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Ciência

A saga dos dinossauros brasileiros

Nem só de T. rex vive a Pré-História: dos antiquíssimos répteis gaúchos aos “jovens” dinossauros mineiros, o Brasil tem 47 dinos para chamar de seus.

Quem vê Peirópolis no Google Maps – um vilarejo de nove ruas e uma rotatória em Uberaba, no Triângulo Mineiro – nota algo peculiar: a pousada local se chama Lago dos Dinossauros. Um restaurante foi batizado de Toca do Dinossauro; outro, de Caçarola do Dino. Quem quer cerveja vai ao Jurassic Bar. A estação de trem desativada tornou-se o Museu Paleontológico de Peirópolis. Em seu jardim, o artista plástico Northon Fenerich esculpiu em tamanho real um titanossauro – dino herbívoro pescoçudo, com patas de elefante. Por lá, a Pré-História gera mais de cem postos de trabalho.

É que a formação geológica Marília, sobre a qual se assenta Uberaba, contém uma das maiores concentrações de fósseis de dinossauro conhecidas no Brasil. São fragmentos (em geral, ossos, dentes e até cocôs fósseis) de répteis que viveram ali entre 80 e 66 milhões de anos atrás – o fim do período Cretáceo, que termina com a queda de um asteroide na península de Yucatán, no México. Só o CPPLIP, centro de pesquisa fundado na década de 1990 para explorar a região, extraiu cerca de 4 mil desses fragmentos. Além dos dinos em si, há alguns de seus contemporâneos: tartarugas, crocodilos, rãs e peixes.

Desde 2006, vigora uma lei que obriga o terreno de qualquer obra de construção civil em Uberaba a passar pela avaliação prévia de um paleontólogo. Funciona: “Em 2016, nas fundações de um shop- -ping no centro, encontramos dois esqueletos de titanossauro, um deles bem articulado”, conta Luiz Carlos Borges Ribeiro, professor da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e ex-diretor do museu em Peirópolis.

Ribeiro já teve seu momento Indiana Jones: em 2004, durante a duplicação da BR-050, que liga Uberaba a Uberlândia, uma escavação na encosta da Serra da Galga revelou vértebras encravadas na rocha. Ribeiro passava de carro pelo trecho em obras e viu os fósseis de longe. Lá, se escondiam 230 ossos, pertencentes a uma família de dinossauros da espécie de nome científico Uberabatitan riberoi: Uberaba por causa da cidade, titan pelo porte (16 toneladas), riberoi em referência a Luiz Ribeiro. O riberoi, como o dino da escultura de Peirópolis, era um titanossauro – o do pescoço longo. É, talvez, o maior do Brasil.

Uberaba está no ramo dinossáurico desde 1945. A estrada de ferro Mogiana, que ia até o sertão de Goiás, passava por Uberaba e transpunha a Serra da Galga. Era um trecho íngreme e perigoso; um desvio mais seguro começou a ser construído após um descarrilamento. O engenheiro responsável por essa obra encontrou ossos petrificados ao dinamitar uma encosta de morro, e a notícia chegou ao patriarca dos dinossauros brasileiros, Llewellyn Ivor Price.

O nome tem explicação: Price nasceu no Rio Grande do Sul, mas era filho de missionários metodistas dos EUA. Estudou na Universidade de Oklahoma e foi trazido de volta ao Brasil pelo governo Vargas para trabalhar na seção de paleontologia do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). Era o workaholic perfeito para a missão: “Ele colecionava tudo o que dizia respeito a fóssil do Brasil”, contou a paleontóloga Vera da Fonseca em uma entrevista em 2011. “Tirava xerox e colocava em umas pastinhas. Dizia: ‘Pode pegar o que quiser, desde que coloque um papelzinho aqui dizendo que levou.’”

Assim que chegou a Uberaba, Price viu os operários da ferrovia jogando bocha  com um ovo de titanossauro no lugar da bola; a casca já estava fragmentada pelo atrito com o chão. Foi o primeiro ovo fóssil da América do Sul. Daquele dia até 1976, Price liderou as escavações e despachou centenas de descobertas para o Museu de Ciências da Terra, no Rio de Janeiro, que pertence ao Serviço Geológico do Brasil.

