A nova corrida armamentista dá origem a armas capazes de transportar e detonar ogivas nucleares até mesmo embaixo d’água.
Texto: Victor Bianchin | Edição de arte: Estúdio Nono | Design: Andy Faria
Quase três décadas depois do fim da guerra fria, a Rússia está cercada. Se em 1991, quando a União Soviética acabou, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) tinha 17 países membros, agora são 29, e 11 dos novos sócios são ex-aliados dos russos. A maior parte dessas nações é alinhada aos EUA, que vêm estimulando a organização a crescer em número de integrantes e também no orçamento militar, que deve alcançar US$ 1 trilhão em 2019. Enquanto tantos europeus se reúnem contra a Rússia, Moscou reage construindo novas e impressionantes armas.
Em dezembro de 2018, os russos apresentaram o míssil hipersônico Avangard, capaz de viajar a 20 vezes a velocidade do som e desviar de obstáculos em seu trajeto para o alvo – e tudo isso planando, sem a necessidade de sair da atmosfera e reentrar para ganhar velocidade. O país também já testou drones submarinos com o poder de interceptar ou cortar comunicações. E desenvolveu o míssil R-28 Sarmat, um colosso de 208 toneladas e 35,5 m de comprimento, com espaço para carregar dezenas de ogivas nucleares. Também vem testando o míssil Petrel, capaz de permanecer voando, indefinidamente, alimentado por um reator nuclear embarcado. Mas nenhum lançamento supera a capacidade de provocar terror do Poseidon.
Desenvolvido em 2015, ele é um veículo submarino não tripulado, que pode lançar ogivas de, estima-se, até 100 megatons. Detonado debaixo da água, na costa de uma metrópole, tem o poder de criar um tsunâmi com ondas de 500 m de altura. Bastaria um único Poseidon para destruir Nova York inteira, por exemplo.
Nova Era
Quando se trata de armas nucleares, os americanos avançam de forma mais lenta. A maior novidade por lá são as bombas B61-12, variantes mais recentes da família B-61, que existe desde os anos 1960. Assim como suas antecessoras, são bombas de gravidade (ou seja, precisam ser jogadas de aviões), com a diferença de que podem ser guiadas para atingir os alvos com altíssima precisão.
Também estão na lista de inovações as ogivas W76-2 de baixo rendimento (5 a 7 kilotons) para mísseis Trident II e um novo míssil de cruzeiro lançado do solo. O principal objetivo dos EUA, neste momento, é desenvolver equipamentos capazes de despachar as armas nucleares já existentes com a maior precisão possível, para qualquer canto do planeta, driblando as defesas inimigas.
Já a China vem ampliando os investimentos. O país, que tem dedicado US$ 175 bilhões por ano ao orçamento militar, passou a ter submarinos nucleares e mísseis balísticos intercontinentais. Destaque para o Dongfeng-41, capaz de ultrapassar a velocidade de 30 mil km/h e viajar por até 15 mil km em direção ao alvo, o que permitiria atingir o território americano. Aliás, a Coreia do Norte também desenvolveu um míssil capaz de chegar aos EUA, o Hwasong-15 (veja mais abaixo).
Em tese, existe um limite racional para o uso de bombas. Um estudo de 2018 assinado por Joshua Pearce, professor da Michigan Technological University, e por David Denkenberger, professor assistente da Tennessee State University, estima que o máximo de armas nucleares que uma nação pode usar sem prejudicar a si é de apenas 100. Mais que isso e está suscetível a matar seu próprio povo devido à ruptura das cadeias de fornecimento e às mudanças climáticas causadas pelas bombas. Tudo indica que, nos próximos anos, esse limite racional vai ser desafiado.
Diante da escalada, Washingon acusou os russos de romper os termos do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), que limitava a proliferação de armas de médio alcance. Os dois países abandonaram o acordo, firmado em 1987 e que nunca havia sido assinado pela China.
É provável que ambos se recusem a renovar o New Start, que expira em 2021 e limita o número de ogivas nucleares prontas para uso. Sinal de que o acordo não verbal de destruição mútua assegurada, que pressupunha que nenhum país usaria armas nucleares temendo ser alvo na sequência, não está mais em vigor.
