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Ciência

A reinvenção do cérebro

Ler, e controlar, pensamentos. Implantar memórias, aumentar a inteligência, transmitir informações por telepatia. Existem cientistas tentando fazer tudo isso – e, em alguns casos, conseguindo. Conheça as pesquisas que pretendem revolucionar a mente humana.

1. Ler pensamentos (e até sonhos)

Situação atual: testes em humanos

No romance 1984, George Orwell imaginou um futuro em que o Estado fiscaliza até os pensamentos dos cidadãos. Isso é feito vigiando as pessoas enquanto elas assistem à televisão, um método precário e lento (o protagonista do livro, Winston, só é preso após sete anos de monitoramento). No futuro, isso poderá ser feito em tempo real – e diretamente do cérebro.

A ciência ainda está longe de entender como a mente humana funciona. Mas de uma coisa ela já sabe: tudo o que se passa dentro das nossas cabeças pode ser reduzido aos padrões de sinais elétricos que percorrem as sinapses do cérebro. Se você conseguir capturar e decodificar esses sinais, em tese poderá descobrir o que alguém está pensando.

Na última década, várias equipes de pesquisadores tentaram – e, dentro de certos limites, conseguiram – fazer isso. Primeiro, o voluntário é colocado dentro de um aparelho de ressonância magnética, que enxerga os fluxos de sangue dentro do cérebro. Ele cria um mapa com 1 milhão de voxels: cubinhos com 100 mil neurônios cada um. Em seguida, os cientistas mostram determinados estímulos para a pessoa – fotos, palavras, sons –, enquanto monitoram o cérebro dela. Cada elemento (a imagem de um pássaro, por exemplo) ativa determinados conjuntos de neurônios – e a máquina de ressonância, observando o fluxo de sangue para cada um dos voxels, enxerga isso. Repita a medição algumas dezenas ou centenas de vezes, e você terá uma biblioteca de padrões. Quando a pessoa imaginar um pássaro, por exemplo, você saberá que esse pensamento ativa determinados voxels, e poderá identificá-lo.

Em 2017, cientistas da Universidade Carnegie Mellon1 combinaram essa técnica com um sistema de inteligência artificial e conseguiram adivinhar, com 87% de acerto, o que os voluntários estavam pensando. Ok, o sistema é primitivo: limita-se a indicar a presença ou ausência de 42 elementos (como “animais”, “violência”, “perigo”, “deslocamento”, “pessoas” e “grupo de pessoas”) no pensamento. Mas, em outras pesquisas, esse mesmo método foi além: conseguiu indicar se os voluntários estavam pensando, ou não, numa determinada imagem ou cena.   

Talvez seja possível decifrar até um dos fenômenos mais misteriosos da mente humana: os sonhos. É o que acreditam pesquisadores da Universidade de Kyoto, no Japão. Eles colocaram voluntários para dormir2 dentro de máquinas de ressonância magnética. Monitorando a atividade cerebral dessas pessoas, o sistema foi capaz de detectar a presença ou ausência de 20 elementos (como “carro”, “livro”, “prédio”, “mulher”, “homem”, “rua” ou “comida”) nos sonhos das pessoas. Assim que a pessoa terminava de sonhar – o que era constatado monitorando suas ondas cerebrais –, ela era acordada e os cientistas perguntavam o que ela havia sonhado.

A leitura de padrões cerebrais tem usos nobres, como permitir que pessoas paralisadas voltem a se comunicar. Mas também pode tomar caminhos sinistros, permitindo que regimes totalitários leiam à força a cabeça de alguém. O mais provável é que aconteça o que acontece com quase todas as tecnologias:
um pouco de cada coisa.

Fontes 1. Predicting the Brain Activation Pattern Associated With the Propositional Content of a Sentence: Modeling Neural Representations of Events and States. Jing Wang e outros, CMU, 2017. 2. Neural Decoding of Visual Imagery During Sleep. Y. Kamitani e outros, 2013.

