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Saúde

A corrida pela vacina

Há sete tipos em desenvolvimento contra o coronavírus. Elas usam tecnologias bem diferentes e agem de formas distintas no organismo. Veja os prós e contras de cada uma – e quando elas devem chegar até você.

Texto Bruno Garattoni e Eduardo Szklarz    Ilustração Bruno Alberto    Design Juliana Krauss

No dia 2 de março, quando a Covid-19 ainda não havia sido classificada como pandemia e os EUA tinham apenas seis mortos pela doença (o Brasil, nenhum), o executivo Daniel Menichella foi recebido na Casa Branca pelo presidente Donald Trump. Ele era o CEO da CureVac, empresa alemã de biotecnologia que estava começando a pesquisar uma vacina contra o novo coronavírus. Uma semana depois, Menichella deixou a empresa sem dar explicações. Mas o motivo logo apareceu: segundo o governo alemão, Trump teria tentado comprar a CureVac, oferecendo “uma grande quantia” pela empresa e exclusividade sobre sua vacina. A chanceler Angela Merkel intercedeu, e o plano foi abortado. Não se via uma manobra do tipo desde a Operação Paperclip, realizada após a Segunda Guerra Mundial para levar 1.600 cientistas alemães aos EUA (a maior parte, especialistas em foguetes – eles iriam liderar o programa espacial e diversos projetos militares).

A vacina contra o coronavírus é a invenção mais importante, e disputada, da história recente. Em algum momento, a maioria da população mundial terá acesso a ela. Mas os países que saírem na frente levarão muita vantagem: suas economias vão se recuperar primeiro, e o poder de fabricar e distribuir a vacina dará a eles força geopolítica sobre os demais. “É uma corrida sem precedentes, desde a escala do investimento até o número de tecnologias e projetos sendo explorados”, diz a epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas, nos EUA. De fato: segundo dados da OMS, há nada menos do que 123 vacinas sendo desenvolvidas, das quais dez já estão sendo testadas em humanos (1).

Desenvolver vacinas demora (o caso mais ágil da história é a da caxumba, que levou quatro anos), e ter vários projetos correndo ao mesmo tempo acelera as coisas. Também ajuda na fabricação do produto. Para que a humanidade seja imunizada contra o Sars-CoV-2, pelo menos 60% a 70% da população terá de tomar a vacina – o que exigirá pelo menos 4 a 5 bilhões de doses nos próximos 18 meses. Nunca na história um produto foi inventado, produzido e distribuído, nessa quantidade, em tão pouco tempo. Por isso, é muito provável que não exista apenas uma vacina contra o novo coronavírus, mas várias: que serão produzidas e distribuídas ao mesmo tempo. Elas usam tecnologias radicalmente diferentes, agem de formas distintas, e cada uma tem seus prós e contras. A seguir, veja quais são, como cada uma funciona – e quais têm mais chances de chegar até você, se tudo der certo, num futuro próximo.

(1) Draft landscape of COVID-19 candidate vaccines. OMS, 2020.

O Brasil está atrás de EUA, China e Europa na corrida. Mas pode se destacar na segunda geração de vacinas, que chegará em 2021: o Instituto do Coração, da USP, está desenvolvendo uma que promete ser mais potente.
O Brasil está atrás de EUA, China e Europa na corrida. Mas pode se destacar na segunda geração de vacinas, que chegará em 2021: o Instituto do Coração, da USP, está desenvolvendo uma que promete ser mais potente.
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O primeiro teste

Você toparia tomar uma vacina experimental contra a Covid-19? A americana Jennifer Haller não teve dúvida: assim que viu um anúncio pedindo voluntários, ligou para se inscrever. Em 16 de março, prendeu a respiração enquanto o técnico aplicava uma dose em seu braço esquerdo, no Instituto Kaiser Permanente, em Seattle. “Tenho orgulho de ajudar”, afirmou. Aos 44 anos, mãe de dois filhos e gerente de uma startup, ela se tornou a primeira pessoa do mundo a tomar uma vacina contra o novo coronavírus.

