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Sociedade

Como salvar a economia

Só tem um jeito de evitar que a Covid-19 cause a Grande Depressão do século 21: o governo ligar as impressoras de dinheiro e encontrar uma forma eficiente de fazer a grana chegar aonde ela deve. Entenda como o jogo econômico funciona. E veja os caminhos possíveis.

Texto: Alexandre Versignassi, Ilustrações: Denis Freitas, Design: Lucas Jatobá

O episódio conhecido como Grande Depressão consistiu numa queda de 26% no PIB dos EUA entre 1929 e 1933. O Goldman Sachs, um banco americano, prevê um baque de 24% por lá só neste trimestre (que vai de abril a junho). O UBS, um banco suíço, imagina algo na mesma linha para o Brasil: tombo de 20% no PIB.

É isso. A queda agora deve concentrar em três meses os quatro anos da maior crise econômica que o mundo já viu em tempos de paz. Até o fechamento desta edição, não havia dados concretos sobre o aumento no desemprego no Brasil em março, o mês em que o coronavírus começou a fechar o País. Mas as previsões eram feias – uma subida dos 11% de fevereiro para mais de 16%. Nos EUA, idem: a maior economia do mundo viu 16 milhões de vagas evaporarem em três semanas. 10% da força de trabalho deles foi para a rua da noite para o dia.

Danou-se, então? Calma. A Grande Depressão só virou o que virou porque o governo dos EUA fez o favor de ficar de braços cruzados. Aquela crise começou com o Crash de 1929, uma queda abrupta de 23% em dois dias no valor das ações mais negociadas na Bolsa de Nova York (o fundo do poço só viria em 1932, com uma queda acumulada de 89%). A queda não teve uma razão. Não havia guerra, pandemia nem nada parecido à espreita. Foi basicamente um tombo forte do mercado depois de anos de subida incessante. Acontece.

Esse baque inicial, porém, criou um efeito dominó. Bancos que tinham dinheiro demais investido em ações faliram.  Com menos bancos, muitas empresas ficaram sem ter como tomar dinheiro emprestado para as despesas do dia a dia. Quebraram. Com menos empresas, começou a faltar emprego. Sem emprego, o consumo baixou. E mais empresas quebraram, retroalimentando o círculo vicioso. A crise se espalharia pelo mundo, pois já havia uma economia global – e os EUA já eram o jogador principal ali.

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O governo de lá poderia ter dado uma força. O Estado tem o poder de criar moeda. De imprimir dinheiro. E quando falta dinheiro em circulação, o governo tende a materializar esse dinheiro mágico, para evitar que seus cidadãos acabem se estapeando no meio da rua por comida.

Mas não. O governo dos EUA não fez nada para evitar a queda. A justificativa era quase religiosa: não haveria ajuda do Estado porque a ideia era justamente fazer uma “faxina”. Tirar do jogo os “especuladores”. “Isso expurgará o sistema, que está podre”, disse Andrew Mellon, então secretário do Tesouro (equivalente a ministro da Fazenda) dos EUA. “Os padrões de vida serão reduzidos. As pessoas trabalharão mais, levarão uma vida mais de acordo com a moralidade. Os valores se ajustarão, e os empreendedores recolherão os destroços dos menos competentes.” Deu ruim.

O ministro da fazenda americano disse, em 1929: “Os padrões de vida serão reduzidos. As pessoas trabalharão mais, levarão uma vida mais de acordo com a moralidade. Os valores se ajustarão, e os empreendedores recolherão os destroços dos menos competentes.” Deu ruim.

A economia parou de cair em 1934, mas o desemprego continuaria roçando na casa dos 20% por vários anos.

“O que realmente pôs um fim na Grande Depressão foi um programa massivo de obras públicas chamado Segunda Guerra Mundial”, disse certa vez o Nobel de economia Paul Krugman. De fato. A produção de aviões, navios de combate e a logística brutal das operações de guerra na Europa e no Pacífico criaram uma situação de pleno emprego nos EUA – com o índice de pessoas sem trabalho caindo para míseros 1,2% em 1944, no auge do conflito.

Esse boom na produção fez o PIB americano crescer severamente durante a Guerra – entre 1941 e 1943, admiráveis 15% ao ano. Mas de onde vinha a grana para pagar o pessoal que fazia os aviões, os encouraçados, a comida e o cigarro dos soldados? Vinha da grande casa de papel americana: o Federal Reserve (Fed), que é o Banco Central deles.

