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Ciência

O sal rosa não é do Himalaia, e o chocolate belga não é o melhor do mundo

E outras dez perguntas sobre a geografia da comida: carne argentina é melhor que a nacional? A cerveja alemã é a melhor do mundo?

Texto: Marcos Nogueira | Edição de arte: Estúdio Nono | Design: Andy Faria | Ilustrações: Cristina Kashima | Imagens: Getty Images e Unsplash

A origem dos alimentos é um tema que ganha cada vez mais importância à medida que a tecnologia avança e borra fronteiras que antes pareciam nítidas. Também preocupa o impacto ambiental da produção de comida: alimentar 8 bilhões de pessoas sem destruir o planeta não é um luxo, é uma necessidade.

1)  Sal rosa vem das montanhas do Himalaia

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MITO – Um saco com 1 quilo de sal comum sai, nos supermercados, por cerca de R$ 2. O preço do sal rosa do Himalaia varia imensamente de acordo com o fornecedor e a apresentação: um moedor com 115 gramas de pedrinhas rosadas custa R$ 20. Cerca de R$ 174 por quilograma. Será que um produto rotulado como “sal paquistanês impuro” venderia alguma coisa se algum comerciante abilolado decidisse cobrar por ele 87 vezes o valor do sal refinado? Duvido muito.

Pois é esse o tamanho do 171 do tal sal do Himalaia. Para começo de conversa, ele não vem do Himalaia. As grandes jazidas salinas do Paquistão ficam em Kehwra, no Punjab, a aproximadamente 300 quilômetros da cadeia montanhosa. É como vender um queijo da Serra da Canastra fabricado no centro de Belo Horizonte. A coloração rosada do sal resulta de impurezas minerais, principalmente ferro. Não é nada que faça diferença na nutrição humana. De resto, o sal rosa é exatamente o que todo sal é: cloreto de sódio.

2)  A cerveja alemã é a melhor do mundo

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MITO – Cerveja é igual comida: cada lugar desenvolveu receitas com estilos próprios, e não dá para afirmar qual é o melhor. Com a tecnologia atual, é possível tratar a água e reproduzir em qualquer lugar do mundo qualquer receita de cerveja. No World Beer Awards (espécie de Copa do Mundo cervejeira), uma marca japonesa foi eleita a melhor dortmunder (estilo típico de Dortmund, Alemanha).

3) O peixe em São Paulo pode ser mais fresco do que no litoral

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VERDADE – A não ser que você compre diretamente do pescador, o peixe que você leva na sacola provavelmente foi capturado muito, muito longe. A indústria pesqueira é uma cadeia complexa: frotas inteiras de barco saem para alto-mar atrás de correntes marítimas que carregam cardumes. A pesca é congelada a bordo e, dias depois, entregue aos centros de distribuição. No caso de São Paulo, a distribuição é feita pelo Ceagesp, na capital. Sai de lá uma grande parcela do pescado que abastece as peixarias do Estado, inclusive as do litoral. Ou seja: o consumidor da Vila Leopoldina pode comprar peixe mais fresco do que o vendido em Ubatuba.

4)  Terroir é uma bobagem inventada pelos chatos do vinho

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MITO – Terroir importa, sim. A variedade da uva é um critério importante na escolha de um vinho, mas não o único. A mesma uva pode resultar em bebidas muito diferentes, dependendo de onde ela é plantada. Isso é o que os franceses batizaram de terroir. Interferem na qualidade da uva, entre outros fatores: a composição do solo (argiloso, granítico, xistoso), a insolação, o índice pluviométrico, a temperatura média e a amplitude térmica (variação de temperatura), a topografia, a altitude e a influência marítima (ou a ausência dela). Assim, um chardonnay californiano pode ter quase nada a ver com um vinho, feito com a mesma uva, da região francesa da Borgonha.

