Clique e Assine a partir de R$ 12,90/mês
Saúde

Terapia com alucinógenos: faz sentido?

Texto: Emanuel Neves e Larissa Pessi | Edição: Ricardo Lacerda | Edição de Arte: Estúdio Nono
Design: Andy Faria | Ilustração: Caramurú Baumgartner


“Eu sou uma terapeuta psicodélica, então.” Adelise Noal sorri e suas feições se iluminam como as mandalas caleidoscópicas que enfeitam seu consultório. É como se ela tivesse descoberto um jeito novo de definir os atendimentos que realiza desde 1997. Um trabalho que a médica, especialista em psicologia junguiana, começou depois de experimentar o chá de ayahuasca. A bebida é uma mistura de dois cipós amazônicos, o jagube e a chacrona. Macerados e cozidos, eles geram um caldo rico em dimetiltriptamina – o DMT, uma substância psicodélica.

Ela tem moléculas parecidas com as da serotonina, neurotransmissor ligado ao humor e ao bem-estar. Por isso, consegue se conectar aos receptores serotoninérgicos, que atuam como fechaduras presentes em cada neurônio. A serotonina é a chave-mestra. Quando há o encaixe, os neurônios passam impulsos elétricos um ao outro. A diferença é que o giro de chave feito pelo DMT abre portas do cérebro que a serotonina não abre. Atrás delas há um mundo alucinante, pouco compreendido pela ciência. E, acreditam alguns pesquisadores, dentro desse universo psicodélico pode estar a cura para diversos problemas da mente humana.

Com o DMT, a pessoa consegue enxergar de olhos fechados. A região do cérebro responsável pela visão é ativada pela droga. É como estar acordado em meio a um sonho. O que aparece nesse delírio? O que a ayahuasca mandar. Os índios da Amazônia, que a utilizam há séculos, chamam-na de planta professora. De fato, a ayahuasca pode apontar meios para superar medos e traumas. Afinal, o transe do DMT pode ser farto de simbolismos pessoais, facilitando a ressignificação de conceitos e atitudes. Possibilidades assim atraíram Adelise. “A bebida é poderosa. Vi que poderia ser uma ferramenta terapêutica e de autoconhecimento”, explica.

O interesse a fez rumar de Porto Alegre à Vila Céu do Mapiá, aldeia de 500 habitantes localizada no Igarapé Mapiá, um braço do Rio Purus, no sul do Amazonas. Lá, Adelise se iniciou na doutrina do Santo Daime, um culto baseado no consumo da ayahuasca. Nos rituais, os adeptos rezam, cantam hinos e bebem uma ou mais doses. Em 40 minutos, começam a ter mirações – as visões causadas pela bebida. A experiência varia. Alguns relatam um sentimento de plenitude, uma conexão mística com a natureza. Mas há quem vomite, tenha crises de choro e ansiedade ou veja coisas tão aterrorizantes que implore para o efeito acabar. “A ayahuasca é uma substância de trabalho e não de prazer”, diz o neurocientista Dráulio de Araújo, professor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Desde 2006, ele estuda a ação do psicodélico no cérebro. Um de seus focos é a aplicação da ayahuasca no tratamento da depressão. Entre 2014 e 2016, Dráulio coordenou uma pesquisa reunindo 29 pacientes com depressão resistente – quando utilizam pelo menos dois medicamentos e não melhoram. Do total, 14 receberam uma dose única de 1 ml por quilo corporal de ayahuasca, acompanhados por psiquiatras e enfermeiros. Os outros 15 tomaram um placebo que imitava a aparência e o gosto do chá. No primeiro dia, ayahuasca e placebo tiveram quase o mesmo efeito: 50% e 45% das pessoas, respectivamente, relataram que os sintomas da depressão caíram pela metade. A diferença veio depois de 21 dias: 60% do grupo da ayahuasca percebia uma diminuição de sintomas sem ter ingerido nenhuma outra medicação, contra 27% do placebo. Antidepressivos químicos, em geral, demoram ao menos um mês para fazer efeito e exigem ingestão diária.

O estudo da UFRN foi publicado em 2018 na revista Psychological Medicine, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Embora aplicado em um grupo reduzido, o trabalho ajudou a consolidar a ayahuasca como uma das protagonistas do renascimento psicodélico nos meios científicos. Ácido lisérgico (LSD), psilocibina (o princípio ativo dos cogumelos alucinógenos) e metilenodioximetanfetamina (MDMA, a base do ecstasy) também têm sido objetos de estudo. O interesse pela investigação científica dessas substâncias foi retomado recentemente, após uma lacuna de quase 50 anos.

