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A era da sobriedade

O consumo de álcool está caindo em boa parte do mundo, e no Brasil também. Entenda o que está por trás desse fenômeno.

Texto: Guilherme Castellar | Design: Carlos Hara | Fotos: Dulla | Edição: Alexandre Versignassi

O boêmio, ou o que restou dele, acorda numa daquelas manhãs de ressaca colossal e, num vislumbre de sobriedade, decide: “Acabou. Nunca mais vou beber!” Dois ou três dias depois, lá está ele de novo, treinando levantamento de copo noite adentro.

Mas essa história talvez esteja mudando. De uns tempos para cá, parece que mais juras de sobriedade de bebedores estão surtindo efeito – principalmente nos países onde o consumo de álcool sempre foi elevado.

Na Irlanda, que tem como um de seus símbolos nacionais uma fábrica de cerveja (a da Guinness), o consumo de álcool caiu em 17% desde o início do século 21. Na Rússia, que em tempos de URSS incluía 750 ml de vodca por semana na ração de cada um de seus soldados, a queda foi de 43%. Na França, onde pega mal almoçar sem tomar vinho, 14% – no Brasil também.

A tendência é ampla. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, 47% da população mundial bebia no ano 2000. Em 2016 (data do levantamento mais recente da OMS) eram 43%. O Brasil está praticamente dentro dessa média: 60% dos brasileiros não ingeriram álcool nos últimos 12 meses – esse é o critério da OMS para considerar alguém abstêmio, o que faz todo o sentido.

Bom, a diminuição no consumo de álcool é antiga, pelo menos nos países desenvolvidos. O pico da beberagem na França aconteceu há exatamente um século. Na década de 1920, o consumo era de 20 garrafas de vinho mensais por habitante (não por bebedor, por habitante mesmo, incluindo crianças e abstêmios – então quem bebia tomava mais ainda). Hoje, o consumo por cabeça na França está em oito garrafas por mês – o que não é pouco, claro, mas trata-se obviamente de uma quantidade menos cirrótica.

Nos EUA, o pico foi há 200 anos. O consumo por lá em 1830 era de 5,4 garrafas mensais por habitante – garrafas de uísque. Hoje, eles bebem um terço disso.

Nota: usamos “garrafas” aqui como unidade de medida só para facilitar a leitura. A OMS faz seus cálculos em “quantidade de álcool puro”, já que quem bebe acaba tomando um pouco de tudo. Para situar, então: uma garrafa de uísque tem 400 ml de álcool puro. Uma de vinho, 90 ml. Uma lata de cerveja, 17 ml. Um copão bonito de gin tônica, 25 ml.

É isso. Levando em conta a quantidade de álcool puro, o consumo francês por habitante é de 9,2 litros por ano. O dos EUA, 8,7. O do Brasilzão, 7,8 litros. O do mundo, 6,4 – sim, relativamente pouco, até porque o álcool é proibido em 11 países, todos islâmicos.

Nada disso significa que o planeta esteja deixando de beber. Não é isso. Os 2 bilhões de humanos que saíram da pobreza  extrema nas últimas décadas, principalmente na Ásia, ainda puxam o consumo total de álcool para cima. Mesmo com uma proporção menor da população bebendo, o consumo total do planeta aumentou, puxado pelos países em desenvolvimento. A subida, aí, foi de 5,7 litros de álcool puro por pessoa para os atuais 6,4 litros.

O Brasil, porém, também viveu uma era de crescimento econômico, pelo menos nos anos 2000, e mesmo assim o consumo per capita diminuiu em 14% neste século. Nos países desenvolvidos, mais ainda. A Europa como um todo baixou seu consumo por habitante de cavalares 12,1 litros de álcool puro para 9,8 litros. Uma queda de 19%.

E quem tende a beber menos são justamente os jovens. Em 2005, 17% dos britânicos entre 16 e 24 anos eram teetotaller (o termo inglês para “abstêmio”). Em 2015, de acordo com um estudo do University College, de Londres, eram 29%.       

Beba menos, beba melhor

Em Mad Men, o seriado que se passa nos anos 1960, uma personagem diz para a amiga que tinha dado uma corridinha pela manhã. “Mas para quê?”, pergunta a amiga. Esse diálogo mostra um pouco das forças que fizeram boa parte do mundo, Brasil incluído, a maneirar na bebida: as pessoas se preocupam mais em se exercitar, em dormir melhor, em reduzir colesterol e triglicérides. Nada disso combina com o uso constante de álcool.

Mas não foi só essa postura mais saudável diante da vida que fez o consumo de álcool diminuir.

De acordo com a OMS, 80 países têm alguma política para a diminuição do consumo de álcool (não entram na conta os que proíbem, porque aí não é política, é só autoritarismo religioso mesmo).

Quais políticas? Cada país tem as suas, mas todas dizem respeito a reduzir a publicidade, impor limites de horário ao comércio de álcool, punir exemplarmente quem bebe e dirige e, mais recentemente, proibir o comércio de bebidas baratas demais – que servem de chamariz para jovens.

A França baniu os anúncios de bebibidas alcoólicas na TV em 1991. A Rússia proíbe em todas as mídias, incluindo a internet, desde 2013. No Brasil, a restrição é parcial: só não podem comerciais de TV antes das 21h. Parcial mesmo. A lei de 1996 que determina isso foi feita sob medida para permitir a propaganda de cerveja. Ela só restringe bebidas com 13% ou mais de álcool. Seja como for, há um Projeto de Lei em tramitação no Senado para colocar todas as bebidas nesse bonde.   

