Clique e Assine por apenas 8,90/mês
Ciência

A ciência do destino

A vida não é uma folha em branco; é um jogo de cartas. Entenda como a sociedade, a estatística e a genética determinam grande parte do que vai acontecer com uma pessoa – antes mesmo de ela nascer.

Texto Bruno Garattoni e Eduardo Szklarz | Foto Tomás Arthuzzi | Design Juliana Krauss

“Tudo está determinado, o começo e o fim, por forças sobre as quais não temos controle. É determinado para um inseto, e para uma estrela. Seres humanos, verduras ou poeira cósmica… todos nós dançamos uma música misteriosa, tocada à distância por um músico invisível.” Quem disse isso foi Albert Einstein, numa entrevista publicada em 26 de outubro de 1929 pelo semanal americano The Saturday Evening Post. O repórter não teve presença de espírito, nem tempo, de perguntar quem ou o que seria esse tal músico – logo após a frase, Einstein se levanta e vai para o quarto dormir, encerrando a conversa. Mas as “forças sobre as quais não temos controle” podem ser encontradas na própria ciência: a sequência de fenômenos desde o início dos tempos.

O Universo surgiu do Big Bang, uma explosão ocorrida há 13,7 bilhões de anos. Pelas regras da física newtoniana, as trajetórias de todas as partículas, e eventuais interações entre elas, foram determinadas por esse fenômeno inicial: como se o Universo fosse uma mesa de bilhar, em que a tacada inicial define o movimento de todas as bolas. E isso vale para absolutamente tudo o que existe – inclusive os átomos que formam os neurônios do seu cérebro, com os quais você resolveu ler este texto. Ou seja: o futuro, de certa forma, já foi decidido. Essa é a lógica do determinismo universal, conceito proposto em 1814 pelo físico Pierre-Simon Laplace (um cientista importante, que ficou conhecido como o “Newton francês”).

Continua após a publicidade

Você deve estar pensando: ok, bela tese, mas a vida real não é bem assim. De fato, não é. O determinismo de Laplace não leva em conta, por exemplo, a física quântica (pela qual uma partícula pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, como uma bola de bilhar caindo em duas caçapas). E também conflita com a observação mais trivial da realidade. O futuro não está escrito porque você pode decidir, agora mesmo, o que irá fazer. Pode continuar lendo este texto, pode parar e ir fazer outra coisa, pode erguer a mão direita e coçar o nariz, pode fazer inúmeras escolhas dentro de uma lista quase infinita de possibilidades. Mas será que, quando resolve fazer alguma coisa, foi você mesmo que tomou aquela decisão? Nem sempre é isso o que acontece. Muitas vezes, o seu cérebro decide por conta própria – vários segundos antes de você.

-
Design: Juliana Krauss / Foto: Tomás Arthuzzi/Superinteressante

A primeira pista disso veio em 1983, numa experiência feita pelo neurologista Benjamin Libet, da Universidade da Califórnia (1). Nesse teste, seis pessoas foram colocadas na frente de uma espécie de relógio, em que uma bolinha se movia. Elas receberam uma única instrução: deveriam apertar um botão, colocado na mesa à frente, quando quisessem, e depois contar ao pesquisador em que momento fizeram isso (informando qual era a posição da bolinha). Libet monitorou os impulsos elétricos nos músculos e no córtex motor das pessoas, e perguntou a cada uma delas qual era a posição da bolinha quando ela resolveu apertar o botão.

Cruzando as duas informações, ele fez uma descoberta intrigante: o córtex motor entrava em ação até 0,8 segundo antes que as pessoas decidissem, conscientemente, apertar o botão. Em 2008 o cientista John-Dylan Haynes, do Centro de Neuroimagem Avançada de Berlim, replicou o teste (2) com um joystick, que os voluntários deveriam mover. Chegou a um resultado ainda mais impressionante: os córtices frontopolar e medial das pessoas se acendiam até dez segundos antes que elas decidissem, conscientemente, mexer o joystick. Em 2013, Haynes pediu a voluntários que somassem dois números exibidos numa tela – e constatou que os cérebros delas começavam a executar essa tarefa quatro segundos antes que elas decidissem, conscientemente, fazer a conta (3).