As grandes economias do planeta, Brasil, incluído, devem cair 20% ou mais no terceiro trimestre.
As grandes economias do planeta, Brasil, incluído, devem cair 20% ou mais no terceiro trimestre. Denis Freitas/Superinteressante
Bancos centrais têm o poder de imprimir dinheiro, e fazem parte do governo. Mas seu papel nas economias não é pagar os gastos do governo. O que eles fazem no dia a dia é controlar o volume de moeda que circula pela economia.

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Se os índices de inflação começam a subir, significa que tem dinheiro demais na praça. No caso, mais dinheiro em circulação do que coisas que existem para comprar com esse dinheiro. Então os preços sobem. Inflação. E aí quem perde o valor é o dinheiro. Um Banco Central (BC) existe para manter o valor da moeda.

Para evitar tal perda de valor, o Banco Central age para tirar dinheiro da economia. Então ele chega nas instituições financeiras, ou seja, nos bancos normais, pedindo dinheiro emprestado. Não que ele precise (ele tem o poder de fabricar moeda do nada, afinal). Ele só pega emprestado dos bancos para que os bancos não possam emprestar esse dinheiro para o público, para nós. Para que os bancos topem emprestar, ele oferece juros mais gordinhos. Quando você vê no noticiário que “os juros subiram”, é isso que aconteceu.

Mas tem um outro lado nessa moeda. Se os índices de inflação estão caindo, o que acontece? O BC fica lá parado estourando champanhe para comemorar a valorização da moeda? Não. Inflação é ruim. Mas deflação, queda generalizada nos preços, é pior. Significa que a economia está deixando de funcionar, que ninguém mais está comprando nada. Nos EUA da Grande Depressão, os preços caíam 15% ao ano, por pura falta de demanda. No mundo pós-coronavírus, vale adiantar, é o que já está acontecendo.

Então o que é o ideal? Uma inflação absolutamente zero? Também não. Se nenhum preço jamais sobe, significa que a economia congelou. Preços em ligeira alta, num setor específico, são um bom sinal. Se o preço da pizza no seu bairro está subindo, isso pode significar que há espaço para você criar uma pizzaria. E isso é bom.

O que os governos fazem, então, é estabelecer uma meta de inflação para o ano. No Brasil, ela está em 4% para 2020. E isso significa o seguinte: se os índices de inflação estiverem abaixo de 4%, o Banco Central tem a obrigação de imprimir dinheiro – mais exatamente, de criar moeda eletrônica, já que ninguém mais usa dinheiro de papel. Então ele cria essa moeda e faz o quê? Deposita na nossa conta? Infelizmente não. Ele pega e dá emprestado, a juros baixinhos, de pai para filho, para os bancos. Quando você vê no noticiário que “os juros caíram”, foi isso que aconteceu.

Com mais dinheiro na mão, os bancos tendem a emprestar mais. É assim no mundo inteiro. O nome dessas jogadas entre o Banco Central de um país e os bancos normais que operam ali é “política econômica”. É ela que determina o valor do dinheiro e dá forças para a economia crescer quando esse dinheiro está devidamente valorizado.

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No Brasil, o BC só pode imprimir dinheiro para fazer a tal política econômica. A Lei de Responsabilidade Fiscal, editada no ano 2000, tem um ponto importantíssimo: proíbe a impressão de dinheiro para financiar o Estado.

Isso é ótimo, já que nos livrou de qualquer nova ameaça de hiperinflação. Para sempre.

Se o governo quiser construir estádio, hidrelétrica ou hospital, vai ter de arranjar o dinheiro por conta própria. Que se vire cobrando mais impostos ou pegando emprestado na rua. E é o que ele faz mesmo. Ele pede emprestado “na rua” lançando títulos públicos. Um título público é como se fosse um vale que diz “Obrigado por emprestar R$ 1.000 ao seu maravilhoso governo. Prometemos pagar R$ 1.100 de volta daqui a três anos”. Aí o governo paga ou com o dinheiro que entrar de impostos lá na frente ou fazendo uma dívida nova, com outra pessoa, para não te dar um calote. Rola a dívida. O nome do montante que o governo deve é “dívida pública”.

A do Brasil, como a de qualquer outro país, vem sendo rolada desde o Pré-Cambriano. Está hoje em quase R$ 6 trilhões (ou 80% do PIB, que é como os técnicos medem as dívidas de cada país). O resto é igual na sua vida: quanto maior a dívida, maior o risco de calote, então o governo precisa pagar juros maiores para continuar rolando.

