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Ciência

Ciúme e depressão: quando o amor dói

Além de uma rima pobre, amor e dor são duas faces da mesma moeda. Entenda por que o ciúme e o sofrimento estão quase sempre presentes na vida amorosa – e é tão difícil fugir deles.

Texto: Maurício Horta | Edição de Arte: Estúdio Nono | Design: Andy Faria

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ão seríamos a mesma espécie sem o ciúme. Esse mecanismo é tão eficiente atuando como uma barreira contra o acesso alheio ao corpo de nossos parceiros que foi bem-sucedido na evolução – tanto quanto o amor. Sim, o ciúme é uma adaptação evolutiva.

Assim como na ansiedade moderada, esse sentimento garantiu que estivéssemos preparados para situações adversas. “O ciúme, de acordo com essa perspectiva, não é um sinal de imaturidade, mas uma paixão importante, que ajudou nossos ancestrais – e muito provavelmente continua a nos ajudar hoje – a lidar com uma série de ameaças reprodutivas”, escreve o psicólogo David Buss em The Dangerous Passion (“A paixão perigosa”, sem edição brasileira).

Mas como esse sentimento evoluiu? Diante da possibilidade de traição, você pode errar de duas formas: crer que seu parceiro é 100% fiel, quando na verdade ele o trai, ou acreditar que seu parceiro o traiu, quando ele sempre foi fiel. Enquanto o custo de ver pelo em ovo é considerável – estresse, brigas e possivelmente um fim de relacionamento –, o de se deixar trair é muito maior: o homem vai correr o risco de cuidar de um filho biológico de outro, e a mulher poderá acabar sendo abandonada por outra mais bonita e mais jovem. Por isso, evoluímos com a capacidade de interpretar os mínimos indícios como traição.

Quando bate o ciúme, somos extremamente reativos. Identificamos como ameaça um cheiro estranho, uma mudança no desejo sexual, telefonemas suspeitos ou um simples fio de cabelo longo no paletó, mesmo que possamos estar redondamente enganados. Basta um sinal para que caiamos numa série de divagações. Será que a traição já aconteceu ou ainda está só na fase do flerte? O rival seria mais atraente e mais bem-sucedido do que eu? Essa possível ameaça desencadeará uma reação que vai do aumento da vigilância sobre o parceiro até a agressão física.

E o ciúme aumenta entre homens com disfunção erétil. Num estudo com 36 casos de ciúme patológico, problemas de ereção e ejaculação estiveram presentes em 19. A razão é que um homem impotente acredita que sua mulher buscará um amante para ter satisfação na cama.

Com o decorrer da vida a dois, também é normal que surjam espaços para o ciúme. Num casal de jovens que se uniu aos 20 anos, com mesmo nível socioeconômico e educacional, a mulher pode passar a ser vista como menos atraente com o passar do tempo, e sentir-se mais insegura e ciumenta. Mas ela pode também crescer na carreira, tornar-se independente do marido e conviver com homens mais poderosos e mais ricos do que ele. Não há dúvida de que ambas as situações abrem caminho para o ciúme.

CIUMENTOS VS. CIUMENTAS

Embora esteja presente tanto em homens quanto em mulheres, o ciúme tem causas evolutivas diferentes em cada sexo. A mulher sente ciúme porque, ao longo da evolução, precisou garantir apoio contínuo e incondicional para se reproduzir e criar os filhos até que eles conseguissem se virar minimamente para sobreviver na savana.

Na maioria das sociedades atuais, a mulher alcançou grande autonomia econômica, além de ter apoio da família estendida, de sua rede de amigos e do Estado. Mas, ao longo da evolução, esse papel provedor foi do homem. E por isso ela teme a possibilidade de ser abandonada emocional e financeiramente.

Para ela, foi importante garantir que essa fonte de dedicação afetiva e material não se desviasse para outra mulher. E o risco é grande. Afinal, os genes do homem o incentivam a fecundar o maior número possível de óvulos. Mas essa traição física nem é o pior dos mundos para a mulher. O risco é que outra consiga não apenas o esperma, mas a dedicação do seu marido.

Agora vamos ao homem. Ele também tem grandes razões para sentir ciúme. Ao longo da evolução, sua companheira traiu, sim, e teve três motivos bem complexos para isso, todos diferentes das razões masculinas.

O primeiro é que, uma vez estabelecida com um bom provedor, foi de interesse genético da mulher buscar um parceiro sexual com melhores genes – mais forte e mais saudável do que seu marido. O segundo motivo é que manter amantes garantiria um “seguro-homem” para o caso de o titular morrer numa caça ou a abandonar.