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2. Impedir a mentira. Ou torná-la mais convincente

Situação atual: testes em humanos

Aplique uma corrente elétrica minúscula e imperceptível, de apenas 0,001 ampére, no córtex pré-frontal dorsolateral direito de uma pessoa – e ela passará a mentir menos. Essa foi a conclusão de pesquisadores das universidades de Zurique, Chicago e Cambridge3, que colocaram 145 pessoas para jogar dados em frente a uma tela.  O processo tinha dez rodadas, e era simples: a pessoa jogava os dados, e aí a tela mostrava a lista de combinações premiadas (5+2 ou 2+1, por exemplo). O participante ganhava US$ 9 a cada acerto. Mas ele é que deveria dizer se havia de fato acertado, e podia mentir para ganhar mais. Os voluntários não sabiam, mas os cientistas estavam filmando tudo – e constataram que 37% das respostas eram mentirosas. Já com a corrente elétrica, a trapaça caía para menos da metade: apenas 15% das respostas eram mentirosas. O sistema não é perfeito (12 pessoas eram hipermentirosas e sempre trapaceavam, mesmo sob estímulo elétrico), mas o efeito é notável – tanto que seus criadores acreditam ter encontrado a raiz neuronal da mentira. “O córtex pré-frontal dorsolateral direito [que fica logo atrás da testa] está diretamente ligado à honestidade”, diz Michel André Maréchal, um dos autores do estudo.

Dois pesquisadores da Estônia foram além e dispensaram os eletrodos: usaram ímãs para interferir com a atividade elétrica do cérebro de 16 voluntários4. Como você talvez se lembre das aulas de física do colégio, toda corrente elétrica produz um campo magnético. Isso também vale para a eletricidade que passa pelos nossos neurônios, e também funciona ao contrário: se você interferir no campo magnético, vai alterar a corrente elétrica. Os cientistas aproveitaram esse princípio para criar um sistema de indução mental sem fio.

Eles colocaram ímãs perto da nuca dos voluntários e mostraram discos coloridos a eles. O voluntário tinha que dizer qual cor estava vendo – e era instruído a tentar mentir. Metade das pessoas recebeu pulsos magnéticos no córtex pré-frontal dorsolateral direito. E, por isso, mentiu menos. Curiosamente, quando os cientistas estimulavam o córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo, o efeito era oposto – e os voluntários conseguiam mentir mais vezes.

Além de fazer as pessoas mentirem mais, é possível transformá-las em mentirosas mais convincentes. A chave é aplicar uma corrente elétrica muito pequena no córtex pré-frontal anterior, área ligada à cognição e às emoções. Pesquisadores da Universidade de Tuebingen, na Alemanha, aplicaram sinais elétricos para reduzir temporariamente a atividade dessa região – e pessoas antes propensas à honestidade passaram a mentir melhor5. A pesquisa reuniu 22 voluntários numa simulação: eles interpretavam funcionários que tinham desviado dinheiro de suas empresas e seriam interrogados por um detetive. Caso conseguissem enganá-lo, poderiam ficar com o valor roubado (20 euros). Quando recebiam o estímulo elétrico, os participantes mentiam com mais segurança. Ficavam mais tranquilos ao negar envolvimento e pareciam mais capazes de escolher em quais situações seria melhor distorcer dados, de forma a enganar o interrogador sem deixar a mentira óbvia demais.

Fontes 3. Increasing Honesty in Humans with Noninvasive Brain Stimulation, Michel André Maréchal e outros, 2017. 4. Effect of Prefrontal Transcranial Magnetic Stimulation on Spontaneous Truth-Telling, Inga Kartonab e Talis Bachmannc, 2011. 5. The Truth about Lying: Inhibition of the Anterior Prefrontal Cortex Improves Deceptive Behavior. Ahmed A. Karim e outros, 2010.

