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Como funciona a montagem de uma exposição de arte

Montar uma exposição envolve anos de logística e preparação. Veja pelo que as obras passam para chegar até a câmera do seu celular.

Montar uma exposição envolve anos de logística e preparação. Veja pelo que as obras passam para chegar até a câmera do seu celular.

Texto: Maria Clara Rossini | Edição: Alexandre Versignassi | Design: Maria Pace | Ilustração: Breno Macedo


Londres, 27 de novembro de 2019. As obras da artista venezuelana Gertrud Goldschmidt – mais conhecida como Gego – saíam do Tate Museum of Modern Art rumo ao MASP, em São Paulo. Elas pegaram avião, passaram pela alfândega e percorreram um bom caminho de estrada para fazer parte de uma exposição de arte dedicada à artista, que teve início no dia 13 de dezembro.

A capital britânica não foi a única que deixou as obras de Gego aos cuidados brasileiros. Estados Unidos, Venezuela, Alemanha, Argentina e Espanha também contribuíram com os mais de 150 trabalhos que compõem a exposição. Durante a semana do dia 25 de novembro, os aeroportos de Guarulhos e Viracopos não paravam de receber obras de arte.

É assim que funcionam os bastidores de qualquer grande exposição. Todos os dias, dezenas de obras de arte circulam pelo ar e pelas estradas do mundo. Mas a operação de enviar quadros de milhões de dólares para outro país é mais complexa do que parece. É nesse pesadelo logístico/artístico que vamos mergulhar nas próximas páginas.

Empréstimo

Criar uma exposição do zero demanda pesquisa e muita, mas muita antecedência. O MASP já tem sua programação definida até 2025. Não é à toa. A montagem de uma exibição de arte requer empréstimos de outros acervos, o que envolve negociação, burocracia e, claro, imprevistos.

Ao contrário da compra de uma obra – que pode custar milhões para o museu que quiser aumentar o acervo –, o empréstimo não envolve um dinheiro de “aluguel”. Há um entendimento universal de que a função dos museus é disseminar cultura. Não que saia de graça, já que o museu solicitante precisa pagar pelo transporte da obra, além de outras despesas que vamos ver mais adiante.

O Nascimento de Vênus, 1485

Autor: Sandro Botticelli
De onde é: Itália
Onde está: Galleria degli Uffizi, Florença.
Por onde já passou: MoMA (Nova York), Royal Academy of Arts (Londres) e Petit Palais (Paris)

   

Você precisa agendar o tal empréstimo com mais ou menos um ano de antecedência. Os curadores fazem uma lista de obras que desejam ter em sua exposição e o museu que vai abrigar a mostra se encarrega de entrar em contato com outras instituições para solicitá-las.

Aí cabe a cada instituição decidir se vai emprestar ou não. Isso vai depender da agenda da obra (se ela já está prometida para outro museu), do estado de conservação e das condições do museu que está solicitando o empréstimo. Dificilmente o Museu de Arte Moderna de Nova York vai emprestar um Van Gogh para um museu sem climatização adequada nos trópicos. Por isso, todos devem preencher um relatório longuíssimo especificando as características do prédio em que acontecerá a exposição – do material predominante na construção do edifício ao sistema de segurança do local.

O processo é o mesmo quando a obra pertence a um colecionador particular. A organização da exposição entra em contato com o proprietário e ele acorda suas condições de empréstimo.

Tanto o colecionador quanto o museu podem recusar o pedido, naturalmente. O Louvre não empresta a Mona Lisa de jeito nenhum  – de acordo com uma estimativa do próprio museu parisiense, dos 10 milhões de visitantes que passam lá por ano, 80% vão para ver o quadro de Da Vinci. Sozinha, a Mona atrai mais turistas do que o Brasil inteiro, que recebe só 6,5 milhões de estrangeiros por ano. Para tirar ela de lá, só roubando (o que aconteceu de fato, em 1911).     

Os colecionadores particulares também têm seus caprichos. O dono de uma obra pode estar organizando uma festa, e vai querer sua obra estampada na parede no grande dia. Elas ficam bem mais seguras em reservas de arte, e só saem para passear em ocasiões específicas. Para evitar que a exposição fique com espaços vazios, então, a lista dos curadores costuma ser maior do que o museu pode suportar.

