiro com produtos que as pessoas não entendem. O grosso dos espectadores prefere histórias em que tudo está mastigado, porque a mente trabalha no sentido de reconhecer padrões e encaixá-los no nosso repertório. Hollywood, assim, emprega lógicas narrativas que obedecem ao padrão de consumo – o que David Bordwell, teórico e historiador da sétima arte, chama de “um cinema excessivamente óbvio”.

Mas você comprou esta revista, então faz parte de outro grupo. Segundo Bordwell, são pessoas com hábitos de cognição e percepção visual elaborados. E que talvez gostem de enredos em que nada é evidente, filmes que se abrem à interpretação de quem os assiste. Esfinges que o espectador deve decifrar – ou saborear o desconhecido.

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2001 – Uma Odisseia no Espaço

Por que está aqui: “Se alguém entender de primeira, é sinal de que falhamos” Arthur C. Clarke

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2001: A Space Odyssey | Direção: Stanley Kubrick | Roteiro: Arthur C. Clarke e Stanley Kubrick


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Na época em que 2001 foi realizado, o diretor Stanley Kubrick cogitou fazer uma apólice de seguro. O risco coberto seria o de eventuais prejuízos caso fosse descoberta alguma forma de inteligência alienígena antes da estreia do seu filme. Tinha medo de que tal revelação deixasse a história ultrapassada. Exagero, claro. Nunca havíamos tropeçado numa inteligência extraterrestre antes, e não havia indícios de que isso poderia acontecer de uma hora para a outra.

Exagero também porque esta odisseia no espaço é mais sobre a relação homem-máquina e uma abstração poética sobre os caminhos da Seleção Natural – e os mistérios da evolução humana – que um filme de ETs. Pelo menos, distancia-se como nunca antes da ficção científica clássica ao representar a enigmática inteligência alienígena como um monólito – em vez de antropomorfizar o “personagem”. “Kubrick criou um filme que fez, repentinamente, todo o cinema de ficção científica envelhecer, correndo o risco de decepcionar os especialistas, que não encontravam, materializados nele, seus caros extraterrestres, e de deixar perplexos os amantes do gênero pela audácia de sua narrativa”, diz Michel Ciment, autor do livro Conversas com Kubrick.

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Dentre as muitas perspectivas que o filme desperta, há também a abordagem do perigo representado pela evolução da Inteligência Artificial – na figura de HAL 9000, o supercomputador da nave Discovery One, que fala e mimetiza a mente humana. Apesar de ser o vilão do filme, a máquina tem um fim melancólico, que chega a emocionar: humanizado, expressa a percepção da própria morte iminente.

Desde o lançamento, 2001 ganhou a pecha de incompreensível. Antes até. Na pré-estreia, 240 pessoas saíram no meio da sessão, reclamando disso. Em entrevista para a Playboy na época, Kubrick se recusou a explicar o sentido da coisa. E o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke – roteirista e autor do conto em que o filme foi baseado – disse o seguinte: “Se alguém entender de primeira, é sinal de que falhamos”.

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Mas o enredo em si, dividido em partes distintas, não é tão hermético: na Pré-História, um monólito misterioso provoca um salto de evolução entre os primatas, que de coletores passam a caçadores armados. Milênios depois, uma expedição é formada para investigar o monólito, mas agora na Lua – uma missão que vem a ser sabotada pelo computador HAL, que mata quase todos os astronautas. O único sobrevivente entra em contato com mais um monólito, dessa vez na órbita de Júpiter, atravessa um portal do espaço-tempo e vive ele próprio um salto evolutivo.

Mesmo com tantos mistérios, ou por causa deles, o filme revolucionou o gênero de obras futuristas, e virou um marco do cinema tão forte quanto seu monólito. A tal ponto que despertou uma curiosa teoria da conspiração, de que o diretor teria cedido cenas não usadas para forjar as imagens dos astronautas da Apollo 11 em solo lunar, em 1969. Mentira, claro: as cenas da missão nem de longe foram tão bem filmadas assim…

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A Aventura

Por que está aqui: Retrata o niilismo da época – sumindo com a protagonista.