3. Fazer upload da consciência e de memórias

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(Milton Nakata/Superinteressante)

Situação atual: só existe em teoria 

Escanear o cérebro humano e recriá-lo em computador, preservando a memória e a  consciência das pessoas – que viveriam após a morte como simulações digitais. Esse é um dos cenários mais recorrentes, e menos realistas, da ficção científica. Mas isso não significa que não haja pesquisadores tentando ir nessa direção. A principal iniciativa é o Human Connectome Project, criado em 2009 pelo governo dos EUA em parceria com seis universidades. Seu objetivo é produzir um “conectoma”, ou seja, um mapa com todas as conexões neurais do cérebro humano. Esse mapa poderia ser reproduzido e executado num supercomputador, o que representaria a criação de uma inteligência artificial jamais vista – e o primeiro passo para a digitalização da mente humana. Parece megalomaníaco, e é mesmo. Mas tem certo nexo. Em 2005, o projeto Blue Brain, criado pelo governo da Suíça e pela IBM, conseguiu escanear e simular em computador 31 mil neurônios (e 37 milhões de sinapses) do córtex primário somatossensorial de um rato1. É um nada – não dá nem 0,02% dos neurônios do bichinho –, mas mostra que a técnica em si funciona. O grande desafio é escanear nossa massa cinzenta, um verdadeiro universo (o cérebro humano tem 250 vezes mais sinapses do que há de estrelas na Via Láctea), e criar computadores potentes o bastante para rodar uma simulação dela.

Para tentar resolver o primeiro problema, cientistas do Hospital Geral de Massachusetts usaram um novo tipo de ressonância magnética, que trabalha com campo magnético de 7 tesla – quase cinco vezes mais intenso do que as máquinas comuns. O resultado é uma imagem 3D que mostra, com resolução muito maior, a estrutura e as conexões do cérebro. Em 2017, os pesquisadores escanearam o cérebro de 1.200 voluntários e colocaram os resultados na internet2. Mas ainda estão longe do fim.

“Vamos precisar de pelo menos uma década para terminar de mapear o cérebro, porque é necessário gerar imagens em alta resolução de cada neurônio e cada conexão. E essa nem é a parte mais difícil”, explica o neurocientista holandês Randal Koene, cofundador da empresa Carbon Copies, que tenta descobrir como reproduzir a mente humana em computador. “Depois vamos precisar jogar esses dados num sistema capaz de rodá-los. É possível que na década de 2030 sejamos capazes de fazer isso com cérebros menores, como o de moscas”, diz.

O Human Brain Project, que é bancado pela União Europeia, está tentando vencer os obstáculos tecnológicos. E eles são ainda maiores do que o escaneamento do cérebro. O objetivo do projeto é criar um supercomputador capaz de armazenar, manipular e executar, em tempo real, um banco de dados com 1,1 bilhão de terabytes, o tamanho estimado do conectoma humano. Isso é mil vezes mais do que todos os dados do Google, do Facebook, da Microsoft e da Amazon – somados.

Em suma: impossível não é, mas estamos longe. Se um dia conseguirmos, vai demorar. Por isso uma startup chamada Nectome, criada por dois estudantes do MIT, propôs uma solução: um serviço de preservação supostamente capaz de manter o cérebro intacto por décadas, até que a ciência seja capaz de reproduzi-lo em computador. A empresa demonstrou sua técnica num cérebro de porco, que manteve as sinapses intactas. Mas tem sido vista com ceticismo pela comunidade científica, inclusive por um detalhe macabro: seu procedimento, que é letal, precisa ser feito com o cérebro ainda vivo.

Fontes 1. Reconstruction and Simulation of Neocortical Microcircuitry, Henry Markram e outros, 2005.
2. https://www.humanconnectome.org/study/hcp-young-adult/document/1200-subjects-data-release

4. Aumentar a cognição

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(Milton Nakata/Superinteressante)

Situação atual: testes em humanos 

É possível acelerar o aprendizado em 40%. Pelo menos em macacos. Em 2017, a Agência de Projetos de Defesa Avançados (Darpa), a divisão de tecnologia do Pentágono, publicou um estudo3 relatando essa façanha, alcançada em testes com dois animais. Ambos já eram adultos – tinham 4 e 10 anos de idade –, mas mesmo assim os militares conseguiram aumentar drasticamente sua capacidade de aprender.