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Nos trinques

Pense em um quadro do século 18. Se ele nunca tiver recebido um trato, estará um trapo. Mas alguns truques podem ajudá-lo a se aproximar daquilo que o artista viu no dia em que terminou a obra e disse “parla”. Um deles é retirar o verniz da tela, que geralmente é aplicado na finalização de uma pintura. Ele fica amarelado com o tempo, e muda totalmente a cor do que está por trás. “Uma vez estávamos restaurando uma obra que tinha o fundo verde, mas, depois que tiramos o verniz, vimos que o fundo verdadeiro era azul”, diz Cecília Winter, restauradora do MASP.

Outras intervenções são bem mais urgentes e precisam ser feitas para garantir a sobrevivência da obra. Após alguns anos, a tinta de um quadro pode descolar da tela, assim como acontece com um adesivo que perde a aderência. Nesse caso, os restauradores grudam delicadamente a pintura original de volta, de modo que ela resista por mais tempo.

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(Breno Macedo/Superinteressante)

Autorretrato com macacos, 1943

Autor: Frida Khalo
Origem: México
Onde está: Coleção de Jaques e Natasha Gelman, Cidade do México
Por onde já passou: Instituto Tomie Ohtake (São Paulo), Museu do Brooklyn (Nova York), Museu Victoria e Albert (Londres)

Esse tipo de cuidado pode ser necessário antes de embarcar para uma exposição. A obra passa horas no vaivém do transporte, então todo cuidado é pouco. Se ela precisar de um preparo extra, o museu de origem faz a restauração e a conta geralmente vai para o museu de destino.

Além dos danos causados pelo tempo, há as falhas humanas. Em 2006, o colecionador americano Steve Wynn acidentalmente bateu o cotovelo na obra Le Rêve – uma das mais famosas de Pablo Picasso – enquanto mostrava o quadro para seus amigos.

Resultado: um rasgo de 20 centímetros no braço esquerdo da figura. O restauro custou o equivalente a R$ 500 mil em valores de hoje. Custou, mas valeu: o trabalho deixou o dano imperceptível. Sete anos depois, o colecionador desastrado vendeu o quadro por US$ 155 milhões (mais de duas vezes o que ele pagara pela obra, cinco anos antes). Não houvesse um reparo possível, o valor seria outro, dezenas de milhões de dólares abaixo.

Está aí o tamanho da responsabilidade de restaurar um Picasso, um Renoir, um Monet… Não é um trabalho trivial. Você talvez se lembre da senhora espanhola que tentou “restaurar” uma pintura de Jesus em sua igreja, mas acabou desfigurando completamente o rosto do coitado. Por essas, existem até cursos de graduação de nível superior em conservação e restauro. Algumas universidades federais oferecem, inclusive, como Minas Gerais, Rio de Janeiro e Pelotas.

O paraíso dos quadros

Melhor prevenir do que remediar. Esse é um ditado que funciona plenamente aqui. Para evitar desgastes, as obras devem ser mantidas em condições específicas de umidade e temperatura o tempo todo – ar-condicionado a 20 graus celsius e 50% de umidade é o paraíso dos quadros.

“A umidade é o fator mais crítico. Se não estiver no nível adequado, ela pode pegar fungos e bactérias extremamente difíceis de tirar”, diz Diogo Mantovani, que trabalha na reserva de obras de arte Clé, em São Paulo. No caso de uma infestação, a dedetização pode ser feita com a aplicação de raios gama, que ataca o DNA dos organismos e provoca a morte das células, sem efeitos colaterais para a obra.

Um outro jeito de matar esses microrganismos é colocar a obra em uma câmara anóxia, ou seja, um ambiente sem oxigênio. Esse é um luxo reservado aos museus mais abastados. O Louvre exige que cada obra fique 20 dias dentro de uma câmara dessas sempre que retorna de um empréstimo. Assim, não há risco de infecção para o resto do acervo.

A luz é o terceiro fator de risco. O efeito mais visível da exposição contínua à luminosidade é na cor, que acaba desbotando com o tempo. Até por isso você não pode usar flash em museu. Se a obra for extremamente sensível, ela mal pode ser exposta.