<strong>Homens e mulheres têm motivos diferentes para o ciúme. Mas ser traído ou abandonado é um risco para ambos, que são igualmente sensíveis a essa ameaça.</strong>
Homens e mulheres têm motivos diferentes para o ciúme. Mas ser traído ou abandonado é um risco para ambos, que são igualmente sensíveis a essa ameaça. Bildagentur-online/Getty Images

A terceira razão é que ela pôde usar o sexo com objetivos materiais. A caça era uma atividade predominantemente masculina. Quando um homem pegava um animal grande, dividia a carne com outros caçadores e investia o excedente naqueles que carregavam seus genes – os filhos – e naquela que garantia a sobrevivência de seus filhos – a mãe. Mas nesse momento três coisas poderiam acontecer: o homem ainda não ter uma parceira, sua mulher não estar acessível ou ele querer fazer uma troca com outra mulher.

Mulheres podiam oferecer basicamente duas coisas em troca da carne: vegetais coletados ou sexo. Vegetais tinham uma vantagem sobre a carne: eram menos perecíveis quando não era possível aumentar a validade de bifes com o sal e a geladeira. E o sexo era um atrativo irresistível para solteiros ou para aqueles que simplesmente queriam diversificar suas parcerias sexuais.

Foi assim que se abriu o portal da troca entre sexo e proteína de alta biodisponibilidade. Essa troca permanece hoje – não com carne, mas com atenção, presentes ou dinheiro, no caso da prostituição. Isso pode ser considerado imoral. Mas, em tempos de escassez, foi apenas mais um comportamento que aumentou as chances de sobrevivência.

Se homem e mulher têm razões diferentes para sentir ciúme, é de se esperar que em cada um esse sentimento tenha evoluído a seu modo. O que é pior para você: descobrir que seu parceiro está desenvolvendo um relacionamento emocional profundo ou que está fazendo sexo fora de casa, com posições sexuais que você somente imaginou? Em todos os estudos, a maioria dos homens considerou a infidelidade sexual, enquanto a maioria das mulheres disse que a quebra do comprometimento afetivo era o que mais doía.

A ESPIRAL DO CIÚME

A esta altura, já está mais do que claro que, ao longo da evolução, mulheres buscaram homens dispostos ao compromisso. E, para garantir isso, procuram neles indícios dessa disposição a se comprometer. Mas, como a primeira coisa que o homem enxerga não é o comprometimento, e sim a diversidade de parceiras, pode ter evoluído entre os machos a estratégia de dar falsos indícios de engajamento. Assim, eles podem convencer parceiras a fazer sexo e depois abandoná-las. Por sua vez, mulheres buscaram formas de identificar homens que tentam enganá-las.

O ciúme é apenas mais um elemento dessa espiral. Quem ama busca garantir a fidelidade feminina e o comprometimento masculino. Por isso, começa a buscar sinais de traição. No entanto, a infidelidade passa a ser feita de forma mais sutil. Uma das ferramentas femininas para testar o comprometimento na relação é provocar ciúme intencionalmente, flertando com outros homens.

Um sujeito realmente comprometido espera fidelidade da mulher – ou seja, sente ciúme. Se ele parecer comprometido, mas não o for de fato, provavelmente não demonstrará ciúme. Por outro lado, essa estratégia também fortalece o comprometimento masculino. Se outros homens demonstrarem interesse pela mulher, seu parceiro perceberá que ela é mais desejável do que ele achava antes e, com a ameaça de perdê-la, aumentará seu vínculo.

PAIXÃO E REJEIÇÃO

A antropóloga Helen Fisher decidiu repetir um experimento feito com pessoas apaixonadas – mas dessa vez com gente que foi rejeitada. Todos os entrevistados pareciam não apenas deprimidos, mas tomados pela raiva. A raiva do abandono. É um sentimento dividido em duas fases: protesto e resignação.

Durante o protesto, o cérebro continua insistindo no circuito de recompensa: a presença e as lembranças do amado trazem prazer, então o abandonado continuará buscando obsessivamente a volta ao antigo estado da relação. Tudo por uma recompensa em forma de dopamina.

O rejeitado bisbilhota durante a madrugada a vida do amado nas redes sociais, visita os lugares que frequentavam esperando encontrá-lo por acaso, humilha-se aparecendo no trabalho da ex levando flores. Uma breve aparição do ser amado e migalhas de atenção bastam para o rejeitado sentir-se feliz, tal como aquele cigarrinho escondido no bolso do ex-fumante.

