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Deu ruim

Eles tiveram ideias bem-intencionadas para melhorar a vida das pessoas. Ou estavam apenas fazendo o trabalho do dia a dia. Mas suas decisões provocaram consequências surpreendentes – e desastrosas.

Texto Eduardo Campos Lima, Bruno Garattoni e Alexandre Versignassi | Ilustração Matheus Muniz | Design Maria Pace

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(Matheus Muniz/Superinteressante)

Pobres Pardais

O quê: Uma campanha para combater perdas agrícolas.
Quem: O partido comunista chinês. 

Ao tomar o poder na China, os comunistas se viram diante de um quadro social terrível, com epidemias de cólera que vitimavam dezenas de milhares de pessoas, uma taxa de mortalidade infantil que podia alcançar 300 de cada mil bebês nascidos vivos e 10,5 milhões de pessoas infectadas com esquistossomose. Em 1958, o líder Mao Tsé-Tung anunciou o Grande Salto para o Futuro, um conjunto de iniciativas que visavam transformar a China atrasada e devastada num país moderno e poderoso. O esforço incluía uma campanha contra as “quatro grandes pragas sanitárias”: ratos (que provocavam epidemias de peste bubônica), mosquitos (causadores de malária), moscas (que contaminavam os alimentos e transmitiam doenças diversas) e pardais – que comiam os grãos colhidos pelos camponeses, reduzindo a produção de alimentos. Os pobres pássaros foram decretados “animais do capitalismo”, e a população orientada a exterminá-los. Ninhos foram destruídos, pardais foram caçados – e perseguidos por grupos de crianças, que os impediam de pousar até que caíssem mortos de exaustão. Depois de um ano, o governo calculou a matança em 1,5 bilhão de ratos, 100 milhões de quilos de moscas, 11 milhões de quilos de mosquitos – e 1 bilhão de pardais. Um sucesso. Exceto por um detalhe. Ninguém se lembrou de que os pardais tinham uma função ecológica importantíssima: eles comiam insetos. Com o extermínio desses pássaros, houve uma gigantesca infestação de gafanhotos nas lavouras chinesas, com enxames devorando plantações inteiras. Esse fenômeno, somado a outras reformas agrícolas malsucedidas implantadas por Mao, causou enorme escassez de alimentos no país: 20 a 30 milhões de pessoas morreram de fome até 1962. (ECL)

A bola fora do sistema imperial

O quê: O envio de uma sonda a Marte.
Quem: A Nasa.

A Mars Climate Orbiter tinha o tamanho de uma geladeira, foi construída pela Lockheed Martin e custou US$ 300 milhões (em valores atuais) aos cofres da Nasa. Foi lançada em 11 de dezembro de 1998, e viajou mais de nove meses pelo espaço. Mas aí, em vez de entrar na órbita de Marte, sumiu. Até hoje a Nasa não sabe ao certo o que aconteceu. Se a Orbiter entrou na atmosfera marciana numa altitude baixa demais, e se desintegrou, ou passou reto pelo planeta e mergulhou no espaço profundo. Mas o motivo do desastre é bem conhecido – e bizarro. Os cientistas da Nasa usaram o sistema métrico para calcular a posição, a rota e o impulso da nave (este último, calculado em newton segundos, ou N.s). Só que os engenheiros da Lockheed Martin adotaram o sistema imperial, com libras, pés e libra-força segundos (lbf.s). Isso bagunçou os computadores da Mars Orbiter, levando ao fracasso. “A engenharia não costuma ser tão afeita ao sistema métrico quanto a ciência. Nos EUA, ela costuma usar milhas e libras”, diz Donald Hillger, presidente da Associação Métrica dos Estados Unidos (USMA), entidade que desde 1916 tenta convencer o país a abandonar o sistema imperial. A USMA cataloga casos de problemas e acidentes causados pela confusão entre os dois sistemas de medida – como o voo 143 da Air Canada, que em 1983 decolou de Montreal sem combustível suficiente para chegar a seu destino, em Edmonton, devido a uma confusão entre libras e quilos de combustível. O piloto conseguiu fazer um pouso de emergência, e nenhum passageiro se feriu. Mas erros de cálculo já tiveram pelo menos um desfecho trágico na aviação – leia o item a seguir. (ECL)

Zero à esquerda fatal

O quê: Um voo de rotina.
Quem:
A empresa aérea Varig.

Em setembro de 1989, um voo da Varig saiu de São Paulo com destino a Belém – e nada menos do que seis escalas. Na última, em Marabá (PA), começaram os problemas. Em vez de seguir para o Norte e voar por cerca de uma hora, como previsto, o avião foi para Oeste, voou por três horas, ficou sem combustível e caiu em uma área florestal no Mato Grosso. Uma investigação constatou que o problema estava num sistema digital de plano de voo, que a Varig estava começando a implantar. Antes dele, as coordenadas eram registradas com três dígitos; com o novo sistema, passaram a contar com uma casa decimal. O plano de voo do avião em questão era 0270. O piloto desconsiderou o zero à esquerda, e entendeu que a direção de voo fosse 270 graus. Mas a rota correta para chegar a Belém, na verdade, era 027, ou 27 graus. O avião foi para o lado errado até cair, matando 13 dos 54 passageiros e tripulantes. (ECL)

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(Matheus Muniz/Superinteressante)

Mais produtivas. E assassinas.

