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Ninguém até hoje conseguiu preencher com sucesso a lacuna dos aviões de passageiros capazes de voar mais depressa que o som. Será que há mesmo espaço no mercado para um novo Concorde?

Texto: André Mileski | Design: Andy Faria


O dia era 21 de janeiro de 1976: duas aeronaves decolam no mesmo horário, uma do aeroporto de Heathrow, em Londres, com destino ao Bahrein, e outra do aeroporto de Orly, nos arredores de Paris, com destino final no Rio de Janeiro. Seriam voos normais, como tantos outros, não fosse uma novidade que marcou para sempre a história da aeronáutica civil: eram os primeiros voos comerciais do Concorde, o avião de passageiros capaz de superar a velocidade do som.

Com design incomum para modelos civis, com configuração de asa em delta, o Concorde fascina até hoje. Ele começou a ser projetado no início da década de 1960, fruto de um acordo entre os governos da Inglaterra e da França, que deu origem a um consórcio industrial responsável por seu desenvolvimento e comercialização, liderado pela então Aérospatiale, da França (hoje Airbus), e BAC, da Inglaterra.

Ele fazia o trajeto Londres-Nova York em coisa de três horas – menos da metade do tempo consumido num avião a jato convencional. O modelo era capaz de transportar de 90 a 120 passageiros, dependendo da configuração, e atingia velocidades de cruzeiro de até 2.179 km/h, cerca de duas vezes a velocidade do som. Em voo de cruzeiro, alcançava altitudes de 16 a 17 mil metros, em comparação aos 11 a 14 mil metros de outros modelos comerciais, o que oferecia menos turbulência, evitava congestionamentos em rotas mais movimentadas e, em determinadas condições, permitia aos passageiros até mesmo visualizar a curvatura da Terra.

<strong>O Concorde, apesar do glamur do voo supersônico, acabou virando peça de museu, após pouco menos de 30 anos de operações.</strong>

O Concorde, apesar do glamur do voo supersônico, acabou virando peça de museu, após pouco menos de 30 anos de operações. (British Aircraft Corporation/Aérospatiale/Divulgação)

Com todas essas maravilhas, o que deu errado? Por que o Concorde sumiu? Apesar do glamour, ele tinha um caminhão de problemas, na verdade. O mais grave talvez fosse o barulho ensurdecedor que ele produzia ao romper a barreira do som. Isso trazia limitações ao seu uso – por lei, ele não podia produzir o “boom” sônico sobre regiões povoadas, por exemplo. O avião também poluía muito mais, e bebia para caramba – 11 vezes mais que um 737. E aí veio a crise do petróleo na década de 1970, e as companhias aéreas passaram por um enorme aperto – o preço do querosene de aviação quadruplicou.

No fim, foram construídos 20 Concordes, dos quais só 14 entraram em operação, divididos entre as estatais Air France e British Airways. Os governos da França e da Inglaterra tiveram grandes perdas com o programa, que jamais se pagou. E isso mesmo cobrando tarifas bem altas, algo como US$ 15 mil por um voo transatlântico de ida e volta, em valores atuais.

A gota d’água aconteceu em 25 de julho de 2000: um Concorde da Air France caiu logo após a decolagem em Paris, matando os 109 passageiros a bordo. As investigações indicaram que a tragédia aconteceu por causa do estouro de um dos pneus do avião e perfuração de um dos tanques de combustível, causando um incêndio. Após o acidente, os voos com o modelo foram suspensos, sendo retomados apenas em novembro de 2001. O último voo comercial foi em outubro de 2003. As aeronaves viraram peças de museu. Mas o sonho do voo supersônico de passageiros não morreu com ele.

<strong>Embora o Concorde seja o mais conhecido avião civil supersônico, outros foram desenvolvidos na mesma época, inclusive uma quase cópia soviética, o Tupolev Tu-144, que, reza a lenda, se aproveitou de informações do Concorde obtidas pela eficiente espionagem soviética. Embora seu primeiro voo tenha acontecido alguns meses antes de seu primo mais famoso, o Tu-144 sofreu reveses em seu curto período operacional, com falhas e acidentes. Um deles se deu no tradicional salão aeronáutico de Le Bourget, em Paris, em 1973, com o avião se despedaçando num mergulho no ar, vitimando seis tripulantes e outras oito pessoas no solo. Após ter realizado alguns voos comerciais em pequena escala, o Tu-144 foi retirado de operação no final da década de 1970.</strong>