Trata-se da mRNA-1273, que está sendo desenvolvida pela empresa americana Moderna Therapeutics com os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos EUA. Ela é feita com um pedaço do código genético do vírus – no caso, o RNA mensageiro (mRNA) que codifica a proteína spike, a arma do Sars-CoV-2 para invadir células humanas. A ideia é que nossas células usem as instruções contidas nesse RNA para fabricar a proteína spike.  Ela seria reconhecida pelo sistema imunológico, que produziria anticorpos e deixaria a pessoa protegida contra uma eventual infecção pelo coronavírus.

Como a vacina não contém vírus, em tese não apresenta risco (como o de acabar causando a doença que pretende combater). E há outra vantagem. “O desenvolvimento é bem mais rápido que o das vacinas tradicionais, como as que usam vírus atenuados”, diz o patologista Michael Waisberg, que trabalhou com vacinas para malária no NIH. De fato: apenas 63 dias se passaram entre a divulgação da sequência genética do novo coronavírus e a injeção aplicada no braço de Hellen.

Não à toa, 29 equipes estão desenvolvendo vacinas do tipo contra o Sars-CoV-2. Mas há um problema: embora a ciência pesquise vacinas assim desde os anos 1990, até hoje nenhuma foi aprovada para uso em humanos. “Uma razão frequente é que elas não induzem níveis de anticorpos suficientes para proteger o indivíduo”, diz Waisberg.

Por motivos ainda não compreendidos, o sistema imunológico não reage com a devida força a fragmentos de RNA, e pode até acabar se esquecendo” deles com o tempo. Por isso, uma eventual vacina desse tipo poderá exigir duas ou mais doses para imunizar cada pessoa, o que complica a produção e a distribuição em escala global – ainda mais porque ela é frágil, e precisa ser mantida sob refrigeração.

Mas há razões para otimismo. A vacina da Moderna Therapeutics tem se mostrado segura e eficaz nos testes em humanos. A Moderna já está na Fase II (com 600 participantes) e deve começar a Fase III (com milhares de pessoas) já em julho. “Se os testes derem certo, uma vacina poderá estar disponível para uso generalizado até o final deste ano ou no início de 2021”, diz a empresa.

A americana Pfizer e a alemã BioNTech estão desenvolvendo, em conjunto, outra vacina de RNA. No primeiro teste, todos os 45 voluntários produziram níveis altos de anticorpos contra o coronavírus – maiores, até, do que os registrados em pessoas que se curaram da Covid-19. A vacina da Pfizer ainda está no começo dos testes clínicos (atrás das vacinas de Oxford e da Moderna Therapeutics), mas a empresa espera receber já em outubro uma autorização de emergência da FDA (a Anvisa dos EUA) para começar a produção em grande escala. “Nosso plano é ter dezenas de milhões de doses este ano, e centenas de milhões em 2021”, declarou Mikael Dolstein, diretor científico da empresa. Ela usará três fábricas nos EUA e uma na Bélgica, além das instalações da BioNTech na Alemanha, para a produção.

A americana Inovio Pharmaceuticals também está fazendo uma vacina genética. Mas com uma diferença: seu produto, que se chama INO-4800, usa DNA sintético em vez de RNA. Ele é composto por genes montados em laboratório, que induzem nossas células a produzir a proteína spike do novo coronavírus [veja quadro abaixo]. Funciona da mesma maneira que as vacinas de RNA. Mas promete uma reação imunológica mais robusta e duradoura. Por outro lado, não é tão fácil de produzir: se tudo der certo, a empresa pretende fabricar 1 milhão de doses da INO-4800, que já está sendo testada em humanos, até o final do ano.

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Há vacinas que agem de forma mais direta, pois contêm pedaços do próprio vírus – e, por isso, são chamadas de vacinas de proteína. É o caso da vacina da hepatite B, por exemplo. Ela contém uma proteína do vírus HBV, que causa a doença, e é produzida em laboratório por uma levedura geneticamente modificada. Cerca de 45 grupos estão apostando nessa técnica contra a Covid-19, inclusive a britânica GlaxoSmithKline e a francesa Sanofi, que se uniram para produzir uma vacina contendo a proteína spike. 