Apertar um botão, mover uma alavanca ou somar dois números são tarefas banais. Até hoje, não há nenhum indício de que o cérebro tome “sozinho” decisões mais complexas, como escolher uma profissão, um cônjuge, ou mesmo o que você vai almoçar hoje. Seria muito difícil provar que isso acontece; se é que acontece. Mas isso não significa que essas escolhas sejam totalmente livres. A pressão evolutiva, a genética e o ambiente em que nossos pais viveram têm efeitos profundos, e às vezes surpreendentes, sobre nós. “À medida que vamos descobrindo como o cérebro funciona, e como os genes fornecem instruções para os circuitos neurais, vemos que nossos comportamentos – desde os mais simples até os mais complexos – parecem ter uma base biológica, hereditária”, afirma Hannah Critchlow, neurocientista da Universidade de Cambridge e autora do livro The Science of Fate (“A Ciência do Destino”, inédito no Brasil). Novos estudos têm revelado que a genética, e sobretudo a epigenética (ativação ou desativação de genes provocada por fatores ambientais), influem mais do que se acreditava sobre o comportamento de cada pessoa. Mas o destino começa a ser escrito bem antes disso. A sua saúde mental, por exemplo, é afetada por um fator que precede a genética: o mês em que a sua mãe engravidou de você.

Continua após a publicidade

(1) Time of conscious intention to act in relation to onset of cerebral activity (readiness-potential). The unconscious initiation of a freely voluntary act. B. Libet e outros, 1983. (2) Unconscious determinants of free decisions in the human brain. JD Haynes e outros, 2008. (3) Predicting free choices for abstract intentions. JD Haynes e outros, 2013.

Filhos do inverno

Dezenas de estudos, publicados por grupos de cientistas de vários países a partir dos anos 1970, constataram um fenômeno estranho: os bebês que nascem durante o inverno têm maior risco de desenvolver esquizofrenia, depressão, distúrbios alimentares e outros problemas mentais ao longo da vida. Ninguém sabia explicar a razão até que, no ano passado, um trabalho publicado por geneticistas da Universidade de Cardiff, no Reino Unido (4), encontrou um possível nexo.

Os cientistas acompanharam 316 gestantes e descobriram que as mulheres que deram à luz nos meses frios tinham 20% mais cortisol no organismo, logo antes do parto, do que aquelas cujo parto aconteceu na primavera ou no verão. “Nossos dados mostram que bebês nascidos no outono/inverno são expostos a níveis particularmente altos desse hormônio logo antes de nascer”, escrevem os cientistas. O cortisol é liberado quando o corpo está sob algum tipo de estresse – como, possivelmente, o frio. E ele, especulam os pesquisadores, poderia ter efeitos nocivos sobre o desenvolvimento do cérebro do feto. Será necessário fazer mais estudos para comprovar isso. Mas já é sabido que o que a mãe passa durante a gestação influencia o nível médio de ansiedade do filho. Se a mulher está deprimida, muito ansiosa ou estressada durante a gravidez, isso aumenta a chance de o filho ter problemas emocionais, falta de concentração e hiperatividade (5).

-
Design: Juliana Krauss / Foto: Tomás Arthuzzi/Superinteressante

A dieta da grávida afeta diretamente o bebê, pois os nutrientes passam pelo líquido amniótico e pelo leite materno. Mas até o que a mulher consome antes de engravidar pode levar a mudanças genéticas no  filho. Em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, o Exército alemão impediu a entrada de comida na Holanda. Toda a população começou a passar fome: em fevereiro de 1945, cada morador de Amsterdã tinha acesso a míseras 500 calorias por dia. O fenômeno ficou conhecido como Fome Holandesa e durou até o final da guerra. As mulheres que deram à luz nesse período tiveram filhos com propensão a engordar: nas décadas seguintes, os índices de obesidade e diabetes na Holanda começaram a subir.

Podia ser apenas um povo compensando o trauma de quase morrer de fome. Mas não era. Um estudo publicado em 2018 pela Universidade de Leiden, na Holanda, provou que os bebês da Fome Holandesa haviam sofrido alterações epigenéticas: os genes PIM3 e ABCG1, que estão relacionados ao metabolismo dos alimentos, tinham sido parcialmente desligados. Aquelas pessoas se tornaram capazes de sobreviver ingerindo menos calorias (6) – e era isso que, com a normalização no suprimento de alimentos após a guerra, estava causando uma onda generalizada de sobrepeso nos holandeses.