Tilt no cérebro

A primeira onda psicodélica aconteceu entre os anos 1950 e 1960. Nessa época, foram publicados mais de mil artigos sobre aplicação terapêutica de alucinógenos. Estima-se que 50 mil pessoas tenham participado de experimentos clínicos. Um dos maiores estudos, publicado em 1967, foi conduzido pelo anestesiologista Eric Kast, professor da Escola de Medicina de Chicago. Ele utilizou doses de LSD para aliviar a dor e a ansiedade em 126 pacientes com câncer terminal. Ao todo, 90% relataram melhora em sintomas como isolamento e melancolia. Alguns passaram mais de dez dias sem dores, com apenas uma dose. A teoria de Kast era de que os pacientes haviam esquecido da dor por estarem vivendo a experiência mental do LSD. A etapa posterior ao uso é vista como uma janela de oportunidade para a mudança de comportamento, já que o cérebro é quimicamente chacoalhado.

Imagine um fliperama em que a bolinha faz sempre o mesmo caminho. Ela é acionada, repica numa tabela à esquerda, vai para outra na direita, bate num obstáculo e cai no buraco. Diariamente, anos a fio. O fliperama é o cérebro. A bolinha, as conexões entre os neurônios. O percurso que ela faz é chamado de Rede de Modo Padrão (DMN, na sigla em inglês), um sistema ligado ao pensamento abstrato que se ativa quando refletimos sobre nós mesmos. Uma das marcas da depressão e da ansiedade são as ruminações – padrões de pensamento repetitivos aos quais o sujeito retorna com frequência e, muitas vezes, não consegue sair. O Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) é um dos melhores exemplos. Acredita-se que o cérebro deprimido tenha uma DMN muito forte: ele fica trancado num circuito fechado, angustiante e sem opções. Agora, vamos observar a entrada da bolinha psicodélica nesse jogo.

Quando a substância começa a agir, o pinball cerebral entra em parafuso. A bola rebate em todas as tabelas possíveis. Pula um obstáculo, atravessa outro. Duplica-se. Triplica-se. Todas as luzes do painel piscam em velocidade vertiginosa. A pessoa pira. Ao menos por um tempo. Um exame de imagem do Centro de Pesquisa Psicodélica do Imperial College, de Londres, mostrou a diferença entre as ligações cerebrais antes e depois do uso de psilocibina. Ela faz com que as conexões neuronais tomem rotas incomuns – o que pode ser uma explicação para os efeitos sinestésicos dos psicodélicos. Quando a região responsável pela audição se liga à área gustativa, por exemplo, a pessoa pode sentir o gosto de uma música. Ou ver a cor de um perfume.

Mas o efeito desse tilt pode ir além de uma simples viagem. Ao quebrar o padrão repetitivo das conexões neuronais, o psicodélico desliga o DMN e abre um escape para o paciente fugir de seus padrões de pensamento mais angustiantes. A mente passa a agir de outra maneira, ganha novas perspectivas. Surge então a chance de dar outro sentido a questões pessoais com o auxílio de um terapeuta, e mais rápido que na abordagem tradicional. “A terapia psicodélica facilita mudanças reais na consciência, fornecendo maior ímpeto para transformações que são demoradas nos tratamentos convencionais”, diz a psicoterapeuta Michelle Baker-Johnes, do Imperial College.

Atualmente, a instituição estuda o uso da psilocibina para tratar depressão resistente. Um experimento feito em 2016 com 12 pacientes constatou melhora dos sintomas com apenas duas doses (de 10 mg e de 25 mg), ingeridas em ambiente controlado, num intervalo de sete dias. Todos os pacientes relataram diminuição considerável nos sintomas uma semana após a segunda dose. Em oito deles, a depressão desapareceu e cinco se mantiveram assim após três meses. Nos outros sete, a depressão voltou, embora mais fraca do que antes.

Um dos pacientes submetidos à experiência descreveu o efeito como um reset cerebral. Ele comparou o processo à desfragmentação de um HD – comando que organiza a bagunça dos arquivos para melhorar o funcionamento do computador. A faxina pode vir acompanhada de uma renovação das células nervosas. Em geral, pacientes com transtornos de humor sofrem atrofia nos neurônios, dificultando as sinapses. O cérebro, assim, perde a capacidade de se adaptar a novos estímulos. Além disso, as mudanças estruturais afetam o hipocampo, área responsável pela memória.