Price não fez descobertas só em Uberaba, é claro. Seu primeiro achado brasileiro, diga-se, foi em outra formação geológica: a de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Lá estava um Staurikosaurus pricei, caçador pequeno e ágil, de dentes afiados [ele é o da ilustração nº 1 – de agora em diante, os dinossauros serão numerados]. O exemplar foi despachado para os EUA, e só seria analisado na década de 1970. Calhou que era valioso: viveu há 233 milhões de anos, no Triássico – o que significa que o gaúcho é um dos dinos mais antigos do mundo, em oposição aos mineiros, que estão entre os mais novos.

Região Sul

A formação geológica de Santa Maria (RS) fica na bacia sedimentar do Paraná e contém fósseis do Triássico: os dinos mais antigos do mundo.

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(Arte Ácida Estúdio/Superinteressante)

1. Staurikosaurus Pricei

Comprimento: 2,25 metros.
Altura: 0,8 metro.
Onde: Santa Maria (RS).
Quando: 233 milhões de anos.

O primeiro dino encontrado no Brasil, em 1936, só seria identificado na década de 1970, nos EUA. Foi um pequeno carnívoro, de dentes afiados, e extremamente antigo: viveu antes das linhagem dos saurópodes (pescoçudos de quatro patas) e terópodes (bípedes com jeitão de galinha) se separarem na evolução.

2. Saturnalia tupiniquim

Comprimento: 2 metros.
Altura: 1 metro.
Onde: Santa Maria (RS).
Quando: 225 milhões de anos.

É um ótimo fóssil de transição: sua linhagem daria origem aos herbívoros de pescoço longo, mas ele ainda era pequeno e onívoro, corria sem tocar as duas patas da frente no chão e tinha um cérebro com características de dinossauro carnívoro. É da mesma época do Staurikosaurus.

"Do livro das rochas, a história do mundo."

Os dinossauros existiram entre 250 milhões de anos e 66 milhões de anos atrás. Essa janela é dividida em três períodos: o Triássico, que vai de 250 a 200 milhões – quando não predominavam –, o Jurássico, entre 200 e 145, e o Cretáceo, entre 145 e 66 – quando predominaram. Isso é muito tempo: Um T. rex , que viveu no final do Cretáceo, há 66, está temporalmente três vezes mais próximo de um iPhone que dos dinossauros gaúchos triássicos.

Os fósseis de Minas e arredores, que são quase contemporâneos do asteroide, representam os dinossauros em seu estágio final, há uns 70 milhões de anos. A maioria dos achados são titanossauros como o Uberabatitan, que foram os últimos pescoçudos dóceis (e são, de longe, o tipo de dinossauro mais comum no Brasil). No Mato Grosso, porém, há também abelissaurídeos [dinossauro nº 5] – com corpo e hábitos alimentares parecidos com os do T. rex, embora não pertençam à mesma linhagem. 80% dos fósseis da América do Sul são do Cretáceo.

Já os fósseis da região Sul, extremamente antigos, representam dinos pioneiros do Triássico: protótipos do que viria depois. O Saturnalia tupiniquim [dinossauro nº 2], por exemplo, tem só 2 metros – mas, do ponto de vista darwiniano, é o avô dos titanossauros de 20 metros. “O Saturnalia é uma transição legal”, diz Luiz Anelli, paleontólogo da USP e autor do livro Almanaque dos Dinossauros. “Ele está no caminho de se tornar um quadrúpede, mas ainda é um bípede facultativo: provavelmente levantava as patas da frente para correr, mas passava a maior parte do tempo com as quatro no chão.”

Do Jurássico, quase não há fósseis nacionais. Essa lacuna se explica porque fósseis ocorrem apenas em bacias sedimentares – que não estavam se formando no nosso território nessa época. Uma bacia sedimentar é quando uma depressão no terreno é preenchida lentamente por pó, areia, pedras etc. Conforme esse material se acumula, feito um pavê de Natal, as camadas mais fundas são compactadas pelas mais recentes – até que enrijecem e se tornam rocha.

