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Ciência

8 mulheres cientistas que você precisa conhecer

Além da Marie Curie, é claro.

por Bruno Vaiano e Juliana Krauss Atualizado em 26 Maio 2020, 17h13 - Publicado em 8 mar 2019 17h40

Imagine um planeta de águas e clima amenos, impensavelmente distante da Terra, em que também se deu o fenômeno da vida (pois essa é uma possibilidade estatística). Imagine então que essa vida, ao longo do tempo geológico, evoluiu por seleção natural; e uma das espécies existentes hoje possui um órgão com função de computador, de capacidade similar à do cérebro humano. Essa espécie deu origem à uma civilização, que acumulou conhecimento sobre o Universo por meio do método científico.

Agora imagine que alguns de nós, Homo sapiens da Terra, conseguem alcançar esse planeta em uma espaçonave hipotética sofisticada – e agora estão observando, com um binóculo, a rotina dos cientistas dessa civilização alienígena. E aí esses Homo sapiens descobrem algo incompreensível: 50% da população alienígena foi proibida de fazer ciência. Por nenhum motivo: os tais ETs optaram por diminuir o próprio avanço científico pela metade só por que não aceitam que 50% da população trabalhe em um laboratório.

Estranho. É algo de uma burrice monumental. Os Homo sapiens exploradores buscam uma explicação. Em uma inspeção mais detalhada, percebe-se uma coisa: os alienígenas que são impedidos de fazer ciência são os alienígenas que, no ritual reprodutivo, fornecem o gameta maior – o que se chamaria, entre terráqueos leigos, de óvulo. Só são autorizados a trabalhar com pesquisa os alienígenas que produzem espermatozoides. Faz algum sentido? Bem, nenhum. Não há relação entre o tamanho do gameta produzido por alguém e sua capacidade de pensar.

Esse planeta, óbvio, é a própria Terra na virada para o século 20 – esqueça aquela história de “impensavelmente distante” do começo do texto. As mulheres não têm espaço na ciência desde que existe algo chamado ciência. Em 1891, Marie Curie – o único ser humano a ganhar dois prêmios Nobel de ciências naturais em áreas diferentes (Física e Química) – foi estudar em Paris pois nenhuma faculdade da Polônia, seu país natal, aceitava mulheres. Em Paris, tornou-se a primeira mulher com um título de doutora na França. A situação melhorou um pouquinho de lá até aqui, mas não muito: as mulheres ainda são 49% da população e só 28% das cientistas. Têm mais dificuldades em conseguir bolsas e cargos, e sofrem com assédio e o preconceito no ambiente de trabalho.

No começo de janeiro, a Juliana Krauss – a designer que, entre outras coisas, é responsável por deixar o Instagram da SUPER um brinco –, disse que a gente precisava fazer nossa parte para virar o jogo. Lembrar as mulheres de que a única coisa que as impede de fazer ciência é… bem, coisa nenhuma. Assim, nós começamos a fazer posts semanais no Instagram para explicar, em 2 mil caracteres, o que uma mulher importante fez. Sem nenhuma menção – e isto é crucial – aos filhos dela, ou ao casamento dela, ou às roupas que ela usava: só a obra, como se faz com os homens. Agora juntamos esses posts aqui, mas eles vão continuar aparecendo por lá, com a #MulherCientista. Fique de olho.

A seguir, vão oito mulheres que, com o perdão do clichê, mudaram o mundo.

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Rosalind Franklin

...e a estrutura dupla-hélice do DNA (1920 – 1958).

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Montagem/Wikimedia Commons

Quando Rosalind Franklin era criança, seu irmão a viu perguntar à mãe: “Bem, como você sabe que Deus é Ele, e não Ela?” A provocação foi longe: em 1938, Franklin se matriculou no Newnham College de Cambridge, da Inglaterra – uma das únicas instituições de ensino superior femininas da época. Graduou-se em físico-química, e se tornou especialista em uma técnica chamada cristalografia de raios x. ⠀

