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Saúde

A nova face da plástica

A tendência é moldar o rosto com preenchedores.

Lábios carnudos, bochechas marcadas, mandíbula bem definida, queixo esculpido. Esses são os resultados prometidos por clínicas de estética facial que vendem o “pacote Kylie Jenner”: um festival de substâncias injetadas em todos os cantos da cara com o objetivo de reproduzir a transformação pela qual passou a americana de 21 anos e 131 milhões de seguidores no Instagram.

Nos últimos cinco anos, ela deixou para trás a carinha adolescente e adotou a mesma aparência de mulherão de sua irmã, a socialite Kim Kardashian. A pele clara, a boca fina e o nariz com sardas deram lugar ao rosto bronzeado, anguloso e com lábios volumosos. O visual é desejado (e copiado) por boa parte das mulheres que acompanham Kylie e sua família há 12 anos no reality show Keeping Up with the Kardashians, um dos programas de maior audiência da TV americana.

A metamorfose não tem mistério: Kylie recorreu a preenchedores para modificar seus traços. Assim como muitas outras pessoas que querem mudar algum aspecto do rosto sem cirurgia. Entre 2012 e 2017, procedimentos com injetáveis – que incluem, por exemplo, o ácido hialurônico e a toxina botulínica, o botox – aumentaram 40,6% nos Estados Unidos (1) . No Brasil, o crescimento foi ainda maior: 80%. Isso só entre 2014 e 2016 (2).

O ácido hialurônico é a substância mais requisitada por quem quer um nariz mais retinho ou sobrancelhas arqueadas sem precisar entrar na faca. Apesar de ser usado no Brasil desde 1996, ele se popularizou nos últimos anos com a onda da “harmonização facial”. O tratamento estético que caiu no gosto dos brasileiros (sim, homens também fazem) busca equilibrar as características do rosto apenas com preenchimentos. Se o que incomoda é a boca fina, algumas sessões de agulhadas do ácido garantem lábios com mais volume; caso seja o queixo pouco delineado, o produto dá uma redesenhada nele.

O último levantamento global de procedimentos estéticos da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS) aponta que foram realizadas 254 mil aplicações de ácido hialurônico no Brasil apenas em 2017. O número é três vezes maior do que o total de rinoplastias. Não é para menos: modificar o nariz com um preenchedor é bem mais barato do que por meio de uma operação cirúrgica. Cada aplicação do ácido hialurônico custa, em média, R$ 2 mil; já uma rinoplastia não sai por menos de R$ 8 mil.

Mas não é só o preço que justifica o apelo dessa substância – a segurança também. Entre os preenchedores, é o método com menor risco de provocar uma reação alérgica (a probabilidade é de menos de 1%). Isso porque nós já produzimos ácido hialurônico naturalmente, então o organismo não o vê como algo estranho. Até os 30 anos, temos boas quantidades desse ácido, que confere mais elasticidade à pele e às articulações – ele atrai água, então funciona como um lubrificante. Na pele, é como se fosse a espuma de um colchão – assegura a derme firme e maleável que todo mundo tem aos 20 e poucos, e ninguém aos 40 e poucos.

A ciência sabe como produzir ácido hialurônico a partir de várias fontes. Está descoberta a fonte da juventude, então? Não. O ácido que o corpo produz é líquido. Não dá para aplicar de forma eficiente. “Se injetarmos a versão líquida, ele só vai hidratar a região, e será dissolvido em até 72 horas”, diz o médico Jardis Volpe, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia. O que a indústria faz é outra coisa: ácido hialurônico em gel. Ele não devolve a juventude, mas esculpe o rosto de forma segura, como dissemos lá atrás.

Cada aplicação dura de seis meses a dois anos. Há versões mais finas, usadas nos lábios, e outras mais espessas, para regiões com pele grossa – bochecha, nariz, contorno do rosto. Bônus: se o resultado não ficar bom, dá para dissolver o ácido com um antídoto, a enzima hialuronidase – que também é produzida no nosso organismo.

Outra classe de preenchedor que tem ficado mais popular é a dos estimuladores de colágeno. A proposta aí não é tanto dar volume, mas aumentar a espessura da pele. Funciona assim: o produto, quando injetado, causa uma inflamação leve, que dura algumas semanas. Esse processo ativa os fibroblastos, células que produzem colágeno, proteína que dá firmeza à pele.

