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História

Dilúvio: a verdade por trás do mais universal dos mitos

Noé não foi o primeiro proprietário da arca. O mito do dilúvio é bem mais antigo que a própria Bíblia. E mostra como várias culturas lidam com um medo em comum: o de que o mundo como nós o conhecemos às vezes acaba, mas sempre renasce.

Noé não foi o primeiro proprietário da arca. O mito do dilúvio é bem mais antigo que a própria Bíblia. E mostra como várias culturas lidam com um medo em comum: o de que o mundo como nós o conhecemos às vezes acaba, mas sempre renasce.

Texto: Maria Clara Rossini | Edição: Alexandre Versignassi | Design: Juliana Krauss | Ilustração: Ju Sting


Tempos após a criação do mundo, deus se cansa da obra e decide varrer a humanidade com um grande dilúvio. Mas um herói é escolhido para ser salvo com sua família. Deus ordena que ele construa uma arca e carregue nela um casal de cada espécie de animal para todos darem continuidade à vida após a catástrofe. Ao final do dilúvio, esse escolhido solta uma pomba, para averiguar se há terra firme por perto.  

Você conhece essa história. Mas talvez não saiba o nome do protagonista. Porque ele não se chama Noé. Atende por “Atrahasis”.

Essa história foi escrita 18 séculos antes de Cristo, em mais de mil anos antes da Bíblia, no Épico de Atrahasis. Na verdade, o tal herói não tem exatamente um nome, mas um título. Atrahasis significa “grande sábio” em acádio, o idioma da Babilônia.

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O deus que ordenou o dilúvio também é outro. Seu nome é Enlil. Ele decidiu destruir a vida na Terra por um motivo mais comum em condomínios do que em textos sagrados: a humanidade estava fazendo muito barulho e não deixava ele dormir. Foi um outro deus, chamado Enki, que avisou Atrahasis do futuro desastre e ordenou a construção da arca.

Essa narrativa também está presente na Epopeia de Gilgamesh. Essa foi escrita um pouco depois, 13 séculos antes de Cristo, retomando o relato original de 500 anos antes. Nessa história, o rei da Suméria encontra um homem chamado Utnapishtim, que nada
mais é do que uma outra versão do próprio Atrahasis. 

Gilgamesh vai em busca do homem, que além de ultrassábio é imortal, em um busca da receita da vida eterna. Ao longo da conversa, Utnapishtim conta que presenciou o grande dilúvio. 

Essas narrativas são as precursoras da versão protagonizada por Noé. Para entender como elas deram origem à história diluviana mais famosa de todas, é preciso dar um passo atrás. Bem atrás, para o berço da civilização.

Da Mesopotâmia ao mundo

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Design: Juliana Krauss / Ilustração: Ju Sting/Superinteressante

O registro do mito diluvial é quase tão antigo quanto a própria escrita. Como você pode imaginar, as literaturas de Atrahasis e Gilgamesh não foram contadas em livros de papel. Elas estão imortalizadas em tabletes de argila, gravados com uma espécie de carimbo, o cunho. Em vez do abecedário, são riscos e triângulos que dão formato ao texto – é o alfabeto cuneiforme, considerado a forma de escrita mais antiga da humanidade.

A escrita surgiu a apenas mil quilômetros de onde Jesus viria a nascer, mas 32 séculos antes. Foi nas margens dos rios Tigre e Eufrates que alguns grupos humanos se acomodaram para criar o que viriam a ser as primeiras cidades da história: Ur, Eridu e Uruk – essa última, inclusive, inspirou o nome que a região tem hoje, o Iraque. 

Pela primeira vez, o homem adaptava a natureza ao seu estilo de vida, e não o contrário. Se hoje você tem água encanada, consulta o horóscopo e consegue ler este texto, agradeça aos criadores dessas primeiras cidades, os sumérios. 

Eles desenvolveram tecnologias revolucionárias, a começar pela escrita. Primeiro, ela era apenas uma representação literal daquilo que existia em volta – basicamente desenhos de animais e objetos. A vida urbana trouxe mais comércio, mais estoques, contas a pagar, mais exércitos a manejar. E os sumérios foram adaptando sua grafia de modo que ela representasse ideias cada vez mais complexas. Com o tempo, as figuras passaram a representar não objetos, mas sons. E podiam ser recombinadas, num código quase mágico, capaz de reproduzir toda a fala humana. Nascia a escrita.

