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Saúde

Como o coronavírus mudou as viagens aéreas

Máscaras, robôs, comida fria: do check-in ao desembarque, a pandemia transformou a experiência de voar. E algumas das mudanças podem ser permanentes.

por Naira Hofmeister e Leonardo Pujol Atualizado em 20 nov 2020, 11h06 - Publicado em 20 nov 2020 10h59

Máscaras, robôs, comida fria: do check-in ao desembarque, a pandemia transformou a experiência de voar. E algumas das mudanças podem ser permanentes.

Texto: Naira Hofmeister e Leonardo Pujol | Edição de Arte: Inara Pacheco | Design: Andy Faria

UMA NOVA CAMADA DE SEGURANÇA

Numa das extremidades do terminal 1, no Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos (SP), fica uma estrutura amarela que traz a inscrição “embarque” – mas ninguém embarca mais. No auge da pandemia, em abril, o fluxo diário do maior aeroporto da América do Sul foi de 9,3 mil passageiros. Antes, a média ficava em 120 mil. Uma queda de mais de 90%. Em setembro, o volume chegou a 45% dos níveis pré-coronavírus. Embora a retomada estivesse em curso, corredores, lojas e balcões de check-in do terminal 1 permaneciam às moscas. E até a conclusão desta edição não havia perspectiva de reabertura.

A demanda diminuiu porque o fechamento das fronteiras e o medo de contrair o vírus afugentaram os passageiros. Afinal, viajar em um ambiente fechado, sentando ao lado de outras pessoas, não é uma boa ideia numa pandemia. Será? Um levantamento divulgado em outubro pela IATA, associação que representa 290 companhias aéreas, alega que de janeiro para cá foram registrados apenas 44 casos de transmissão de coronavírus em aviões.

No período, 1,2 bilhão de passageiros voaram. Significa um caso para cada 27 milhões de viajantes. Mas esse número pode estar subestimado. Afinal, é extremamente difícil saber onde a pessoa foi infectada. Numa tentativa de rastrear o caminho do vírus, pesquisadores do Vietnã analisaram passageiros e tripulantes de um voo feito em 1º de março, entre Londres e Hanói, da Vietnam Airlines.

O estudo, divulgado na revista Emerging Infectious Diseases, mostrou que pelo menos 12 pessoas contraíram a doença naquele dia – dos quais 75% estavam sentados próximos a um passageiro sintomático. Um estudo de 2018 da Emory University (EUA) já havia investigado a probabilidade de contrair doenças infecciosas em aviões, monitorando o comportamento dos passageiros em dez voos. A maioria se movimentou em algum momento, e a conclusão foi de que escolher um assento na janela e permanecer ali durante o voo reduz a probabilidade de contaminação. O risco também diminui para quem senta nas poltronas da frente.

<strong>Novo normal: medição de temperatura corporal já faz parte da nova rotina de voo.</strong>
Novo normal: medição de temperatura corporal já faz parte da nova rotina de voo. Tomohiro Ohsumi/Getty Images

Quanto à Covid-19, a indústria aérea diz que a maioria das infecções relatadas ocorreu antes da obrigatoriedade do uso de máscaras. A medida integra o novo pilar de segurança do setor, ao lado dos tradicionais safety (segurança operacional) e security (proteção contra o crime). Nas próximas páginas, você saberá como funciona. Também mostraremos as diferentes medidas de proteção surgidas a partir da pandemia. São muitas, e não se limitam a aeronaves e aeroportos. Aliás, começam antes de o passageiro sair de casa.

FAÇA VOCÊ MESMO

Chegou o dia da viagem. Lembre-se de que, além do documento, a máscara de proteção facial é obrigatória para voar. Carregar um tubinho de álcool em gel também não é má ideia. No Brasil, cada passageiro pode embarcar em voos domésticos com embalagens de até 500 gramas de líquido sanitizante. Em voos internacionais, a limitação é de 100 gramas. Mas se viajar em classe executiva, não se preocupe: o kit amenidades agora conta com frascos de álcool em gel, além de lencinhos para o passageiro usar nos assentos e superfícies próximas.

Na ida para o aeroporto, abra o aplicativo ou site da companhia aérea em seu smartphone. Confira os detalhes do seu voo. Desde o começo da pandemia, a maioria das empresas recomenda que os clientes façam o check-in e outros procedimentos pela internet. Isso inclui o início do processo de despacho das bagagens.