O botox, mais um queridinho de quem não quer encarar o bisturi, age de forma bem diferente. Ele não preenche nada, só paralisa a contração muscular, para evitar rugas. A toxina botulínica faz isso bloqueando temporariamente a acetilcolina, neurotransmissor responsável pela movimentação dos músculos. Essa é a mesma origem do botulismo (daí a coisa chamar “toxina botulínica”). A dose nos tratamentos estéticos, porém, é cem vezes menor do que a necessária para causar problemas.

(1) Dados da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica Estética.
(2) De acordo com o mais recente censo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP)

Plástica sem caô

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(Yan Blanco/Superinteressante)

Não são só cirurgiões plásticos e dermatologistas que executam tratamentos de harmonização facial. Dentistas, farmacêuticos e biomédicos também. Isso é motivo de muita disputa entre a classe médica e as demais categorias. Cirurgiões plásticos e dermatologistas dizem que somente eles deveriam fazer esses procedimentos, já que seriam os mais preparados não só para lidar com questões técnicas, mas também com possíveis complicações. Os profissionais das outras áreas não concordam, naturalmente.

Em janeiro de 2019, o Conselho Federal de Odontologia publicou uma resolução que torna a harmonização facial uma especialidade da profissão. Significa que dentistas podem, oficialmente, se tornar especialistas em aplicações de preenchedores, botox e outros procedimentos com fins estéticos em qualquer região acima do pescoço. “A atuação do dentista e do médico se confunde nessa área. Alguns problemas são cuidados por médicos, outros por dentistas, e outros pelos dois”, pontua Marcelo Januzzi, do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo.

Independentemente do profissional escolhido, é fundamental que ele tenha experiência com preenchimentos. Por mais seguros que sejam os produtos, aplicações feitas nos lugares errados, como em vasos sanguíneos, podem causar deformidades, necrose, cegueira. “Fazer boas injeções parece simples. A curva de aprendizado, porém, não é rápida”, observa Volpe.

A qualidade do material é tão importante quanto a do profissional. Fique com um pé atrás se a proposta for injetar substâncias não absorvidas pelo organismo, como o polimetilmetacrilato, mais conhecido como PMMA. Ele é liberado pela Anvisa para procedimentos estéticos, mas boa parte dos médicos é contra. Tanto a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica como a Sociedade Brasileira de Dermatologia defendem que o uso e a comercialização do PMMA deveriam ser banidos no País.

O PMMA consiste em microesferas de acrílico, que rapidamente se espalham pela região onde foram aplicadas. É praticamente impossível removê-las totalmente, caso seja necessário. Por ser um material estranho ao organismo, as possíveis complicações vão de reações alérgicas a necrose da área contaminada. Em situações mais graves, o quadro evolui até para a morte. Muitos recorrem a esse método pelo preço – a aplicação sai por R$ 900, bem mais em conta do que o ácido hialurônico. O problema é que o barato pode sair (muito) caro.

Rosto preenchido

Nariz reto e empinado, bocão, olheiras discretas: os principais desejos das mulheres adeptas dos preenchedores faciais.

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(Yan Blanco/Superinteressante)

Olhos descansados

O ácido hialurônico ajuda a clarear o tom arroxeado das olheiras. Ao preencher a região, ele afasta a pele dos vasos sanguíneos, diminuindo a mancha escura.

Narizinho

A ideia é equilibrar a “corcunda” no dorso do nariz – aplicando um pouco de ácido acima ou abaixo do dorso. Também injetam na pontinha, para dar uma arrebitada.

Lábios de mel

O preenchedor garante mais volume labial. Aplicado no contorno dos lábios, o ácido pode definir melhor o desenho da boca.

Rosto anguloso

Preenchedores injetados no queixo e na mandíbula realçam o contorno da face em quem tem essas áreas pouco definidas.

Sobrancelha arqueada

A aplicação na lateral externa do supercílio eleva a região. Dá para fazer com ácido hialurônico, botox e estimulador de colágeno.

Bem na selfie

Nunca fotografamos tanto nosso próprio rosto. Uma pessoa que nasceu entre 1980 e meados da década de 1990 – um millennial, portanto – vai tirar mais de 25 mil fotos de si mesma até o fim da vida. Os integrantes dessa geração, que hoje têm entre 20 e 40 anos, passam uma hora por semana, em média, buscando o ângulo perfeito para clicar a própria cara.