Pense no rosto de Leonardo da Vinci. A imagem que vai vir provavelmente é a de um autorretrato que ele desenhou em 1512, aos 60 anos. Apesar de a imagem ser extremamente popular, é pouco provável que chegue a encontrá-la pessoalmente algum dia. Tudo por causa do controle de luz. O papel e a tinta do retrato são tão frágeis que ele fica guardado em uma câmara escura na cidade de Turim, ao norte da Itália. O desenho só foi exibido ao público quatro vezes na última década, como no aniversário de 150 anos da unificação italiana.

Com exceção de casos extremos como esse, a grande maioria das obras tem condições de ir e voltar de uma exposição sem problemas. Mas, para que tudo dê certo, há um detalhe fundamental: a viagem até lá.

Assim na terra...

Algumas semanas antes do início da exposição, chega a hora de as obras embarcarem para o museu de destino. Transportadoras especializadas em arte se encarregam de embalar a carga e organizar a logística e a segurança do trajeto. A primeira empresa dessas, a André Chenue, nasceu em 1760 na França com um foco um pouco diferente: transportar as roupas de Maria Antonieta. A Chenue precisava fazer embalagens tão requintadas para a rainha dos brioches que acabou se especializando no mundo complexo das obras de arte.

Mesmo que contrate uma empresa assim, o museu de empréstimo também tem sua parte no processo de transporte. O courier é o funcionário da instituição que fica responsável por acompanhar cada passo da obra, como se fosse um segurança 24 horas. Courier significa, literalmente, “correio” – ele segue o quadro ou a escultura do museu de origem até o destino final. Por onde quer que ela passe, o courier vai junto.

As caixas que carregam as obras também podem ser um universo à parte. “Existem caixas e caixas. A gente já recebeu algumas bem duvidosas, mas outras eram incríveis. Pareciam fabricadas pela Nasa!”, diz Marina Moura, produtora de exposições do MASP. Falar sobre os diferentes tipos de caixas vira conversa corriqueira no WhatsApp das expositoras.

A visão, de fato, é surpreendente. A exibição da Gego, mencionada no início desta reportagem, recebeu esculturas de cerca de um metro de altura, e as caixas passavam facilmente dos dois metros. Elas são feitas sob medida para cada obra, levando em consideração o tamanho, fragilidade, trajeto e especificidades de cada uma. As mais sofisticadas chegam a custar 12 mil euros.

É o caso da Turtle box, a “Ferrari” das caixas. O casco desse caixote é composto por painéis isolantes, espuma de poliuretano, madeira compensada, parafusos especiais e amortecedores, além de se ajustar de acordo com o tamanho da obra. Quase um transformer.

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(Maria Pace/Superinteressante)

Como é o interior de uma Turtle, marca especializada no transporte de obras de arte

1.Engradado
Vai preso na moldura, para evitar contato com a tela.

2.Espuma de poliuretano
Para amortecer impactos e vibrações.

3.Painéis isolantes
Mantêm a temperatura ideal.

4.Caixote reforçado
Camada feita de várias chapas de madeira.

5.Madeira vermifugada
Para evitar o risco de cupins.

6.Arestas isolantes
Para o calor não entrar de jeito nenhum.

7. Amortecedor nos pés
Um reforço extra para cuidar dos impactos.

O mais importante é que as caixas mantenham a temperatura e umidade que a obra precisa. Para isso, elas ficam “se refrescando”  durante 24 horas no museu para absorver o clima antes da obra entrar. A partir daí, os materiais isolantes e térmicos da caixa se encarregam de manter essas condições até o destino final. Além disso, a caixa ainda é totalmente vermifugada para evitar qualquer risco de cupins.

As obras viajam basicamente de duas maneiras: avião e caminhão. A opção marítima é descartada por razões óbvias – quanto mais rápido ela voltar às condições ideais, melhor. O caminhão que faz o transporte até o aeroporto geralmente é climatizado, tem suspensão a ar (para diminuir o impacto das vibrações) e rastreamento via satélite.

Se o quadro for uma celebridade de primeira linha, então, o cuidado é maior ainda. O Museu Van Gogh, de Amsterdã, cedeu 75 quadros do pintor ruivo de orelha cortada, para o Hermitage, o fabuloso museu de São Petersburgo. Eles saíram em diversos carros-fortes (cada um levava poucos quadros, dado o tamanho das Turtle boxes). Tudo numa operação acompanhada de perto pela polícia.      