A França baniu os anúncios de bebibidas alcoólicas na TV em 1991. A Rússia proíbe em todas as mídias, incluindo a internet, desde 2013.

Outra medida é a proibição da venda de álcool em supermercados e lojas de conveniência após um certo horário, tipo 22h ou 23h. Trata-se de uma medida para evitar que quem bebeu um pouco no começo da noite tenha de lidar com a tentação de comprar um monte de cerveja, levar para casa, e seguir o happy-hour noite adentro.

Esse tipo de restrição é tão universal hoje que estranho mesmo é um país como o Brasil, onde as lojas de conveniência

vendem álcool livremente na madrugada. Pelo Rappi, inclusive.

Bem menos universal, mas também eficiente, é a ideia de não permitir gorós baratos. A Rússia, que ganhou fama por ter vodca mais barata do que leite nos anos de URSS, fez justamente isso.

Em 2010, o governo Putin estabeleceu um preço mínimo para qualquer destilado com mais de 28% de álcool (em outras palavras, qualquer destilado bom, rs). Hoje, está em R$ 25 o litro – levando-se em conta que o salário mínimo da Rússia é igual o nosso, o valor não é tão baixo quanto parece. Parece ter dado certo, já que boa parte daquela redução de 43% no consumo russo de álcool aconteceu de 2011 em diante.

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(Dulla/Superinteressante)

A terra da vodca parece ter inspirado a terra do uísque. A Escócia se tornou o primeiro país do mundo  a definir um preço por “unidade de álcool”. Uma unidade é o nome que a literatura médica dá para cada porção de 10 ml de álcool puro (uma lata de cerveja tem 17 ml, para você visualizar melhor).    

Bom, a discussão foi feroz e durou anos. A Associação de Uísque Escocês levou a briga aos tribunais, mas o governo ganhou. Desde maio de 2018, o escocês tem que pagar o mínimo de 50 centavos de libra por unidade de álcool.

Isso leva uma garrafa de dois litros de cidra de alto teor alcoólico (7,5%), uma bebida popular no país, a sair por pelo menos 7,5 libras (R$ 40) – antes dava para encontrar por 2,5 libras (R$ 13). No primeiro ano da medida, o volume de álcool vendido caiu 3%,  e alcançou o menor nível desde que os registros oficiais começaram a ser feitos, em 1994. O governo escocês estima que será possível salvar quase 400 vidas nos cinco primeiros anos da medida.

Zero álcool

Sinal dos tempos: agora os sóbrios estão na mira da indústria de bebidas alcoólicas. Os três primeiros colocados da Maratona de Berlim de 2017 brindaram no pódio com três imensos canecos de cerveja de trigo zero álcool – da Erdinger, que era uma das patrocinadoras da prova.

A categoria das cervejas sem álcool ainda é pequena – responde por 5% do volume total. Mas é a que mais cresce. O consumo planetário de cerveja sem álcool aumentou 3,9% nos últimos cinco anos, contra 0,2% da gelada tradicional. Na Alemanha, enquanto o consumo de cervejas tradicionais caiu entre 2001 e 2016, o de geladas não alcoólicas subiu 43%, segundo o
Euromonitor Internacional.

A AB InBev diz que, até 2025, pelo menos 20% virá de cervejas “com baixo ou zero teor de álcool”.

A Heineken, segunda maior fabricante de cerveja do mundo, lançou sua versão zero nos EUA em 2019 a tempo de aproveitar o Dry January (janeiro seco), movimento espontâneo que vem se popularizando e estimula os jovens a ficarem o primeiro mês do ano sem beber (até para compensar os excessos das festas de final de ano). A exemplo da rival alemã, a cervejaria holandesa tenta dar ao seu produto zero uma aura saudável, fitness. Anúncios da Heineken sem álcool espalhados no metrô de Nova York sugeriam: “Encontre alguém para tomar uma na academia.”

A AB InBev vai na mesma linha. A maior fabricante de cerveja do mundo, dona das marcas Stella Artois, Brahma e Budweiser, vislumbra que, até o final de 2025, pelo menos um quinto de suas vendas virá de marcas “com baixo ou zero teor de álcool” (no jargão da indústria, “baixo teor” é qualquer cerveja com 3,5% de álcool ou menos – dois terços de uma normal).

A ideia de focar nas cervejas zero faz mais sentido para a indústria do que parece. As grandes sofrem com a concorrência das cervejas artesanais no mundo todo, e já aprenderam que não basta comprar cervejarias pequenas. Os fãs das IPAs e APAs buscam as marcas independentes, até por uma questão filosófica. Soa sarcástico, mas as bebidas que não embebedam podem ajudar as gigantes neste cenário amargo para elas.

No fim, qualquer redução etílica é uma boa notícia. O álcool mata 3,3 milhões de pessoas por ano. Seja pelo que ele faz com o corpo – cirrose no fígado, câncer de boca, ataque cardíaco –, seja pelo que ele faz com a mente – a OMS coloca 27% dos acidentes de trânsito, 18% da violência doméstica mais 18% dos suicídios na conta do álcool.

Nada disso significa que o álcool seja um inimigo da humanidade. O vinho está entre nós há 8 mil anos. A cerveja, há 13 mil – por essas, há quem defenda que a criação da agricultura, pontapé inicial daquilo que chamamos de civilização, tinha como objetivo principal produzir cerveja, não comida. Dá para viver bem e beber, contanto que você o faça de forma civilizada.