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Ciência

A psicologia segundo Jung – e como funciona uma sessão de terapia junguiana

Para Jung, você é o que você aprende ao longo da vida - mas também o que herdou de seus ancestrais. E a chave para acessar essas camadas mais profundas podem estar nos seus sonhos.

Texto: Agência de Conteúdo | Edição de Arte: Verúcio Ferraz | Design: Andy Faria

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ápis e papel ou um smartphone na mesa de cabeceira são uma boa providência para quem opta pela terapia junguiana. A abordagem, que também é conhecida como psicoterapia analítica, dá importância especial ao relato dos sonhos. Por isso, com frequência o terapeuta pede a seu cliente que anote o que sonhou para contar com a maior riqueza de detalhes possível na hora da sessão. O motivo da atenção é que a teoria elaborada pelo psiquiatra suíço Carl Jung considera os sonhos uma das principais manifestações do inconsciente – em que estariam as origens para os sofrimentos e as angústias que levam alguém a procurar o tratamento psicoterápico.

O foco no inconsciente é um ponto comum da psicoterapia junguiana com a psicanálise de Freud e a de Lacan. Mas a semelhança não vai muito além disso, afinal, essas terapias divergem sobre o funcionamento e a estrutura do inconsciente. A exemplo de Freud, Jung também debruçou sua teoria sobre o inconsciente das pessoas, mas foi além: propôs a existência do inconsciente coletivo.

A ideia é a seguinte: o inconsciente pessoal reúne lembranças e pensamentos reprimidos ou descartados pelo consciente. Podem ser conflitos pessoais, problemas morais ou pensamentos que causam tristeza, por exemplo. Trata-se, para a abordagem junguiana, de uma área mais superficial de inconsciente. É lá que ficam informações de experiências às quais, conscientemente, a pessoa pode dar pouca importância, mas que podem servir de base para um sonho na noite seguinte.

Na prática, esse banco de dados de lembranças e sentimentos do inconsciente pessoal é um vasto depósito das experiências de cada um. Mas o pulo do gato dessa abordagem é a compreensão de que o inconsciente não é forjado apenas pela vivência qualquer um, mas também pela herança de valores compartilhados por todos e que estão presentes em cada pessoa por meio do inconsciente coletivo.

Nessa camada mais profunda repousam imagens primordiais, que são resultado da trajetória da espécie humana, desde o tempo da cavernas até a era dos selfies. É como um instinto. Nasce com o sujeito e, para Jung, explica, por exemplo, o fato de alguns temas e motivos de lendas se repetirem em todo o mundo de forma semelhante. Exemplo: diferentes povos indígenas isolados podem criar divindades semelhantes para explicar a chuva ou a morte, por exemplo. O que atesta a ideia de que todos nascem com o mesmo potencial de gerar determinadas imagens com base em certas circunstâncias.

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As duas áreas ou camadas do inconsciente interagem permanentemente por meio da relação entre suas estruturas. O inconsciente pessoal se organiza em complexos. São como ilhas temáticas, que reúnem lembranças e sofrimentos ligados a cada aspecto da vida do indivíduo, como sexualidade, relacionamentos ou trabalho. No centro de cada complexo se posicionam as estruturas básicas do inconsciente coletivo preconizado por Jung: os arquétipos, que detêm valores e pensamentos ancestrais relacionados a situações típicas da vida humana, em qualquer lugar ou época, como o medo da morte e a relação com a mãe.

O convívio com a figura materna também ajudaria a explicar essa relação entre arquétipos e complexos. Desde o nascimento, as experiências da relação com a mãe aos poucos vão escrevendo no inconsciente pessoal um complexo de sentimentos bons ou ruins ligados a ela. Tais registros se agrupam em torno do arquétipo que traz a imagem da figura da mãe, herdada do inconsciente coletivo. É esse instinto que faz um bebê perceber e reagir à sua mãe logo que nasce. Com o estímulo do contato, o arquétipo manda a mensagem para o consciente e a criança liga os pontos e sabe que pode ficar tranquila.

<strong>Sonhador – O banco de dados do inconsciente é aberto quando estamos dormindo.</strong>
Sonhador – O banco de dados do inconsciente é aberto quando estamos dormindo. Tomás Arthuzzi/Superinteressante

Jung ainda descreveu arquétipos mais importantes para a formação da personalidade, como a Persona, que estimula uma espécie de instinto de sobrevivência social. É como uma máscara que reveste a realidade interior, compondo um personagem público dotado de atitudes socialmente aceitáveis. Outro arquétipo importante é a Sombra, que leva as pessoas a tentar limpar a consciência de pensamentos e aspectos que seriam reprováveis.

