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Ciência

Angra dos Reis, capital nuclear

A operação e a história das duas usinas atômicas em funcionamento no País.

Texto: Tiago Cordeiro | Edição de arte: Estúdio Nono
Design: Andy Faria | Imagens: Getty Images

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e os reatores nucleares funcionam como gigantescas panelas de pressão, as duas panelas de Angra dos Reis (RJ) são modelos antenados com o que há de melhor no mercado. “Atualmente, depois de algumas atualizações tecnológicas, as usinas Angra 1 e 2 estão entre as mais modernas do mundo, tanto no quesito segurança quanto no rendimento”, diz o físico Ítalo Curcio, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

As duas usinas são gerenciadas pela Eletronuclear, uma empresa subsidiária da Eletrobras. A companhia mantém uma sede administrativa no Rio de Janeiro e a unidade industrial em Angra dos Reis, localizada a 150 km da capital do Estado. Dos 1.746 funcionários da empresa, 1.320 trabalham em Angra e os demais no Rio. Somadas, as duas usinas geram 1.990 megawatts, que equivale a 40% do consumo do Estado do Rio de Janeiro e 3% do país.

Angra 1 (inaugurada em 1982) e 2 (na ativa desde 2001, depois de duas décadas de obras) utilizam o reator de água pressurizada, o PWR, o mais comum no mundo – 66% da capacidade nuclear instalada no planeta utiliza esse modelo.

O funcionamento é relativamente simples: a fissão dos átomos de urânio gera calor, que aquece a água do sistema primário. O líquido é pressurizado para evitar que entre em ebulição. Acontece que a água do sistema primário é radioativa, e não pode entrar em contato com o resto do circuito. Por isso, ela é enviada para uma tubulação, que passa dentro de um gerador de vapor, que por sua vez movimenta uma turbina que envia a energia elétrica para o Sistema Interligado Nacional.

Barris com concreto

O produto mais radioativo de Angra, como de qualquer usina, é o combustível da usina, os cilindros cheios de pastilhas feitas de urânio enriquecido. A cada ano, um terço desse material esgota sua capacidade produtiva, ainda que continue gerando radiação por séculos. Essas pastilhas gastas são colocadas em uma piscina especial. Menos radioativas, as ferramentas e roupas que têm contato com o combustível são colocadas dentro de barris metálicos, posteriormente preenchidos com concreto e armazenados no Centro de Gerenciamento de Rejeitos de Angra e em depósitos temporários mantidos dentro da própria usina.

Em paralelo com a construção de Angra 3, está prevista a inauguração de um depósito geológico, capaz de armazenar os resíduos por cem anos. Aliás, em que pé estão as obras de Angra 3?

Paradas, novamente. As obras começaram em 1984, apenas dois anos depois do início dos trabalhos de Angra 2, mas foram interrompidas diversas vezes desde então. A construção avançou entre 2010 e 2015, por exemplo, e foi paralisada mais uma vez em consequência da crise econômica.

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A Eletronuclear informa que, atualmente, estão sendo executadas atividades de preservação das instalações do canteiro de obras e das estruturas e equipamentos da usina, ao custo de R$ 3 milhões mensais.

Próximos passos

A empresa entregou um estudo ao Ministério de Minas e Energia (MME), à Eletrobras e ao Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), sugerindo diferentes modelos de financiamento para a retomada das obras. A previsão atual é reiniciar os trabalhos em 2021, para terminar em 2026. Neste momento, 62% dos trabalhos estão finalizados, mas ainda faltam R$ 14 bilhões para que a usina entre em operação.

Além disso, o governo federal anunciou, em 2019, que nos próximos anos pretende construir de quatro a oito novas usinas. Vale a pena gastar tanto dinheiro para erguer usinas que, por mais seguras que sejam, produzem resíduo radioativo?
Sem dúvida que sim, responde o físico brasileiro Dalton Ellery Girão Barroso, que em sua tese de doutorado descreveu em detalhes o funcionamento de uma bomba atômica.

“A energia nuclear é essencial para o desenvolvimento da humanidade. Não há outra fonte de energia (e que seja ecologicamente viável) capaz de satisfazer toda a demanda futura”, ele afirma. “Se o Brasil quer garantir seu futuro na geração de energia elétrica, deve ter um programa de construção de usinas nucleares, sim, não há dúvidas. Veja o exemplo da China, tem 36 reatores nucleares em operação e está construindo mais 21 usinas.”

Por outro lado, o risco de acidentes levou o governo da Alemanha a anunciar, em 2011, logo após o acidente de Fukushima, que iria interromper inteiramente seu programa nuclear até 2022. Das 17 usinas do país, oito foram encerradas poucas semanas após o incidente registrado no Japão.

Bahia e Ceará

Além de Angra, outros locais estão envolvidos com a indústria nuclear brasileira. A empresa responsável por minerar urânio e fornecer o combustível para as usinas nucleares, a Indústrias Nucleares do Brasil, mantém uma única mina em operação – fica em Caetité, no sudoeste da Bahia. Deve iniciar em 2020 a extração na jazida de Itataia, localizada no município cearense de Santa Quitéria. Em paralelo, a Agência Nacional de Mineração (ANM) cobra das Indústrias Nucleares do Brasil atenção com a primeira barragem de exploração de urânio do país, em Caldas (MG).

As instalações ficaram na ativa entre 1982 e 1995, fornecendo urânio para abastecer Angra 1. A mina está fechada, mas ainda demanda um cuidado com os resíduos, que são mantidos em uma barragem que, segundo a ANM, corre o risco de se romper. Outra área demanda manutenção: Abadia de Goiás, cidade próxima a Goiânia para onde foram enviados os resíduos do acidente radioativo com césio.

Até hoje, nunca foi registrado nenhum acidente em Angra 1 e 2. Mas a Eletronuclear mantém um plano de contingência que respeita protocolos internacionais padronizados. A região do entorno foi dividida de acordo com o grau de risco e os moradores da área recebem treinamento constante. Um sistema de alerta da Defesa Civil, composto por oito sirenes, é testado todo dia 10, sempre às 10h. Em todos os anos pares, são realizados exercícios parciais. Nos anos ímpares, a Defesa Civil realiza exercícios gerais de emergência.

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