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Cultura

Afrodite – Deusa da beleza

O apetite sexual de Afrodite só é comparável ao do pai, Zeus. Mas ela não precisa de disfarces para conquistar seus objetos de desejo. Sua beleza e poder de sedução são irresistíveis.

Texto: Maurício Horta | Edição de Arte: Estúdio Nono | Design: Andy Faria |
Imagens: Adobe Stock e Getty Images

NOME ROMANO – VÊNUS • DIVINDADE – DEUSA DA BELEZA E DOS PRAZERES DO AMOR

Afrodite personifica a sedução. Ela é a materialização do ideal de beleza. E é capaz de corromper qualquer um, desmanchando os mais sagrados vínculos de fidelidade. É ela que leva deuses, deusas, homens e mulheres a tomar decisões irracionais. De todos os seres do Universo, somente três estão livres de sua influência encantadora: Héstia, a mais velha das filhas de Cronos, Ártemis, a deusa da caça, e Atena, a deusa da sabedoria na guerra. De resto, até mesmo Zeus se perde na luxúria patrocinada pela deusa da sensualidade, para a ira da rainha do Olimpo.

Um exemplo de como o amor e o sexo são o filtro pelo qual passam todos os pensamentos e atitudes de Afrodite: quando ela pensa na armadilha criada pelo marido, Hefesto, o foco não é a humilhante punição sofrida, mas as declarações de amor que os mais jocosos dos deuses fizeram ao vê-la nua, presa sobre sua cama. Encantada com um comentário de Hermes sobre aceitar ser preso pelo triplo de correntes para estar com ela, a deusa faz sexo com o meio-irmão. Igualmente lisonjeada pela intervenção de Poseidon, ela se entrega ao tio. Depois, deita-se com Dionísio.

Afrodite não tem jeito. Faz amor com todos aqueles que cativam seus olhos, sejam deuses, sejam reles mortais. Com uma beleza que se torna irresistível quando ela veste seu espartilho mágico, não sobra homem nem deus imune a seus encantos.

O AMOR MORTAL DE AFRODITE

Essa deusa reina sobre o mais poderoso dos instintos: a procriação. Além de se envolver com deuses, ela exerce poder sobre o desejo alheio. Foi sob sua inspiração que Zeus amou tantas mortais e que tantas mulheres caíram em desgraça. Se aos homens a inspiração afrodisíaca traz uma felicidade irresponsável, a mesma influência leva as mulheres à fatalidade: arranca seus pudores e as faz tomar-se por uma infeliz paixão cega, muitas vezes criminosa, pelo homem alheio.

Foi o que aconteceu com Medeia, que, para castigar o ex-amante Jasão por sua indiferença, mata a esposa dele e os próprios filhos. Afrodite também faz Fedra apaixonar-se pelo enteado Hipólito. A pobre, para evitar que o marido saiba de seu desejo, espalha o boato de que Hipólito tinha se apaixonado por ela, levando o pai a matar seu filho.

<strong>Não há homens nem o mais poderoso deus que permaneçam imunes aos encantos de Afrodite.</strong>
Não há homens nem o mais poderoso deus que permaneçam imunes aos encantos de Afrodite. Mondadori Portfolio/Getty Images

Com seu poder moderador, Zeus decide punir Afrodite por criar tantas intrigas passionais. E a melhor forma para isso é humilhá-la, fazendo-a apaixonar-se por um mero mortal. Enquanto caminha sem rumo pelo Monte Ida, Afrodite avista um homem levando seu gado para pastar. É Anquises, rei da Dardânia, território vizinho de Troia, cujas feições são tão belas que se igualam às dos deuses. Anquises nota a presença da deusa e sorri para ela. Nesse momento, a magia de Zeus é concretizada no coração divino de Afrodite.

Imediatamente ela viaja para o templo de Pafos, no Chipre, e ordena que as Graças a banhem e untem seu corpo com o óleo de ambrosia. Veste então roupas mais brilhantes que o fogo e joias de ouro forjadas pelo marido traído, Hefesto. Para não assustar seu amado, abandona as formas divinas e se transforma em uma bela virgem. Somente então Afrodite volta ao Monte Ida para encontrar o amado, tocando a lira sozinho numa cabana de pastores.

“Bem-vinda, senhora, seja qual das Abençoadas fores – Ártemis, Leto, a dourada Afrodite, a nobre Têmis ou Atena, dos olhos brilhantes. Ou porventura serias uma das Graças, que a todos os deuses ajudam, ou as ninfas das fontes e dos gramados? Erigirei um altar para ti e nele te oferecerei sacrifícios o ano inteiro. Sê graciosa para tornar-me grande entre os troianos, fazer meu gado procriar e dar-me a felicidade e longevidade nesta vida.”

“Ó Anquises, o mais nobre dos homens, não sou uma deusa!”, responde Afrodite. “Por que me igualas às imortais? Meu pai é o rei da Frígia. Os troianos, que me criaram, informaram-me que em tua cama devo tornar-me uma mulher casada e dar-te filhos nobres. Leva-me a teus pais e eles te dirão se serei ou não uma boa nora para eles. E mande uma mensagem para meus pais na Frígia, que eles te enviarão um dote esplêndido de ouro para que tenhamos um casamento digno dos mortais e dos imortais.”