Entre as vacinas de proteína, o tipo mais sofisticado são as VLPs, ou virus-like particles (“partículas semelhantes a vírus”, em inglês). No Brasil, o Instituto do Coração, do Hospital das Clínicas da USP, também está desenvolvendo uma vacina VLP. “São partículas que imitam o formato do vírus, mas não possuem material genético, e por isso não são capazes de infectar a pessoa. Isso é uma vantagem de segurança”, explica o imunologista Edécio Cunha, que trabalha no projeto do InCor. 

A vacina VLP é feita com células humanas modificadas em laboratório para produzir microesferas de glutamato descarboxilase, uma substância que funciona como “base” – e à qual são adicionadas proteínas específicas do Sars-CoV-2. Esse tipo de vacina é mais potente do que as de RNA (pois você está injetando as proteínas do vírus diretamente nas células). Por isso, é possível que ela ofereça proteção com apenas uma dose – o que está sendo avaliado em testes clínicos. Além do InCor, há pelo menos oito outras equipes trabalhando com a técnica. Entre elas, a empresa canadense Medicago, que é parceira da multinacional de cigarros Philip Morris e está usando plantas de tabaco para tentar produzir VLPs.

A indústria do tabaco tentando ajudar a medicina é um cenário meio insólito. Mas há algo ainda mais intrigante na corrida pela vacina contra o Sars-CoV-2: os vírus geneticamente modificados. Eles são usados nas chamadas vacinas de vetor viral, como a desenvolvida pela empresa chinesa CanSino, que já foi testada com sucesso em 108 voluntários(2).

Para fazer uma vacina de vetor viral, os cientistas pegam um vírus inofensivo e o modificam geneticamente para que ele produza determinada proteína, à qual o corpo humano irá reagir. Essa técnica foi usada na vacina Ervebo, contra o vírus ebola, criada pelo laboratório Merck e aprovada pela FDA em dezembro do ano passado. Contra o Sars-CoV-2, a ideia é utilizar um adenovírus que só infecta chimpanzés (ele foi escolhido porque é inócuo em humanos, e geneticamente estável), modificá-lo para que ele seja incapaz de se reproduzir e de fabricar a proteína spike. Quando você toma a vacina, esse vírus modificado penetra nas suas células, levando consigo a proteína – e o organismo cria defesas contra ela. Mais de 30 equipes estão tentando essa abordagem, inclusive a americana Johnson & Johnson e a Universidade de Oxford, cuja vacina ChAdOx1 começou a ser testada na Inglaterra e no Brasil em junho (fomos escolhidos porque, ao contrário da maioria dos países, nossos casos de Covid-19 ainda estavam em curva ascendente).

A desvantagem desse tipo de vacina é que, como o vírus não se reproduz dentro do corpo humano, gera uma resposta imunológica mais fraca: a ChAdOx1 pode proporcionar menos proteção do que outros tipos de vacina. Além disso, ela contém um novo vírus, criado em laboratório. No mundo atual, com a onda de obscurantismo, fake news e ondas antivacinação, uma solução como essa poderá enfrentar resistência de setores da população.

O Ministério da Saúde já assinou um contrato com a Universidade de Oxford e sua parceira, a multinacional AstraZeneca. Por esse acordo, a Fundação Oswaldo Cruz receberá alguns lotes da vacina e também a tecnologia necessária para produzi-la. Inicialmente, serão 30,4 milhões de doses: metade ficará pronta em dezembro, e a outra metade em janeiro. Elas serão produzidas mesmo se os testes clínicos ainda não tiverem terminado – a ideia é ganhar tempo. Num segundo momento, quando a eficácia da vacina estiver comprovada, a Fiocruz pretende fazer mais 70 milhões de doses. A fundação diz ter capacidade de fabricar até 40 milhões de doses por mês e fornecer a vacina para outros países da América Latina. O custo estimado de cada dose é US$ 2,30. 