Chegando ao aeroporto, você perceberá que os terminais estarão mais vazios. E diferentes. As empresas instalaram bancadas de impressão das etiquetas de bagagem nos saguões. Aeroportos maiores estão adotando sistemas self-bag-drop. Neles, além de etiquetar as próprias bagagens, o passageiro faz o despacho sozinho em uma esteira. O processo é orientado por meio de monitores e de um sistema de teleconferência.

Outras mudanças incluem totens que dispensam o toque para a realização do check-in – o equipamento é ativado pela proximidade dos dedos. Em outubro, o governo federal começou a testar no Aeroporto Hercílio Luz, em Florianópolis, um sistema chamado Embarque Seguro. Nele, a confirmação do passageiro é feita por identificação biométrica baseada em reconhecimento facial.

Placas e adesivos lembram sobre a importância do distanciamento físico e do uso de máscara – para quem a esqueceu, máquinas como aquelas que vendem snacks ou refrigerantes agora ofertam o acessório de proteção. Decalques no piso delimitam a distância entre um passageiro e outro nos balcões de atendimento, no ingresso às salas de embarque, ao passar pelo raio-x, e mesmo nas posições para aguardar a retirada das malas.

<strong>Autonomia preventiva: os passageiros ficaram responsáveis por realizar boa parte dos procedimentos anteriores ao embarque, como forma de reduzir o contato.</strong>
Autonomia preventiva: os passageiros ficaram responsáveis por realizar boa parte dos procedimentos anteriores ao embarque, como forma de reduzir o contato. FG Trade/Getty Images

Em aeroportos de Portugal e Singapura, há robôs que fazem a esterilização de corredores com luz ultravioleta, que danifica o material genético de bactérias e vírus, destruindo-os. O uso de raios UV ganhou adeptos porque é mais rápido do que os procedimentos de limpeza padrão. No Aeroporto Luís Eduardo Magalhães, em Salvador, os banheiros foram equipados com sensores de presença que, do lado de fora, indicam a lotação dos espaços pela cor que aparece em um monitor. O sinal verde dá passe livre ao passageiro apertado. Amarelo significa atenção – a pessoa escolhe se entra ou não. No alerta vermelho, a entrada só é permitida após alguém sair do ambiente.

Embora uma parte dos novos protocolos possa desaparecer após a distribuição de uma vacina, muitas soluções são irreversíveis, pois envolvem adoção tecnológica, segundo Ruy Amparo, diretor de Segurança e Operações de Voo da Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear). É o caso dos sistemas que identificam aglomerações por câmeras ou sensores. “No futuro, poderemos localizar crianças e idosos perdidos ou indicar se o passageiro que não embarcou está ou não no aeroporto.”

Cada um no seu quadrado

Abraços e beijos de despedida no saguão do aeroporto deram lugar a um processo menos caloroso. As pessoas costumam entrar na área de embarque sozinhas. Elas apresentam o cartão da companhia aérea e têm a temperatura corporal medida na testa ou por sensores infravermelhos.

Em caso de febre, o passageiro é direcionado ao posto médico do terminal. Já os procedimentos no raio-x quase não mudaram, exceto pelos equipamentos de proteção dos funcionários do aeroporto, como máscaras e telas de proteção de acrílico. Depois de passar pelo setor de segurança, mais corredores vazios, mais lojas fechadas, mais avisos sobre o distanciamento social – inclusive nas áreas de espera.

Diversas salas VIP foram fechadas. As que seguiram abertas estão com regras mais rigorosas. Os bufês foram banidos. No lugar deles, balcões com comidas embaladas e prontas para retirada. Bebidas ainda são servidas em copos de vidro, mas eles passam por uma lavagem industrial com água em alta temperatura para garantir a esterilização. Os espaços de convivência têm assentos alternados, com alguns deles sinalizados para permanecerem vazios.

É semelhante ao que se vê em agências bancárias. Ajustes assim só foram possíveis graças à queda da demanda. “A pandemia tornou viável uma revisão de processos que seria impossível em razão do volume de pessoas envolvidas e da extensão territorial das operações”, diz Giuliano Podalka, gerente de projetos especiais da Azul. Entre as novidades está o embarque nas aeronaves.

