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Ciência

As incríveis habilidades desenvolvidas pelos bebês no primeiro ano de vida

Eles são capazes de muito mais do que você imagina.

Texto: Giuliana Miranda | Edição de Arte: Verucio Ferraz
Design: Andy Faria | Ilustrações: Raul Aguiar

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ão se deixe enganar pela fralda suja de xixi ou pela baba escorrendo no canto da boca. Desde muito cedo, bebês têm capacidades extraordinárias. “As crianças já nascem com um repertório de conhecimentos, que vai se intensificando rapidamente com o desenvolvimento”, explica a especialista em psicologia social Ana Carolina Monnerat, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

O primeiro ano de vida é uma maratona fisiológica: eles duplicam de comprimento e seus cérebros mais do que dobram de tamanho. Em pouco tempo, deixam de ser criaturas molengas e passam a correr e interagir com o mundo. E, como você verá nas páginas a seguir, são capazes de muito mais do que você imagina.

Aprendem dormindo

1 mês

Uma pesquisa das Universidades da Flórida e Columbia mostrou que bebês absorvem conhecimentos mesmo quando estão dormindo – atividade que fazem durante boa parte do tempo: até 15 horas por dia. Os pesquisadores tocaram uma campainha para um grupo de 26 recém-nascidos, com entre 10 e 73 horas de vida. Cada vez que o barulho acontecia, ele era seguido por um sopro de ar desconfortável na pálpebra dos bebês.

Super bebês.

Vinte minutos depois, ao analisar o comportamento dos pequenos após ouvir o bipe, os cientistas notaram que eles estavam até quatro vezes mais propensos a recuar ao ouvir o sinal. Ou seja: eles não só aprenderam sobre o ar desconfortável, mas também tentaram desviar dele. Experiências semelhantes feitas com adultos não conseguiram reproduzir os resultados. Uma pena: em algum momento, ao crescer, perdemos a capacidade de aprender dormindo.

Noções de física

2 meses

Muita gente considera a física um pesadelo escolar. Estudos mostram, no entanto, que bebês parecem ter muito jeito para lidar com ela. A partir dos 2 meses, crianças já conseguem entender algumas regras básicas, como que tudo o que sobe tem de descer – o que os cientistas chamam de “física intuitiva”. A experiência de ver que mamadeiras, chupetas e outros utensílios não se sustentam no ar sem a presença de um suporte (em geral a mão do papai ou da mamãe) é marcante para eles.

Super bebês.

Também começam a aprender por essa época que os objetos não deixam de existir quando são tirados de suas linhas de visão. “Acreditamos que as crianças são capazes de formar expectativas e usam essa habilidade basicamente para prever o futuro”, afirma a psicóloga Kristy VanMarle, da Universidade do Missouri (EUA), que revisou mais de 30 anos de pesquisas sobre cognição infantil.

Mãos “de gorila”

3 meses

É a partir daí que a maioria das crianças consegue sustentar o próprio pescoço. Além de mais firmeza, a nova habilidade nesse e em outros músculos permite uma série de descobertas para os pequenos humanos. Nessa fase, são capazes de agarrar com tanta força com suas pequenas mãos que, se forem pendurados e balançados como pequenos macacos no ar durante alguns segundos, podem até sustentar o próprio peso.

Super bebês.

Essa vocação “atlética” tem um nome: preensão palmar, um reflexo nato. Para vê-lo em ação, basta posicionar algo na palma da mão do bebê. Instintivamente, ele o agarrará, provavelmente com força. Tias de cabelo grande costumam sentir na pele.

Peixinhos

4 meses

Embora eles não nasçam sabendo nadar, quando colocados na água têm reflexos que os ajudam a se movimentar. Mas, ao contrário dos nadadores adultos, para os quais nadar é um ato totalmente consciente, os movimentos dos bebês são uma combinação de reflexos. É a chamada “resposta bradicárdica”. Esse instinto faz com que o bebê também prenda a respiração dentro da água.

Super bebês.

Quem quiser testar o efeito em casa tem uma alternativa bem mais segura do que jogar o bebê na água: basta assoprar no rosto dele bem de perto. É fácil perceber como, por reflexo, ele fecha os olhos e prende a respiração.

Noções de matemática

5 meses

Não é só de física que os bebês entendem. Uma pesquisa comandada pela psicóloga Karen Wynn, da Universidade do Arizona, com bebês de 5 meses de idade, mostrou que eles já conseguem entender quando contas simples, como 1 + 1 ou 1 + 2, eram feitas de maneira certa ou errada. Usaram bonecos do Mickey para representar contas, escondendo um, fazendo outro aparecer inesperadamente.

Super bebês.

Quando as crianças encaravam falsos resultados, os pesquisadores viam que olhavam mais tempo para a tela do que quando o resultado era o esperado, mostrando que houve uma quebra na expectativa dos pequenos.

Detalhistas

6 meses

Além de mais independentes, os bebês, que agora conseguem se sentar sozinhos, são excelentes fisionomistas. Pesquisadores da Universidade de Sheffield e do University College, do Reino Unido, analisaram a atividade cerebral e a resposta visual de bebês enquanto mostravam a eles uma série de imagens de rostos de humanos e de macacos.

Super bebês.

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Ao analisar as ondas cerebrais e o tempo que crianças e adultos passaram olhando as fotos, os pesquisadores viram que os bebês notavam as diferenças nos rostos dos macacos, enquanto os adultos não reparavam nelas. Isso acontece porque os bebês ainda estão formando o seu repertório visual, o que faz com que sejam mais detalhistas.