Para entendê-la, é preciso revisar rapidamente o que é um cristal e o que são raios x. Um cristal é um sólido cuja estrutura, no nível microscópico, é repetitiva e gera padrões – como os hexágonos de uma colmeia de abelha. Já raios x são essencialmente um tipo de luz que o ser humano não é capaz de enxergar. Eles atingem energias bem mais altas que a radiação eletromagnética no espectro visível (a que os nossos olhos captam).  ⠀

Quando os raios x atingem uma amostra de cristal, penetram a amostra e se dispersam em diversas direções, seguindo um padrão caleidoscópico único. Assim, a cristalografia de raios-x dá dicas importantes sobre a estrutura das moléculas que compõem o cristal.⠀

Na década de 1950, trabalhando no laboratório de Maurice Wilkins, Franklin e um de seus estudantes cristalizaram um punhadinho de ácido desoxirribonucleico (DNA) – uma molécula que na época, graças ao trabalho de Oswald Avery, já se sabia ser a portadora da informação hereditária –, aplicaram a técnica e conseguiram a imagem que você vê abaixo. A “Foto 51” foi o primeiro vislumbre da estrutura dupla-hélice, a escada torcida que hoje é parte integrante do imaginário popular (e da lista de emojis).

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Montagem/Wikimedia Commons


A história daqui em diante é polêmica, mas o resumo é: a imagem foi mostrada por Wilkins a dois outros cientistas, James Watson e Francis Crick. Eles mataram a charada na hora, e propuseram o pareamento das bases nitrogenadas A, T, C e G que, hoje sabemos, é usado para escrever o manual de todos os seres vivos da Terra. Franklin morreu de câncer nos ovários em 1958, aos 37 anos, antes de receber o prêmio Nobel pela descoberta.

Barbara McClintock

...e os genes saltadores (1902 – 1992).

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Montagem/Wikimedia Commons

A geneticista Barbara McClintock dedicou a vida a estudar os cromossomos do milho. Achou um tédio? Achou errado.Espigas são inestimáveis para pesquisas sobre hereditariedade, porque cada grão de milho espetado em sua superfície é, na prática, um embrião fecundado. Assim, aquele potinho de isopor com manteiga e sal que você compra em terminais de ônibus contém dezenas de bebês-planta resultantes de um mesmo cruzamento, cada um com uma combinação única de genes.

Certas espigas produzem grãos de cores diferentes – alguns roxos, outros marrons, outros pontilhados. Essas cores são produto da interação entre os genes envolvidos na pigmentação em cada grão. Em resumo, a espiga é um paraíso para brincar de Mendel – com um detalhe: o sistema de determinação de cor das espigas funciona com três alelos, em vez da dupla dominante e recessivo (Aa) mais simples que estudamos no ensino médio usando a cor das ervilhas de exemplo.

Analisando espigas, McClintock descobriu que existem pedacinhos de DNA particularmente pentelhos chamados genes saltadores: eles não têm posição fixa no cromossomo, e conforme pulam para lá e para cá, inibem ou incentivam a produção de pigmentos por outros genes, determinando a cor dos grãos. Essa pesquisas tiveram incontáveis desdobramentos – entre eles, a descoberta do brasileiro Alysson Muotri de que os genes saltadores são parte do que torna o cérebro humano único (leia aqui).

A descoberta dos genes saltadores (chamados tecnicamente de elementos transpositores ou transposons) é seu maior legado, mas McClintock chutou uma porção de outros baldes ao longo da carreira. Em 1983, ela se tornou a primeira mulher a ganhar, sozinha, o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia.

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Lynn Margulis

...e as mitocôndrias (1938 – 2011).

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Montagem/Wikimedia Commons

Muito antes de surgir o primeiro animal, toda a vida na Terra era microscópica e unicelular. Consistia em bactérias, essencialmente. Bactérias na água, na superfície e no subsolo, experimentando uma miríade de truques bioquímicos.

Foi lá que uma bacteriazinha teve uma sacada digna de Elon Musk: usar os fótons que chegavam do Sol, combinados com o gás carbônico abundante disponível na atmosfera, para produzir açúcar (isto é, comida). O nome desse processo é fotossíntese, e ele foi ridiculamente bem-sucedido. Afinal, permitia à dita cuja viver de luz, como um bom hippie.