Protestar mais alto às vezes adianta, com promessas de que tudo será diferente e de que o relacionamento começará do zero. Mas, se não funcionar, o abandonado não pode permanecer o resto da vida num estado de autoengano, correndo atrás de quem não o ama. Isso traz uma segunda reação comum à rejeição: a raiva.

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<strong>Otelo, de Shakespeare, é a maior criação artística sobre o ciúme. O protagonista mata a esposa, inocente, por julgá-la infiel.</strong>
Otelo, de Shakespeare, é a maior criação artística sobre o ciúme. O protagonista mata a esposa, inocente, por julgá-la infiel. traveler1116/Getty Images

O responsável no cérebro pelo julgamento racional de tudo o que percebemos é o córtex pré-frontal. Quando avalia que esforços para recuperar o amado são em vão, ele envia sinais para a região cerebral reguladora da sexualidade e da agressividade, a amígdala. É como se chegasse para a amígdala e dissesse: “Somos uma criança e roubaram o nosso doce.

Precisamos fazer algo em relação a isso”. A amígdala então manda o hipotálamo desencadear a secreção de uma série de hormônios que preparam nosso corpo para a luta. O sangue vai para as mãos, os batimentos cardíacos se aceleram, começamos a suar mais, ainda que não haja um inimigo real à frente. Quando isso acontece, não conseguimos pensar direito, apenas agir.

Se o estouro de raiva é uma reação típica no fim de relacionamentos, deve ter sido uma adaptação evolutiva que resolveu problemas por milhares de gerações. Uma possibilidade é que essa raiva permita que os amantes frustrados se distanciem de vez de quem já não os quer.

Mas mais importante do que a raiva é a depressão. Quando é jogada a pá de cal no relacionamento, ficamos tristes, muito tristes. Num levantamento com 114 homens e mulheres rejeitados por seus parceiros, 40% entraram em depressão clínica, sendo que 12% tiveram um quadro moderado ou grave. Quando conseguimos nos encaixar nos trilhos, o ânimo volta a subir. Já se não desistirmos do impossível, o risco é de que caiamos numa depressão profunda.

O CIÚME QUE MATA

Como vimos, sentir ciúme é uma adaptação. Só que, tal como o excesso de ansiedade deixa de ser saudável e se torna pânico, o ciúme exagerado é muito prejudicial. Ele imobiliza e mata. Se teve função na savana, hoje esse sentimento extremo entra em choque com valores que a civilização ocidental acredita serem universais. Temos aqui, então, um conflito claro entre evolução e cultura.

Por exemplo, não há nada mais contrário à vontade de nossos genes egoístas do que o celibato. Afinal, o objetivo deles é se replicar em novas máquinas de sobrevivência. Ainda assim, sacerdotes católicos voluntariamente adotam o celibato. Uns seguem a vida sem sexo; outros violam esse voto, seja às escuras, seja abandonando a batina. Genética não é determinismo, mas tem o seu peso.

O mesmo acontece com o ciúme. Com métodos anticoncepcionais, o homem não precisa ter tanto medo de que o filho que sua mulher carrega na barriga seja de outro homem. E, com a emancipação econômica da mulher e o Estado de bem-estar social, ela não precisa mais do homem para garantir sua sobrevivência e a de seus filhos. Mas, da mesma forma como ainda sentimos mais medo de cobras e leões do que de carros, mesmo morando em cidades onde esses animais matam menos do que o trânsito, homens e mulheres continuam odiando a mínima possibilidade de ser traídos.

<strong>Nenhum filme foi tão revelador da perturbação psíquica a que pode levar uma rejeição quanto Atração Fatal (1987).</strong>
Nenhum filme foi tão revelador da perturbação psíquica a que pode levar uma rejeição quanto Atração Fatal (1987). Reprodução/Divulgação

Homens cerceiam, espancam e matam – e podem fazer isso contra a própria esposa. Num levantamento da Organização Mundial da Saúde, a proporção de mulheres que já sofreram violência física de um parceiro homem vai de 13%, no Japão, a 61% no interior do Peru (das japonesas, 2% já levaram soco do parceiro, contra 42% das peruanas rurais).

Nessas estatísticas, o Brasil vai muito mal. Um levantamento feito pelo jornal Folha de S. Paulo revelou que os feminicídios cresceram 7,2% em 2019 – indo na contramão dos demais crimes violentos, que diminuíram. Segundo a pesquisa, 1.310 mulheres brasileiras foram mortas após sofrer violência doméstica ou relacionada a seu gênero. Já de acordo com um levantamento da Fundação Perseu Abramo, 34% das mulheres brasileiras já foram vítimas de violência em casa.