Há arquétipos conectados a todo tipo de figura, momento ou condição, como nascimento, poder, magia, heróis, Deus e demônio. Cada um deles se manifesta para o consciente à medida que a pessoa vai crescendo e tendo contato com uma diversidade de situações que estimulam reações como o medo, por exemplo.

Juntos, consciente, inconsciente coletivo e inconsciente pessoal formam os três grande pilares da estrutura da personalidade proposta por Jung. O consciente tem uma espécie de gestor: o ego. É ele que organiza e conduz a atividade do consciente, com as informações e os sentimentos percebidos por ele e também as transmitidas desde o inconsciente.

Ao longo do desenvolvimento humano, o ego também cuida da mediação entre consciente e inconsciente, combinação que leva ao processo permanente de individuação. É a formação do indivíduo com uma personalidade única, resultado da aplicação das experiência individuais sobre o as bases do inconsciente coletivo.

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Como o desenrolar da vida, essas características únicas de cada pessoa estão sempre em permanente transformação. É o que Jung chama de progressão. Quando isso acontece constantemente, está tudo bem. O problema é que algumas pessoas entram num quadro de regressão. Em vez de manter seu desenvolvimento psíquico normal, a pessoa fica presa a algum sentimento ou situação que a leva a sofrer psiquicamente. Assim, a vida deixa de fluir normalmente e é esse tipo de circunstância que leva as pessoas a buscar uma psicoterapia.

O Tratamento

Se o terapeuta procurado é um seguidor da abordagem junguiana, o primeiro passo é o acolhimento. Nesse momento, o cliente descreve suas queixas e o profissional explica a proposta do tratamento e de sua abordagem para o caso. Os dois fazem um acordo para o início das sessões. Isso inclui o preço, a frequência e a duração dos encontros.

Feito esse acerto, começam as sessões, que, geralmente, são semanais e têm 50 minutos de duração. Esse é o padrão da Associação Junguiana Brasileira. Com perguntas e sugestões, o terapeuta incita o cliente a falar de todos os seus sofrimentos e aflições, além de suas histórias de vida. Além dos relato de experiências, o terapeuta junguiano tem interesse especial sobre o inconsciente. Como não é possível acessar deliberadamente essa parte da personalidade, o profissional se volta às suas principais formas de manifestação: sonhos, atos falhos, fantasias e expressões artísticas.

É para obter essas informações que se pede ao cliente que relate seus sonhos nas sessões. Outras formas de tentar pescar o conteúdo do inconsciente são as expressões artísticas, como o desenho. Para isso, o terapeuta pode manter em seu consultório um kit de lápis, papel, canetas ou tintas. Ele pode pedir que o cliente pinte a cena de uma situação relatada durante o tratamento ou apenas solicitar que desenhe e rabisque aleatoriamente enquanto fala com o terapeuta.

Alguns junguianos também mantêm pequenas caixas de areia com miniaturas de casas, móveis e pessoas para que a pessoa atendida monte cenários ligados a suas memórias e seus sofrimentos. A abordagem também se utiliza da técnica da imaginação ativa, geralmente recomendada a pessoas que já têm uma longa estrada na psicoterapia e já conseguem lidar melhor com seus sintomas.

Funciona assim: o cliente conta na sessão um sonho em que sua ex-namorada aparece convidando-o para uma viagem à Lua. Aí, o terapeuta pede que, em casa, na hora de dormir, quando estiver na cama, o cliente imagine o momento do convite e deixe a cena fluir sozinha na busca de desdobramentos dessa história. É nesse momento que a imaginação ativa entra em campo.

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Nisso, há um cuidado em não permitir que o cliente se distancie dos problemas que o levaram a buscar ajuda. Essa precaução marca uma diferença importante em relação à livre associação presente em abordagens como a psicanálise e a psicanálise lacaniana. Ao longo da sucessão de sessões, o conjunto de informações formado pelo relatos conscientes e pelas manifestações do inconsciente vai mostrando caminhos para que o terapeuta ajude o cliente a superar seus sofrimentos.

<strong>Além dos relato de experiências, o terapeuta junguiano tem interesse especial sobre o inconsciente.</strong>
Além dos relato de experiências, o terapeuta junguiano tem interesse especial sobre o inconsciente. vicnt/getty images/Montagem sobre reprodução

Para clarear as razões do problema, o profissional intervém nos relatos com perguntas que incitam o cliente a circundar os temas mais espinhosos ligados à queixa relatada lá na fase de acolhimento.