Embora o Concorde seja o mais conhecido avião civil supersônico, outros foram desenvolvidos na mesma época, inclusive uma quase cópia soviética, o Tupolev Tu-144, que, reza a lenda, se aproveitou de informações do Concorde obtidas pela eficiente espionagem soviética. Embora seu primeiro voo tenha acontecido alguns meses antes de seu primo mais famoso, o Tu-144 sofreu reveses em seu curto período operacional, com falhas e acidentes. Um deles se deu no tradicional salão aeronáutico de Le Bourget, em Paris, em 1973, com o avião se despedaçando num mergulho no ar, vitimando seis tripulantes e outras oito pessoas no solo. Após ter realizado alguns voos comerciais em pequena escala, o Tu-144 foi retirado de operação no final da década de 1970. (Tupolev/Divulgação)

O RETORNO

Mesmo após a retirada de serviço do Concorde, várias empresas ainda apostam que podem encontrar a fórmula bem-sucedida para um avião supersônico. As iniciativas recentes têm em comum a busca por diminuir o chamado “boom” sônico, fenômeno físico que acontece quando se atinge a velocidade do som, gerado por distúrbios na pressão do ar ao redor da aeronave. Isso provoca fortes ondas de choque e um estrondo.

A Lockheed Martin, uma das maiores empresas aeroespaciais do mundo, em parceria com a Nasa, trabalha há anos em tecnologias supersônicas para aplicações comerciais. Um destes programas é o N+2, aeronave conceitual dotada de três turbojatos capaz de transportar 80 passageiros a Mach 1,7 (70% mais que a velocidade do som), com um boom sônico cem vezes menos ruidoso que o do Concorde. O avião, no entanto, não deve voar tão cedo. A Lockheed Martin estima que a tecnologia esteja disponível apenas por volta de 2025.

<strong>O N+2, da Lockheed Martin, promete cortar pela metade o tempo de voo entre Nova York e Los Angeles. Com capacidade para 80 passageiros, ele foi desenhado para produzir um boom sônico muito menos ruidoso que o tradicional.</strong>

O N+2, da Lockheed Martin, promete cortar pela metade o tempo de voo entre Nova York e Los Angeles. Com capacidade para 80 passageiros, ele foi desenhado para produzir um boom sônico muito menos ruidoso que o tradicional. (NASA/Divulgação)

Já a Boom Technology, dos EUA, fundada por experientes executivos da indústria aeroespacial, aposta no projeto de um modelo capaz de transportar até 40 passageiros a uma velocidade de Mach 2,2, fazendo o trajeto Londres–Nova York em pouco mais de 3 horas. O empresário Richard Branson, proprietário da companhia aérea Virgin, está apoiando o projeto, ainda em fase inicial, e tem a opção de comprar dez unidades. A Boom espera construir um protótipo em escala reduzida para ensaios em voo nos próximos anos.

<strong>A Boom Technology, dos EUA, aposta num design ousado, que poderia atingir até 2,2 vezes a velocidade do som com 40 passageiros a bordo. Mas o projeto ainda está em fase inicial.</strong>

A Boom Technology, dos EUA, aposta num design ousado, que poderia atingir até 2,2 vezes a velocidade do som com 40 passageiros a bordo. Mas o projeto ainda está em fase inicial. (Boom Technology/Divulgação)

As pretensões supersônicas também estão no radar da aviação executiva. A americana Aerion Corporation, em colaboração com a europeia Airbus – uma das herdeiras tecnológicas do Concorde –, desenvolve desde 2014 o jato executivo Aerion AS2, com capacidade para oito a 12 endinheirados passageiros. Segundo a empresa, o programa está avançando em termos de engenharia, e o cronograma considera o primeiro voo em 2021 e entrada em serviço em 2023. Preço? Bem mais de US$ 100 milhões, pode apostar.

<strong>Focada mais num perfil de transporte executivo que de passageiros, a americana Aerion Corporation, em parceria com a Airbus, desenvolve o Aerion AS2, um avião supersônico com capacidade para 8 a 12 passageiros.</strong>

Focada mais num perfil de transporte executivo que de passageiros, a americana Aerion Corporation, em parceria com a Airbus, desenvolve o Aerion AS2, um avião supersônico com capacidade para 8 a 12 passageiros. (Aerion Corporation/Divulgação)