Na experiência, os bichos viam fotos de paisagens numa tela. Podiam observar cada uma por 15 segundos. Eles não sabiam, mas havia um pequeno alvo desenhado em cada foto – se os bichos olhassem para esse ponto, ganhavam suco como recompensa. Normalmente, macacos rhesus levam em média 21 tentativas até entender esse jogo. Mas as duas cobaias da Darpa, que receberam 0,002 ampére de corrente elétrica no córtex pré-frontal, foram muito melhores: dominaram o jogo em apenas 12 rodadas.

Os cientistas já esperavam esse resultado, supostamente ligado ao aumento na frequência de disparos dos neurônios. Mas constataram que a explicação não era bem essa. O estímulo elétrico não interferia com os neurônios em si. Fazia algo maior: melhorava a conexão entre regiões do cérebro. “Essa técnica provoca mudanças na excitabilidade dos neurônios de áreas específicas. E, por isso, também uma ampla melhoria na capacidade de processar informação”, diz Donel Martin, psiquiatra e pesquisador da Universidade de New South Wales, na Austrália. Dependendo da corrente elétrica aplicada, é possível despolarizar ou hiperpolarizar grupos de neurônios, ou seja, torná-los mais ou menos sensíveis aos sinais de outros neurônios. Martin usou essa técnica em humanos.

Ele colocou 54 pessoas para resolver problemas de lógica, com dificuldade crescente, envolvendo formas e cores. Metade dos voluntários recebeu estímulos elétricos –e solucionou as charadas de forma mais rápida e correta4. “O tratamento é eficaz para facilitar o aprendizado de qualquer tipo de conhecimento”, afirma ele. Há estudos indicando que essa técnica, chamada tDCS (estimulação transcraniana por corrente contínua), também pode acelerar o aprendizado de matemática e idiomas5,6. Além disso, o benefício parece ser de longo prazo. Na experiência de matemática, realizada na Universidade de Oxford, o efeito persistiu por seis meses após as sessões. Nas experiências com a técnica, menos de 1% das pessoas relata algum tipo de desconforto relacionado à corrente elétrica. A esmagadora maioria nem percebe que está sob efeito dela.

Por que, então, não há aparelhos do tipo sendo vendidos para todos os estudantes do planeta? “Os efeitos da tDCS ainda não são totalmente compreendidos”, diz o neurologista Pedro Vieira, pós-doutorando do Instituto Neurológico de Montreal e especialista na técnica. “Ela induz grandes oscilações nas ondas cerebrais de baixa frequência, o que por sua vez amplia a conectividade entre neurônios próximos e áreas distantes do cérebro de maneiras ainda imprevisíveis, e que poderiam provocar danos”, afirma. Na dúvida, melhor não arriscar.

Fontes 3. Transcranial Direct Current Stimulation Facilitates Associative Learning. Matthew R. Krause e outros, 2017. 4. Can Transcranial Direct Current Stimulation Enhance Outcomes from Cognitive Training?, Donel M. Martin e outros, 2013. 5. Long-Term Enhancement of Brain Function and Cognition Using Cognitive Training and Brain Stimulation. Albert Snowball e outros, Universidade de Oxford, 2013. 6. Noninvasive brain stimulation improves language learning. Universidade de Munster, 2008.

