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A ciência já comprovou: a hipnose realmente altera o funcionamento do cérebro. A razão se desliga da emoção e se deixa levar pelas sugestões do hipnotizador.

Texto: Agência Fronteira | Edição de Arte: Jorge Oliveira | Design: Andy Faria | Imagens: Getty Images


Exercitar a mente é tão importante quanto exercitar o corpo. E esse treinamento requer foco para oferecer resultados, como qualquer outro. O transe hipnótico é nada mais do que um nível de extrema concentração, em que o cérebro está trabalhando apenas nos comandos que lhe foram passados, como uma máquina extremamente eficiente. Uma pessoa sob o efeito da hipnose não tem nada de adormecida ou “enfeitiçada”. Ela apenas está altamente concentrada, realizando atividades específicas, como num treino, e ensinando para a própria mente como selecionar os pensamentos. Controle puro.

Em 1998, o psiquiatra Henry Szechtman, da Universidade McMaster, no Canadá, publicou um experimento que ajudou a desvendar como a hipnose opera dentro do cérebro. Sua intenção era provar que pacientes em transe não estavam apenas imaginando o que o hipnotizador sugeria – o que não teria efeito nenhum de tratamento, pois seria esquecido após o transe –, mas que eles estavam conseguindo, de fato, adestrar o cérebro. A experiência era a seguinte: oito pessoas vendadas ouviam uma frase gravada. O psiquiatra desligava o som e pedia aos voluntários que ficassem repetindo para si mesmos aquele texto. Todos eram submetidos à hipnose, então ele dizia que colocaria a fita para rodar novamente. Só que ele não tocou som nenhum. Mas todos alegaram ter escutado a gravação.

O trunfo do experimento foi que Szechtman conseguiu monitorar o que acontecia no cérebro de cada um dos voluntários durante a hipnose com a ajuda de um aparelho de tomografia. O resultado dos exames foi revelador. A atividade cerebral era idêntica nos dois momentos: quando a gravação tocou de verdade e quando eles estavam hipnotizados achando que ela estava sendo reproduzida. Mas, quando estavam acordados, fora do transe e sem ouvir o som, o funcionamento era diferente. Dessa maneira ficou evidenciado que, sob hipnose, o cérebro é capaz de simular a realidade. Ou seja, as sugestões de um hipnotizador podem ser ouvidas, vistas e sentidas como se fossem reais. Isso permitiu comprovar que a hipnose é mais do que imaginação: para o cérebro, é tudo realidade.

Ali, naquele momento, não houve como explicar o porquê desse efeito. Apenas foi possível comprová-lo. Entretanto, pesquisas mais recentes já começam a apontar que áreas do cérebro são diretamente afetadas. Como define a Associação Americana de Psicologia, a hipnose é um procedimento no qual um profissional sugere que a pessoa experimente mudanças em sensações, percepções, pensamentos ou comportamentos. Para isso, é necessário que duas coisas simultâneas ocorram: as áreas do cérebro responsáveis pela razão e pela lógica precisam ser dominadas, minimizando o senso crítico, e as áreas que cuidam das emoções devem ser desconectadas do resto, impedindo a interferência do nosso banco de dados dos sentidos.

O senso crítico diminuído é o que faz o paciente acreditar que, sim, a gravação está tocando. O cérebro racional está tão concentrado na frase e nas instruções do hipnotizador que ele de fato acredita que a está escutando. Essa alucinação só é possível porque o cérebro emocional não está se comunicando com a razão; é nele que estão as nossas sensações. Se o cérebro emocional estivesse informando ao racional que não há ondas sonoras chegando aos ouvidos, essa alucinação não seria possível.

O poder da amígdala

A amígdala – não aquelas da sua garganta, mas a do seu cérebro – é o nosso centro emocional. Ela fica no sistema límbico, o responsável por nossos instintos, sensações, desejos sexuais e outras reações automáticas, como a dor e a fome. Quando falamos sobre uma comida de que gostamos muito, é natural começar a salivar. Isso é culpa do sistema límbico, que recebe a informação do prato, acessa o seu banco de memórias, lembra o prazer que a comida oferece e libera os neurotransmissores responsáveis por fazer a boca se encher de água, como se estivesse se preparando para uma bela mordida. Esse mesmo procedimento poderia ser descrito para infinitas situações. É aqui que nasce a noção de perigo que nos faz correr, a vergonha que nos faz corar e o medo que nos paralisa.

O objetivo de um tratamento com hipnose, então, é conseguir se apoderar da amígdala, garantindo que ela não influencie o raciocínio e não interfira nos comandos oferecidos pelo hipnotizador. Essa resposta começou a aparecer num teste feito em 2002 pelo neurocientista Pierre Rainville, da Universidade de Montreal. Ele pediu que voluntários hipnotizados mergulhassem a mão em tigelas com água muito quente e lhes disse que nada aconteceria. Resultado: ninguém sentiu dor.