Se um animal morre em um bacia sedimentar, há uma chance remota de que seus ossos, dentes (ou até, com sorte, partes moles) se misturem ao sedimento e acabem incorporados à rocha após a compactação. Essas partes enterradas passam então por um processo chamado permineralização, em que incorporam lentamente minerais diluídos na água infiltrada no solo. Por isso, um fóssil pesa mais que um osso “fresco”. Em geral, ele não é apenas um osso: consiste também nas rochas que se formaram no interior dos poros daquele osso – usando-o de molde e assumindo, assim, seu formato exato.

47 tipos de dinossauros brasileiros são conhecidos. É pouco perto dos EUA ou da Argentina, com mais de uma centena deles. Parte disso é culpa do investimento insuficiente em pesquisa no Brasil – o país com o quinto maior território do mundo tem no máximo 450 paleontólogos, quase todos dividindo o tempo de pesquisa com aulas em universidades públicas e privadas. Temos muitos fósseis já coletados esperando sua vez na gaveta.

Outra parte é um problema sem solução: tanto EUA como Argentina são mais privilegiados geograficamente. Todo mundo já se perguntou “Como um paleontólogo sabe onde escavar?” A resposta é que ele vai a locais em que não há vegetação e a rocha está exposta, caso do deserto gelado da Patagônia argentina ou do árido meio-oeste americano. Nesse aspecto, morar em um país preso entre o Equador e um dos trópicos é desvantajoso: nosso território é quase todo forrado de verde. A biodiversidade do passado está oculta pela atual.

Para completar, a biodiversidade brasileira do passado já não era lá essas coisas por causa da deriva continental. Durante a matéria, no canto superior direito, você pôde acompanhar como o mapa da Terra mudou ao longo das eras geológicas. No Triássico, havia o supercontinente da Pangeia, um quebra-cabeça formado pelos continentes atuais. Nele, a África ainda estava “encaixada” na América do Sul, o que deixava o atual território brasileiro no centro de uma enorme massa de terra – onde o clima era seco e havia poucos animais. Os EUA, por outro lado, contaram com algumas mordomias pré-históricas, como um mar que rasgava o centro da América do Norte no Cretáceo e ajudava a manter o clima úmido.

Resumindo: em comparação a outros países, temos poucos fósseis. E eles estão mais escondidos que o normal.

Região Nordeste

As formações geológicas do Araripe, no Ceará, e de Alcântara e Itapecuru, no Maranhão, contêm fósseis do começo do Cretáceo, há cerca de 110 milhões de anos.

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(Arte Ácida Estúdio/Superinteressante)

3. Amazonsaurus brasiliensis

Comprimento: 12 metros.
Altura: 5 metros.
Onde: Itapecuru Mirim (MA).
Quando: 100 milhões de anos.

Cem pequenos fragmentos fósseis do pescoçudo foram descobertos em 2004. Seu corpo provavelmente foi levado por um rio que não existe mais, encalhou na foz e foi recoberto de sedimentos – o que permitiu sua fossilização.

4. Irritator challengeri

Comprimento: 8 metros.
Altura: 3 metros.
Onde: Chapada do Araripe (CE).
Quando: 110 milhões de anos.

Dino pescador, do qual só se conhece o crânio – que havia sido modificado com gesso por caçadores de fósseis ilegais para torná-lo mais bonito para a venda. Tinha dentes cônicos espaçados, bons para caçar na água, e uma “crista” nas costas, formada por projeções das vértebras.

O fim

Alguns dinossauros brasileiros assistiram de camarote à separação da África. Eles viveram no Nordeste e são do começo do Cretáceo – um pouco mais antigos que os do Triângulo Mineiro. Uns são do Maranhão. Outros, da formação Santana, no sul do Ceará [dinos nº 3 e nº 4]. Mas o segredo mais fascinante se esconde nos arredores do município de Paulista, a 18 km de Recife, capital de Pernambuco. Lá fica a mina Poty, de onde a Votorantim extrai matéria-prima para fabricação de cimento desde 1942. Eu só fui autorizado a entrar no local vestindo calça, colete fluorescente e capacete – era novembro e fazia uns 38 °C, sem sombra.