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Há anos os engenheiros e gestores tentam melhorar essa etapa. Estima-se que cada minuto reduzido no tempo de embarque pode gerar uma economia de US$ 30 a US$ 250 por voo. Num cálculo conservador, uma companhia aérea que faz mil viagens diárias economizaria pelo menos US$ 11 milhões por ano. Para melhorar a eficiência, é preciso acabar com as filas desordenadas na porta dos fingers – os túneis que dão acesso ao avião –, a disputa por espaço para colocar as bagagens e o senta-levanta nos corredores até que os passageiros das janelas se acomodem.

<strong>Teste do novo sistema de embarque da Azul, antes da pandemia.</strong>
Teste do novo sistema de embarque da Azul, antes da pandemia. Azul/Divulgação

A Azul já testava uma solução antes mesmo da pandemia. Trata-se de um sistema de embarque que usa realidade aumentada para projetar uma esteira virtual no chão, com espaços numerados de acordo com os assentos. Um monitor informa quando cada passageiro deve entrar na fila, que é organizada de trás para frente. Ou seja, primeiro vão aqueles que irão ocupar os lugares do fundo do avião. As fileiras são intercaladas em pequenas levas, permitindo que a pessoa não encontre obstáculos para chegar ao assento.

É mais eficaz do que o acesso em grupos, que costuma criar gargalos. Graças ao sistema, o tempo médio de espera em pé caiu de 18 para dois minutos. Já o tempo total de embarque encurtou 25%, mas a empresa acredita que pode chegar a 50%. A tecnologia mantém o distanciamento de 4 metros entre um passageiro e outro na fila – sem a pandemia, serão 2 metros.

Quando chegar a vez de reapresentar o cartão de embarque e o documento, o funcionário da companhia aérea pedirá ao passageiro que baixe a máscara para comprovar sua identidade. Estando tudo ok, é hora de voar. Segundo uma pesquisa da IATA, feita em junho, 86% dos passageiros se sentem seguros para embarcar em um avião – mesmo em meio à pandemia.

No Brasil, porém, a população parece ainda estar ressabiada. Um estudo do Ministério da Infraestrutura, realizado em setembro, mostrou que 48% das pessoas temem embarcar em um avião por medo da Covid-19.

Faxinão High-Tech

A pandemia revolucionou não apenas a maneira de voar como também de limpar as aeronaves. No intervalo entre um voo e outro, é realizada uma limpeza manual em pontos de contato frequentes do passageiro, como cintos, bandejas, apoios de mão e telas de entretenimento. “A meticulosidade é enorme. Chegamos a limpar com cotonetes cada saída de ar”, afirma Danilo Andrade, diretor de segurança operacional da Gol.

A American Airlines foi além e aderiu à pulverização eletrostática, com aplicação de produtos sanitários em gotículas que “colam” como um ímã nas superfícies internas do avião. Já a Azul adotou um sistema de limpeza com raio ultravioleta. O UV Cabin System é um carrinho (semelhante ao utilizado no serviço de bordo) com braços de luz UV que se estendem sobre a parte superior dos assentos, higienizando as superfícies da cabine. O processo, que elimina vírus e bactérias, dura menos de dez minutos e é conduzido por um funcionário especializado.

A preocupação com a higiene veio para ficar. “A tendência é que os raios ultravioleta sejam incorporados pelos fabricantes de aeronaves, que vão oferecer novos aviões já com essa tecnologia embarcada”, acredita Rafael Castro, professor de Turismo do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet), do Rio de Janeiro.

Mas não foi só a limpeza que mudou. O serviço de bordo regular foi suspenso e muitos passageiros agora trazem o próprio lanche. Algumas empresas aéreas optam por entregar snacks no momento de desembarque. Durante o voo, água é servida sob demanda – por tripulantes usando luvas e máscaras. Em voos de longo curso, as empresas têm optado por alimentos frios e preparados previamente. Comida quente, por ora, nem pensar.

O ar dos aviões também recebe atenção especial. Todos os jatos comerciais usam filtros HEPA, que renovam o ar da cabine a cada dois ou três minutos. “Nos hospitais, por exemplo, isso ocorre a cada dez minutos”, compara Ruy Amparo, da Abear. O sistema de circulação mistura ar puro, desviado dos motores, com ar da cabine. Ele filtra as impurezas, incluindo poeira, bactérias e outros agentes infecciosos.