Só tinha um problema: a tal da fotossíntese liberava pelo escapamento um gás raro na Terra daquela época – e muito tóxico. O nome dele é oxigênio. Vários micróbios não conseguiram lidar com a novidade e morreram, em um dos grandes eventos de extinção da história da Terra. Outros, porém, deram um jeito de se aproveitar do oxigênio para gerar a própria energia, usando um processo chamado respiração.

O melhor, porém, estava por vir. Um belo dia, uma bactéria com fome, que não sabia respirar oxigênio, engoliu uma outra bactéria, menor, do tipo que sabia respirar oxigênio. Ela teve uma indigestão e, por qualquer motivo, não conseguiu digeri-la. Milagrosamente, a bactéria engolida não só continuou respirando como começou a se multiplicar lá dentro. Se tornou uma usina de processamento de oxigênio instalada no “estômago” da bactéria maior, que fornecia muita energia. Era uma revolução tecnológica.

Essa dupla inusitada de bactérias conseguiu fazer coisas que nenhuma bactéria sozinha conseguiria. Por exemplo, dar origem a seres multicelulares como você, caro humano leitor. Hoje essas bactérias engolidas continuam dentro das nossas células, respirando para nós. Elas se chamam “mitocôndrias”. As bactérias que faziam fotossíntese também foram engolidas eventualmente, e de maneira análoga se tornaram os cloroplastos das células vegetais. 

A teoria de que as mitocôndrias são ex-bactérias engolidas se tornou consenso científico graças ao trabalho da bióloga Lynn Margulis. Não sem esforço: o artigo de 1967 em que ela apresentou a ideia foi rejeitado por 15 periódicos científicos (ela chegou a receber, por escrito: “seu trabalho é um lixo, não tente de novo”). Os 15 periódicos estão arrependidos até hoje.

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Ada Lovelace

...e o primeiro programa de computador (1815 – 1852).

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Montagem/Wikimedia Commons

Ada Lovelace foi a única filha legítima de Lord Byron – um dos poetas mais famosos do romantismo inglês, autor de “Don Juan”. Ele se separou da mãe, Anne Isabella Byron, um mês após o nascimento da criança, em 1815.

Anne deu a Ada uma educação científica muito incomum para mulheres na época. O objetivo da mãe era garantir que a filha focasse nas exatas e não seguisse a carreira poética de Byron – que era ligeiramente biruta e completamente promíscuo.

Aos 17 anos, Ada Lovelace começou a trocar cartas com o polímata Charles Babbage – criador de uma calculadora mecânica imensa e repleta de engrenagens batizada de “máquina diferencial”. Eles batiam muitos (muitos) papos cabeça. Uma réplica contemporânea da máquina diferencial de Babbage, diga-se de passagem, foi visitada recentemente por Elizabeth II, rainha da Inglaterra, que estreou no Instagram com um post sobre o assunto. 

Entre uma carta e outra, Babbage revelou a Lovelace o projeto de uma engenhoca ainda mais avançada: a “máquina analítica”, o primeiro computador de uso geral da história.

Lovelace viu muito potencial na máquina analítica. Em 1834, prestou um favor a Babbage traduzindo do francês um memorando sobre a engenhoca (Babbage não conseguiu financiamento do governo britânico para construi-la na prática, então buscou apoio em outros países europeus). Ao final da tradução, Lovelace inseriu uma seção complementar intitulada simplesmente “notas” – em que demonstrava um algoritmo que a máquina seria capaz de resolver. Era o primeiro programa de computador da história – e ela é tida como a primeira programadora.

Lovelace morreu de câncer no útero aos 37 anos, e foi enterrada ao lado do pai que nunca conheceu. Seu retrato mais famoso é este, com penteado de Princesa Leia.

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Jane Goodall

...e o comportamento dos chimpanzés (1934).

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Montagem/Wikimedia Commons

Jane Goodall tinha só um curso de datilografia no currículo quando viajou para a fazenda de um amigo no Quênia, em 1957. Ela estava atrás de Louis Leakey, um famoso estudioso das origens do ser humano. Queria, na cara dura, um emprego: seu sonho era estudar chimpanzés. 