O quê: A criação de abelhas melhores.
Quem: Um cientista da USP.

Em 1957, o biólogo e geneticista Warwick Estevam Kerr, professor da Unesp e da USP, trouxe da África do Sul e da Tanzânia algumas dezenas de abelhas-rainhas africanas (da espécie Apis mellifera scutellata). Queria utilizá-las para melhoramento genético das espécies produtoras de mel no Brasil. As abelhas africanas são conhecidas pela agressividade, e Warwick tomou cuidado: os insetos foram levados para um apiário experimental em Rio Claro, no interior de SP, onde ficaram isolados. Porém, devido a um acidente, algumas das abelhas escaparam – e se reproduziram com as espécies nativas do Brasil. Nascia ali a “abelha africanizada”, bem agressiva. Logo nos primeiros anos, o Brasil teve um pico nas mortes de pessoas e animais por ataques de abelha. As africanizadas se espalharam pelas Américas, chegando aos EUA na década de 1980. Em uma entrevista concedida em 2005, Kerr comentou o episódio. “Eu não esperava dar a volta por cima. Pensava que iria ter uma vida desgraçada para o resto dos meus dias.” Mas os criadores e a população acabaram aprendendo a conviver com as abelhas africanizadas. E Kerr – que morreu em setembro de 2018, aos 96 anos – acabou se tornando um dos maiores especialistas do mundo em genética de abelhas. (ECL)


A culpa é sua, monsieur

O quê: A reforma das ferrovias francesas.
Quem: Duas empresas estatais.

Em 2014, a estatal SNCF (Société Nationale des Chemins de fer Français) concluiu seu programa de modernização das ferrovias do país, no qual foram investidos 15 bilhões de euros e comprados 1.860 novos trens. Só havia um problema: eles não serviam. A empresa descobriu que os novos trens eram largos demais, e simplesmente não entravam em 1.300 das 8.700 estações do país. O problema surgiu porque a RFF (Réseau Ferré de France), a estatal que cuida dos trilhos em si, passou as medidas erradas para a SNCF – que foi obrigada a investir dezenas de milhões de euros para reformar as estações. (ECL e BG)


Triplamente errado

O quê: Dois avanços científicos e uma engenhoca.
Quem: O americano Thomas Migdley.

Em 1921, Migdley trabalhava na General Motors quando descobriu que adicionar chumbo tetraetila à gasolina evitava que os motores “batessem pino” (fenômeno causado quando o combustível detona prematuramente, atrapalhando o movimento sincronizado dos pistões). A empresa investiu pesado no novo produto, mas ele tinha um efeito colateral: era altamente tóxico. Casos de alucinações, surtos psicóticos e até mortes começaram a ocorrer na fábrica, tudo causado pelo efeito neurotóxico do chumbo. O próprio Migdley foi diagnosticado com envenenamento e teve de se afastar do trabalho. Ele se recuperou e, alguns anos depois, estava trabalhando para a Frigidaire (subsidiária da GM), que queria desenvolver um novo gás para uso em geladeiras. Os gases refrigerantes usados na época eram altamente inflamáveis, mas a equipe de Migdley criou uma alternativa que não tinha esse problema: um clorofluorocarboneto (CFC, composto que reúne carbono, cloro e flúor) que foi batizado de Freon. Fez um sucesso incrível. Mas décadas depois descobriu-se que, quando o CFC vazava das geladeiras, ele subia pela atmosfera e destruía a camada de ozônio, expondo a Terra aos raios ultravioleta. O CFC e a gasolina com chumbo terminaram sendo banidos do mercado. Aos 51 anos, Migdley contraiu poliomielite e ficou paralisado. Então decidiu criar um sistema de polias e correias para levantar-se da cama – e morreu estrangulado por ele. (ECL e BG)


Um invasor dentro de casa

O quê: Um gesto de boa-fé.
Quem: O imperador Montezuma.

O imperador dos mexicas era um líder militar respeitado e estava trabalhando pela expansão de seu império (depois chamado de asteca) quando começaram a surgir as primeiras notícias da chegada dos espanhóis à América. O aventureiro Hernán Cortés deu às portas de Tenochtitlán – então uma cidade com 200 mil habitantes – em novembro de 1519, acompanhado de 300 soldados espanhóis e um contingente de tlaxcalas, povo inimigo dos mexicas. Montezuma hesitava enormemente quanto ao que fazer. Até que, contrariando as recomendações de seus próprios conselheiros, ele decidiu convidar Cortés para morar em seu palácio. O espanhol aceitou o convite. E, uma semana depois, sequestrou o imperador dentro de sua própria casa e o fez reinar como títere dos interesses espanhóis, matando-o pouco depois. A conquista espanhola poderia ter acontecido de qualquer maneira. Mas a recepção amigável oferecida a Cortés por Montezuma facilitou tudo. (ECL)

Shakespeare em cinzas

O quê: Acender o fogão.
Quem:
Uma cozinheira inglesa.