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L’avventura | Direção e roteiro: Michelangelo Antonioni


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“Onde está a Anna?”, pergunta Claudia (Monica Vitti). Nesse instante, passaram-se apenas 26 minutos de filme. Há mais duas horas de história pela frente, e Anna (Lea Massari) até aí se destacava como a protagonista. Ela faz parte de um grupo de ricaços que passeia de barco pela costa da Sicília. Quando resolvem explorar uma ilha vulcânica, Anna desaparece. Mesmo. A personagem some do filme e não volta mais. Teria cometido suicídio, sofrido um acidente? Ninguém do grupo consegue descobrir – nem o espectador.

Mais interessante que o sumiço é o que acontece a partir dele. O enredo subverte a estrutura clássica do que seria um filme de mistério. Normalmente, a sequência à incógnita guiaria a atenção do público à investigação do que aconteceu. Michelangelo Antonioni vai no sentido oposto: o foco rapidamente migra do desaparecimento para outras preocupações dos personagens. (O namorado de Anna inicia um romance envergonhado com a melhor amiga dela.) E o filme não oferece uma explicação conclusiva – como às vezes acontece no mundo real. “A diferença entre os roteiros de cinema e a vida é que os scripts fazem sentido”, já disse Woody Allen. Então o cinema de Antonioni está mais próximo da vida – embora seja profundamente artístico.

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A Aventura é a primeira obra de uma Trilogia da Incomunicabilidade, do diretor. Assim como em A Noite (1961) e O Eclipse (1962), seus personagens – principalmente casais – não conseguem se entender nem formar vínculos. Estão sozinhos, alienados na sociedade cheia de angústias do pós-guerra.

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Oldboy

Por que está aqui: Mostra que nem todo autoconhecimento tem final feliz.

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Oldeuboi | Direção: Chan-wook Park | Roteiro: Joon-hyung Lim, Jo-yun Hwang e Chan-wook Park


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Uma década e meia antes que Parasita atraísse os olhos do mundo para o cinema sul-coreano, este filme já ganhava o Prêmio do Júri de Cannes com uma trama que, à primeira vista, parece remeter às produções orientais de violência. Mas Oldboy passa longe dessa superficialidade. Este thriller, baseado em um mangá, transcorre durante boa parte do tempo sem que o espectador entenda o que está se passando – porque a pancadaria é só coadjuvante de uma jornada sem bússola rumo ao (doloroso) autoconhecimento.

Dae-su (Min-sik Choi) é sequestrado, aparentemente sem motivo e não se sabe por quem. Preso num quarto sem janelas, é mantido incomunicável… por 15 anos. Até que chega o dia em que é solto sem qualquer explicação. Mas ele vai querer respostas. Cego de vingança, Dae-su esmurra meia Coreia atrás da solução dessa charada. Só que a ignorância também pode ser uma dádiva. Sua busca vai revelar uma equação envolvendo as consequências de uma inconfidência, tabus sexuais e suicídio.

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Cidade dos Sonhos

Por que está aqui: Exibe a desconexão narrativa do nosso inconsciente.

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Mulholland Drive | Direção e roteiro: David Lynch


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Um dos pontos mais altos da carreira de um diretor de obras enigmáticas, esta produção foi escolhida pela prestigiada revista francesa Cahiers du Cinéma como filme da década (os anos 2000). Mas quem não está acostumado ao universo idiossincrático de David Lynch deve se preparar. Não é incomum sentir-se de volta ao processo de alfabetização – foi assim com todo mundo que assistiu ao retorno da série Twin Peaks, na Netflix.

O que mela um pouco os segredos desta obra é a tradução que deram ao título em português. Sim, é de sonhos que estamos tratando – embora isso não fique claro de início, mesmo com as sequências não lineares e as transformações das protagonistas.

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A estrutura é composta para embaralhar as cartas. O filme se divide em duas partes – sendo a segunda uma variação mais realista da primeira história, mas com as personagens assumindo novos papéis. E essa história é a seguinte: uma mulher (Laura Harring) sofre de amnésia após um acidente de carro, quando estava sendo ameaçada por gângsteres. Ela encontra refúgio na casa de uma aspirante a atriz em Hollywood (Naomi Watts), que se empenha em ajudar a nova amiga a recuperar sua identidade. Esse enredo simples, porém, evolui para uma exploração surreal – e sensual – das janelas abertas do inconsciente. “O cinema de Lynch convida o público a novas experiências sensoriais, nas quais a lógica narrativa se desintegra”, explica a Cahiers du Cinéma.

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