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Ilustração: Bruno Alberto I Design: Juliana Krauss/Superinteressante

As vacinas de RNA, DNA, proteínas e vetores virais estão na vanguarda da ciência. Mas todas elas têm suas fraquezas. Por isso, tecnologias mais tradicionais também têm grandes chances na luta contra o novo coronavírus. Incluindo uma que foi descoberta, no século 19, por um dos maiores cientistas de todos os tempos: Louis Pasteur.

(2) Safety, tolerability, and immunogenicity of a recombinant adenovirus type-5 vectored COVID-19 vaccine. Feng-Cai Zhu e outros,2020.

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A varíola e a vacina

Em 1796, o médico americano Edward Jenner notou algo estranho: os fazendeiros que ordenhavam vacas infectadas por varíola bovina, uma doença que causa feridas na pele, acabavam se tornando imunes à varíola humana. Jenner teve a ideia de coletar pus de uma ordenhadora infectada por varíola bovina e injetar numa pessoa saudável, para ver o que acontecia. Funcionou: os voluntários se tornaram imunes à varíola humana (bem mais grave que a bovina). Nascia, ali, a primeira vacina (cujo nome vem do latim vaccinus, ou “proveniente da vaca”).

Quase um século depois, Louis Pasteur acabou fazendo uma descoberta ainda mais interessante. Ele estava pesquisando a cólera aviária, que mata galinhas, patos, gansos e perus, e cultivou em laboratório uma amostra da bactéria que causa a doença. Mas, depois de um certo tempo, Pasteur injetava essa bactéria em aves sadias e nada acontecia. Elas não ficavam doentes. O francês achou, acertadamente, que sua amostra do micro-organismo (que viria a ser batizado de Pasteurella multocida, em homenagem ao francês) estava meio estragada, enfraquecida pelo tempo. Pegou uma amostra novinha da bactéria, tirada de animais infectados, e injetou nas suas aves – que, mesmo assim, não ficaram doentes. Haviam sido imunizadas pela dose de bactérias fracas.

Pasteur havia acabado de descobrir as vacinas de patógeno enfraquecido, que foram e continuam sendo essenciais: as vacinas contra sarampo, rubéola e febre amarela, entre várias outras, são desse tipo. E a técnica também está sendo usada contra o Sars-CoV-2. 

Para enfraquecer um vírus, os cientistas o fazem passar várias vezes por células animais (em ovos, tecidos animais ou bichos vivos mesmo). Conforme o mesmo conjunto de vírus infecta aquele meio, é coletado e reintroduzido muitas vezes, vai sofrendo pressão seletiva, na qual ganha e perde características: os vírus se tornam muito bons em se replicar em células animais, mas pouco aptos a infectar células humanas. Quando isso acontece, eles estão no ponto: são coletados e transformados em vacina. O resultado é um micro-organismo que continua “vivo”, mas sem a
periculosidade original.

As vacinas de vírus atenuado costumam provocar uma excelente resposta imunológica, mas têm um porém: como carregam vírus vivos, elas apresentam um risco (baixo) de infecção, sobretudo para pessoas imunodeprimidas. É o caso da vacina da febre amarela, por exemplo, que (em casos raros) pode causar sintomas parecidos aos da própria doença. Também é possível, tecnicamente, a chamada “reversão”: em que o vírus enfraquecido, uma vez dentro do organismo, volta a se tornar agressivo.

Ou seja: vacinas desse tipo precisam ser muito bem testadas quanto à segurança. E testar leva tempo. Será possível, então, garantir que uma vacina contendo Sars-CoV-2 atenuado é segura em apenas 12 ou 18 meses? “Será um desafio conciliar eficácia, segurança, qualidade e velocidade ao mesmo tempo”, diz o médico Jaap Venema, diretor da U.S. Pharmacopeia, entidade que estabelece padrões técnicos para todos os remédios vendidos nos EUA.

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Uma alternativa são as vacinas de vírus inativo, ou “morto”. Para fabricá-las, você simplesmente pega o vírus e o “mata”, utilizando formol ou calor. Ele fica incapaz de se replicar e causar doenças – mas é suficiente para estimular a produção de anticorpos. As vacinas contra poliomielite, gripe, raiva e hepatite A, por exemplo, são assim.