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O detalhe é que esse processo levou milhares de anos. Por isso há um salto tão grande entre os primórdios da escrita e o registro das primeiras literaturas épicas e fantásticas. A narrativa do dilúvio contida no Épico de Atrahasis provavelmente já existia antes, mas era repassada oralmente. O surgimento da escrita só possibilitou que ela fosse passada para o papel – ou melhor, para a argila.

Aí não deu outra: a história se espalhou como um best-seller pelo mundo antigo. As grandes cidades da Mesopotâmia eram os principais eixos comerciais e econômicos de seu tempo. Gente de todas as regiões ia até lá para fazer comércio e acabava levando um pouco da cultura local para casa. Não é de se espantar que uma narrativa tão imponente como a do grande dilúvio universal fizesse sucesso na época.

A mesma narrativa foi traduzida, reinventada, recontada e ressignificada em diversas religiões e culturas. A mitologia grega possui Deucalião, o filho de Prometeu que constrói um barco para se salvar do dilúvio de Zeus. A mitologia nórdica também tem sua versão – é só trocar a água por sangue. Ela está presente até no hinduísmo, quando o deus Vishnu encarna na forma de um peixe para avisar a um humano que o dilúvio está por vir.

E, é claro, existe a versão que você bem conhece.

A Bíblia antes da Bíblia

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Design: Juliana Krauss / Ilustração: Ju Sting/Superinteressante/Reprodução

Noé nada mais é do que um Atrahasis moderno. E digo moderno porque, para os escrivães da Bíblia hebraica, os tempos sumérios estavam quase tão distantes deles quanto a Idade Média. É provável que as histórias do Gênesis tenham sido escritas por volta do século 7 ou 6 a.C., 700 anos depois da narrativa de Gilgamesh, que por sua vez vem 500 anos depois de Atrahasis.

Não coincidentemente, os hebreus estavam na Mesopotâmia bem nessa época. O imperador Nabucodonosor 2º escravizou e deportou o povo hebreu para as margens do Tigre e do Eufrates. O território que abrigava Ur, Uruk e Eridu agora não se chamava mais Suméria. Tinha mudado de nome para Babilônia.  

“Os antepassados dos hebreus já tinham contato com a cultura e religião da Mesopotâmia antes, mas é provável que eles só tenham fixado as narrativas da Bíblia durante o cativeiro. Os exilados hebreus, afinal, eram uma elite que precisava permanecer unida, ter algo em comum”, diz Pedro Paulo Funari, professor de história antiga e arqueologia na Unicamp.

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1200 anos separam o dilúvio de Atrahasis do da Bíblia

A Bíblia não esconde de onde vem a inspiração dos escritos sagrados. Segundo o Velho Testamento, o próprio Abraão, patriarca dos hebreus, nasceu em Ur. O mito da criação do homem a partir do barro também já estava registrado em outra passagem do Épico de Atrahasis. “A inspiração mesopotâmica está presente do início do Gênesis até o dilúvio de Noé. Elas não pretendem ser registros históricos, estão ali como relatos mitológicos que servem como alegoria para passar um ensinamento”, diz o professor.

A presença de relatos diluvianos entre os mesopotâmicos, hebreus, gregos e outros povos não é indicativo histórico de um dilúvio universal – algo que não existiu. Ele foi inspirado em enchentes e inundações recorrentes mesmo, como dos próprios rios Tigre e Eufrates, bem onde estavam aquelas primeiras civilizações. Para as religiões, o importante não é a veracidade da história, e sim a simbologia que a destruição pelas
águas carrega.

Divisor de águas

A água era um símbolo forte entre mesopotâmicos. Na língua suméria, a água era representada pelo mesmo ideograma de “fertilidade”. A cheia anual do Rio Tigre tinha até um deus dedicado a ela, um certo Ningirsu. Gilgamesh era chamado de o quinto rei sumério “após o dilúvio”.