Uma pesquisa da Universidade da Califórnia, publicada em 2018, mostrou que os psicodélicos aumentam muito os processos de recuperação e nascimento dos dendritos em ratos. Esses filamentos são como braços dos neurônios: quanto maior o número e o comprimento deles, melhor é a capacidade de receber e transmitir estímulos elétricos. O impulso dado pela retomada da neuroplasticidade, associado à psicoterapia, poderia facilitar uma melhora mais longeva.

Continua após a publicidade

A duração das alterações de consciência provocadas pelos psicodélicos varia. Uma experiência com LSD pode ter até 12 horas. A psilocibina, em média, age por seis horas. Não se sabe, porém, por quanto tempo a transformação psicológica pode ser prolongada apenas com a terapia tradicional – sem novas doses dos alucinógenos. Muitos pacientes que melhoram logo após os experimentos voltam a apresentar os sintomas semanas ou meses depois. E eles não podem tomar novamente a substância, pois os psicodélicos são liberados apenas para fins de pesquisa nos países que concentram os estudos – EUA e Inglaterra.

Em 1954, o psiquiatra Humphry Osmond e o bioquímico Abram Hoffer conduziram um tratamento psicodélico com alcoólatras no Hospital Weyburn, em Saskatchewan, no Canadá. No caso, eles utilizaram o LSD como objeto de estudo. Até 1960, Osmond e Hoffer trataram de mais de 2 mil pessoas com doses entre 1 mg e 3 mg, administradas ao longo de uma semana. Conforme seus relatos, cerca de 45% dos pacientes não voltaram a beber depois de um ano.

Céu sem diamantes

Se o trabalho de Osmond, Hoffer e outros precursores continuasse, as terapias psicodélicas poderiam estar em outro patamar. Mas o movimento foi esvaziado quando as substâncias lisérgicas chegaram às ruas e universidades. Relatos de surtos psicóticos e tentativas de suicídio relacionados ao uso de alucinógenos se multiplicaram. Nos EUA, as autoridades entraram em pânico. Em março de 1966, a revista Life estampou em sua capa a chamada LSD: A ameaça explosiva da droga mental que ficou fora de controle. Em 1970, todos os psicodélicos foram proibidos no país e o governo vetou financiamentos para pesquisas. Assim, o potencial terapêutico dessas substâncias ficou congelado até a década passada.

O renascimento dos psicodélicos tem a ver com uma constatação da própria ciência. “Estamos vendo que as justificativas não se sustentam, especialmente aquelas ligadas aos riscos de adição”, afirma Dráulio de Araújo, da UFRN. Segundo ele, essas substâncias não provocam tolerância química nem dependência. Ou seja, não é preciso consumir doses cada vez mais altas e tampouco haverá abstinência se o uso for interrompido. Também não existem relatos de overdose. Por outro lado, ainda não se sabe como evitar experiências chocantes com o uso de psicodélicos. O conceito de dosagem também precisa ser aprofundado. Hoje, as estratégias variam.

Um estudo da Universidade de Chicago, publicado em junho, testou o efeito de microdosagens de LSD numa comparação com placebo – semelhante ao modelo da pesquisa da UFRN com ayahuasca. Os pacientes usaram doses entre 5 e 26 microgramas (até 20 vezes menores do que a normal), uma vez por semana, durante um mês. Não foram constatadas alterações significativas no humor ou na cognição. Já o psicólogo americano Jim Fadiman, um veterano dos estudos psicodélicos, promoveu uma pesquisa empírica com 418 voluntários. Eles ingeriram doses de 1 a 10 microgramas a cada quatro dias, durante um mês. Em geral, relataram maior energia, criatividade, foco e queda nos sintomas de depressão. Os resultados foram divulgados em 2017, durante uma convenção da Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos (MAPS). Detalhe: os participantes do levantamento de Friedman tinham que conseguir o ácido por conta própria – o que pode ter interferido no resultado do estudo.

A pureza da substância e o ambiente em que a experiência ocorre são fundamentais para o sucesso da terapia. Um dos exemplos disso é o MDMA. Conhecida como ecstasy, a substância tornou-se uma das principais drogas recreativas a partir dos anos 1980. O problema é que o ecstasy traficado pode ter pouquíssimo MDMA. Um levantamento de 2015 da Polícia Científica de São Paulo constatou que menos da metade (48%) dos comprimidos apreendidos possuíam MDMA. Foram encontradas 22 outras substâncias tóxicas nas pílulas.