A abordagem está sendo usada pela Universidade de Osaka, no Japão, e por firmas como a chinesa Sinovac Biotech – que assinou um acordo de cessão de tecnologia com o governo de São Paulo. A vacina da Sinovac, que se chama Coronavac, teve sucesso na segunda fase de testes em humanos: segundo a empresa, apresenta eficácia de 90%. Se ela passar pela terceira e última etapa de testes, que já estão sendo feitos na China e em 9 mil voluntários no Brasil, sua tecnologia será cedida ao Instituto Butantan, que afirma ter capacidade para entregar 30 milhões de doses por ano.    

A produção desse tipo de vacina requer o cultivo de grandes quantidades de vírus, o que exige medidas de segurança mais fortes nas fábricas. Mas ela é considerada promissora. “As vacinas de proteína, e as que utilizam vírus mortos ou atenuados, costumam induzir melhor resposta imunológica do que as de DNA e RNA”, diz o patologista Michael Waisberg.

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Ilustração: Bruno Alberto I Design: Juliana Krauss/Superinteressante

A FDA, nos Estados Unidos, trabalha com dois cenários para a aprovação de vacinas: o ideal e o aceitável. Para ser considerada ideal, uma vacina deve apresentar eficácia de pelo menos 90% (ou seja, reduzir em 90% a incidência de Covid-19 entre os voluntários vacinados). No cenário aceitável, 50%. “O quadro mais provável, eu acho, é nós termos uma vacina de primeira geração, e depois vacinas de segunda geração”, diz o imunologista Edécio Cunha, do InCor. A primeira geração deverá ser composta por vacinas de RNA ou vetor viral, que são mais seguras, mas proporcionam menor imunidade – e devem começar a chegar já no final deste ano. Depois, no segundo semestre de 2021, viriam as vacinas de vírus atenuado e as VLPs, que são mais fortes, mas têm processo de desenvolvimento mais demorado.   

Outra questão crítica diz respeito à administração e conservação da vacina. As vacinas de RNA/DNA, proteína e vírus morto são injetáveis, e geralmente precisam ficar sob refrigeração constante, o que dificulta sua distribuição. Já as vacinas de vírus atenuado, mais robustas, poderão dispensar a geladeira e ser aplicadas por spray nasal ou via oral – como a vacina da poliomielite, no Brasil associada ao personagem Zé Gotinha.

Esse seria o melhor desfecho: uma vacina segura, eficaz, robusta e fácil de aplicar chegando a todos os cantos do planeta e varrendo o Sars-CoV-2 do mapa. Mas também há outra possibilidade. Talvez o vírus sofra mutações, e a ciência não consiga desenvolver uma vacina. Ou, o mais provável, ela demore para chegar a todo mundo. Seja como for, vamos continuar precisando de tratamentos contra a Covid-19. E eles, depois das confusões e frustrações dos primeiros meses, também estão avançando.

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Medicamentos e plasma: o plano B

Há mais de 150 remédios sendo testados contra a Covid-19. Alguns têm avançado – uma combinação de antivirais apresenta os resultados mais promissores.
Há mais de 150 remédios sendo testados contra a Covid-19. Alguns têm avançado – uma combinação de antivirais apresenta os resultados mais promissores. Ilustração: Bruno Alberto I Design: Juliana Krauss/Superinteressante

Neste momento, há mais de 150 drogas sendo testadas contra a Covid-19, de antidepressivos a remédios anticâncer. A mais falada, e polêmica, é a cloroquina, inventada em 1934 – e sua derivada, a hidroxicloroquina, criada em 1955. Ambas são usadas há décadas contra a malária e têm mecanismo de ação similar. Viraram o centro das atenções em março, quando o cientista Didier Raoult, do Instituto Hospitalar Universitário (IHU) de Marselha, publicou um estudo relatando o sucesso da hidroxicloroquina no tratamento de coronavírus. Mas o trabalho foi duramente criticado pela comunidade científica: envolveu apenas 24 pacientes, não teve grupo de controle (as pessoas que recebem placebo), e ignorava os efeitos colaterais da droga, que pode causar arritmia cardíaca e morte. E uma série de estudos grandes, realizados em seguida, não conseguiram replicar os resultados de Raoult.