5. Implantar memórias

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(Milton Nakata/Superinteressante)

No conto Nós Podemos Lembrar por Você, escrito pelo americano Philip K. Dick em 1966, Marte já foi colonizada pelo homem – e o protagonista da história, Douglas, sonha em ir até lá. Só que custa muito caro, e por isso Douglas escolhe a segunda melhor opção: vai até uma empresa especializada e paga para ter memórias de Marte implantadas em seu cérebro. O que ele não sabe é que, na verdade, já havia estado no planeta vermelho – mas suas lembranças disso haviam sido apagadas pelo governo. Um delírio e tanto.

Mas, na vida real, já existem pesquisas tentando fazer as duas coisas: apagar e criar memórias. Em 2012 o neurologista Todd Sacktor, da Universidade Columbia, conseguiu eliminar uma lembrança do cérebro de ratos, que haviam sido condicionados a evitar alimentos doces. Ele descobriu que, se uma proteína cerebral chamada PKMzeta1 fosse inibida enquanto o rato se lembrava daquela memória (é melhor não comer doces), ela era destruída – e, posteriormente, o bichinho passava a ingerir açúcar como se não houvesse amanhã. A ideia é criar um procedimento que, no futuro, possa ser usado para eliminar traumas da mente humana.

A indução de memórias também já foi demonstrada em camundongos de laboratório. Tudo começou em 2013, quando o MIT usou engenharia genética para criar ratos com uma característica insólita: partes do seu cérebro podem ser ativadas, ou desativadas, usando luz2. Primeiro os pesquisadores injetaram nos animais um vírus capaz de alterar o funcionamento dos neurônios do hipocampo, área relacionada à formação de memórias. Depois inseriram, cirurgicamente, uma fibra óptica nos cérebros dos pobres bichinhos, para iluminar o hipocampo com luz infravermelha. Feito isso, iniciaram o experimento. Primeiro, cada rato era colocado num ambiente seguro, enquanto a atividade do seu hipocampo era gravada. No dia seguinte, a cobaia era levada para um lugar ruim, onde recebia choques elétricos nas patas. Só que, eis o truque, os cientistas ligavam a fibra óptica – e ela ativava os mesmos grupos de neurônios que o rato tinha acionado na véspera, quando não havia perigo. Resultado: o bichinho associou a memória da primeira gaiola aos choques e passou a ter medo dela, onde jamais sofrera maus-tratos. Pior: os ratos só temiam esse local – não tinham qualquer receio da gaiola de tortura. Os cientistas tinham plantado uma memória falsa.

Uma equipe de cientistas franceses conseguiu algo ainda mais impressionante: inserir lembranças positivas no cérebro de 40 camundongos enquanto eles dormiam3. Os pesquisadores notaram que determinada região do hipocampo era ativada quando os ratos entravam em certa gaiola. Então colocaram os bichos várias vezes ali, até que perceberam que aquela região ficava ativa mesmo enquanto os ratos dormiam. (Não se sabe o motivo, mas talvez eles estivessem sonhando com a gaiola). Com os ratos adormecidos, os cientistas estimularam uma área cerebral que dispara a produção de dopamina, neurotransmissor relacionado ao prazer. Ao acordar, os ratos passaram a adorar aquela gaiola e passar cinco vezes mais tempo dentro dela. Não havia motivo objetivo para isso: eles nunca tinham ganho comida, ou qualquer coisa boa, ali.

Era uma falsa memória.

Fontes 1. The Genetics of PKMZ and Memory Maintenance. T. Sacktor e outros, 2017. 2. Creating a False Memory in the Hippocampus, Steve Ramirez e outros, 2013. 3. Explicit Memory Creation During Sleep Demonstrates a Causal Role of Place Cells in Navigation, Gaetan de Lavilléon e outros, 2015.

6. Exercer controle externo de pensamentos

Situação atual: experiências em animais

Como você já deve ter percebido ao usar o controle remoto da sua TV, a luz infravermelha é facilmente bloqueada por obstáculos. Mas ela atravessa materiais mais porosos, como ossos – inclusive os da caixa craniana. Experiências feitas pela empresa americana Neuro-Laser4 constataram que a luz infravermelha é capaz de penetrar até 30 mm de tecido ósseo. Daria tranquilamente para atravessar a caixa craniana humana, cuja espessura média é de 4 a 9 milímetros, dependendo do ponto. Isso significa que, teoricamente, é possível estimular o cérebro com luz sem precisar abrir a cabeça da cobaia.

