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Pode parecer promessa milagrosa, mas as terapias cognitivo-comportamentais costumam dar resultados em poucos meses. E o mais curioso é que você mesmo pode ser o terapeuta.

Texto: Aline Bisol e Tatiana Reckziegel | Edição: Emanuel Neves | Design: Estúdio Nono | Ilustração: Eduardo Rosa


Oito patas alongadas e peludas, um fio de suor gelado que escorre instantaneamente pelas costas e o coração galopando na garganta. Diagnóstico: aracnofobia. Só nos Estados Unidos, segundo a Associação Americana de Psiquiatria, cerca de 9% da população sofre com medos específicos como esse. São quase 30 milhões de pessoas. Muitas delas têm pânico de aranhas. Não raramente, vão parar no divã. Numa sessão de psicanálise freudiana, o terapeuta provavelmente iria vasculhar o desenvolvimento sexual da infância do paciente para chegar à origem do problema. É que essa aranha pode esconder um conflito pessoal bem mais profundo.

Psicanalistas da linha do suíço Carl Jung iriam ainda mais longe no valor simbólico da aranha – uma imagem relacionada ao perigo e à paciência. O analista pode pedir ao paciente que desenhe mandalas. As cores e os traços ajudam a expressar questões guardadas no inconsciente. Na psicanálise do francês Jacques Lacan, o foco estaria na linguagem. A pessoa falaria sem freios sobre qualquer tema, muito além das aranhas. Em meio a esse fluxo, o terapeuta pinça palavras que viram insights sobre os medos inerentes à existência. Já a terapia cognitivo-comportamental (TCC) não se importa com questões tão filosóficas assim.

A TCC é bem mais direta: se você quer mudanças na prática, deve dar uma limpada na lente pela qual enxerga o mundo. Na sessão, o terapeuta identifica pensamentos irracionais e exagerados, conhecidos como distorções cognitivas. Ele irá trabalhar as crenças que estão por trás do medo – como acreditar que você é excessivamente vulnerável. Daí o fato de as aranhas parecerem tão ameaçadoras.

Por fim, a terapia combina a isso técnicas bem práticas. O paciente pode ser exposto a um desenho de aranha, depois a uma foto do animal e a uma aranha de brinquedo. A mente vai se acostumando a lidar com o medo gradualmente. Os sintomas físicos tendem a se atenuar. A pessoa aprende a controlar seus pensamentos. Até o dia em que vê uma aranha e não tem uma síncope. Ela está curada – e a vida segue.

O processo pode demandar apenas três meses de sessões, em alguns casos. Bem menos do que na psicanálise clássica, em que um tratamento costuma demorar anos. Essa objetividade faz da TCC a queridinha entre os tratamentos psicológicos do século 21.

A TCC pode durar mais tempo se o paciente quiser explorar novas questões pessoais. De qualquer forma, um de seus trunfos é o fato de não se resumir a uma hora por semana no consultório. O terapeuta prescreve exercícios que funcionam como tema de casa. Digamos que o paciente acredite que o mundo só o valoriza pela sua aparência física. Uma forma de mudar isso é pedir aos entes queridos que o definam em uma palavra. Talvez um amigo diga divertido, a mãe eleja carinhoso e o colega de trabalho, inteligente. Essas informações ajudam a pessoa a entender que beleza não é o único aspecto relevante. E assim a distorção cognitiva é abrandada.

A jornada de mudança da percepção é chamada de psicoeducação. E se trata de um verdadeiro ato de empoderamento. Afinal, a intenção da TCC é transformar o paciente em seu próprio terapeuta. “O processo de alta é natural, pois a pessoa logo está dizendo como controlou seus pensamentos e emoções”, explica Ricardo Wainer, doutor em psicologia e especialista em TCC.