Começou como secretária, mexeu os pauzinhos e logo subiu: em 1960, começou a fazer pesquisa no parque nacional de Gombe Stream, na Tanzânia. Ela observava um chimpanzé de cavanhaque branco batizado de David Greybeard há duas semanas quando ele pegou um talo de capim, o inseriu no túnel de um cupinzeiro e comeu os cupins que aderiram a ele.

Em outra ocasião, Greybeard limpou as folhas de um galho para usá-lo da mesma forma. Foi o primeiro registro da fabricação e uso de ferramentas por uma espécie não humana. Leakey, ao receber a notícia, enviou um telegrama, em choque: “Temos que redefinir ferramenta. Redefinir homem. Ou aceitar que chimpanzés são humanos.”

Greybeard era o trunfo de Goodall: antes, ele já havia sido flagrado comendo a carcaça de um pequeno animal, desmentindo a crença de que chimpanzés fossem herbívoros. Foram duas descobertas fora de série, que garantiram uma bolsa de pesquisa da National Geographic Society (sim, a mesma sociedade científica que dá nome à revista).

Posteriormente, Goodall registraria outros atos de violência: chimpanzés cercavam, matavam e comiam primatas menores com frequência. Mesmo sem graduação, Goodal foi autorizada a fazer um doutorado em etologia (comportamento animal) em Cambridge.

Goodall virou lenda e foi objetificada por dezenas de reportagens fotográficas e documentários ao longo de sua carreira, como uma espécie de Jane sem Tarzan. Hoje, é uma importante ativista da causa animal: tem um instituto de preservação ambiental com seu nome e participa do projeto Nonhuman Rights (“direitos não humanos”).

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Alice Ball

...e o tratamento da lepra (1892 – 1916)

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Montagem/Wikimedia Commons

A bactéria Mycobacterium leprae faz estrago há muito tempo: há registros do século 6 a.C. da doença causada por ela, a hanseníase, popularmente conhecida como lepra.

Durante séculos, as narrativas religiosas deram à doença um forte estigma social: as marcas na pele eram associadas a “desvios da alma” e, muitas vezes, eram sacerdotes (e não médicos) que davam o diagnóstico.

Só em 1873, com a identificação da bactéria causadora do problema pelo norueguês Armauer Hansen, a hanseníase se livrou das crenças de que era algo hereditário e fruto do pecado. Mas a exclusão social dos doentes continuou.

No começo do século 20, o melhor tratamento disponível era o óleo de chaulmoogra, extraído das sementes de uma árvore de origem indo-malaia. Apesar de amenizar as feridas, ele não se mostrava eficaz no uso tópico e era muito espesso para ser dado por injeção. Além disso, causava fortes efeitos colaterais. Mas a química americana Alice Ball encontrou uma saída.

Em 1915, então com 23 anos, ela desenvolveu uma técnica que tornou o óleo injetável e de fácil absorção pelo organismo. Alice, infelizmente, morreu no ano seguinte à sua descoberta e nunca conseguiu publicá-la.

Arthur L. Dean, presidente da Universidade do Havaí, onde Ball estudava, patenteou e apresentou o óleo ao mundo – sem dar o devido crédito à cientista. A substância foi amplamente utilizada em pacientes da hanseníase por 20 anos. Em 1940, com o advento dos antibióticos, o óleo foi aposentado.

100 anos após sua descoberta, Alice finalmente foi reconhecida. Em 2000, a Universidade do Havaí instalou uma placa em homenagem à americana (que foi a primeira mulher e a primeira afro-americana a fazer um mestrado em Química na instituição), além de estabelecer o dia 29 de fevereiro como Dia de Alice Ball.

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Vera Rubin

...e a matéria escura (1928 – 2016).

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Montagem/Wikimedia Commons

Quando um carro de polícia passa com a sirene ligada, em alta velocidade, o som se distorce para uma frequência mais grave conforme ele se afasta. O nome disso é efeito Doppler: as ondas sonoras estão se “esticando” para alcançar o ouvinte enquanto o emissor delas vai embora.