E isso, em macacos, já foi feito. Como os camundongos do texto anterior [veja página ao lado], eles foram infectados com um vírus que altera o funcionamento dos neurônios. Essa técnica se chama optogenética, e consiste em acoplar um vírus (geralmente um adenovírus, que normalmente causa infecções respiratórias) com genes que estimulam a produção de rodopsina, uma proteína fotossensível – ou seja, que converte luminosidade em sinais elétricos. Ela é fabricada naturalmente nos olhos, onde nos ajuda a enxergar. Mas, se for inserida no cérebro, produz algo anormal: torna os neurônios sensíveis à luz.

Numa experiência realizada por cientistas da Universidade de Cambridge e do MIT, os cérebros de macacos foram estimulados com luz infravermelha5 enquanto eles tinham de tomar decisões simples, como escolher entre duas guloseimas. Quando o infravermelho estava ligado, o cérebro aumentava a produção de dopamina – e o animal sempre preferia a guloseima que estava comendo, mesmo se ela fosse idêntica à outra. O efeito era desencadeado por luz, sem a necessidade de um implante cerebral. Mas ainda há um grande obstáculo: o vírus tem de ser injetado diretamente no cérebro, o que é extremamente invasivo e perigoso.

Mikhail Shapiro, professor de engenharia química do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), descobriu um jeito de resolver isso. Injetou bolhas de ar muito pequenas, com nanômetros de diâmetro, na corrente sanguínea de ratos6. E encostou um aparelho de ultrassom na cabeça deles. Quando o sangue estava chegando ao cérebro, o ultrassom agia sobre as bolhinhas, fazendo elas vibrarem – e abrindo pequenas brechas na barreira hematoencefálica (uma camada de sangue, também presente em humanos, que envolve o cérebro e bloqueia a entrada da maioria das moléculas). Com isso, Shapiro conseguiu introduzir vírus optogenéticos sem precisar abrir a cabeça dos animais. Bastou uma reles injeção na veia, com uma ajudinha do ultrassom, e os bichos estavam hackeados pelo resto da vida.

Se um dia for aplicada em humanos, a optogenética poderia ser usada para distorcer totalmente a realidade de uma pessoa. Ela funcionaria como uma hiperdroga, capaz de manipular o indivíduo a tal ponto que ele faria qualquer coisa em troca de mais dopamina. Não à toa, a Darpa (divisão de tecnologia do Pentágono) tem olhado essa técnica com atenção, e financia pesquisas a respeito em várias universidades. Um dos projetos mais ambiciosos é o CorticalSight, que reúne a Universidade Stanford e quatro empresas de biotecnologia. Ele pretende usar a optogenética para conectar uma microcâmera, sem fios, ao córtex visual humano. Se der certo, isso poderá significar a cura de quase todos os casos de cegueira. E também o princípio de uma era obscura – onde seria possível fazer uma pessoa enxergar coisas que, na verdade, não existem.

Fontes 4. Near-infrared photonic energy penetration: can infrared phototherapy effectively reach the human brain? TA Henderson, 2015. 5. Dopamine Neuron-Specific Optogenetic Stimulation in Rhesus Macaques. William R. Stauffer, e outros, 2016. 6. Acoustically targeted chemogenetics for the non-invasive control of neural circuits. M. Shapiro e outros, 2018.