A psicanálise, criada pelo médico austríaco Sigmund Freud em 1890, nasceu obcecada pelo inconsciente – aquilo que guardamos na caixa-preta dos pensamentos. Freud acreditava que o ser humano era refém do mar revolto do inconsciente, no qual as ondas resultavam do desenvolvimento psicossexual ocorrido na infância. As experiências dessa fase ficariam em cantos esquecidos da memória, direcionando sorrateiramente nossos comportamentos. Essa teoria, entretanto, ignora tudo que podemos fazer de modo consciente para remar contra os instintos.

A vez da consciência

Nada contra Freud e sua turma. Possivelmente você conhece alguém que faz psicanálise, e está tudo bem. Ela cumpre o que se propõe: gera autoconhecimento. Além disso, os preceitos do médico austríaco ajudaram o homem a compreender que transtornos mentais não eram causados por coisas como uma pancada na cabeça. Ou então que as pessoas poderiam ser tratadas em vez de jogadas à própria sorte em manicômios. A maior crítica em relação ao modelo é o seu suposto descompasso com a sociedade moderna.

A praxe de um tratamento psicanalítico inclui muitas sessões semanais, falar bastante, ouvir apenas interferências pontuais e revisitar exaustivamente questões dolorosas. Isso tudo ao longo de muitos anos. Pode não caber no bolso, na agenda e nem na paciência de todas as pessoas. Outro flanco é a ausência de resultados comprovados, devido à escassez de estudos. Não eram feitas tantas pesquisas nem havia uma base grande de pacientes em 1890 para que as teses de Freud fossem avaliadas em tempo real – como hoje ocorre com a TCC. Ainda assim, ele deixou um legado muito mais rico do que apenas uma metodologia terapêutica a ser posta à prova. Freud amaciou o divã para o que estava por vir.

Se a psicanálise mergulhou nas profundezas do inconsciente, a terapia comportamental do americano Burrhus Skinner, surgida em 1950, quis voltar à superfície. Por que dedicar anos vasculhando as causas (pensamentos) se você pode agir direto nas consequências (atitudes)? A proposta do professor de Harvard foi inspirada no comportamentalismo, preconizado pelo americano John Watson em 1913. Watson colocou em xeque os conceitos freudianos de consciente e subconsciente.

Para ele, os comportamentos eram reações a estímulos externos. Skinner pegou essa onda. Ele acreditava que os indivíduos repetiam ações com consequências boas e evitavam as de desfecho negativo. Seria possível, assim, influenciar os seus atos com base nas recompensas. É a chamada Teoria do Reforço. Funciona como dar biscoitos a um cão quando ele acerta os truques.

A partir disso, Skinner desenvolveu trabalhos combinando reforço e exposições sucessivas. A técnica se chama condicionamento operante e pode ser muito útil para quem tem fobias. É o caso do tratamento de aracnofobia mencionado no começo dessa reportagem. A terapia comportamental é considerada a primeira geração das TCCs.

A segunda foi a terapia cognitiva, proposta pelo americano Aaron Beck no início dos anos 1960. Psicanalista e professor da Universidade da Pensilvânia, ele acreditava que era possível driblar o determinismo do inconsciente – defendido por Freud. A saída consistia em colocar o foco na camada mais exposta da mente, as cognições. Cognição é o conjunto de processos utilizados pelo cérebro para absorver estímulos vindos dos cinco sentidos e da própria memória. Isso inclui raciocínio, associações e outros pensamentos.

Beck também propôs um método com sessões e evolução estruturados, além de criar tabelas para diagnósticos. Até hoje, suas escalas – como a de depressão e de ansiedade – são usadas para identificar quão severo é o quadro do paciente. Ao diminuir a subjetividade, ele transformou sua terapia em algo mais fácil de ser testado e reproduzido. Isso ajuda a formação de profissionais especializados em TCC. Vale ressaltar que o método é uma psicoterapia. Ou seja, a formação é restrita a pessoas com graduação em psicologia ou psiquiatria. Apesar disso, existem cursos que ensinam técnicas isoladas de TCC a um público mais amplo.

