Clique e Assine a partir de R$ 12,90/mês
Tecnologia

Arsenal do século 21

A nova corrida armamentista dá origem a armas capazes de transportar e detonar ogivas nucleares até mesmo embaixo d’água.

por Victor Bianchin Atualizado em 17 ago 2020, 19h01 - Publicado em 4 jan 2020 11h33

A nova corrida armamentista dá origem a armas capazes de transportar e detonar ogivas nucleares até mesmo embaixo d’água.

Texto: Victor Bianchin | Edição de arte: Estúdio Nono | Design: Andy Faria


Quase três décadas depois do fim da guerra fria, a Rússia está cercada. Se em 1991, quando a União Soviética acabou, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) tinha 17 países membros, agora são 29, e 11 dos novos sócios são ex-aliados dos russos. A maior parte dessas nações é alinhada aos EUA, que vêm estimulando a organização a crescer em número de integrantes e também no orçamento militar, que deve alcançar US$ 1 trilhão em 2019. Enquanto tantos europeus se reúnem contra a Rússia, Moscou reage construindo novas e impressionantes armas.

Em dezembro de 2018, os russos apresentaram o míssil hipersônico Avangard, capaz de viajar a 20 vezes a velocidade do som e desviar de obstáculos em seu trajeto para o alvo – e tudo isso planando, sem a necessidade de sair da atmosfera e reentrar para ganhar velocidade. O país também já testou drones submarinos com o poder de interceptar ou cortar comunicações. E desenvolveu o míssil R-28 Sarmat, um colosso de 208 toneladas e 35,5 m de comprimento, com espaço para carregar dezenas de ogivas nucleares. Também vem testando o míssil Petrel, capaz de permanecer voando, indefinidamente, alimentado por um reator nuclear embarcado. Mas nenhum lançamento supera a capacidade de provocar terror do Poseidon.

Desenvolvido em 2015, ele é um veículo submarino não tripulado, que pode lançar ogivas de, estima-se, até 100 megatons. Detonado debaixo da água, na costa de uma metrópole, tem o poder de criar um tsunâmi com ondas de 500 m de altura. Bastaria um único Poseidon para destruir Nova York inteira, por exemplo.

Nova Era

Quando se trata de armas nucleares, os americanos avançam de forma mais lenta. A maior novidade por lá são as bombas B61-12, variantes mais recentes da família B-61, que existe desde os anos 1960. Assim como suas antecessoras, são bombas de gravidade (ou seja, precisam ser jogadas de aviões), com a diferença de que podem ser guiadas para atingir os alvos com altíssima precisão.

Continua após a publicidade

Também estão na lista de inovações as ogivas W76-2 de baixo rendimento (5 a 7 kilotons) para mísseis Trident II e um novo míssil de cruzeiro lançado do solo. O principal objetivo dos EUA, neste momento, é desenvolver equipamentos capazes de despachar as armas nucleares já existentes com a maior precisão possível, para qualquer canto do planeta, driblando as defesas inimigas.

Já a China vem ampliando os investimentos. O país, que tem dedicado US$ 175 bilhões por ano ao orçamento militar, passou a ter submarinos nucleares e mísseis balísticos intercontinentais. Destaque para o Dongfeng-41, capaz de ultrapassar a velocidade de 30 mil km/h e viajar por até 15 mil km em direção ao alvo, o que permitiria atingir o território americano. Aliás, a Coreia do Norte também desenvolveu um míssil capaz de chegar aos EUA, o Hwasong-15 (veja mais abaixo).

Em tese, existe um limite racional para o uso de bombas. Um estudo de 2018 assinado por Joshua Pearce, professor da Michigan Technological University, e por David Denkenberger, professor assistente da Tennessee State University, estima que o máximo de armas nucleares que uma nação pode usar sem prejudicar a si é de apenas 100. Mais que isso e está suscetível a matar seu próprio povo devido à ruptura das cadeias de fornecimento e às mudanças climáticas causadas pelas bombas. Tudo indica que, nos próximos anos, esse limite racional vai ser desafiado.

