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História

A década das bombas

Entre o começo dos anos 1950 e o início dos 1960, Estados Unidos e União Soviética produziram milhares de armas nucleares, cada vez mais potentes.

por Tiago Cordeiro Atualizado em 17 ago 2020, 19h01 - Publicado em 2 jan 2020 11h32

Entre o começo dos anos 1950 e o início dos 1960, Estados Unidos e União Soviética produziram milhares de armas nucleares, cada vez mais potentes.

Texto: Tiago Cordeiro | Edição de arte: Estúdio Nono | Design: Andy Faria


Em agosto de 1945, só existiam duas bombas atômicas no mundo. Em 1950, eram 304. Em 1955, haviam se multiplicado por oito e chegado a 2.636. Em 1960, tinham saltado outras sete vezes: já eram 20.285. Não foi só a quantidade que disparou em ritmo alucinante.

O clima de guerra fria levou Estados Unidos e União Soviética a desenvolver armas até três mil vezes mais poderosas do que os dois artefatos que arrasaram Hiroshima e Nagasaki. Quando elas se tornaram pesadas demais para os aviões transportarem, começaram a surgir então as ogivas, que poderiam ser despachadas nas pontas de mísseis balísticos. Enquanto espalhavam radiação em locais isolados do planeta, os dois adversários mediam forças e colocavam o mundo em alerta. Parecia não haver limites para a corrida armamentista.

Detonações em série

Os artefatos nucleares eram cada vez maiores e mais potentes. Por exemplo: a Mk-17, a maior bomba nuclear produzida pelos EUA até hoje, pesava 18 toneladas e tinha de 10 a 15 megatons (o equivalente a 10 a 15 milhões de toneladas de dinamite). Os americanos produziram mais de 200 unidades da Mk-17. Para testar modelos desse porte, era preciso utilizar até cinco paraquedas, a fim de reduzir a velocidade da queda e preservar a saúde dos pilotos – o que nem sempre dava certo; os casos de danos físicos em militares, provocados pela radiação e pela detonação, se multiplicaram.

Se não havia grandes cuidados com os pilotos, a atenção com os moradores dos campos de teste era menor ainda. Além do deserto de Nevada, os americanos tinham um local afastado de preferência, o Atol de Bikini, um banco de corais localizado 4.200 km a oeste do Havaí, no Oceano Pacífico, que abriga 23 ilhas em torno de uma lagoa de 600 km2. Quando criou uma nova peça de roupa para ser usada na praia, nos anos 1940, o estilista Louis Réard previu o escândalo e batizou a novidade explosiva de “biquíni”. Já os britânicos gostavam de detonar suas bombas em terras isoladas na Austrália e os franceses utilizaram a parte da Argélia que fica no deserto do Saara.

<strong>Teste realizado pelos Estados Unidos no Atol de Bikini, em julho de 1948. A coluna de fumaça alcançou 1.500 m.</strong>
Teste realizado pelos Estados Unidos no Atol de Bikini, em julho de 1948. A coluna de fumaça alcançou 1.500 m. Bettmann/Getty Images

Os soviéticos, por sua vez, preferiam detonar artefatos em Nova Zemlia, no Círculo Ártico, e em Semipalatinsk, no nordeste do Cazaquistão. Além de 456 testes nucleares, incluindo a primeira bomba nuclear soviética, a RDS-1, detonada em 1949, e a primeira bomba termonuclear (que funde átomos, em vez de quebrá-los, e por isso é muito mais poderosa) desenvolvida pelos russos, que explodiu na região em 1953, Semipalatinsk foi escolhida para a construção da usina nuclear de Mayak. A instalação ficaria conhecida por seu longo histórico de vazamentos e acidentes, o mais recente deles em 2017.

Numa época em que os efeitos da radiação não estavam totalmente esclarecidos, os testes provocavam danos colaterais permanentes. Em 10 de março de 1954, por exemplo, a bomba termonuclear americana Bravo, que em tese devia ter potência de 6 megatons, alcançou 15 megatons ao explodir.