Essa organização também facilitou a elaboração de um grande número de estudos sobre a TCC. Um levantamento da Universidade de Boston, feito em 2012, envolveu 269 pesquisas sobre a eficiência do método. “É, indiscutivelmente, a psicoterapia mais estudada até hoje”, afirma o documento. A TCC levou a melhor na maioria dos comparativos com outras terapias e até medicamentos. No transtorno do pânico, por exemplo, foi eficiente em 77% dos casos. As outras vertentes, em 50%. Já um estudo do Hospital Neurológico de Lyon, na França, avaliou oito pesquisas sobre reincidência de pacientes com depressão após o primeiro ano de tratamento. Apenas 29% dos paciente submetidos à TCC voltaram a ter episódios da doença. Já entre os que utilizaram antidepressivos, o índice foi de 60%.

COMO FUNCIONA UMA SESSÃO

1. CHECAGEM DE HUMOR
Em uma conversa sobre como foi a semana, o paciente dá o tom do seu humor e dos acontecimentos mais importantes.

2. AVALIAÇÃO DE TAREFA DE CASA
Paciente e terapeuta discutem o exercício proposto na última sessão e o que se descobriu a partir dela.

3. AGENDA DE ASSUNTOS
O psicólogo mantém alguns tópicos – idealmente de dois a três – para serem trabalhados naquela sessão, mas tudo que o paciente traz da semana é levado em conta.

4. RESUMO DA SESSÃO
É hora de fazer uma síntese do que foi trabalhado na consulta. Isso ajuda a memorização.

5. FEEDBACK
A ideia é que o paciente receba um retorno para entender se a evolução do tratamento está adequada ou que pontos devem ser melhorados.

6. TAREFA DE CASA
Um novo exercício é proposto a partir da pauta da sessão. Agora, a terapia continua por conta do paciente, até a próxima semana.

De pai para filho

É provável que os adultos do futuro tenham menos grilos psicológicos. Isso porque muitos pais estão aplicando técnicas de terapia com seus filhos desde a infância. Eles fazem parte de uma geração que soma alguns anos no divã. Um exemplo é a jornalista Fernanda Dreier, mãe da pequena Cecília, de apenas 3 anos. Ela tem no currículo quatro anos de psicanálise e outros quatro de TCC para tratar um transtorno de ansiedade generalizada.

Quando descobriu que estava grávida, tinha uma certeza: não queria que a filha enfrentasse as mesmas dificuldades. Fernanda, assim, começou a agir antes mesmo de Cecília aprender a falar. A mãe procurava nomear os sentimentos que as situações do cotidiano apresentavam. Se a menina bufava por não conseguir encaixar um bloco no lugar, Fernanda explicava que aquilo era frustração. Mas que, crescendo um pouco mais, ela conseguiria.

Hoje, Cecília já sabe identificar quando está chateada, alegre, entediada e até ansiosa. “Ela entende qual é o sentimento e que não há problema em sentir aquilo”, comenta a jornalista. Saber perceber as suas emoções pode ajudar Cecília a tornar-se uma adulta com maior empatia para aceitar os sentimentos dos outros.

Apenas fique bem

Reunião dos docentes na Universidade de Nevada, nos EUA. Dois professores começam a brigar. Steven Hayes pensa em separá-los, mas está paralisado. Nem sequer consegue gritar. É um ataque de pânico, o primeiro de muitos que se seguiram. Com o tempo, os episódios ficaram mais intensos e frequentes. Até que uma noite, em casa, Hayes sentiu de novo. Só que dessa vez era diferente.

Os sintomas estavam fortes como nunca. Ele sabia: agora, era um ataque cardíaco. Sentado no chão, o professor começou a se imaginar entrando no hospital sobre uma maca, a equipe checando seus sinais. Por fim, um médico caminhava descontraído até ele e dava o tão temido diagnóstico. “Não é um infarto. É só um ataque de pânico.” E era mesmo.