Continua após a publicidade

Talvez herdemos até os medos dos nossos ancestrais; e isso também aconteça por meio de alterações epigenéticas. É o que sugere um estudo (7) feito com camundongos por cientistas da Universidade de Emory, nos EUA. Ratos e humanos são muito diferentes, claro, mas têm sistemas de recompensa similares. Em ambos, o núcleo accubens (região do cérebro ligada ao prazer) se ativa quando o indivíduo sente cheiro de doces, por exemplo. Os cientistas manipularam esses circuitos. Fizeram ratos machos sentirem cheiro de cereja, enquanto lhes davam choques. Os animais aprenderam a associar o cheiro doce com a experiência negativa, e ficavam paralisados cada vez que o sentiam. Até aí, normal. A surpresa foi o que aconteceu com os descendentes.

Os filhotes e os netos daqueles camundongos ficavam paralisados ao sentir cheiro de cereja, embora nunca tivessem sido expostos a ele. Eles já nasciam predispostos àquela reação – que foi transmitida por meio de alterações epigenéticas no esperma dos ratos. “Os resultados indicam como as experiências de um pai, mesmo antes de ter filhos, influencia a estrutura e a função do sistema nervoso das gerações seguintes”, concluem os autores. Isso acontece, em humanos, com o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT). Foi o que revelou a psiquiatra israelense Zahava Solomon, que acompanhou 96 soldados que lutaram na Guerra do Líbano (1982). Ela descobriu que os soldados cujos pais eram sobreviventes do Holocausto tinham mais TEPT que os outros: 64% deles apresentavam o transtorno, contra 39% dos demais soldados (8). Os traumas de vida do seu pai, antes mesmo que ele conhecesse a sua mãe, podem influenciar os medos que você carrega.

Estudos feitos com crianças adotadas ilustram bem a influência da genética (e da epigenética) no gênio de alguém. Quando as crianças adotadas são pequenas, elas têm características em comum com os pais adotivos e com os pais biológicos. À medida que crescem, contudo, há uma reviravolta. “Elas continuam se parecendo com os pais biológicos, mas a semelhança com os pais adotivos quase desaparece. Isso inclui grau de inteligência, personalidade, longevidade e até opiniões”, diz Bryan Caplan, professor da Universidade George Mason, nos EUA, e autor de uma série de estudos sobre gêmeos. Ou seja: o DNA fala mais alto do que se imagina. Análises comparando gêmeos univitelinos (que compartilham 100% do DNA) e bivitelinos (que não são geneticamente idênticos) reforçaram essa conclusão. Os gêmeos idênticos têm personalidades muito mais parecidas entre si do que os gêmeos bivitelinos – mesmo quando criados em casas diferentes, por famílias diferentes.

O lugar onde você cresce também é determinante, pois o idioma que você fala molda a maneira como vê o mundo. Nos anos 1930, o linguista americano Benjamin Lee Whorf foi o primeiro a propor essa hipótese. Ela ficou no papel por décadas, mas em 2004 acabou confirmada por um estudo do psicólogo Peter Gordon, da Universidade Columbia (9). Gordon passou meses estudando a tribo isolada Pirarrã, da Amazônia, cujos membros não contam quantidades acima de 2. Seu sistema de contagem só possui três palavras: hói (um), hoí (dois) e aibaagi (muitos).

Continua após a publicidade

Gordon fez testes de contagem com os Pirarrã  usando objetos disponíveis no lugar. Por exemplo: ele colocava uma fila de castanhas diante de si, e os participantes tinham que formar uma fila com o mesmo número de objetos. Os Pirarrã se saíam bem com um, dois ou três itens, mas se atrapalhavam com quantidades maiores – e eram totalmente incapazes de enfileirar mais de dez objetos. “A cognição numérica foi claramente afetada pela ausência de um sistema de contagem no idioma”, concluiu Gordon. A tribo não entende certos conceitos por causa da língua que fala. Isso também vale para idiomas falados por milhões de pessoas. A equipe da cientista Lera Boroditsky, da Universidade Stanford, analisou línguas do mundo inteiro, do Chile à Indonésia, e encontrou variações similares. “Observamos que pessoas que falam línguas diferentes de fato pensam de forma diferente”, diz Lera.