Diante da escalada, Washingon acusou os russos de romper os termos do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), que limitava a proliferação de armas de médio alcance. Os dois países abandonaram o acordo, firmado em 1987 e que nunca havia sido assinado pela China.

É provável que ambos se recusem a renovar o New Start, que expira em 2021 e limita o número de ogivas nucleares prontas para uso. Sinal de que o acordo não verbal de destruição mútua assegurada, que pressupunha que nenhum país usaria armas nucleares temendo ser alvo na sequência, não está mais em vigor.

Continua após a publicidade

Adeus, Fat Man

Novo arsenal nuclear é muito mais potente e preciso do que as armas que apavoraram o mundo na segunda metade do século 20.

Erro humano

Recentemente, um míssil de cruzeiro alimentado pelo próprio reator explodiu.

-
Dmitry Marmyshev/Getty Images

Como tudo o que envolve a indústria nuclear dos russos, um incidente recente ficou envolto em mistério: em agosto de 2019, sete pessoas morreram na região de Arkhangelsk, ao norte do país, depois de um acidente nuclear. A região chegou a ser evacuada, mas depois o governo voltou atrás. Ao longo dos dias, depois de muitas notas oficiais contraditórias, ficou mais claro o que aconteceu: um míssil de cruzeiro Petrel, alimentado pelo próprio reator nuclear, explodiu durante a realização de um teste numa plataforma em alto-mar. O acidente liberou radiação, mas não se sabe quantas pessoas foram prejudicadas.

A bomba brasileira

Ela existe, no papel. Conheça a história do pesquisador brasileiro que provocou um incidente diplomático ao desenhar, em detalhes, um artefato nuclear em sua tese de doutorado.

Texto: Tiago Cordeiro | Edição de arte: Estúdio Nono | Design: Andy Faria


Não é necessário criar uma bomba nuclear, mas é estratégico conhecer a receita. Foi pensando assim que o físico brasileiro Dalton Ellery Girão Barroso publicou uma tese de doutorado tão explosiva que permanece sob sigilo pelo Instituto Militar de Engenharia (IME) do Exército. O acesso ao texto, apresentado em 2006 com o nome Simulação Numérica de Detonações Termonucleares em Meios Híbridos de Fissão-fusão Implodidos pela Radiação, não é permitido ao público. Procurados, tanto o IME quanto o pesquisador confirmaram que o acesso à tese é restrito a pesquisadores previamente autorizados.

A parte não sigilosa da pesquisa foi utilizada como ponto de partida para a publicação, em 2009, de um livro de 174 páginas chamado A Física dos Explosivos Nucleares. Trata-se de uma obra técnica, escrita para especialistas, focada na reciclagem de reatores de geração de energia modelo PWR, os mais utilizados no mundo. O livro não incluiu a parte polêmica da tese original: a descrição do funcionamento de uma ogiva nuclear semelhante à W87 americana.

Na época, o Brasil foi pressionado, pela Agência Internacional de Energia Atômica (AEIA), a censurar a distribuição do livro. Em visita à Inglaterra na mesma época, o então presidente Luís Inácio Lula da Silva foi questionado pelo então primeiro-ministro Gordon Brown sobre as intenções tanto do Brasil quanto do pesquisador. Depois de semanas de negociações tensas envolvendo o chanceler Celso Amorim e o ministro da Defesa Nelson Jobim, o governo decidiu não impedir o lançamento do livro.

Custo alto

“Abrir mão de possuir armas nucleares é uma coisa. Abrir mão do conhecimento e da capacidade de desenvolvê-las é outra coisa completamente diferente”, explica Dalton Barroso, em entrevista à SUPER. O pesquisador e professor do IME estuda o assunto há mais de 35 anos.