A mina Poty guarda evidências do asteroide de 10 km de diâmetro que atingiu a península de Yucatán, no México, há 66 milhões de anos, e desencadeou a extinção dos dinossauros (não só deles: algo entre 64% a 85% de todas as espécies existentes na época, inclua aí vegetais e fungos, saíram da vida para entrar no registro fóssil). Ele rasgou a atmosfera a 30 km/s – dá para ir de São Paulo a Londres em 5 minutos –, e o impacto liberou energia equivalente a 100 milhões de bilhões de kg de TNT. Isso é 10 mil vezes a explosão simultânea de todas as bombas termonucleares estocadas no auge da Guerra Fria. Essa descoberta, apesar de já ser parte do imaginário popular, é recente: 1980. Até então, os geólogos, sempre céticos, pensavam que apocalipses eram história para boi dormir – que a Terra só havia passado por transformações monótonas e graduais.

Tudo mudou graças ao geólogo americano Walter Alvarez. Ele explorava um paredão de rocha na cidade de Gubbio, na Itália, quando se interessou por uma porção de argila peculiar, que ficava presa entre rochas formadas no Cretáceo e rochas pós-extinção, já do período Paleogeno. Essa fronteira é conhecida como K-Pg. Alvarez enviou amostras da argila a outro cientista, Frank Asaro, que descobriu que a tal fronteira K-Pg tinha uma concentração de irídio – um elemento da tabela periódica comum no espaço e raro na Terra –, 90 vezes mais alta que o previsto (9 partes por bilhão, em
vez de 0,1).

Só havia uma boa explicação: o irídio havia chegado a bordo de um asteroide. Se isso fosse verdade, ele teria se espalhado por uma área muito grande graças à violência do impacto – e seria possível encontrar irídio na camada K-Pg por todo o planeta. Dito e feito: a argila alienígena aparece em 350 sítios geológicos de vários países, às vezes acompanhada de outros indícios – como pequenas esferas de vidro, que caíram feito granizo após a rocha vaporizada pelo calor voltar a se solidificar nas camadas mais altas da atmosfera. “Na década de 1990, eu e meu orientando, Gilberto Albertão, começamos o trabalho de descobrir onde poderia ocorrer isso no Brasil”, contou Paulo Martins, geólogo que participou da descoberta. “Suspeitava-se que em Pernambuco haveria alguma facilidade – e, realmente, nesta mina, encontramos o material pronto.”

O asteroide foi um evento catastrófico após um reinado  de 165 milhões de anos. Os dinossauros, como nós, poderiam ter pensado que ficariam por aqui para sempre. Nas palavras de Derek Auger, “A história de qualquer parte da Terra, como a vida de um soldado, consiste em longos períodos de tédio e curtos períodos de terror”. O terror sempre vem.

Bacia Bauru

A Bacia sedimentar de Bauru, que passa pelo oeste paulista, Triângulo Mineiro e Mato Grosso, contém os dinos mais novos do Brasil: viveram perto da extinção, entre 80 e 66 milhões de anos.

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(Arte Ácida Estúdio/Superinteressante)

1. Pycnonemosaurus nevesi

Comprimento: 11 metros.
Altura: 4 metros.
Onde: Querência (MT).
Quando: 70 milhões de anos.

Carnívoro bípede de grande porte que pertence ao grupo dos abelissaurídeos – dinos de braços minúsculos e, provavelmente, pequenos chifres na cabeça. Eles não são parentes do T. rex, apesar da semelhança superficial. Caçava dinos maiores, parecidos com o Uberabatitan aqui ao lado.

1. Uberabatitan riberoi

Comprimento: 26 metros.
Altura: 5 metros.
Onde: Uberaba (MG).
Quando: 70 milhões de anos.

Havia perdido para outro herbívoro, o Austroposeidon, o posto de maior dinossauro do Brasil – mas estimativas recentes o colocam de volta ao topo do pódio. É um dos dinossauros de Peirópolis, encontrado às margens de uma estrada durante uma obra.