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História

A invenção do teatro

O início da tragédia, da comédia e da figura do ator.

Texto: Agência Fronteira | Edição de Arte: Juliana Vidigal | Design: Andy Faria | Ilustrações: Caco Neves e Getty Images


Havia mais de 80 festivais na Grécia do século 5 a.C. Um deles, o Dionísia Citadina, homenageava um dos personagens mais famosos da mitologia grega, Dionísio, o deus do vinho, com procissões animadas. Eram coros formados por 50 integrantes chamados à época de ditirambos (que significa “hino em uníssono”). Vestidos de sátiros (criaturas metade homem, metade bode), empunhando falos de madeira e bronze e tocando tambores e flautas, eles entoavam cantos ao deus fanfarrão.

Como não podia deixar de ser, as odes a Dionísio eram regadas a vinho, e a coisa ia ficando mais animada à medida que a embriaguez tomava conta do coro. O estímulo etílico à criatividade foi sofisticando as procissões, que passaram a incluir danças, cenas e declamação. Até que um dia, em meados do século 4 a.C., Tépsis de Icárion, que atuava como corifeu, responsável por dirigir o coro e dialogar com a plateia, encarnou Dionísio usando uma máscara. Nascia ali o primeiro ator de teatro de que se tem notícia, em grego, hypokrites, que significa “intérprete” – a raiz da palavra hipocrisia em português. Surgia também a tragédia e a comédia, dependendo do tom assumido pela história.

Nas suas origens, o teatro estava intimamente ligado à religião. Com sua popularização, porém, os primeiros dramaturgos passaram a buscar assunto em tudo o que é lenda. Frínico, por exemplo, pioneiro em introduzir personagens femininos em cena, foi também quem escreveu sobre acontecimentos contemporâneos, como a Tomada de Mileto, em aproximadamente 494 a.C. A tragédia conservava uma estrutura dramática específica: uma cena de exposição (prólogo), a entrada do coro na arena central do teatro (párodo), sucedida por atos ou cenas (epeisódia) e, por fim, a saída do corpo e dos atores (éxodo).

O gênero se tornou tão popular que, por volta de 480 a.C., havia até uma competição para escolher a melhor peça trágica. Já a comédia fazia piada de tudo e todos. Políticos, filósofos, artistas eram ridicularizados. Aristófanes, o maior escritor do gênero, chegou a ser perseguido por fazer críticas duras a Cleon, político ateniense. Mas não se fez de rogado. Era um franco-atirador: nem Sócrates e seu colega de teatro Ésquilo foram poupados das suas ironias no palco. Depois da Guerra do Peloponeso, porém, a comédia sofreu uma transformação. Saíram de cena os políticos e estadistas e entraram homens comuns, com seus dramas e paixões. Começaram ali os estereótipos que a gente tão bem conhece hoje: o rapaz apaixonado, o pai severo, o soldado fanfarrão, o parasita etc.

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Embora houvesse dezenas de dramaturgos, quatro entraram para a história: Aristófanes, Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. Ésquilo, considerado o pai da tragédia, conquistou 13 prêmios nos concursos dramáticos. Em uma de suas peças mais aplaudidas, Os Persas, ele conta a derrota dos persas na Batalha de Plateia, ocorrida mais de uma década depois da Batalha de Maratona, onde ele próprio foi um dos soldados. Além de escrever, Ésquilo entrava em cena. Mas o maior vencedor dos concursos dramáticos foi Sófocles, autor da trilogia Édipo Rei. Dos mais de 30 concursos nos quais competiu, venceu em 24 e nunca obteve uma classificação inferior ao segundo lugar. Suas obras são consideradas as mais dramáticas e humanas.

O dramaturgo ocupou vários cargos públicos, inclusive o de general ao lado de Péricles, um dos maiores estadistas da Grécia Antiga – mas consta que era melhor nas letras do que nas armas. Já as peças de Eurípedes divergem bastante das de seus antecessores – ele foi também o menos famoso e o mais recluso dramaturgo à época. Eurípedes fez uma inovação: misturou o trágico e o cômico. Suas peças incluíam discussões filosóficas e morais e passaram a valorizar a psicologia dos homens. Ele também diminuiu o papel do coro e inseriu longos monólogos explicativos.

Os mecenas do palco

As peças eram financiadas por ricaços que pagavam todas as despesas, como aluguel do teatro, compra do figurino e salário dos atores. Para estimular o financiamento, os choregos (nome dado aos mecenas do teatro) recebiam monumentos em locais públicos. Apesar de bancadas pelos abonados, as peças eram uma diversão popular. Por volta do ano de 415 a.C., um ingresso custava dois óbolos (a moeda de menor valor da época), bem acessível a todo ateniense. Para aqueles que não conseguiam pagar, havia o “fundo do espectador”, que era público. Embora fossem enormes – o Teatro de Dionísio na Acrópole tinha lugar para 17 mil pessoas –, os teatros não davam conta da procura. Quem não encontrava ingresso tinha de se acomodar nas ladeiras às margens dos auditórios.

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