Continua após a publicidade

Por que o Brasil não tem bombas nucleares? Além de ter se comprometido, ao assinar o Tratado de Não -Proliferação Nuclear (TNP), a não se envolver na produção de armamentos nucleares – o acordo impede que novos países desenvolvam armas atômicas, mantendo assim a situação atual -, existe também uma dificuldade orçamentária. “Essa tecnologia demanda muito dinheiro, por ser muito sofisticada, o que, de certo modo, faz com que poucos governos invistam recursos com essa finalidade”, explica Ítalo Curcio, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “O Brasil possui a matéria-prima básica, urânio, em abundância. Porém, para enriquecer esse urânio e obter o isótopo 235 na proporção necessária para a produção de uma bomba atômica, é preciso realizar um gasto muito alto.” O dinheiro poderia ser um problema, mas não faltaria capacidade: o Brasil domina o enriquecimento de urânio e chegou inclusive a desenvolver uma tecnologia própria.

Para Matias Spektor, professor associado e vice-diretor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, autor do livro As Origens da Cooperação Nuclear entre Brasil e Argentina, as consequências de um projeto militar envolvendo urânio enriquecido seriam terríveis. “Se um país da América Latina construísse um explosivo nuclear, o efeito seria péssimo no sentido de criar um ambiente de profunda insegurança.” Do ponto de vista do professor, uma corrida armamentista entre os vizinhos latino-americanos poderia levar a uma guerra nuclear sem limites. Quem discorda costuma apontar que deter armas atômicas reduziria os riscos de ataques inimigos. É a estratégia adotada por Irã e Coreia do Norte, por exemplo.

Desde o final dos anos 1970, o Brasil manteve diferentes programas nucleares, todos secretos. Henrique Saboia, ministro da Marinha do governo de João Figueiredo (1979-1985), conduziu um programa de enriquecimento de urânio em Iperó (SP). Na época, Brasil e Argentina se envolveram em uma corrida armamentista secreta, que se estendeu até o final dos anos 1980.

<strong>Uma obra técnica, escrita para especialistas, focada na reciclagem de reatores de geração de energia modelo PWR, os mais utilizados no mundo.</strong>
Uma obra técnica, escrita para especialistas, focada na reciclagem de reatores de geração de energia modelo PWR, os mais utilizados no mundo. Divulgação/Montagem sobre reprodução

O programa brasileiro incluiu a concessão de 700 bolsas, que formaram centenas de especialistas em pesquisa nuclear. Em 1990, o presidente Fernando Collor de Mello mandou fechar o Campo de Provas Brigadeiro Velloso, na Serra do Cachimbo (PA). Dentro da área de 22 mil metros quadrados, havia uma série de instalações, incluindo dois buracos com 270 metros de profundidade e 6 de diâmetro.

A Aeronáutica utilizava o local desde 1981, e nunca explicou direito por que precisava dos buracos – chegou a alegar que eles seriam usados para armazenar resíduos radioativos, mas a suspeita que pairou no ar, na época, nunca mais se dissipou: tudo indica que ali eram construídos e testados equipamentos e componentes utilizados para construir bombas atômicas.

Em 1998, o presidente Fernando Henrique Cardoso assinou o TNP. Desde então, oficialmente, o Brasil não mantém nenhum projeto que envolva a produção de artefatos nucleares. Mas o país ainda pretende ter submarinos de propulsão nuclear inteiramente nacionais. A previsão da Marinha é realizar a primeira entrega de veículos em 2029.

Continua após a publicidade

Dalton Barroso explica como desenhou um artefato nuclear.

<strong>“O Brasil não pode ficar alheio ao assunto”</strong>
“O Brasil não pode ficar alheio ao assunto” Divulgação/Reprodução

Como o senhor começou sua pesquisa sobre explosivos nucleares?

