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História

Atlântida, o reino perdido

A origem da lenda pode ser a ilha de Creta, onde floresceu na Idade do Bronze a avançada civilização minoica.

Texto: Renata Caprara | Design: Andy Faria | Ilustrações: Alexandre Jubran | Imagens: Shutterstock e Wikimedia Commons


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á se falou muita besteira sobre o que teria inspirado a lenda de Atlântida. Uma teoria recente, porém, parece fazer algum sentido. Ela aposta na ilha de Creta. Os “atlantes” teriam sido, na verdade, aqueles indivíduos que hoje arqueólogos e historiadores chamam de minoicos – uma civilização cercada de mar Mediterrâneo por todos os lados, que floresceu exuberante entre os anos de 3.000 a.C. e 1.200 a.C.

Enquanto outros povos da Idade do Bronze ainda chafurdavam no atraso, os minoicos enriqueciam com o comércio marítimo e construíam cidades incríveis com palácios, ruas pavimentadas e sistema de esgoto. Eram exímios navegadores. Tinham excelentes matemáticos e talentosos artistas, particularmente bons no ofício de pintar afrescos. Mas teriam sido dizimados por uma erupção vulcânica seguida do maior tsunami de todos os tempos. Por isso, quase nada deixaram como legado.

Quem primeiro cogitou a hipótese de que a origem da lenda de Atlântida é a civilização minoica foi o sismólogo grego Georgiou Galanopoulos, em 1960. Sua tese baseava-se na teoria de outro grego, o arqueólogo Spyridon Marinatos, segundo a qual os minoicos foram varridos do mapa pelo tsunami e pela chuva de cinzas resultantes de uma erupção vulcânica que deixou semidestruída a ilha de Santorini entre 1.600 a.C. e 1500 a.C. “Essa é a realidade dos fatos”, resume o britânico Gavin Menzies, autor de Lost Empire of Atlantis: History’s Greatest Mystery Revealed (“Império Perdido de Atlântida: O Maior Mistério da História Revelado”). Nessa obra, ele detalha descobertas feitas por diferentes pesquisadores que parecem sustentar a teoria de que a lenda de Atlântida realmente pode ter sido inspirada na Creta antiga.

Os minoicos deviam sua prosperidade à terra que lhes serviu de berço. A ilha de Creta até hoje é fértil e desde os tempos mais remotos reúne condições favoráveis ao desenvolvimento da agricultura. Vinho e azeite, por exemplo, sempre foram especialidades locais. Sem contar os abundantes recursos pesqueiros e os rebanhos de cabras e ovelhas, entre outros animais de criação. Graças à dieta saudável, tipicamente mediterrânea, eles cresciam fortes. Isso ajudaria a explicar o alto grau de desenvolvimento alcançado pela civilização.

Em Cnossos, a maior cidade da Creta antiga, o primeiro palácio de que se tem notícia foi construído por volta de 1900 a.C. Afrescos datados de 1500 a.C. são ricos em detalhes que comprovam o intenso intercâmbio comercial e o uso corrente de artefatos feitos de metal. Uma dessas pinturas é particularmente reveladora do poderio naval dos minoicos: ela retrata uma esquadra composta de 14 grandes embarcações, bem parecidas com um navio naufragado na costa da Turquia que os arqueólogos acreditam ser do final da Idade do Bronze.

<strong>Afresco minoico preservado em creta: civilização sofisticada.</strong>
Afresco minoico preservado em creta: civilização sofisticada. Pierdelune/Shutterstock

Toda a cultura, o poder e a sofisticação desse povo, no entanto, pode ter ido literalmente por água abaixo em decorrência da erupção vulcânica em Santorini (naquela época, chamada Thera). A ciência já comprovou que essa explosão de fato aconteceu, por volta de 1450 a.C. E não foi só isso: os cientistas classificaram-na com a mais violenta da história, 10 vezes mais poderosa que a do vulcão Krakatoa, ocorrida na Indonésia em 1883. Um tsunami devastador varreu toda a costa da Grécia e a ilha de Creta foi atingida logo depois. Quem não morreu enfrentou as mais severas adversidades nos meses seguintes. Dessa forma, a civilização minoica teria conhecido o seu fim.

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Nem todo mundo endossa integralmente essa teoria. Embora não neguem que a erupção e o tsunami tenham sido determinantes, muitos pesquisadores acreditam que o fim dos minoicos também esteja ligado à invasão de povos indo-europeus. Fato, porém, é que uma civilização avançada desapareceu de repente, impiedosamente fustigada por uma catástrofe natural – um enredo bem parecido com o da lenda.