A luz também é uma onda, e, portanto, sofre efeito Doppler. Quando um astrônomo está observando uma galáxia espiral aqui da Terra, a luz dela é distorcida conforme as estrelas dela estão no ponto da volta em que se aproximam ou se afastam de nós.

Na década de 1950, Vera Rubin analisou o efeito Doppler sofrido pela luz de diversas estrelas em outras galáxias. Ela queria calcular a velocidade com que essas estrelas estavam girando em torno do centro da galáxia (da mesma forma que você sabe se o carro de polícia está indo rápido ou devagar sem precisar vê-lo). Assim ela descobriu que as estrelas que faziam a curva por fora estavam girando na mesma velocidade das estrelas que faziam a curva por dentro, mais perto do centro. 

De fato, elas giravam tão rápido que deveriam, de acordo com os cálculos, serem arremessadas para longe. Exatamente como um carro que entra numa curva rápido demais e passa reto. Com um porém: elas não passavam reto; se mantinham fiéis às suas órbitas.

A única maneira de explicar essa estabilidade é que existisse uma enorme massa invisível em torno da galáxia, cuja influência gravitacional segurasse as apressadinhas no lugar. A observação de Rubin daria origem, posteriormente, à hipótese da matéria escura: algo invisível e impalpável que corresponde a 84,5% da matéria total do cosmos (não incluímos energia na conta). O que é a matéria escura? Bem… ninguém sabe.

Nas palavras da própria Vera Rubin: “Numa galáxia espiral, há dez vezes mais matéria escura do que matéria comum. Esse provavelmente é um bom número para a razão entre a nossa ignorância e o nosso conhecimento. Nós já saímos do jardim de infância, mas estamos só na terceira série.” 

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Mary Gasseling

...e a embriologia.

Quando você estiver se sentindo triste, desprovido de realizações, lembre-se que o mais difícil já está feito: ao longo de novo meses de gestação, seu corpo construiu a si próprio no interior do útero a partir da multiplicação uma única célula, o óvulo. Isso foi possível porque no núcleo desse óvulo havia um manual de instruções chamado genoma, armazenado em volumes enciclopédicos chamados cromossomos, que contém frases chamadas genes.

Um bebê é como uma casa que tomasse a iniciativa de empilhar os próprios tijolos sozinha – com o detalhe de cada tijolo sabe exatamente qual posição deve ocupar para que o todo dê certo. Entender como esses tijolos – as suas 37,2 trilhões de células – sabem ocupar suas posições para dar origem aos órgãos e tecidos de um adulto é a preocupação de uma área chamada embriologia.

Nas décadas de 1950 e 1960, John Saunders, uma lenda da embriologia, investigou como ocorre a formação dos nossos braços e mãos. Quais genes determinam o número de dedos? Quais genes determinam que o dedão será maior que o dedinho? Por meio de qual mecanismo bioquímico eles fazem isso? O que acontece se interferirmos na atividade desses genes?

Por questões éticas óbvias, ele não podia manipular embriões humanos, então fez os testes em embriões de outra espécie, que não só são abundantes como vêm convenientemente embalados em uma casquinha protetora: pintinhos.

Em humanos, os passos essenciais da formação dos braços e mãos (que nos pintinhos equivalem a asas) ocorrem entre a terceira e a oitava semana de gestação. Eles começam como pequenas saliências nas laterais do embrião, com a forma aproximada de nadadeiras.

Mary Gasseling trabalhava no laboratório de Saunders e tinha uma coordenação motora descomunal. Embora esses proto-membros tenham menos de um milimetro de espessura, ela foi capaz de cortar um pedacinho da saliência de um pintinho, localizado próximo à base, e o enxertou do outro lado. Bingo: o embrião cresceu com uma asa duplicada (em seres humanos, o equivalente seria uma quantidade maior de dedos, com dedinhos nas duas extremidades da mão).

Assim, descobriu-se que esse pedacinho, chamado ZPA, secretava uma proteína cuja concentração define o que cada região da saliência se torna: onda há mais, surge o dedinho, onde há menos, surge o dedão. Essa foi uma das descobertas mais importantes da história da biologia. Só 20 anos depois surgiu a tecnologia necessária para desvendar os genes por trás do fenômeno.

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