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Cultura

Dionísio – Deus do vinho

Orgias, bebedeiras, loucura... O deus devasso cujo nome romano inspirou o termo “bacanal” não veio para explicar – veio para confundir.

Texto: Maurício Horta | Edição de Arte: Estúdio Nono | Design: Andy Faria |
Imagens: Adobe Stock e Getty Images

NOME ROMANO – BACO • DIVINDADE – DEUS DO VINHO

Se Apolo foi o deus do equilíbrio, Dionísio era seu oposto. Foi a divindade ligada à embriaguez, às orgias e a todo tipo de excesso. Vale dizer que o culto aos deuses gregos vai além da crença pessoal, e além até mesmo da vida religiosa comunitária. Os deuses estão presentes em todos os aspectos da vida social e política. Eles sacralizam a ordem não apenas da natureza, como também dos homens. Deles partem as leis, os costumes, a legitimidade das instituições.

Mas nem todos os humanos que vivem nas cidades gregas fazem parte da organização institucional da pólis. Para aqueles excluídos da ordem – as mulheres e os escravos –, criou-se um tipo diferente de culto. Um culto que coloca a todos no mesmo plano de igualdade, de forma oposta à que se dá no culto oficial. Ele não sacraliza a ordem à qual os homens precisam se integrar, mas oferece uma libertação radical dessa ordem, das ocupações comuns, das regras do cotidiano.

São derrubadas as barreiras entre homem e deus, natural e sobrenatural, humano e animal. Não há mais o autocontrole valorizado pelos deuses. Nesse culto impera o delírio, a loucura da possessão, o êxtase religioso e uma intimidade com o divino tão intensa que funde indivíduo e deus. Entramos no reino do vinho. O reino de Dionísio.

Dionísio é filho de Zeus com a princesa tebana Sêmele. Como acontece na maioria dos casos amorosos de Zeus, sua esposa Hera descobre a traição e decide vingar-se: “Preciso lidar com essa garota de beleza tão autoconfiante. Vou apossar-me de meu cetro para destruir nela o desejo de ser mãe do filho de Zeus! Não serei mais a filha de Cronos se essa menina não for morta por seu próprio amante!”.

Envolta em uma nuvem de ouro que assume a forma de uma velha, Hera desce à Terra. Sêmele a recebe acreditando tratar-se de Beroe, sua enfermeira. As duas começam a conversar sobre vários assuntos, até que tocam no nome de Zeus. Espero que meu amado seja de fato Zeus. Tantos homens ganham a cama de meninas inocentes dizendo ser deuses… Mas, pensando bem, nem mesmo ser Zeus bastaria. É necessário que ele prove também seu amor por mim, que me abrace com a mesma glória de quando se deita com Hera.”

Nesse momento, Hera toma o controle da mente de Sêmele. Quando Zeus a encontra, a garota pergunta se pode fazer um pedido: “Escolhe o que quiser, pois não há o que eu lhe possa recusar”, responde o deus. “Quero que me ames tal como recebes Hera em seus braços.”

<strong>Por onde passa, a comitiva de Dionísio deixa um rastro de delírio, ressaca e, muitas vezes, morte.</strong>
Por onde passa, a comitiva de Dionísio deixa um rastro de delírio, ressaca e, muitas vezes, morte. DEA Picture Library/Getty Images

Não fosse a influência da vingativa esposa de Zeus, Sêmele jamais cometeria tamanha blasfêmia, e, se pudesse voltar atrás, Zeus teria fechado os lábios da amante ou jamais teria feito sua oferta em primeiro lugar. Mas é tarde. E o preço por Sêmele se comparar aos deuses será sua vida.

Obrigado a punir a amante, Zeus ascende ao Olimpo e ordena que as nuvens carregadas colidam umas com as outras. Por piedade, no entanto, escolhe o mais fraco de seus raios. Com ele nas mãos, em um átimo desce de volta à casa de Sêmele e a ama conforme ela havia pedido, no mesmo instante em que a transforma em cinzas.