A ideia do dilúvio servia como marcador temporal. Os registros sumérios dividem seus reis entre aqueles que governaram antes e depois da enchente universal. Os monarcas antediluvianos, de acordo com as lendas, reinavam por mais de 2 mil anos cada um. As listas de reis só passam a registrar tempos de governo mais plausíveis para depois da catástrofe.

“O dilúvio, para eles, dividia a história da humanidade em duas: uma época fora do comum, e o tempo em que a humanidade assumiu as características atuais”, diz Jacyntho Lins Brandão,
autor da tradução brasileira da Epopeia de Gilgamesh.

É exatamente o que acontece na história bíblica. Antes do dilúvio, o mundo era repleto de gigantes, e de homens que viviam por séculos – não é só Matusalém, o personagem-sinônimo de idade avançada; o próprio Adão, de acordo com a mitologia do Gênesis, viveu até os 930 anos. Depois do reset aquático, o mundo bíblico fica um pouco
mais realista. 

O conceito do dilúvio talvez ilustre outro divisor de águas: a própria invenção da escrita. 

Antes, com as histórias e tradições repassadas oralmente, era mais difícil distinguir onde acabava a fantasia e começava a realidade. E parte da fantasia acabou registrada como verdade em documentos formais, como as listas que pretendiam informar quanto tempo cada rei reinou. 

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Não é só isso. Também tem o fato de que as histórias eram bem antigas já. De acordo com a arqueologia, o Gilgamesh de verdade teria governado os sumérios entre 2,8 mil e 2,5 mil anos antes de Cristo. Mas a epopeia na qual ele aparece como herói, como vimos aqui, só foi escrita mil anos depois. É como se alguém de hoje tentasse descrever a Europa da Idade Média se baseando apenas em relatos orais.

Outras enchentes

O dilúvio universal, como dissemos, pode não ter existido. Mas nem por isso ele deixa de ser universal. É que histórias bem parecidas também surgiram espontaneamente, em populações que não tiveram contato com a Mesopotâmia.

Os chineses possuem dezenas de narrativas diluviais. Os astecas diziam que o dilúvio foi responsável por transformar humanos em peixes. Para a tribo Lakota, da América do Norte, o único sobrevivente ao dilúvio foi um corvo. Os aborígenes da Austrália transmitem sua história do dilúvio em forma de conto para crianças: um sapo tinha bebido toda a água do mundo, e acabou soltando tudo de uma vez. 

Até as tribos indígenas brasileiras possuem suas versões. Os tupinambás acreditavam em dois grandes dilúvios. A lenda começa com um “incêndio universal”, que criou as ondulações da Terra. Até então, ela não tinha relevo. Depois veio um dilúvio, que apagou o fogo e tornou tudo habitável novamente. O segundo dilúvio tupinambá é mais na linha mesopotâmica: veio o aguaceiro, os rios subiram, e só alguns humanos conseguiram se salvar – escalando coqueiros e palmeiras.

Seja qual for o seu dilúvio favorito, o fato é que todos eles são alegorias para dois sentimentos bem universais: o medo de que tudo acabe. E a esperança de que sempre há um recomeço.

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Design: Juliana Krauss / Ilustração: Ju Sting/Superinteressante/Reprodução
Os fins do mundo

As histórias diluvianas não se limitam ao Oriente Médio – boa parte dos povos possui suas próprias versões.

1. Austrália
Mito dos Gunai
Um sapo gigante bebe toda a água do mundo. Enquanto ele ainda está com ela na boca, outros animais fazem cócegas na sua barriga, fazendo ele rir e despejar todo o líquido, causando o dilúvio.

2. América do Norte
Mito dos Lakota
Um espírito resolve tocar músicas atraem a chuva. Ao longo delas, a água vai aumentando até causar um dilúvio que afoga todos os seres vivos, menos um corvo. Depois, o espírito reconstrói os humanos usando areia colorida.

3. América do Sul
Mito dos tupinambás
Um incêndio universal cria todas as montanhas e vales da Terra, que antes era reta. Então, um dilúvio vem para apagar o fogo e torná-la habitável. Depois chega um segundo dilúvio, mas os humanos se salvam subindo em árvores.