Ao avaliar os extratos do inconsciente, os dois dialogam para identificar os símbolos revelados no tratamento. Isso porque essas mensagens dificilmente são literais. Jung entendia que o inconsciente se expressa por meio de símbolos. Uma imagem, pessoa ou situação pode ser o símbolo de um sentimento represado no inconsciente e que não vai aparecer de forma explícita em um sonho, nos desenhos ou na caixa de areia.

Os símbolos têm caráter irracional, sendo ligados principalmente a conceitos abstratos, como as emoções. A cor vermelha, por exemplo, pode significar vivacidade, sofrimento ou paixão, depende do contexto. E chegar à resposta do que está por trás do símbolo é um dos desafios dessa psicoterapia.

Se alguém conta na sessão que sonhou que estava sendo acordado pela mãe porque tinha perdido a hora para a faculdade ou o trabalho, isso pode simbolizar o momento de alguém que está parado em alguma coisa na vida. Mas, para chegar a essa conclusão, é preciso levar em consideração desde a história do cliente até comparações com aspectos mitológicos e folclóricos transmitidos pelo inconsciente coletivo. “Nos símbolos, nossas dificuldades especiais e atuais tornam-se manifestas. Assim como nossas próprias possibilidades de vida e desenvolvimento”, escreve a presidente do Instituto C.G. Jung de Zurique, Verena Kast, no livro A Dinâmica dos Símbolos.

São conclusões a respeito do significado dos símbolos que ajudam a elucidar as causas do sofrimento, outra marca da abordagem junguiana, que se preocupa em conhecer o paciente por inteiro e não agir diretamente sobre o sintoma. É baseado nessa ideia que o terapeuta conduz o tratamento para que o cliente possa chegar a um insight, um novo entendimento sobre os fatos psíquicos que o estimularam a procurar a terapia.

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De acordo com a Associação Junguiana do Brasil, não há um tempo padrão para o tratamento, mas é comum que os pacientes permaneçam de dois a três anos em análise. A alta é determinada com a conclusão conjunta de cliente e terapeuta de que já houve melhora. O gol junguiano é fazer com que o paciente compreenda a si mesmo, saiba o porquê de seus atos e sentimentos e consiga retomar a interação normal do consciente com o inconsciente. E não só nos sonhos.

Conceitos-chave

• Complexos
As experiências conscientes que passaram a ser reprimidas pelo ego e aquelas que nem sequer chegaram a ser percebidas são armazenadas no inconsciente coletivo e agrupadas em complexos. São memórias e sentimentos reprimidos ligados a uma mesma pessoa (a mãe, por exemplo) ou sentimento (inferioridade, por exemplo).

• Arquétipos
São os modelos e valores ancestrais coletivos com os quais as pessoas já nascem. O arquétipo da mãe, por exemplo, permite ao bebê reconhecê-la, assim que nasce, como alguém que vai cuidar dele.

• Ego
É o mecanismo que gerencia a consciência. Filtra quais informações, estímulos externos, sentimentos e pensamentos vão para a consciência ou serão barrados da percepção e retidos no inconsciente pessoal.

• Individuação
É o processo de formação da personalidade individual, por meio da sucessão de confrontos entre o consciente e o inconsciente.

• Símbolo
Imagens, fantasias, metáforas ou recordações que aparecem nos sonhos e demais manifestações do inconsciente.

Os passos da terapia

Seus sonhos e até uma caixa de areia com miniaturas são úteis para descobrir a chave para os problemas.

1 • Não fuja da raia
O terapeuta senta-se de frente para o cliente e pede um relato de seus sofrimentos, além de suas histórias de vida. Não há uma liberdade total sobre os temas a serem tratados. O analista tenta evitar que o analisado se distancie dos aspectos ligados aos sintomas.

2 • O sonho
O analista também pede relatos de sonhos, que fornecem sinais sobre o inconsciente. Clientes que têm dificuldade de lembrar do que sonham podem fazer anotações para contar na sessão seguinte.

3 • Minimundo
No consultório, o terapeuta também pode pedir que o cliente faça desenhos ou monte cenários em uma caixa de área com miniaturas.

4 • O clique
Por meio de relatos, expressões artísticas e atos falhos do analisado, o analista propõe um diálogo sobre as causas do sofrimento com o objetivo de impulsionar um insight que lhe dê um novo entendimento sobre as causas de seus sofrimentos.

Coletivo ou pessoal?
Para Jung, todos nós temos dois tipos de inconsciente: um pessoal e outro coletivo. O pessoal é abastecido pelas experiências e pelos sentimentos reprimidos ao longo da vida. Enquanto o coletivo nasce com a gente, formado por valores e modelos sociais herdados da vivência da espécie humana na Terra, o pessoal reúne lembranças e pensamentos reprimidos ou descartados pelo consciente.