Resultado: radiação espalhada por 8 mil quilômetros quadrados, que atingiu os próprios militares (28 americanos foram afetados) e pescadores de ilhas próximas, principalmente 23 japoneses embarcados em um navio de pesca nos arredores. Entre os moradores do Atol de Rondogelap, nas proximidades da detonação, um terço precisou tirar a tireoide, e os casos de leucemia e bebês com malformação se multiplicaram.

Ainda assim, do ponto de vista militar, a Operação Castelo, que incluiu a detonação da Bravo, foi um sucesso porque permitiu o desenvolvimento de bombas termonucleares. Mas o salto tecnológico foi ofuscado pela péssima repercussão pública dos experimentos.

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Detonações no espaço

Nem todos os testes formavam os famosos cogumelos no céu – resultado, aliás, da formação de uma bolha de gás superaquecida, que é mais quente que o ar da atmosfera e por isso sobe, carregando toneladas de ar e poeira; na medida em que fica mais alta e resfria, a bolha forma a “cabeça” do cogumelo. Muitas detonações eram subterrâneas. E algumas foram realizadas no espaço.

Entre 1958 e 1962, os Estados Unidos mandaram 14 bombas para além da atmosfera terrestre. Os russos, outras sete, no mesmo período. Do lado americano, destaque para a Starfish Prime. Cem vezes mais poderosa do que a bomba de Hiroshima, ela foi lançada a partir do Atol Johnston, no Oceano Pacífico, e detonada a 400 metros da superfície da Terra na noite de 9 de julho de 1962. Gerou uma aurora artificial (as partículas expelidas pela detonação formaram desenhos coloridos no céu) e afetou o campo magnético do planeta. A detonação queimou satélites e criou, no espaço, uma área altamente radioativa.

<strong>Réplica da primeira bomba atômica desenvolvida pela URSS.</strong>
Réplica da primeira bomba atômica desenvolvida pela URSS. SVF2/Getty Images

Mais uma vez nesse caso, os soviéticos reagiram com algum atraso, compensado por uma agressividade enorme. Em outubro de 1962, eles lançaram três bombas para o espaço, a partir do Cazaquistão. O resultado foi impressionante: mais de 500 km de linhas telefônicas e mil km de cabos de transmissão de energia acabaram inutilizados por culpa dos pulsos eletromagnéticos nucleares disparados pela detonação.

No espaço, na falta de atmosfera, a explosão não produz fogo, nem as ondas de choque e calor observadas na Terra. Por outro lado, sem ar para gerar resistência, a radiação alcança uma área 17 vezes maior. Nada disso estava claro enquanto os testes eram realizados. E os EUA consideraram a possibilidade de reagir ao feito dos russos detonando uma bomba atômica na Lua. Desenvolvido em 1958, o Projeto A119 não saiu do papel, em parte por causa dos sérios danos observados com a detonação da Starfish Prime e da bomba russa.

Arsenal imenso

As detonações no Atol de Bikini e no espaço deixaram claro que a corrida armamentista tinha ido longe demais. Já existia uma Agência Internacional de Energia Atômica desde 1957, mas não era o suficiente. Em 1963, os dois lados do conflito – mais o Reino Unido, que já tinha suas próprias bombas – assinaram um tratado para limitar testes atômicos na atmosfera, no espaço e no mar.

Seguiram-se outros acordos militares e diplomáticos, estabelecendo limites para o poder de fogo das armas. Mas, de certa forma, já era tarde: se na década de 1930 as bombas atômicas eram uma distante discussão teórica, trinta anos depois o planeta convivia com a ameaça da hecatombe nuclear.

Atualmente, existem cerca de 15.800 bombas nucleares, mantidas por oito países – a Rússia lidera em quantidade, desde os anos 1980, seguida pelos Estados Unidos. Os dois juntos respondem por 93% do total, sendo que um terço está pronto para ser lançado em um prazo de poucas horas. Colocadas na ponta de mísseis balísticos intercontinentais (ICMBs), essas bombas podem atravessar o planeta e atingir alvos em quaisquer localidades. As bombas lançadas com paraquedas ficaram no passado.