Com Sêmele morta, Zeus precisa encontrar alguma forma de garantir a vida ao filho concebido nesse trágico encontro. Ele então costura o embrião dentro da própria coxa, e na perna do pai se dá a gestação de Dionísio.

Assim que nasce o filho de Zeus, Hera ordena que os titãs sequestrem a criança, façam dela picadinho e joguem os restos em um caldeirão. Mas a avó Reia traz o menino de volta à vida, pedindo a Perséfone, a rainha do Tártaro, que o leve à casa do rei Atamas de Orcómeno, onde será criado como uma menina pela rainha Ino. Hera, que não pode ser enganada, descobre a estratégia e condena Atamas e Ino à loucura. Para proteger Dionísio, Hermes o transforma em um cabrito e o oferece de presente às ninfas do Monte Nisa. E assim ele cresce nas montanhas selvagens, mimado por belas figuras femininas.

Já adulto, o deus descobre a cultura da uva e o meio de extrair dela seu precioso suco. Mas é no vinhedo que Hera o reconhece, apesar de todos os trejeitos femininos trazidos por sua criação. Para castigá-lo, a rainha dos céus o deixa louco. E assim ele passa a vagar por todo o mundo, acompanhado de seu tutor, Sileno, de ninfas, pãs, curetes e sátiros. Vai ao Egito levando consigo a vinha.

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<strong>Dionísio é criado como menina para escapar da perseguição de Hera. Adulto, descobre a cultura do vinho.</strong>
Dionísio é criado como menina para escapar da perseguição de Hera. Adulto, descobre a cultura do vinho. Heritage Images/Getty Images

Depois, segue em direção à Índia. Ao chegar ao Rio Eufrates, é combatido pelo rei de Damasco, que não quer saber de vinho em seus domínios. Mas não adianta opor-se a Dionísio: o rei tem o couro arrancado ainda vivo, e, para fechar a vitória com ironia, o deus constrói uma ponte de videira para atravessar o Eufrates. Em seguida aparece mais um rio caudaloso. Para ajudar na travessia do filho, Zeus envia um tigre – daí o nome do Rio Tigre da Mesopotâmia.

Finalmente seu exército alcança a Índia, onde é recebido com espadas, adagas e machados. Por seu lado, os dionisíacos têm só a muda da videira, tamborins e címbalos. Basta, porém, transformar a água do rio dos indianos em vinho para que todos os inimigos fiquem bêbados. Intoxicados, os indianos matam seus bois achando que são sátiros, derrubam os carvalhos crendo que suas copas são a cabeleira de Dionísio, e alguns acabam mais dançando que lutando.

A vitória demorará bastante – o poeta grego Nonnus precisará de 27 livros para descrevê-la –, mas chegará. E, voltando triunfante, Dionísio introduz o próprio culto na Grécia natal.

O REI QUE QUIS PRENDER UM DEUS

A essa altura, príncipes gregos já ouviram falar da loucura que o vinho provocou na Índia, e alguns, para garantir a ordem em seu território, se opõem a que Dionísio seja cultuado. É o caso do rei Penteu, de Tebas. Quando Dionísio volta à Grécia, homens, mulheres (principalmente elas), velhos e jovens tebanos correm para honrá-lo.

“Eu, Dionísio, deixei minha forma divina por outra mortal para visitar Tebas, onde fica o túmulo de minha mãe. Já deixei os vales da Lídia, onde abunda o ouro, e os campos dos frígios. Atravessei as planícies da Pérsia, as cidades da Arábia e a Ásia inteira, cujo mar banha as margens cobertas de cidades florescentes. Esta é a primeira cidade em que entro após ter conduzido para aqueles cantos as danças sagradas e celebrado os meus mistérios [orgias] para manifestar a minha divindade aos mortais. Tebas é a primeira cidade grega em que faço ouvir os brados das bacantes.”