E isso tem tudo a ver com o boom de procedimentos estéticos dos últimos anos. Pesquisadores da Universidade Kirikkale, na Turquia, publicaram, em 2017, um dos primeiros artigos sobre o tema. Eles analisaram o que mudou na rinoplastia após a era das selfies. A cirurgia de nariz ocupa o quarto lugar no ranking dos procedimentos cirúrgicos mais executados no mundo, segundo a ISAPS. Entre 2016 e 2017, foi a cirurgia que mais cresceu, com uma alta de 11%.

Para os cientistas turcos, a quantidade excessiva de fotos que as pessoas tiram delas mesmas tem grande participação nisso, justamente porque elas passam muito tempo reparando no próprio rosto. Se antes o que mais incomodava era a curvatura no dorso do nariz (aquela “corcunda” que alguns têm), hoje, há uma preocupação maior com detalhes como a assimetria entre os dois lados da face – algo que, em maior ou menor grau, todo mundo tem.

Pior. Um estudo americano publicado no ano passado no jornal científico Jama Facial Plastic Surgery concluiu que as fotos que tiramos de nós mesmos, geralmente a uma distância de 30 centímetros, aumentam em 30% o tamanho do nariz. A explicação: essa é a parte do rosto mais próxima da câmera – que, nos smartphones, costuma ter uma lente grande angular. A proposta é capturar cenas mais amplas (e, claro, caber todo mundo na selfie), então a lente destaca o que está no centro da imagem e comprime o que está nas bordas. Daí o nariz parecer maior do que ele realmente é. Quanto mais perto da câmera, mais esse efeito se intensifica. Na pesquisa, as proporções faciais se mantiveram corretas quando o clique foi a 1,5 metro do rosto. (Talvez o pau de selfie não seja uma ideia tão ruim, né?)

Os filtros do Instagram e do Snapchat – aqueles que aumentam os olhos, afinam o rosto etc. – também estão na mira da ciência. Algumas pessoas estariam desenvolvendo o que especialistas têm chamado de “dismorfia do Snapchat”. O termo foi cunhado por um cirurgião britânico após chegarem ao seu consultório pessoas querendo que seus olhos, nariz e pele ficassem iguais a quando elas recorriam aos filtros.

Em um artigo publicado em abril de 2018, também no Jama Facial Plastic Surgery, dermatologistas da Universidade de Boston afirmam que “a tendência é alarmante, porque algumas dessas feições são inatingíveis”. O comportamento já é percebido aqui no Brasil. “Tive alguns casos em que as pacientes queriam olhos de gato. Mas isso não existe!”, diz o cirurgião plástico Eduardo Sucupira, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

A preocupação com a aparência é algo tão natural quanto a preocupação com a saúde. Mas, da mesma forma que há hipocondríacos, também não falta quem eleve a preocupação estética ao patamar de obsessão. São os portadores daquilo que os médicos chamam de “transtorno dismórfico corporal”.

E não estamos falando apenas dos Michael Jacksons da vida, mas de qualquer pessoa que fique obcecada com supostos “defeitos” que só ela percebe. “Estudos mostram que até 15% daqueles que fazem cirurgia plástica podem ter esse transtorno”, diz a psiquiatra Albina Rodrigues Torres, professora da Faculdade de Medicina de Botucatu – Unesp. Em algumas situações, entrar na faca (ou injetar um preenchedor) ajuda a apaziguar um incômodo, de fato. Mas cuidado. Às vezes o problema não está no rosto. Está na cabeça.

Filtro eterno

Irmãs Kardashian, filtros e aplicativos que mudam o rosto inspiram o boom nas plásticas.

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(Yan Blanco/Superinteressante)

Olhão

Aplicações leves de botox ao redor da cavidade ocular podem aumentar a área dos olhos, e deixar seu rosto com um “filtro eterno” de Instagram. Mas cuidado: o risco de resultados desastrosos é alto.

Boca à la Kylie Jenner

A Kardashian é a musa inspiradora de quem quer ter bocão. Existe até um filtro no Stories do Instagram com o nome dela que aumenta instantaneamente os lábios – e ainda permite trocar a cor do batom.

Contorno facial

As Kardashian também popularizaram o contour, técnica de maquiagem que cria pontos de sombra e luz para refinar os traços do rosto. Dá para obter o resultado de forma mais definitiva com preenchedores e com a bichectomia, cirurgia que retira gordura da bochecha.

Sorriso brilhante

Apps de edição permitem deixar os dentes mais brancos. Mas muita gente tem recorrido às lentes de contato dentais: lâminas de cerâmica que clareiam e dão brilho. A plástica gengival também está se popularizando – a ideia é deixar menos gengiva aparente ao sorrir.