O estudo dos explosivos nucleares envolve um conjunto muito grande de áreas multidisciplinares, a maior parte das quais é matéria comum a outros ramos da atividade científica aberta, não necessariamente ligada ao desenvolvimento de explosivos nucleares. Não foi à toa que o famoso cientista e dissidente russo Andrei Sakharov, um dos pais do explosivo termonuclear russo, afirmou que “o estudo dos explosivos nucleares é um paraíso para os teóricos”. Foi essa gama de disciplinas tão diversificadas que me atraiu para o tema. Na verdade, comecei a estudar o assunto alguns anos após o início da minha carreira. Foram atividades de pesquisa estritamente acadêmicas, visando à aquisição de conhecimento, e não à eventual produção de armas nucleares, já que não há no país direcionamento nesse sentido. No entanto, a guerra nuclear tem consequências globais, e o Brasil não pode ficar alheio ao assunto.

Como o senhor alcançou os resultados apresentados em sua tese de doutorado?

Já há bastante tempo eu vinha acompanhando os trabalhos sobre fusão por confinamento inercial, matéria em parte desclassificada [que teve o sigilo levantado] a partir da década de 1970 e que estuda a produção de energia da fusão por meio de microexplosões termonucleares de esferas de deutério-trítio (DT), altamente comprimidas, utilizando feixes de raios laser ou de partículas carregadas. Embora inicialmente com motivações militares (para simular em laboratório as condições existentes nas detonações termonucleares), a produção de energia por meio de microexplosões termonucleares tem sido considerada como séria alternativa à produção de energia mediante a fusão por confinamento magnético. Portanto, eu estava bastante familiarizado com esse tema, que tem tudo a ver com o que ocorre nos explosivos termonucleares, dada a semelhança entre os processos envolvidos. De modo que não foi difícil para mim definir quais processos físicos deveriam ser levados em conta na simulação computacional de uma explosão termonuclear, nem que modelos e equações deveriam ser utilizados. A minha tese foi desenvolvida com relativa facilidade, tive apenas que adaptar os softwares que já haviam sido desenvolvidos por mim para estudar casos específicos propostos na tese.

A comparação de sua análise com a ogiva americana W87 (que teria inspirado a análise do professor) procede?

É difícil dizer, porque não conheço qual a configuração exata da W87, já que detalhes internos sobre bombas atômicas (com exceção das de Hiroshima e Nagasaki) são totalmente classificados. Baseei-me apenas numa figura esquemática da W87, publicada primeiramente numa revista americana (inadvertidamente, ao que consta), e, posteriormente, num relatório do Congresso Americano (Relatório Cox), contendo resultados de investigações sobre espionagem, por parte da China, em laboratórios nucleares dos Estados Unidos. Devo dizer que o objetivo principal da minha tese não era simular exatamente a W87, mas configurações semelhantes baseadas nas indicações dessa figura.

O Brasil tem condições de desenvolver artefatos militares atômicos? Deveria?

Qualquer país, com um mínimo de estrutura científica e tecnológica, tem condições de desenvolver armas nucleares desde que haja decisão política para tal. O Brasil tem tido um razoável desenvolvimento científico e tecnológico na área nuclear, desde a época do acordo com a Alemanha, na década de 1970 [firmado em 1975, o tratado previa a compra de equipamentos alemães para construir oito reatores]. Dominamos uma importante tecnologia, que é a do enriquecimento do urânio, mas não temos um reator próprio que pudesse ser destinado à produção de plutônio adequado a fins militares, nem usinas de reprocessamento do combustível irradiado do reator, etapas fundamentais para construir armas nucleares. De qualquer forma, o país já deu sinais de que não pretende desenvolver armamento nuclear. Entretanto, abrir mão de possuir armas nucleares é uma coisa. Abrir mão do conhecimento e da capacidade de desenvolvê-las é outra coisa completamente diferente. Ninguém tem bola de cristal para garantir que no futuro um país continental como o Brasil, riquíssimo em recursos naturais e dono da maior e mais cobiçada floresta tropical do mundo, ficará imune a aventuras bélicas contra a sua soberania e integridade territorial.

Continua após a publicidade