Como em toda regra, existem exceções. Enquanto algumas obras são protegidas por caixas high tech e escolta policial, outras não recebem tantas mordomias. “Já vimos um colecionador particular trazer um quadro amarrado no teto do carro”, dizem os diretores da ArtQuality, filial brasileira da André Chenue.

… como no céu

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(Breno Macedo/Superinteressante)

Retrato de Dora Maar, 1937

Autor: Pablo Picasso
Origem: França
Onde está: Museu Picasso, Paris.
Por onde já passou: Galeria Nacional de Victoria (Melbourne), Emirates Palace Hotel (Abu Dhabi), Galeria de Arte de Ontario (Toronto)

Mona Lisa, 1506

Autor: Leonardo da Vinci
Origem: Itália
Onde está: Museu do Louvre, Paris.
Por onde já passou: Galeria Nacional (Washington), Museu Nacional (Tóquio), Museu Pushkin (Moscou)

Talvez você já tenha viajado bem em cima de um Portinari. Isso porque esses trabalhos de milhões de dólares voam no mesmo compartimento das suas malas no avião. Nem todas as companhias topam fazer esse tipo de transporte, dado o preço e a fragilidade da carga – duas que fazem, para dar um exemplo, são a Air France e Lufthansa. Mas as caixas maiores, com mais de 1,6 metro, precisam ir em aviões cargueiros.

A caixa high tech segura a bronca de manter a integridade da obra. Mas o courier estará lá, para monitorar se os carregadores estão colocando-as do jeito certo no bagageiro. A face de um quadro sempre fica virada para frente, na direção de decolagem e da aterrissagem do avião. Isso evita que a aceleração faça a tinta escorrer.

O começo

Abrir a caixa no local de exposição é quase um ritual. Ela deve passar um dia climatizando no espaço de exposição, até a temperatura no interior dela ficar igual à do lado de fora. Só depois a força-tarefa do museu se reúne para desparafusar e tirar a tampa. Se tudo correr bem, os quadros vão para a parede.

Algumas obras, porém, ainda recebem atenção extra. Dependendo do museu que fez o empréstimo, ele pode exigir a “microclimatização” – uma proteção de vidro hermética que mantenha um clima específico e evite qualquer flutuação na temperatura e na umidade.

A maioria dos quadros não precisa mais do que um aviso de “não toque” para se proteger dos curiosos. Não é o caso dos mais famosos. A Mona Lisa, que já levou banho de ácido e pedrada, hoje vive protegida por uma camada de vidro blindado. O Abaporu, de Tarsila do Amaral, estava sempre ao lado de um segurança quando fez sua visita a São Paulo, em 2019.

O centro das atenções

A exposição Tarsila Popular, de 2019 e que trouxe o “pezão” ao Brasil, foi a mais visitada da história do MASP, superando uma mostra sobre Monet de 1998 – e formando filas de mais de seis horas de espera. Ela fez parte de um ciclo temático de exposições de artistas femininas, que se encerra com as obras de Gego.

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(Breno Macedo/Superinteressante)

Abaporu, 1928

Autor: Tarsila do Amaral
Origem: Brasil
Onde está: Museu de Arte Latino-Americana, Buenos Aires.
Por onde já passou: Galeria Percier (Paris), Museu de Arte do Rio (Rio de Janeiro), MASP (São Paulo)

O Abaporu, diga-se, é a tela brasileira mais valiosa no mercado de arte – o seguro dela é de US$ 45 milhões. Mas ela saiu do Brasil por bem menos: o colecionador argentino Eduardo Constantini comprou a obra em 1995 por US$ 2,5 milhões. Constantini mantém o quadro exposto no Museu de Arte Latino-Americana, em Buenos Aires.

A obra com o valor de seguro mais caro da história não poderia ser outra: a Mona Lisa. Em 1963, ela ficou exposta nos EUA a pedido da primeira-dama Jackie Kennedy. A apólice cobria US$ 850 milhões em valores de hoje – em reais, 3,7 bilhões.

O irônico é que isso não valeria de nada. Não há bilhão ou trilhão capaz de repor os quadros de Da Vinci, Picasso, Van Gogh, Tarsila – nenhum deles irá pintá-los de novo.

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(Maria Pace/Reprodução)