<strong>Um estudo comprovou que o cérebro é capaz de simular a realidade durante a hipnose.</strong>

Um estudo comprovou que o cérebro é capaz de simular a realidade durante a hipnose. (Tim Flach/Getty Images)

Avaliando os exames de ressonância magnética, foi possível notar que o sistema límbico estava operando normalmente. Mas o neocórtex, região onde mora nossa consciência, ignorava os seus sinais. A extrema concentração parece ser o que leva a isso. Com o cérebro racional absolutamente focado nos comandos oferecidos, a consciência tem seu senso crítico reduzido e perde as referências que a amígdala poderia enviar – e, por isso, fica totalmente vulnerável às sugestões do hipnotizador. Apesar de saber que essa desconexão acontece, os pesquisadores ainda não sabem exatamente como.

Mas, olha que curioso: como o sistema límbico continua funcionando, dá para tentar reprogramar o nosso banco de dados de emoções. “Sob o efeito da hipnose, é possível alterar percepções internas e mobilizar sensações diferentes”, explica o ginecologista Osmar Ribeiro Colás, fundador do Grupo de Estudos de Hipnose da Unifesp. Além de reduzir o senso crítico, com os comandos, é possível criar associações mais positivas. “Imagine uma mulher em trabalho de parto, por exemplo.

Para ajudá-la a lidar com a dor, é possível fazer com que ela mentalize seu bebê sorrindo, feliz por aquele momento de chegada que se aproxima, a cada contração. Durante o transe, você consegue criar muito bem essa sensação, desviando a atenção da dor e permitindo que ela se concentre num novo sentimento”, diz Colás.

Desse modo, a mulher consegue levar o trabalho de parto com muito mais tranquilidade, deixando aquele sentimento negativo e incapacitante em segundo plano. Essa técnica pode ser usada para qualquer situação em que as emoções negativas estejam atrapalhando o indivíduo. Daí o potencial da hipnose para ajudar a superar traumas, medos e transtornos mentais, como a depressão.

Mente em transe

O médico Osmar Colás ainda explica que essa indução ao transe hipnótico é muito mais simples e natural do que estamos acostumados a ver. “O transe é uma condição fisiológica, que tem a ver com concentração. Qualquer um que tenha vivenciado uma experiência de ter se desligado por alguns segundos, quando estava dirigindo, por exemplo, sabe o que é isso”, comenta. “Esse blackout acontece porque o cérebro estava muito focado em alguma outra questão – e porque dirigir é uma atividade que, muitas vezes, nos coloca num modo automático”, diz. Durante o transe, acontecem algumas mudanças no corpo: as pupilas ficam dilatadas e há um relaxamento parcial dos músculos e da respiração.

Para chegar lá por um processo induzido (ou até mesmo autoinduzido), basta treinar. “Pessoas que têm trabalhos mais relacionados às artes conseguem, normalmente, ser hipnotizadas com mais facilidade. São pessoas criativas que, em geral, têm o lado imaginativo muito aguçado. Além disso, para desencadear uma produção criativa, muitos já entram em transe espontaneamente, com a mente focada”, explica Colás.

Se você costuma pintar ou desenvolver algum trabalho manual, ou até mesmo se você gosta de correr por aí, já deve ter experimentado essa sensação de se desconectar. É possível passar vários minutos realizando uma atividade assim sem ser atrapalhado nem por você mesmo, com sensações de fome ou fadiga, por exemplo. É como se esquecêssemos de tudo em nossa volta: o corpo relaxa, as sensações fluem e a mente se concentra com plenitude. Isso é o transe.

<strong>No transe, a razão ignora os estímulos do cérebro emocional, deixando a mente vulnerável às sugestões.</strong>

No transe, a razão ignora os estímulos do cérebro emocional, deixando a mente vulnerável às sugestões. (Mitsuru Sakurai/Getty Images)

Atletas hipnotizados

Não é à toa que atletas têm se aproveitado cada vez mais dos benefícios dessa alta concentração. Os esportistas conseguem níveis altíssimos de concentração, desviando a atenção do nervosismo, da pressão, de problemas externos e até mesmo do cansaço, e, naquele momento, focalizam apenas a bola, os movimentos da equipe e o adversário. Alguma vez, durante uma pelada, você já se esqueceu de como tinha realizado alguma jogada ou se não lembrou muito bem dos detalhes da partida, enquanto aquele seu amigo ficou tagarelando sobre cada passe?

Pois é, provavelmente, você entrou em transe espontaneamente, por estar extremamente concentrado. Já pode se gabar. A Portuguesa, o clube de futebol paulistano, surpreendeu quando anunciou que, sim, seus jogadores já foram submetidos à hipnose para melhorar sua performance. É tudo uma questão de exercitar não só o corpo, mas a mente também, antes de entrar em campo. Só que nem a hipnose conseguiu livrar o time do rebaixamento para a terceira divisão, ao fim do Brasileirão de 2014.