Ao longo do tempo, parte expressiva do arsenal foi sendo desmontada: até hoje, foram construídas 128 mil diferentes ogivas nucleares, segundo estimativa produzida pelo The Bulletin of the Atomic Scientists, um periódico que monitora a evolução do setor. A maior parte teve as peças reaproveitadas na fabricação de outras bombas.

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Versão suja

A bomba de nêutrons é ainda mais radioativa.

Matar mais, reduzindo o estrago sobre edifícios. A partir de 1958, os americanos encontraram na bomba de radiação aumentada uma forma de alcançar esse objetivo. Popularmente conhecida como bomba de nêutrons, ela produz uma quantidade de radiação muito mais expressiva, porque 45% da energia é liberada na forma de nêutrons, contra 5% de uma bomba atômica tradicional. Do ponto de vista militar, uma arma desse tipo apresenta uma vantagem expressiva: fazer um estrago maior utilizando carga explosiva menor. Os Estados Unidos alegam que destruíram suas bombas de nêutrons em 2003, mas ainda detêm a tecnologia – há informações de que Rússia, França, China (e, talvez, Israel) também sejam capazes de produzir bombas de radiação aumentada.

Destruição além da imaginação

As bombas testadas em 1961 pela URSS eram milhares de vezes mais poderosas do que as lançadas contra o Japão. Nenhum artefato nuclear superou a capacidade de provocar estragos da maior delas, a Tsar.

Até hoje, duas bombas nucleares foram detonadas durante uma guerra: a Little Boy de Hiroshima e a Fat Man de Nagasaki, ambas em 1945. Mas, a pretexto de realizar testes, oito países (Estados Unidos, União Soviética, Inglaterra, França, China, Índia, Paquistão e Coreia do Norte) detonaram outros 2.119 artefatos desde então.

De todos esses milhares de bombas, a campeã, disparada, é a Tsar: 50 megatons, o equivalente a 50 milhões de toneladas de dinamite ou a 3.300 bombas de Hiroshima. Some todos os explosivos (atômicos e comuns) detonados durante a Segunda Guerra Mundial inteira e você só vai ter um décimo da potência da Tsar.

Batizada em homenagem ao czar Ivã, o Terrível, que reinou no século 16, era difícil de transportar e detonar. Pesava 25 toneladas, foi lançada em 30 de outubro de 1961, a 10.500 metros do chão, e explodiu a 4.000 metros de altitude sobre a ilha de Nova Zemlia, no Ártico. A detonação formou um cogumelo de 64 quilômetros de altura. O bombardeiro Tupolev TU-95, que carregou a bomba, estava a 45 quilômetros do local da detonação, e ainda assim sofreu o impacto da onda de choque e perdeu mil metros de altitude. O impacto chegou longe: arrebentou janelas de casas que ficavam a 800 quilômetros de distância.

<strong>Réplica da Bomba Tsar exposta no Museu de Sarov.</strong>
Réplica da Bomba Tsar exposta no Museu de Sarov. Croquant/Wikimedia Commons

O estrago poderia ter sido ainda maior. Os pesquisadores envolvidos receberam a missão de criar uma bomba de 100 megatons. Por segurança, reduziram a capacidade destrutiva pela metade, ainda que, em tese, pudessem alcançar a potência solicitada por seus comandantes. Ainda assim, a Tsar deixou o mundo em choque – era uma demonstração clara do poder das bombas de hidrogênio.

A esse teste se seguiu outro, de uma bomba de 24,2 megatons, detonada pelos soviéticos na mesma região, na véspera de Natal de 1962. Só naquele ano, os soviéticos realizaram 78 testes, sendo que quatro deles estão entre os maiores da história, logo depois da Tsar. Tornaram-se tão corriqueiros que os russos nem se deram ao trabalho de dar nome às bombas.

Com o fim da Guerra Fria, as detonações saíram de moda. Os Estados Unidos nunca mais provocaram nenhuma desde 1992. Dois anos antes, a União Soviética havia explodido sua última bomba. Neste século, só quem continua realizando testes é a Coreia do Norte. Mas a corrida armamentista foi retomada e pode levar a uma guinada na direção de novos testes.

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