Se o Banco Central pudesse imprimir dinheiro para comprar títulos públicos, estaria financiando o governo por magia. É isso que a nossa Lei de Responsabilidade Fiscal proíbe. E a compra nem precisa ser direto do governo. Se um banco tem uma tonelada de títulos públicos em seu poder (e todos têm), o BC vai lá, imprime dinheiro e compra. Nisso, o governo ganha uma folga: deixa de ter dívida com o banco. O dinheiro que o Estado usaria para rolar essa dívida fica livre para ele gastar como bem entender. Na prática, é exatamente como se o BC tivesse imprimido o dinheiro e dado de presente para os cofres da União. A Lei de Responsabilidade Fiscal, então, não permite que o BC compre títulos – a não ser para fazer a tal política econômica.

Nos EUA é diferente. Não existe uma lei assim. O Fed pode criar dinheiro para comprar títulos públicos. Tem licença para imprimir dinheiro. E agora o Brasil segue pelo mesmo caminho. A PEC do “Orçamento de Guerra”, aprovada em abril pelo Congresso, permite a compra de títulos públicos com dinheiro novo, pelo menos enquanto vigorar o estado de calamidade pública.

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Isso dá poder de fogo ao governo para bancar medidas anticrise, como aquela  ajuda de R$ 600 por três meses e as liberações de seguro-desemprego a quem tiver o salário reduzido ou suspenso. E não menos importante: vai deixar os bancos com muito mais dinheiro para emprestar.

Além disso, a PEC permite que o BC compre títulos privados em poder dos bancos. Ou seja: se a Petrobras deve R$ 1 bilhão para o Bradesco, o BC pode dar esse bilhão ao Bradesco, e aí assume para si o risco de a Petrobras não pagar. É o que os EUA estão fazendo também. A ideia principal é encher os bancos de dinheiro novo e pedir pelo amor de Deus para que eles emprestem mais, e a juros menores. Se esses títulos privados forem de companhias menores, melhor ainda. Você mata dois coelhos: enche o caixa dos bancos e desafoga a rolagem de dívidas das pequenas empresas – ainda mais levando em conta que elas respondem por 54% das vagas formais no Brasil.     

O grande risco de ligar as impressoras de dinheiro é criar inflação – e destruir o valor da moeda
O grande risco de ligar as impressoras de dinheiro é criar inflação – e destruir o valor da moeda Denis Freitas/Superinteressante
A fé de que esse tipo de medida dê resultado é grande. Tanto que as previsões são de uma retomada firme já no terceiro trimestre (julho-setembro), com subidas de mais de 15% no PIB, seja aqui, seja lá fora. O ano fecharia ainda numa recessão brava, mas administrável: na casa de 5% negativos.     

Mesmo assim, o Fed radicalizou. Decidiu fazer ele mesmo certos empréstimos, para não ter de se ajoelhar para os bancos. O BC dos EUA criou um programa de resgate a pequenas e médias empresas. Eles imprimem os dólares e emprestam para você, empresário. Os juros são de 1% ao ano.

E tem um plot twist aí: se você provar que gastou 75% com pagamento de salários, e os outros 25% em aluguel, água, luz, eles perdoam a dívida. Fica por isso mesmo. Não é juro zero. É amortização zero. Dinheiro de graça para pagar salário. Isso vai cobrir metade da força de trabalho dos EUA.

Os EUA darão dinheiro a pequenas empresas para pagamento de salário. E não vão cobrar de volta.

No Brasil, as fichas estão com os bancos. As compras de títulos públicos e privados pelo BC colocará mais de R$ 1 trilhão no colo deles. Espera-se, então, que isso signifique crédito amplo e barato, principalmente para os pequenos comércios. Se não significar, uma injeção direta de dinheiro novo, à la Fed, será urgente.

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Medidas assim, de qualquer forma, tendem a gerar inflação. Haverá mais dinheiro na praça do que a capacidade que temos de produzir coisas para serem compradas com esse dinheiro. Quando os índices de inflação subirem, os governos terão de drenar moeda das economias – aumentando os juros. Aí que a porca torce o rabo. Aumento de juros mantém o valor da moeda, mas reduz a atividade econômica. E não podemos nos dar a esse luxo nos próximos meses, sob pena de entrarmos numa Grande Depressão.

A melhor forma de agir, então, é usar as impressoras, mas com moderação. Com que grau de moderação? Ninguém sabe. Será na tentativa e erro. Porque a economia pode até ser a mais exata das ciências humanas, mas também é a mais humana das ciências exatas.