Foram ameaçadas ou apanharam, 24%, enquanto 3% foram estupradas. Embora alguns estudiosos liguem violência à condição socioeconômica, essa pesquisa encontrou dados relativamente parecidos em todas as classes sociais, todas as cores, todas as religiões e todas as regiões do País. Só um dado traz uma grande diferença: mulheres que haviam se separado do companheiro padeceram muito mais. 63% das separadas já sofreram violência (contra 39% das casadas e 36% das solteiras). Delas, 46% sofreram controle ou cerceamento, 45% foram violentadas ou ameaçadas fisicamente e 44% sofreram algum tipo de agressão psicológica.

Com ataques e ameaças, o marido tenta aterrorizar sua mulher para mantê-la sob controle. Ou seja, fique comigo ou você vai ter de pagar caro, muito caro. E o mais repugnante é que muitas vezes funciona. Depois de seus maridos violentos mostrarem que suas ameaças são para valer, algumas mulheres acabam de fato diminuindo o contato com outros homens, usando roupas mais reservadas, obedecendo mais aos desejos do marido e diminuindo os sinais de traição em potencial. Em casos de mulheres que buscam abrigo para fugir dos maridos, muitas acabam voltando diante da ameaça de mais brutalidade.

A violência doméstica pode crescer até seu limite máximo: a morte. Um estudo canadense com homicídios registrados entre 1974 e 1990 mostrou que mulheres têm risco três vezes maior de ser mortas por um parceiro sexual do que por um desconhecido. E, quando se trata de mulheres casadas, esse risco triplica. Se o crime passional é relativamente comum, teria ele uma razão evolutiva? Não para os autores desse estudo, os psicólogos evolutivos canadenses Martin Daly e Margo Wilson.

Segundo eles, os crimes aconteceriam quando o agressor perde o controle de trazer a mulher de volta, usa a violência para que suas ameaças sejam críveis e acaba extrapolando. Buss não concorda com a teoria do “escorregão”. “Muitos homicídios são premeditados, e não parecem ser apenas acidentes ou deslizes.”

Ou seja, ele acredita na motivação do “se não for meu, não será de ninguém”. Em sociedades poligâmicas, a morte de uma esposa infiel serviria de lição para as demais. Em outras culturas, a reputação do homem é que justifica o assassinato. A perda do relacionamento pode ainda ser tão traumática que traz à tona ideias homicidas.

E a infidelidade representa um golpe na capacidade reprodutiva do homem, que pode, a partir de então, questionar todo o investimento de tempo e recursos gastos com os filhos existentes e os que planejava ter. Matar sua mulher seria um meio de estancar sua perda – e também de atacar o sucesso reprodutivo de seu rival, caso ela esteja grávida. Claro, essa é uma lógica torta e que pode ter consequências trágicas. Ciúme não justifica, em nenhuma situação, qualquer ato de violência, contra quem quer que seja.

VIOLÊNCIA APÓS A SEPARAÇÃO

Uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo comprovou que muitos homens controladores não aceitam a separação da esposa – e partem para a agressão.

O LADO BOM DE ESTAR NA FOSSA

A depressão após o fim de um relacionamento nos leva a exercícios de autoavaliação – e evita aquele WhatsApp bêbado para o ex na madrugada.

Como a depressão, algo que nos aprisiona no sofrimento, pode ser uma adaptação evolutiva? Protegendo-nos de objetivos errados que podem nos ferir, segundo o médico evolucionista Randolph Nesse, da Universidade de Michigan. Sua função é a mesma da dor: garantir nossa sobrevivência diante de um risco.

Quando um tecido está prestes a ser lesionado durante alguma atividade física, nossos neurônios transmitem um estímulo que nos impede de ir além de nossos limites. A depressão funciona da mesma forma, mas, em vez de te impedir fisicamente de assumir um risco, atua no ânimo.

Um dos primeiros cientistas a pensar nisso como uma adaptação foi o psicólogo americano Eric Klinger. Num artigo de 1975, ele analisou como o humor melhorava conforme se progredia na busca de um objetivo. A euforia nos motiva a continuar a nos esforçar e assumir riscos cada vez maiores. Quando esses esforços começam a falhar, uma piora no ânimo nos faz voltar atrás, preservar nossas reservas e reconsiderar opções.

A depressão leve abre espaço para introspecção e autoexame intensos, necessários para tomar decisões difíceis, como não procurar mais o amado, evitar situações em que ele pode ser encontrado e buscar outros caminhos. A tristeza é uma oportunidade para meditar, ruminar seus problemas e propor a si metas mais realistas.

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