O gênero gramatical das palavras, por exemplo, molda nossa visão dos objetos. Lena pediu que falantes de alemão e espanhol descrevessem uma ponte (substantivo masculino em espanhol e feminino em alemão). O grupo alemão usou mais adjetivos como “bonita”, “elegante”, “frágil”; já o espanhol preferiu “grande”, “perigoso” e “forte”. O mesmo aconteceu com a descrição de “Sol” (palavra feminina em alemão e masculina e espanhol) e “Lua” (masculina em alemão e feminina em espanhol). Não se sabe até que ponto, ou de qual maneira, o fator linguístico pode influenciar raciocínios mais complexos, como visões de mundo e decisões sobre a vida. Mas é possível, talvez até provável, que tenha múltiplos efeitos sobre isso.

-
Design: Juliana Krauss / Foto: Tomás Arthuzzi //Superinteressante

Já nascer rico ou pobre tem consequências óbvias, e profundas, sobre a vida de qualquer pessoa. O que pouca gente sabe é que viver na pobreza provoca alterações anatômicas no cérebro – que podem afetar a pessoa durante toda a vida. No principal estudo já feito sobre o tema, cientistas da Universidade Columbia mediram o tamanho do córtex cerebral de 1.099 crianças e adolescentes de várias classes sociais (10). Não encontraram relação entre o tamanho do córtex e a classe social: havia crianças pobres com córtex grosso e denso (o que sugere maior número de conexões neurais), e crianças ricas com córtex fino. Mas ao medir novamente os cérebros daquelas pessoas, alguns anos depois, os pesquisadores encontraram uma diferença crucial: entre as crianças e os adolescentes mais pobres, o córtex havia encolhido mais depressa. Isso acontece naturalmente, com todo mundo, ao longo da vida – mas, em quem passava dificuldades, o efeito era mais rápido e intenso. É como se o cérebro da criança fosse literalmente talhado por seu status socioeconômico.

Nossa personalidade é construída na infância e na adolescência, os períodos da vida em que fazemos mais amizades. Há uma relação entre as duas coisas. Você conhece alguém, e escolhe ser amigo daquela pessoa, porque ela gosta das mesmas coisas que você – e essa concordância reforça a sua própria personalidade, que ainda está em formação. Mas também há um fator neuronal envolvido. Tanto que é possível identificar amizades escaneando o cérebro das pessoas, como constatou um estudo da Universidade Dartmouth, nos EUA (11). A equipe registrou imagens dos cérebros de 42 estudantes enquanto eles viam vídeos diversos (comédia, drama, política). E descobriu que aqueles que eram amigos tinham a atividade neural mais parecida. Ela era tão semelhante, mas tão semelhante, que os cientistas conseguiam determinar se duas pessoas eram ou não amigas simplesmente comparando a atividade cerebral delas.  “Os nossos resultados sugerem que amigos processam o mundo de formas excepcionalmente parecidas”, disse Carolyn Parkinson, líder do estudo.

Continua após a publicidade

Com os relacionamentos amorosos, não é tão simples. Os opostos de fato se atraem, e nem sempre escolhemos alguém parecido conosco. Às vezes nem escolhemos; somos simplesmente arrastados por uma paixão incontrolável. Mas o amor é fortemente influenciado por um elemento nada romântico: o sistema imunológico.

(4) Seasonal variation in salivary cortisol but not symptoms of depression and trait anxiety in pregnant women undergoing an elective caesarean section. S. Garay e outros, 2019. (5) Maternal depression, anxiety and stress during pregnancy and child outcome; what needs to be done. V. Glover, 2014. (6) DNA methylation as a mediator of the association between prenatal adversity and risk factors for metabolic disease in adulthood. E. Tobi e outros, 2018. (7) Parental olfactory experience influences behavior and neural structure in subsequent generations. B. Dias e outros, 2013. (8) Combat-related posttraumatic stress disorder among second-generation Holocaust survivors: preliminary findings. Z. Solomon e outros, 1988. (9) Numerical Cognition Without Words: Evidence From Amazonia. P. Gordon, 2004. (10) Socioeconomic inequality and children’s brain development. K. Noble e outros, 2016. (11) Similar neural responses predict friendship. C. Parkinson e outros, 2018.

O complexo do amor

Dentro do seu cromossomo 6, existe um negócio chamado “complexo principal de histocompatibilidade” (MHC). Trata-se de um conjunto de 224 genes que funciona como um manual de instruções para o sistema imunológico: o corpo usa essa lista de informações para fabricar proteínas que detectam vírus e bactérias, permitindo que o organismo reaja a eles. Cada pessoa tem seu próprio MHC. E você, inconscientemente, é atraído por pessoas que tenham um MHC bem diferente do seu. Foi o que descobriu um estudo feito em 2002 pela Universidade de Berna (12), na Suíça, e replicado nos EUA.