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Com tal resposta, Anquises é tomado por um doce desejo. “Se és mortal, filha de Otreu, como dizes, e, trazida pela vontade do deus mensageiro, Hermes, queres ser minha esposa, então deus algum me impedirá de amar-te.”

Dadas essas palavras, Anquises pega as mãos de Afrodite, que se deita sobre as peles de ursos e de leões caçados pelo amante. Tira as vestimentas da deusa e seus adornos, solta seu cinto e, sob o decreto dos deuses, deita-se sobre Afrodite.

<strong>O rei Anquises tem o privilégio de ir para a cama com a deusa do sexo. Mas se dá mal ao contar vantagem disso.</strong>
O rei Anquises tem o privilégio de ir para a cama com a deusa do sexo. Mas se dá mal ao contar vantagem disso. Sepia Times/Getty Images

Ao nascer do sol, quando os dois estão para partir, Afrodite revela sua identidade e pede que ele jamais conte a alguém que se deitou com ela. Anquises é tomado pelo horror ao saber que ousou desnudar uma deusa e pede desesperado que ela não ceife sua vida em castigo.

“Não te preocupes. Não há o que temer. Terás a vida salva e um filho famoso”, diz Afrodite. Os dias se passam, até que, durante uma noite em que Anquises bebe vinho com seus colegas de pastoreio, um deles lhe pergunta: “Não preferirias dormir com a filha de fulano do que com a própria Afrodite?”. “Não, meu caro”, responde Anquises, embriagado. “Tendo já dormido com ambas, considero sua pergunta inútil.”

Ao ouvir tamanha blasfêmia contra uma deusa, Zeus lança seu raio mortal em direção a Anquises. Afrodite voa ao seu encontro para protegê-lo com o espartilho mágico. Ela de fato consegue desviar a munição divina, mas o raio ricocheteia em direção ao pé do amado. Sua vida é poupada, mas o choque é tamanho que nunca mais ele poderá ficar de pé. Como já lhe basta o marido Hefesto de aleijado em sua vida, Afrodite abandona o amante mortal tão logo ela dá à luz seu filho Eneias. E logo a deusa parte para sua próxima aventura amorosa.

HERMAFRODITO: O SER DE DOIS SEXOS

Do breve amor da deusa do desejo sexual com Hermes, nasce uma criança, que recebe o nome do pai e da mãe.

O amor de Afrodite com seu irmão Hermes também dá fruto. Esse filho de ambos, quando aos 15 anos, encontra um lago em que é possível ver o fundo, tão límpida é a água. Lá, mora a ninfa Salmácida. Diferentemente das outras ninfas, ela não partia para os bosques para caçar nem para disputar corridas. Ficava sozinha, banhando seu corpo e penteando seus longos cabelos.

Quando Salmácida vê o belo Hermafrodito, canta para atrair sua atenção: “Lindo rapaz, felizes são os deuses que te conceberam. Abençoado seja teu irmão e abençoada seja tua irmã, se os tiveres. Abençoada seja também a ama que te amamentou, mas mais abençoada ainda seja aquela com quem te casares. Se já houveres sido prometido a alguém, que seja roubada de mim a felicidade, mas, senão, deixa que eu seja tua noiva!”

<strong>Os deuses ouvem seu clamor, e assim os dois corpos se unem em um só, nem homem, nem mulher, mas os dois ao mesmo tempo. </strong>
Os deuses ouvem seu clamor, e assim os dois corpos se unem em um só, nem homem, nem mulher, mas os dois ao mesmo tempo. Reprodução/Divulgação

O rubor toma a face de Hermafrodito, que não sabe sequer o que é o amor. Mas tal rubor só o deixa mais belo. A ninfa pede então um beijo, um beijo fraterno que seja, e abraça seu pescoço branco.“Basta!”, diz Hermafrodito. “Pare com isso, ou eu abandonarei este lugar.”

Com medo de perdê-lo, Salmácida simula deixar o lago, e o rapaz se vê novamente sozinho. Ele tira então suas roupas e se lança às águas cristalinas. Nesse momento, a ninfa grita: “Venci, ele é meu”, despe-se e o agarra nas águas, forçando-lhe beijos e carícias. Hermafrodito tenta fugir de seus braços, mas eles o prendem como um polvo que envolve sua presa.

“Tolo, podes lutar quanto quiseres”, diz Salmácida, “mas jamais escaparás de mim. Deuses, que não haja um dia em que nós sejamos separados.” Os deuses ouvem seu clamor, e assim os dois corpos se unem em um só, nem homem, nem mulher, mas os dois ao mesmo tempo.

Desesperado, ao sair da água com os suaves membros de uma fêmea, Hermafrodito grita aos céus: “Pai, mãe, por favor, garanti-me que todos aqueles que se banharem aqui emerjam como eu, metade homem, metade mulher”. Os pais o ouvem e, para compensar o filho de dois sexos, enfeitiçam as águas conforme seu desejo.

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