7. Transmitir informações por telepatia

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(Milton Nakata/Superinteressante)

Situação atual: testes em humanos

Como você viu nesta reportagem, a ciência já sabe como capturar e decodificar padrões neuronais – e também induzir respostas cerebrais usando pulsos magnéticos e sinais elétricos. Mas, até agosto de 2013, ninguém havia tentado fazer o óbvio: juntar as duas coisas e criar um sistema que permitisse comunicação direta, telepática, entre dois cérebros humanos. Naquele ano, um grupo da  Universidade de Washington conseguiu conectar as mentes de duas pessoas pela internet. As cobaias foram os próprios autores da pesquisa, os neurocientistas Rajesh Rao e Andrea Stocco. O primeiro vestiu um capacete de eletroencefalograma, que detecta ondas cerebrais e permite identificar sinais básicos – dá para saber, por exemplo, quando a pessoa pensa em mexer o próprio braço. Já o outro colocou uma touca conectada a um aparelho de estimulação magnética transcraniana, que usa ímãs para interferir com a atividade elétrica de determinadas regiões do cérebro [leia mais no item 2]. Rao tinha à sua frente um joguinho de computador cujo objetivo era disparar mísseis contra navios inimigos (sem acertar os aviões aliados que passavam voando). Andrea estava numa sala a 1 km de distância, onde também iria jogar aquele game. Mas com uma enorme diferença: ele ficava de costas para a tela. Seria guiado, apenas, pelas ondas cerebrais do colega.

E aí aconteceu. Rao decidiu atirar. Ele não acionou o joystick; simplesmente imaginou o gesto. Isso gerou ondas cerebrais que foram transmitidas para Stocco – cuja mão, incrivelmente, apertou sozinha o botão de disparo. A façanha foi o resultado de mais de dez anos de pesquisas, e o começo de uma série de outras experiências. Em 2018, os pesquisadores da Universidade de Washington conectaram três pessoas, que jogaram uma espécie de Tetris colaborativo: os dois primeiros pensavam em quais peças mexer e seus cérebros enviavam as ordens para o terceiro. Ele ficava de costas para a tela, mas mesmo assim conseguia jogar – pois sua mente executava automaticamente as ordens enviadas pelos outros dois1.

Duas empresas, a espanhola Starlab e a francesa Axilum, usaram uma técnica parecida para conectar um voluntário na Índia a outro na França2. Eles se comunicaram usando uma espécie de código Morse, formado por sequências de pulsos (que tiveram de aprender antes). O indiano usou essa linguagem para formar duas palavras e pensou nelas. Alguns minutos depois, elas chegaram à mente do francês – que pensou, acertadamente, em “hola” e “ciao”. Mas isso não quer dizer muita coisa; ele poderia simplesmente estar chutando. A prova de que é possível transmitir informações só veio no ano seguinte, quando a Universidade de Washington fez uma experiência parecida com dez pessoas.

Eles foram agrupados em pares, separados em salas diferentes, e colocados para jogar um jogo de adivinhação3. A primeira pessoa, chamada de “analista”, via objetos numa tela. A outra, batizada de “jogadora”,  tinha de adivinhar quais eram. Um teste muito difícil; tanto que os jogadores só acertavam, por puro chute, 18% das respostas. Mas, quando a transmissão de ondas cerebrais foi ligada, o índice de acerto disparou: 72%.

Segundo os cientistas, a técnica também poderia ser usada para transmitir sinais entre estudantes. “Imagine um aluno com déficit de atenção (DDA), e outro normal”, declarou a neurocientista Chantel Prat, uma das autoras do estudo, ao jornal da universidade. “Quando o estudante normal estivesse prestando atenção, o cérebro do outro seria automaticamente colocado num estado de maior foco”, disse. Mais do que telepatia, sincronia de mentes.

Fontes 1. BrainNet: A Multi-Person Brain-to-Brain Interface for Direct Collaboration Between Brains, L. Jiang e outros, 2018. 2. Conscious Brain-to-Brain Communication in Humans Using Non-Invasive Technologies, C. Grau e outros, 2014. 3. Playing 20 Questions with the Mind: Collaborative Problem Solving by Humans Using a Brain-to-Brain Interface. Andrea Stocco e outros, 2015.