Nessa experiência, hoje clássica, voluntários homens usaram uma camiseta para dormir por duas noites. Em seguida, mulheres cheiravam aquelas peças de roupa, e julgavam se o homem que tinha usado cada camiseta era ou não atraente, dando uma nota de 0 a 10. Todos os participantes tiveram o MHC decodificado por análise genética. Resultado: as voluntárias eram mais atraídas pelos homens que tinham MHC bem diferente delas. E há uma forte razão evolutiva para isso. Um casal com MHCs distintos terá filhos resistentes a uma gama mais ampla de infecções, aumentando a chance de sobrevivência da prole.

Quando/se o amor se desgasta e resolvemos terminar o casamento, tampouco temos pleno comando dessa decisão. Ela também possui um componente hereditário: filhos de pais separados têm maior risco de se divorciar. Estudos comparando gêmeos univitelinos e bivitelinos revelaram que uma pequena parte dessa ‘propensão ao divórcio’ tem base genética.  “Mas o maior componente são as atitudes que nossos pais tomaram, e também não há nada que possamos fazer sobre isso”, diz o sociólogo Nicholas Wolfinger, da Universidade de Utah, autor de pesquisas sobre o tema. “Quando duas pessoas [que vêm] de famílias divorciadas se casam, esse tipo de união tem taxas de divórcio especialmente altas”, afirma.

Não temos pleno controle sobre nossas amizades, nem sobre nossas paixões. Mas e na vida profissional? Todo mundo passa a vida ouvindo chavões como “nunca desista dos seus sonhos”, “o seu futuro só depende de você”, “com estudo e esforço você chega lá”, etc e tal. Isso é verdade. Mas não é toda a verdade. Na prática, a mobilidade social é muito menor do que as pessoas imaginam. Nos Estados Unidos, de cada dez pessoas que nascem pobres, sete morrem pobres. Essa foi a conclusão de cientistas das universidades Harvard e Berkeley, que analisaram dados socioeconômicos de 40 milhões de americanos (13). Apenas 4% a 10% das pessoas que nascem pobres, dependendo da região do país, conseguem subir para a classe média alta (o chamado “5o quintil”, que reúne os 20% de maior renda). No Brasil, a realidade é ainda mais imutável. Segundo um estudo (14) publicado em 2018 pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o brasileiro que nasce entre os 10% mais pobres levaria nove gerações, no ritmo atual, para alcançar o nível médio de renda do País.

Continua após a publicidade

A imobilidade social também vale para quem está mais acima na pirâmide: segundo a OCDE, a chamada “persistência de renda” no Brasil é de 70%. Isso significa que aqui as pessoas, em média, ganham pelo menos 70% do que os pais ganhavam (nos outros países, é 40%). Em suma: aqui, o dinheiro não costuma mudar de mãos. Tanto que o estudo coloca o Brasil em 28o lugar, entre 30 nações estudadas, no ranking de mobilidade social (só ganhamos da África do Sul e da Colômbia).

No Brasil, negros e pardos são discriminados, têm menos acesso a educação e oportunidades profissionais, e por isso ganham menos. Mas até entre os brancos há diferenças aparentemente intransponíveis: pessoas de sobrenome japonês, italiano, alemão ou do Leste Europeu ganham mais do que brancos com sobrenomes ibéricos. “Brasileiros de ascendência japonesa ganham em média R$ 73 por hora trabalhada; já os ibéricos ganham menos de R$ 34”, diz Leonardo Monasterio, economista do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e autor de um estudo que comparou os salários e os sobrenomes de 46,8 milhões de brasileiros (15).

“Há pouca margem no Brasil para as pessoas mudarem seu destino. Claro que há casos de pessoas que saíram de baixo e conseguiram sucesso, mas geralmente são exceções que confirmam a regra”, diz o economista Thomas Kang, professor da ESPM. De acordo com o IBGE, apenas 3% dos filhos de analfabetos ganham mais de cinco salários mínimos; já entre os filhos de universitários, a proporção é de 46%. “Isso mostra que a ideia de que é possível ficar rico mesmo tendo nascido em famílias pobres está longe da realidade da maioria dessas pessoas”, diz Naércio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper). “A trajetória profissional de uma pessoa é completamente determinada pela ‘loteria da vida’”, diz. “Os que nascem em famílias mais ricas têm muito mais facilidade para atingir seus objetivos que os nascidos em lares mais pobres. Isso não depende de mérito, é somente uma questão de sorte ou azar.”