Outro ponto importante é o modo de circulação desse ar. Em aviões, o fluxo ocorre de cima para baixo. O ar é soprado desde o teto e puxado pelas laterais do piso. Esse modelo em cascata faz com que as partículas sejam direcionadas direto para o chão, reduzindo a chance de ficarem flanando no ambiente. Segundo a IATA, o uso da máscara e do filtro HEPA é diretamente responsável pelo baixo número de infectados por Covid-19 em aviões – ainda que os dados, na prática, sejam difíceis de mensurar com exatidão.

<strong>Pronto para outra: sistema de raio ultravioleta desenvolvido pela Honeywell higieniza o interior de uma aeronave em cerca de 10 minutos.</strong>
Pronto para outra: sistema de raio ultravioleta desenvolvido pela Honeywell higieniza o interior de uma aeronave em cerca de 10 minutos. Honeywell/Divulgação

Algumas companhias aéreas optaram por manter o assento do meio vago durante a crise sanitária. A Delta, dos EUA, garante a medida até janeiro de 2021. No Brasil, nenhuma empresa aderiu ao bloqueio – alegando aumento de custos em um momento de perdas. Há uma discussão sobre vender o assento ao lado para quem deseja manter um distanciamento maior. “Seria mais justo porque daria essa opção aos passageiros sem aumentar o valor das passagens”, diz Leonardo Cassol, editor do site de turismo Melhores Destinos.

PASSAPORTE SANITÁRIO

Até que o Brasil recupere o ritmo anterior à pandemia, que era de 2,4 mil voos domésticos e 300 voos internacionais por dia, uma viagem de Belém para Florianópolis pode demorar bem mais do que o habitual. Com a redução da malha, várias operações foram suspensas, o que aumentou o tempo de espera em uma conexão ou escala. Se o trajeto for direto, porém, é possível chegar até mais cedo do que o previsto – graças às aerovias descongestionadas e à diminuição na quantidade de aviões decolando e pousando.

Depois da aterrissagem, alguns passageiros ainda podem insistir em se levantar, aglomerando-se para recolher as malas, na esperança de serem os primeiros a sair da aeronave. Os tripulantes têm se esforçado para manter a ordem – geralmente, o comissário-chefe faz uma espécie de chamada, autorizando a saída fileira por fileira. Quem desrespeitar leva bronca. “Os próprios passageiros estão chamando a atenção uns dos outros”, diz Ruy Amparo, da Abear.

Entre as companhias aéreas, a Emirates foi a primeira a testar seus passageiros com exames rápidos, cujos resultados saem em apenas dez minutos. Também foi a pioneira a oferecer seguro anti-Covid em viagens até 31 de dezembro de 2020. A cobertura é gratuita e garante todas as despesas médicas a qualquer passageiro que contraia o vírus em um jato da empresa. Caso o pior aconteça, a companhia ainda banca os custos do funeral. Depois da Emirates, outras aéreas que atuam no Oriente Médio, como a Etihad e a Air Arabia, também ofereceram um seguro semelhante.

Se você viajar para um país que esteja permitindo a entrada de brasileiros, é altamente recomendável ter à mão o resultado de um teste PCR feito no máximo 48 horas antes do embarque. Muitos países adotaram esse procedimento entre as checagens feitas na imigração. Há locais menos rigorosos, como Singapura e México, que pedem aos recém-chegados uma declaração de saúde feita em um formulário disponível na internet. Na Espanha, alguns aeroportos entrevistam quem desembarca.

Ao chegar em Dubai e na capital da Finlândia, Helsinque, você pode encontrar cães farejadores de coronavírus. Nesses locais, raças como pastor belga malinois, labrador e golden retriever estão sendo usadas para identificar o vírus pelo faro. Os agentes passam um cotonete na axila da pessoa e dão para o cachorro cheirar. Segundo especialistas, doenças infecciosas mudam o odor do corpo humano – e os cães percebem isso.

À medida que se dirige para a saída do aeroporto, você verá mais placas e adesivos reiterando o distanciamento e o uso da máscara. Os lembretes continuarão por muito tempo – pelo menos enquanto não houver vacina ou tratamento para a Covid-19. Até lá, a experiência de voar seguirá bem diferente.

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