Já o MDMA puro pode ser um aliado no tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Um estudo publicado no Journal of Psychopharmacology em 2018 reuniu 28 pacientes com TEPT crônica. Eles participaram de três sessões de terapia com 8 horas de duração, nas quais ingeriam doses de 40 mg, 100 mg e 125 mg de MDMA. Todos relataram redução nos sintomas e, após um ano, 75% se diziam livres da doença.

A TEPT é um dos transtornos mais complicados na abordagem terapêutica, pois o sofrimento de reviver o fato acaba levando o paciente a desistir do tratamento. A ajudinha do MDMA acontece porque a substância estimula a produção de ocitocina, o hormônio do afeto, além da serotonina e da dopamina, neurotransmissores ligados ao humor. Também inibe a atividade da amígdala cerebral, região responsável pelo medo, e estimula o córtex pré-frontal, que regula a cognição.

“As pessoas se sentem confiantes, calmas e comunicativas, permitindo que façam o trabalho duro de examinar e processar traumas passados com o auxílio do terapeuta”, afirma a psiquiatra Julie Holland, autora de “Ecstasy: a comprehensive look into the risks and benefits of MDMA” (“Uma análise sobre os riscos e benefícios do MDMA”, inédito no Brasil). Há quase uma década, ela monitora pesquisas com veteranos do exército americano que desenvolveram TEPT. No início, o medo e o preconceito em relação ao MDMA eram um obstáculo. Mas a percepção mudou. “Hoje é encarado como ciência legítima.”

Tanto é assim que já existem interessados em explorar comercialmente a ciência psicodélica. É o caso da Compass Pathways. Criada em 2016, a empresa britânica investe em pesquisas para desenvolver tratamentos com psilocibina voltados à depressão resistente. A Compass produz a substância em laboratório e a fornece sem custo a pesquisadores.

O futuro é ontem

No fim de 2018, a Food and Drug Administration (FDA, a Anvisa dos EUA) concedeu o caráter de Terapia Inovadora ao tratamento de depressão com psilocibina. Isso significa que os resultados iniciais das pesquisas indicam que a terapia pode ter um resultado melhor do que aquelas existentes hoje em dia. O MDMA já havia recebido a mesma classificação em 2017. Ainda assim, o futuro dos psicodélicos na psiquiatria é incerto. É pouco provável que, um dia, remédios alucinógenos sejam vendidos em farmácias. O caminho mais plausível é a introdução dos psicodélicos como tratamentos complementares aos transtornos de humor. Especialistas como Dráulio de Araújo acreditam na criação de centros de atendimento específicos, em que os pacientes participariam de sessões com o suporte de um profissional experiente.

É exatamente o que Adelise Noal faz. Em sua clínica, ela reserva um espaço para sessões com ayahuasca. Nem todos os pacientes são indicados a esse tipo de tratamento. As doses variam de uma colher de sopa até 100 ml. Nas sessões, ela coloca músicas relaxantes e conversa com a pessoa durante e depois da experiência. Às vezes, canta hinos e toca um chocalho indígena. As microdosagens também integram seu arsenal. Em parceria com uma farmácia de manipulação, Adelise criou uma homeopatia de ayahuasca. A dose é baixa, por isso não provoca alterações de consciência. Mas os pacientes relatam melhorias nos sintomas de dor, ansiedade e depressão.

No Brasil, o uso da ayahuasca para fins ritualísticos e de pesquisa é permitido desde 2010. Adelise, de certa forma, se encaixa em ambos. A médica conduz um estudo empírico relacionado ao uso desse psicodélico com seus pacientes. Além disso, coordena sessões xamânicas nas quais monitora experiências terapêuticas de ayahuasca em pequenos grupos. Embora atue de forma inovadora, Adelise se vê como continuadora de uma tradição milenar da medicina. Ela se refere aos asclepíades, os primeiros médicos da Grécia Antiga. Tinham esse nome em razão de Asclépio, o Deus da Medicina. Nos templos dedicados a ele, os pacientes entravam em transe. A divindade, então, aparecia em visões ou sonhos para indicar qual era o problema de saúde e a melhor terapia.

Continua após a publicidade