Por volta dos 12 meses, os bebês já não reparam tanto nas diferenças. O contato frequente com indivíduos que são da mesma espécie ou etnia faz com que nós adquiramos um repertório de características que são notadas. “É por isso que, para um ocidental, os orientais podem parecer mais similares do que realmente são. Como nós temos um acervo limitado desses rostos, é mais difícil estabelecer comparações”, diz a psicóloga Ana Carolina Monnerat, da UERJ.

Compreensivos

7 meses

Nessa fase, os bebês já são capazes de perceber o ponto de vista do outro e, inclusive, emoções, embora ainda não consigam expressar isso diretamente. Um estudo feito por Lorraine Bahrick, da Universidade Internacional da Flórida, e por Ross Flom, da Universidade Brigham Young, constatou que os bebês já conseguem identificar emoções não apenas em outros humanos, mas também em cachorros e até em outros primatas.

Super bebês.

O teste foi simples: eles mostravam em dois monitores distintos, um ao lado do outro, imagens diferentes. Uma tela tinha uma criança sorrindo e aparentando estar feliz, enquanto, na outra tela, uma que demonstrava tristeza. Depois de um tempo, começava a tocar um som de um terceiro bebê.

Os cientistas alternavam o som entre ruídos de tristeza e de felicidade. Ao observar o comportamento das crianças, viram que elas olhavam por mais tempo e com mais atenção o rosto no monitor que parecia ter feito o som que tinham acabado de ouvir.

Quem manda

8 meses

Além de aprenderem muito cedo sobre as emoções humanas, os bebês já conseguem identificar quem é o rei do berçário. Em uma série de testes, os cientistas foram surpreendidos com a presença de noções de hierarquia. Cientistas da Universidade Harvard e da Universidade da Califórnia estudaram as reações de um grupo de crianças entre 8 e 16 meses ao assistir cenas de bonecos com vários tamanhos interagindo entre si. As crianças prestaram bem mais atenção quando um boneco de grande porte se rendeu a um de aparência menor.

Super bebês.

Na cena, houve uma quebra de expectativa. Os bebês não esperavam que uma figura maior pudesse ser dominada por uma menor. Em média, os bebês assistiram com atenção a essa cena inesperada por 20 segundos, em comparação com apenas 12 segundos quando um personagem menor abriu caminho para um maior. Esse instinto é universal: animais como pássaros e gatos também inflam o corpo para parecerem maiores fisicamente.

Camaradas

9 meses

Mesmo antes de falar, as crianças já são capazes de fazer amigos. E de outras interações sociais avançadas entre seus grupinhos, inclusive fazendo “gracinhas” para causar risadas entre os colegas ou enganando outro bebê mais distraído. Isso porque elas usam um vasto repertório de gestos, sons, caretas e vários movimentos para passarem seu recado aos outros.

Super bebês.

Uma pesquisa recente feita por cientistas australianos identificou já a partir dos nove meses brincadeiras como trocar a mamadeira com a do coleguinha, enganá-lo propositadamente e até consolar um outro bebê que andava meio triste. Para documentar esse universo secreto, os pesquisadores passaram mais de dois anos gravando as interações entre diversos grupos de crianças.

Os cientistas acoplaram pequenas câmeras às cabeças dos bebês. Assim, conseguiram filmar o ponto de vista deles. E captar sinais que passariam despercebidos até para mães que já acumulam muitas horas de parquinho.

Papagaios

10 meses

Além das descobertas físicas e motoras que ele fará engatinhando ou se agarrando aos móveis, também já se esforça para dizer as primeiras palavras. Um estudo publicado recentemente mostrou como essa etapa do balbucio ajuda a reter as novas palavras. Assim como pássaros aprendendo a cantar, os bebês, quando aprendem uma sílaba nova, tendem primeiro a repeti-la insistentemente.

Super bebês.

Então, depois de um tempo, começam a acrescentar a nova sílaba do repertório ao início ou ao fim de sequências de sílabas já conhecidas. Depois, a interação fica ainda mais complexa, com os bebês começando a inseri-la no meio de uma sequência de sílabas “antiga”. E repeti-las à exaustão.

Dancing Queen

11 meses

Qualquer um que tenha acompanhado o desenvolvimento de um bebê sabe que os pequenos costumam se empolgar ao som de qualquer música, mesmo antes de aprender a andar. Em um estudo finlandês, cientistas colocaram 120 bebês para escutar três gravações diferentes: música clássica, batidas rítmicas e discursos.

Super bebês.

Eles queriam saber se os bebês conseguiam distinguir entre diferentes ritmos e a fala. Os resultados foram apresentados a bailarinos profissionais, que avaliaram o quão bem as crianças relacionavam seus movimentos à música. A descoberta: cérebros humanos já têm uma predisposição a perceber música.

Caçador de mentirosos

1 ano

Aos 12 meses, boa parte dos bebês já consegue dar os primeiros passinhos. E são também excelentes detectores de mentiras. Pesquisadores descobriram isso fazendo um experimento em que mentiam na maior cara de pau para um grupo de bebês. Dividiram os pequenos em dois grupos. Para o primeiro, um adulto abria uma caixa e se mostrava animado com ela, mas depois os bebês descobriam que estava vazia.

Super bebês.

No outro grupo, viam que de fato havia alguma coisa interessante lá dentro. Em uma segunda etapa, os mesmos adultos tentaram ensinar as crianças a acender uma luz usando suas testas para ativar o interruptor. Apesar do pedido estranho, 61% dos bebês que estavam no grupo dos adultos que falaram a verdade no experimento anterior confiaram na instrução. Já no grupo dos mentirosos, apenas 34% das crianças acreditaram.

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