Uma pesquisa que avaliou 1.376 pacientes do Centro Médico da Universidade Columbia, por exemplo, concluiu que a hidroxicloroquina não era eficaz(3). Um estudo liderado pelo cardiologista Mandeep R. Mehra, da Universidade Harvard, analisou dados de 96 mil pacientes, em 671 hospitais de seis continentes, dos quais 15 mil tomaram cloroquina ou hidroxicloroquina(4). Além de não trazer benefício, as drogas provocavam problemas cardíacos. Parecia o fim da cloroquina: até a OMS parou seus testes com ela. Mas esse estudo acabou caindo em desgraça, e sendo desautorizado pela revista Lancet, que o publicara. Motivo: a pesquisa se baseou em dados coletados pela empresa de informações médicas Surgisphere – e ela não quis liberar suas planilhas para que cientistas independentes checassem os números. Agora, o National Institutes of Health, dos EUA, está testando a hidroxicloroquina em 2 mil pessoas com Covid-19. Em suma: ela e sua irmã ainda são uma incógnita.

Não é o caso do remdesivir, um medicamento desenvolvido pela americana Gilead Sciences (inventora do antiviral Tamiflu) e primeiro a apresentar resultados concretos contra o novo coronavírus. Ele foi testado pela primeira vez em 2009, contra a hepatite C, e não funcionou como se esperava. Teve outra chance em 2018, durante o surto de ebola no Congo, e também decepcionou. Mas essas experiências mostraram que o remdesivir era seguro para uso em humanos, e veio a ideia de experimentá-lo contra o Sars-CoV-2. Aí os resultados começam a aparecer. Num estudo(5) feito pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) com 1.059 pacientes, o remdesivir reduziu em 26% o tempo médio de internação, que caiu de 15 para 11 dias, e reduziu o índice de óbitos de 11,9% para 7,1%. Nada milagroso, mas já é alguma coisa. “Acho que o remdesivir pode ser promissor se combinado a outros medicamentos”, diz a epidemiologista Denise Garrett. 

Pode ser que o caminho esteja, de fato, num coquetel. Foi com essa estratégia que a humanidade conseguiu domar o HIV; e ela parece funcionar contra o novo coronavírus. Cientistas de seis hospitais chineses(6) testaram uma combinação de interferon beta-1b (proteína que regula processos inflamatórios), ribavirina (um antiviral hoje usado contra a hepatite C) e uma combinação de lopinavir e ritonavir, dois remédios amplamente usados para prevenir e conter a infecção por HIV. Quem recebeu o coquetel eliminou todos os sinais do vírus após sete dias, em média, contra 12 do segundo grupo (que tomou apenas lopinavir-ritonavir). E, o mais importante, nenhum paciente morreu – um resultado bem melhor que o obtido pelo remdesivir.

Outra esperança vem da anakinra, uma droga já aprovada nos EUA e na Europa (mas não no Brasil) para tratar artrite reumatoide. Ela serve para frear o sistema imunológico, que em alguns casos de Covid-19 se descontrola, gerando uma reação inflamatória fatal. Num estudo realizado no Hospital San Raffaele, de Milão, na Itália(7) , com pacientes graves, 90% das pessoas que tomaram esse remédio sobreviveram, contra 56% dos doentes tratados apenas com outros medicamentos.

Mas com exceção da cloroquina, que é barata, os outros remédios em voga são caros e difíceis de fabricar. Para fazer remdesivir, por exemplo, é preciso misturar 70 ingredientes, em 25 etapas complexas e delicadas (o reagente usado numa delas, por exemplo, explode se entrar em contato com o ar), num processo que leva seis meses.

Esse é o caso, também, de outro tratamento que vem sendo cogitado contra a Covid-19: anticorpos artificiais. Bombou na internet a notícia de um anticorpo criado por cientistas israelenses, que seria capaz de matar o vírus. Ele realmente existe, foi desenvolvido pelo Instituto de Investigação Biotecnológica de Israel, e não é o único: pesquisadores da Universidade de Utrecht, na Holanda, também criaram um anticorpo(8) contra o Sars-CoV-2. Ambos são anticorpos monoclonais, ou seja, produzidos por uma célula modificada e, depois, clonada.