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5)  Chocolate belga é o melhor do mundo

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MITO – Até as confeitarias mais humildes gostam de usar a expressão “chocolate belga” para inflar o preço de musses e brigadeiros. Ocorre que o chocolate belga nem sempre é bom. A Bélgica sequer produz cacau, que só nasce em climas tropicais. O que os belgas fazem é comprar bom cacau e caprichar na parte industrial – mas o resto do mundo, incluindo o Brasil, já percebeu que a excelência é boa para os lucros.

6)  A indústria italiana enlata tomates chineses

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VERDADE – Tomates em lata quase sempre vêm da Itália, certo? Mais ou menos: as latas com tomate são importadas da Itália, mas os tomates podem vir de qualquer outro lugar. Isso ocorre por causa da legislação de rotulação de alimentos. O rótulo só traz o país onde o produto foi processado. Assim, mares de tomates chegavam ao sul da Itália vindos da China. Lá, eles são minimamente processados e eram, até pouco tempo atrás, enlatados com o rótulo “made in Italy”.

Agora, imagina se uma nonna italiana vai querer usar tomate chinês… Nada contra a China, mas a área ao redor do Vesúvio é famosa pelos pomodori. Para atender ao exigente mercado doméstico, a lei foi alterada e agora obriga a inclusão da procedência dos tomates. O problema é que isso só vale para dentro da União Europeia. Aqui, a maior parte das latas é rotulada pelo importador. Chegou da Itália, é italiano. Não dá para saber de onde vem o tomate. Mas as marcas rotuladas na Itália trazem o selo “tomate 100%” italiano, porque são destinadas ao mercado interno. Compre essas e seja feliz.

7)  A água fria é melhor para a pesca

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VERDADE – As regiões banhadas por correntes marítimas frias são famosas pela qualidade e pela abundância dos peixes e frutos do mar: Japão, Peru, Chile, nordeste dos Estados Unidos, norte da Espanha. Isso não ocorre por acaso. As correntes oceânicas de água fria são propícias para a proliferação do plâncton – e por isso atraem os cardumes de peixes. A água quente tem o efeito oposto. No Brasil, a corrente das Malvinas (fria) se aproxima do continente em Santa Catarina e depois no litoral norte fluminense – a partir de Cabo Frio, que não foi batizada assim à toa –, seguindo junto à costa até o Espírito Santo. Essas são as melhores áreas para a pesca no País.

8) O arroto das vacas é uma ameaça ambiental

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VERDADE – Um rebanho de 1,5 bilhão de vacas despeja metano na atmosfera ininterruptamente. Como o metano retém 28 vezes mais calor do que o gás carbônico, esse gado todo é um fator considerado nas pesquisas sobre mudança climática. Entretanto, não é o pum o maior culpado pela emissão de gás: o grosso do metano sai no arroto bovino.

9) Salmão de criação é uma praga ambiental

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. mphillips007/Getty Images

VERDADE – As fazendas de salmão juntam uma multidão de peixes em espaços pequenos. O confinamento e a superpopulação causam doenças, e por isso os criadores aplicam antibióticos e outros medicamentos que poluem o mar. Mesmo assim, os bichos podem ficar doentes e contaminar a fauna marinha local, já que o isolamento é feito por uma tela.

10)  Carne argentina é melhor do que a nacional

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MITO – No século passado, os brasileiros viajavam para Buenos Aires e voltavam maravilhados com a qualidade da carne argentina. Não havia nada parecido no Brasil. Mas essa situação mudou drasticamente. Antes da Guerra das Malvinas (1982), a pecuária brasileira era um desleixo só: bois criados soltos no pasto, largados pelos criadores. A carne era dura. O conflito com a Inglaterra pôs a Argentina no cantinho de castigo do comércio global e empurrou o Brasil para substituí-la nas exportações de carne. O setor precisou se profissionalizar. Cuidar da genética e do manejo dos rebanhos. Hoje o Brasil é o maior exportador mundial e, para atender aos padrões exigidos pela clientela, produz carne tão boa quanto a argentina.

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