Doutor em psicologia, Hayes sabia que a ansiedade estava minando a sua mente. Ele lutava em segredo contra o problema havia anos. “Experiências pessoais desse tipo sensibilizam e conectam você ao sofrimento dos outros”, comenta. Admitir o transtorno foi o primeiro passo para o professor desenvolver sua própria terapia. Chamado de terapia de aceitação e compromisso (ACT, na sigla em inglês), o método foi lançado em 1982 e liderou uma nova geração de TCCs.

A terceira onda das terapias cognitivo-comportamentais engloba tratamentos embasados nos princípios da TCC clássica. Não se trata de um movimento organizado, mas de um passo evolutivo que diversos pesquisadores deram ao sofisticar técnicas ao redor do mundo. A proposta principal é integrar os conceitos de Beck e Skinner a situações variadas, de meditação a acareações jurídicas.

Algumas dessas terapias têm excelentes resultados em transtornos específicos. É o caso da terapia comportamental dialética (DBT, em inglês), da americana Marsha Linehan. A DBT é a primeira psicoterapia a apresentar resultados consistentes no transtorno de personalidade borderline. Pessoas com essa síndrome podem oscilar entre emoções extremas (raiva e afeto) em instantes. Um estudo da Universidade de Humboldt e da Universidade Livre de Berlim, ambas da Alemanha, analisou 47 pacientes submetidos a um ano de DBT. Ao final do processo, 77% deles não se enquadravam mais nos critérios de borderline.

Já a terapia do esquema (TE), do americano Jeffrey Young, é direcionada a distorções cognitivas há muito enraizadas. Os esquemas são como pacotes de comportamentos usados para classificar os pacientes. Uma pessoa renegada pelos pais na infância, por exemplo, pode fugir de relacionamentos pessoais – um antídoto para não ser preterido novamente. Ela está no “esquema de abandono”. A missão do terapeuta é fazer o paciente entender os gatilhos que levam a essa reação e, assim, quebrar o esquema. Além disso, as sessões buscam preencher lacunas emocionais ligadas à questão. Isso pode incluir exercícios de autovalorização ou de extravasamento de emoções reprimidas.

Criada pelo brasileiro Irismar Reis, a terapia cognitiva processual (TCP) combina a TCC com técnicas jurídicas de acusação e defesa. Inspirado no clássico O Processo, do tcheco Franz Kafka, Reis decidiu colocar o paciente no centro de um julgamento. Mas não cabe ao psicólogo tomar um lado. “Todo processo é feito só pelo paciente. O terapeuta apenas dá as regras e dirige”, explica o psiquiatra. A pessoa, assim, pode se ver pela ótica de vítima e de réu. O recurso proporciona diferentes compreensões sobre um tema.

A ACT, de Steven Hayes, ensina a lidar com sofrimentos – como aqueles que desencadeiam os ataques de pânico que o próprio psicólogo teve. Alguns exercícios envolvem experimentar a sensação sem lutar, fazendo a pessoa perceber que aceitar o inevitável tende a gerar menos angústia.

Já a terapia focada na compaixão (TFC), desenvolvida pelo britânico Paul Gilbert, orienta o paciente a ser mais generoso consigo e com os outros. O objetivo é atenuar pensamentos que nos diminuem. As práticas envolvem verbalizar coisas boas a quem amamos – como “quero que você fique bem” ou “quero que seja feliz”. Os conselhos, aliás, têm tudo a ver com o discurso de amor-próprio, empoderamento e valorização da saúde mental que está em voga. É mais um ponto de contato entre a TCC e os tempos atuais.

A psicanálise de Freud entende o sofrimento como parte importante do processo. As TCCs querem apenas que você fique bem. Não daqui a anos, mas agora. Para isso, o paciente deve tomar as suas rédeas mentais. E vai contar com a ajuda permanente de um terapeuta nessa missão. No caso, ele mesmo.