Ainda não foram testados em animais, muito menos em humanos – por enquanto, só in vitro, ou seja, em células cultivadas em laboratório. Já existem alguns anticorpos monoclonais no mercado, geralmente usados para tratar doenças autoimunes. Eles são, de longe, o produto mais complexo já criado pela indústria farmacêutica: suas moléculas chegam a ter mil vezes mais átomos que os remédios comuns. Eles são produzidos por células vivas, que se multiplicam em biorreatores, tanques de 20 mil litros cheios de glicose e aminoácidos. Esses medicamentos são difíceis de fabricar e, por isso, os mais caros que existem: custam até US$ 18 mil a dose.

Os transplantes de plasma são uma técnica antiga, que precede os antibióticos – e aproveita os anticorpos de quem já se curou da doença.
Os transplantes de plasma são uma técnica antiga, que precede os antibióticos – e aproveita os anticorpos de quem já se curou da doença. Ilustração: Bruno Alberto I Design: Juliana Krauss/Superinteressante

Uma saída menos tecnológica, e mais barata, é o transplante de plasma. Quem se curou da Covid-19 doaria sangue, que seria filtrado para remover os glóbulos brancos e vermelhos e as plaquetas. O que sobra é o plasma, um líquido amarelado que contém todo o resto – inclusive os anticorpos. A ideia é transferir os anticorpos de quem já teve coronavírus para quem está doente, ou mesmo para pessoas sadias. Em tese, eles poderiam curar a doença, e/ou oferecer imunidade durante algum tempo.

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Essa técnica se chama imunoterapia passiva, e é bem antiga: antes da popularização dos antibióticos, ela era usada contra infecções. A técnica foi aplicada, inclusive, na gripe espanhola de 1918. Uma análise de oito estudos publicados na época(9), com 1.703 pacientes ao todo, revela que o uso de plasma foi eficaz: apesar de todas as limitações da medicina naquele tempo, a técnica reduziu pela metade, de 37% para 16%, o índice de óbitos em casos graves da doença. Uma equipe da Universidade Johns Hopkins, nos EUA, já obteve sinal verde da FDA para experimentar a técnica agora. “Há uma grande probabilidade de que funcione”, declarou o médico Arturo Casadevall, líder do estudo. Não se sabe quantas pessoas poderão ser beneficiadas pelo plasma de cada doador (os cientistas especulam que cada pessoa curada possa salvar um, dois ou até dez doentes), nem por quanto tempo a imunidade duraria. Isso ainda é um mistério.

Como, aliás, muita coisa sobre o novo coronavírus. A ciência tem descoberto, quase que diariamente, novas características, sintomas e sequelas deixadas pelo Sars-CoV-2. Mas o fato é que, mesmo com toda a turbulência causada pela pandemia, estamos avançando rápido. E chegando mais perto da cura.

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(3) Observational Study of Hydroxychloroquine in Hospitalized Patientswith Covid-19. J Geleris e outros, 2020;

(4) RETRACTED: Hydroxychloroquine or chloroquine with or without a macrolide for treatment of COVID-19: a multinational registry analysis. M Mehra e outros, 2020.

(5) Remdesivir for the Treatment of Covid-19 — Preliminary Report. JH Beigel e outros, 2020;

(6) Triple combination of interferon beta-1b, lopinavir–ritonavir, and ribavirin in the treatment of patients admitted to hospital with COVID-19. Ivan Fan-Ngai Hung e outros, 2020;

(7) Interleukin-1 blockade with high-dose anakinra in patients with COVID-19, acute respiratory distress syndrome, and hyperinflammation. G Cavalli e outros, 2020.

(8) A human monoclonal antibody blocking SARS-CoV-2 infection. C Wang e outros, 2020;

(9) Meta-analysis: Convalescent Blood Products for Spanish Influenza Pneumonia: A Future H5N1 Treatment? T Luke e outros, 2006.

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