-
Design: Juliana Krauss / Foto: Tomás Arthuzzi / Modelo: Alice Sabino/Superinteressante

Por falar nisso, você já deve ter ouvido o termo “meritocracia”. Segundo o Dicionário Houaiss, trata-se do “predomínio numa sociedade, organização ou grupo daqueles que têm mais méritos (os mais trabalhadores, dedicados, bem dotados intelectualmente etc.)”. Ou seja: a ideia de que basta se esforçar para chegar lá. Mas o que você talvez não saiba é que, na verdade, a palavra tem o significado contrário.

Continua após a publicidade

Ela foi inventada em 1958 pelo inglês Michael Dunlop Young, no livro The Rise of Meritocracy. Trata-se de uma ficção científica que retrata a Inglaterra do futuro, onde as pessoas são classificadas conforme sua inteligência, que é medida por testes padronizados, e a partir daí têm acesso a escolas e empregos melhores ou piores. O sistema, que se chama “meritocracia”, acaba se revelando profundamente injusto – pois os “mais inteligentes” o são, justamente, porque tiveram acesso a escolas melhores. (Spoiler: o livro termina na Revolta da Meritocracia, uma insurreição que acontece em 2033).

A vida não é uma página em branco. Ela é um jogo de cartas, às vezes marcadas. Mas calma: nem tudo está definido. Os fatores sociais, por exemplo, sempre podem mudar. Afinal, a sociedade é uma construção humana, não um fenômeno natural imutável. E mesmo as certezas da neurologia, da genética e da natureza podem não ser tão inabaláveis. Que o diga o Princípio da Incerteza, formulado em 1927 pelo alemão Werner Heisenberg e elemento central da física quântica. Ele afirma que é impossível determinar, ao mesmo tempo, a velocidade e a posição de uma partícula subatômica – porque a observação de uma dessas grandezas inevitavelmente altera a outra.

Percebeu? Só de existir, e olhar o Universo, você já altera o Universo. Tudo está escrito. E nada está.

(12) MHC-dependent mate preferences in humans. C.Wedekind e outros, 2002. (13) Where is the Land of Opportunity? The Geography of Intergenerational mobility in the US. R. Chetty e outros, 2014. (14) Um elevador social quebrado? Como promover a mobilidade social. OECD, 2018. (15) Sobrenomes e Ancestralidade no Brasil. L. Monasterio, 2016.

Continua após a publicidade

***

A ideologia no cérebro

As pessoas vivem agarradas às próprias crenças, quase nunca mudam de opinião. E isso não é (só) teimosia.

A amígdala é formada por dois grupos de neurônios, que ficam próximos ao centro do cérebro e desempenham uma função igualmente primordial: detectar ameaças. Pessoas conservadoras, à direita no espectro político, possuem amígdala maior. Foi o que descobriram dois estudos, feitos na Inglaterra e nos EUA, que escanearam o cérebro de voluntários e pediram a eles que preenchessem um questionário sobre suas posições políticas. “Indivíduos com amígdala grande são mais sensíveis ao medo”, teoriza o estudo inglês. Já os voluntários com opiniões mais à esquerda tinham maior córtex cingulado anterior (ACC) – o que, para os cientistas, também pode ajudar a explicar suas posições. Na opinião dos pesquisadores, é possível que indivíduos com ACC maior sejam mais abertos ao desconhecido.

Paladar programado

Você detesta – ou ama – verduras? As preferências alimentares têm raízes mais profundas do que se imagina.

Continua após a publicidade

O que você come na primeira infância influencia as escolhas alimentares pelo resto da vida. Um estudo francês, que acompanhou 341 voluntários por duas décadas, comprovou isso. Os cientistas analisaram 45 mil refeições feitas por essas pessoas, em duas etapas – quando elas eram crianças pequenas, de 2 a 3 anos, e quando tinham 17 a 22 anos. Houve forte correlação entre os dois momentos: o que cada pessoa gostava ou não de comer, quando criança, se mantinha na idade adulta. Também há fatores genéticos em jogo. As pessoas que possuem uma variação do gene TAS2R38, por exemplo, sentem gosto amargo nos brócolis, e por isso tendem a detestá-los.  Já a repulsa ao coentro pode ser condicionada por determinada versão do gene rs72921001, que faz esse alimento ter gosto de sabão.