No século 18, o inglês John Warburton, um oficial de armas (responsável pelos registros heráldicos e genealógicos de uma casa nobre) admitiu ter destruído 53 peças teatrais. Colecionador de obras de grandes autores, incluindo Christopher Marlowe e William Shakespeare, ele havia deixado os livros com sua cozinheira: que usou folha por folha para acender o fogo ou cobrir as formas em que assava tortas. A maioria dos papéis era valiosíssima: as únicas edições existentes de cada texto. (ECL)

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(Matheus Muniz/Superinteressante)

Confisco da poupança

O quê: Uma tentativa de acabar com a hiperinflação.
Quem: a equipe econômica do governo Collor.

Fernando Collor tomou posse em 15 de março de 1990 e, no dia seguinte, confiscou 70% do dinheiro de todas as contas bancárias do País – de pessoas físicas e jurídicas, de contas correntes e de investimentos; no caso, dos dois investimentos que realmente contavam naquela época: o overnight, favorito das empresas e dos abonados (o aporte mínimo equivalia a R$ 800 mil de hoje), e a poupança, que era o que restava a quem não estivesse no topo da pirâmide. Os saques ficaram limitados a atuais R$ 10 mil (“50 mil cruzados novos” pela notação da época). O que passasse disso ficava retido – só daria para sacar dali a um ano e meio. No overnight, a regra foi outra: o sujeito podia sacar 20% do que tivesse ali. Era a única aplicação com liquidez diária (que você pode sacar todo dia) capaz de proteger da inflação da época – o Banco Central imprimia dinheiro novo diariamente para remunerar o povo do over.   Era a “correção monetária”, que existia para compensar uma inflação absurda. Em janeiro de 1990, o IPC-A acumulado nos 12 meses anteriores foi de 2.426%. Em fevereiro, 3.701%. E por um motivo irônico: a própria correção monetária retroalimentava a inflação. Havia muito mais dinheiro novo em circulação a cada dia do que coisas para comprar com esse dinheiro, e os preços subiam desesperadamente. Quase dobravam todo mês. Como acabar com isso? “Drenando dinheiro da economia”, Collor e sua equipe pensaram – com razão. Veio o confisco. E a inflação até caiu, de 80% ao mês para algo em torno de 15% (o que ainda é hiperinflação, só que menos aterrorizante).

Mas o Ibovespa amargou queda de 30% nos dois pregões seguintes ao confisco – o mesmo que a Bolsa de Nova York no Crash de 1929. Ao final de 1990, as ações das empresas listadas na bolsa perderiam 75% do valor. Não existia mais confiança na economia. E sem confiança não há economia. O ano fecharia com uma retração de 4,3% no PIB – a queda mais violenta da história. Para tentar conter a recessão galopante, o governo foi liberando boa parte do dinheiro retido. Não foi suficiente para combater a recessão, e acabou colocando mais gasolina na fogueira da inflação. (AV)


A melhor promoção de todos os tempos

O quê: Uma ousada jogada de marketing.
Quem: Um fabricante de aspiradores.

Compre um dos nossos produtos e ganhe duas passagens aéreas para qualquer lugar da Europa. Essa foi a promoção criada na Inglaterra, em 1991, pela fabricante de eletrodomésticos Hoover. Ela era válida para produtos acima de 100 libras (o equivalente a R$ 1.120 em valores de hoje), e foi uma parceria da empresa inglesa com a agência de viagens JSI – que havia arrematado grandes lotes de passagens aéreas a preços abaixo do mercado. Era para ser uma queima de estoque e parar ali. Mas deu tão certo que, em 1992, a empresa resolveu ir além. Em sua nova promoção, prometeu dar duas passagens aéreas para os EUA a quem comprasse um de seus produtos. A conta não fechava, e a Hoover sabia disso: ela contratou um consultor de risco para calcular o custo da promoção. “Aquilo não fazia sentido”, escreveu esse consultor, o inglês Mark Kimber, em um artigo publicado anos depois. A empresa ignorou as advertências e foi adiante. Ela achava que poucas pessoas resgatariam as passagens, pois isso era trabalhoso (você tinha de enviar a nota fiscal do eletrodoméstico pelo correio, aguardar o recebimento de um formulário, preenchê-lo e mandar de volta, receber um voucher e fornecer à Hoover três opções de data para a viagem). Que nada: 300 mil pessoas compraram eletrodomésticos da marca e solicitaram as passagens. Ao perceber a besteira que havia feito, a Hoover tentou se safar. Passou a retardar o envio dos formulários, para que os consumidores perdessem o prazo da promoção, e realizar outras manobras do tipo. Mas acabou tendo de comprar, e dar, boa parte das passagens – e teve mais de US$ 400 milhões de prejuízo com isso. A empresa, que dominava o mercado inglês, virou motivo de revolta e chacota; e, em 1995, acabou vendida para uma concorrente italiana. (BG)