<strong>Um navio naufragado na Turquia por volta de 1300 a.C. pode ser uma prova de que a tradição de comércio marítimo dos minoicos sobreviveu ao tsunami que teria destruído sua civilização. Descoberto na década de 1980, o Uluburun teria partido do Chipre ou de Creta e provavelmente estava no meio de sua jornada quando foi a pique. Dos destroços, os arqueólogos retiraram lingotes de estanho, bronze e cobre, vidros de perfume, madeira africana, presas de elefante, contas de âmbar do Báltico, adornos egípcios e alimentos de diferentes procedências, como figos, azeitonas, uvas, trigo, romãs e castanhas. A datação do naufrágio o coloca apenas 150 anos à frente da catástrofe que se abateu sobre Creta em 1450 a.C.</strong>
Um navio naufragado na Turquia por volta de 1300 a.C. pode ser uma prova de que a tradição de comércio marítimo dos minoicos sobreviveu ao tsunami que teria destruído sua civilização. Descoberto na década de 1980, o Uluburun teria partido do Chipre ou de Creta e provavelmente estava no meio de sua jornada quando foi a pique. Dos destroços, os arqueólogos retiraram lingotes de estanho, bronze e cobre, vidros de perfume, madeira africana, presas de elefante, contas de âmbar do Báltico, adornos egípcios e alimentos de diferentes procedências, como figos, azeitonas, uvas, trigo, romãs e castanhas. A datação do naufrágio o coloca apenas 150 anos à frente da catástrofe que se abateu sobre Creta em 1450 a.C. Reprodução/Wikimedia Commons

TESES FANTÁSTICAS

A primeira citação a Atlântida, pelo menos com esse nome, foi feita pelo grego Platão (427-347 a.C.). A história teria chegado aos seus ouvidos pelo bisavô, que a teria escutado de Sólon, um dos 7 sábios da Grécia antiga. O lugar ficaria para além das “colunas de Hércules” e seria o berço de uma civilização imponente que sumiu de uma hora para outra. “Em um dia e uma noite de infortúnio”, escreveu o filósofo, “todos os seus guerreiros afundaram na terra, e a ilha de Atlântida desapareceu nas profundezas do mar.” O texto de Platão, entretanto, não necessariamente tem compromisso com a realidade. A maioria dos especialistas o considera uma fábula de cunho moral. Sua mensagem: não importa quão poderoso seja o homem, a natureza é sempre mais forte.

No século 16, os primeiros contatos entre europeus e populações nativas das Américas deram asas à imaginação de muita gente. As “colunas de Hércules” mencionadas por Platão passaram a ser interpretadas como uma referência ao estreito de Gibraltar. O reino perdido de Atlântida ficaria, portanto, não no mar Mediterrâneo, mas no oceano Atlântico.

A partir do século 19, místicos como a russa Helena Blavatsky (1831-1891) incorporaram a lenda à teosofia – uma corrente de pensamento que tenta unir ciência, religião e filosofia. Daí para teorias fantásticas, foi apenas um pulo. Uma das mais rocambolescas é a do austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), criador da antroposofia e da pedagogia Waldorf. No livro Atlântida e Lemúria: História e Civilização, de 1911, ele descreve os atlantes como seres diferentes dos humanos. Seriam fluídicos. E teriam uma memória tão prodigiosa que o conhecimento era transmitido apenas pelo exemplo – ao aprendiz bastaria uma só demonstração do que quer que fosse.

No século 20, brotaram teses fantasiosas como cogumelos depois da chuva. O reino perdido ora aparecia nas ilhas Canárias, ora na Escandinávia (veja o mapa à abaixo). Até os nazistas surfaram na onda: pregavam que a raça ariana era oriunda dos sobreviventes de Atlântida.

LEMÚRIA

Existe outra história de continente perdido bem menos conhecida que a de Atlântida, mas muito parecida com ela. Segundo a lenda, uma civilização muito à frente de seu tempo teria dominado o Pacífico até sumir por volta de 10 mil a.C. Eles seriam os habitantes de Mu (também chamado de Lemúria), um continente formado por 3 grandes blocos de terra. Assim como em Atlântida, terremotos e erupções seriam os responsáveis pelo seu fim. Quase todos os povos do Pacífico têm em sua tradição oral uma narrativa desse tipo – provavelmente porque povos insulares de fato acabam passando por catástrofes de tempos em tempos, e é daí que vêm essas lendas.

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