Em seu palácio, Penteu recebe a notícia da chegada daquele que acredita ser um charlatão. “Ouvi falar que as mulheres saíram de nossas casas, honrando com danças essa nova deidade, um tal Dionísio, seja ele quem for. Ouvi falar que em suas reuniões as taças rodam indiscriminadamente e que então tudo pode se passar em suas camas. Prenderei com correntes de ferro todos aqueles que participarem desse deboche. Não só prenderei Dionísio, que anda com moças dia e noite, enganando-as em seus mistérios, como também cortarei sua cabeça. E enforcado será aquele que o cultuar como deus.”

Sob as ordens de Penteu, seus servos levam Dionísio até ele de mãos amarradas atrás das costas. “Ó glorioso rei Penteu, aqui trazemos o forasteiro. Esta besta agiu docilmente em nossas mãos, nem sequer procurou reagir. Não ficou pálido nem vermelho, apenas riu e nos permitiu prendê-lo.”
“Soltai as mãos dele. E tu, charlatão, qual o teu nome?”.

“Chamo-me Acetes, um pobre pescador de Meônia. Velejando para Delos, tocamos na Ilha de Dia, e lá desembarcamos. Na manhã seguinte, mandei os marinheiros buscar água. Ao regressarem, eles trouxeram um menino delicado, que encontraram adormecido. Julgaram-no um jovem nobre e imaginaram que poderiam obter uma boa quantia por seu resgate. Vi suas vestes, seu rosto e concluí que só podia ser um deus. Pedi a ele que nos desse sorte em nossa empreitada, mas os meus marinheiros quiseram levá-lo a bordo. Eu me opus, mas um dos marinheiros me agarrou pelo pescoço e tentou me jogar para fora da embarcação. Só consegui me livrar porque me agarrei aos cabos do barco.

<strong>Bacantes alcoolizadas avançam contra o rei de Tebas, que tenta proibir a devassidão dionisíaca.</strong>
Bacantes alcoolizadas avançam contra o rei de Tebas, que tenta proibir a devassidão dionisíaca. DEA Picture Library/Getty Images

Quando a tripulação agarrou a criança, que de fato era Dionísio, ele perguntou o que estavam fazendo. Um dos marinheiros disse que não havia motivos para recear, e que o levaria para onde quisesse ir. Dionísio pediu que o levassem a Naxos, e para lá partimos. Mas, no meio do caminho, a tripulação decidiu vendê-lo como escravo. Dionísio, fazendo de conta que acabara de descobrir a traição, olhou para o mar e chorou ao ver as praias que não eram as prometidas. De repente, o barco parou no meio do mar. Uma trepadeira repleta de uvas enroscou-se nos remos e nas velas.

Ouviu-se o som de flautas, e o cheiro do vinho tomou o ar. Tigres, linces e panteras cercaram o garoto, tomando os marinheiros de terror. Uns se jogaram do barco e logo tiveram seu corpo achatado. As narinas de todos dilataram-se e o corpo  foi coberto de escamas. As mãos encolheram e se tornaram nadadeiras. Quando vi, toda a tripulação havia se transformado em golfinhos. Voltamos, então, eu e Dionísio, em direção a Naxos, onde celebrei os sagrados ritos desse deus.”

“Besteira! Não me faças perder mais tempo com histórias”, grita Penteu. “Servos, executai-o sem demora!” Acetes é levado pelos servos a um estábulo. Mas, enquanto são preparados os instrumentos de execução, as correntes que o prendem caem por conta própria. Procurado, não é mais encontrado em canto algum.

Disfarçado agora de mensageiro, Dionísio conta ao rei que danças e orgias estão acontecendo nas montanhas de seu reino. Penteu decide, então, armar todos os homens e marchar contra aquelas mulheres, mas o deus convence-o a ir antes sozinho, vestido de mulher, para pegá-las em flagrante.
Penteu segue até uma clareira, onde vê uma orgia.

As mulheres se viram ao mesmo tempo e, para assombro do rei, entre elas está sua própria mãe, inebriada. É ela que grita em direção a Penteu. “Ali está o leão, o maior monstro destes bosques! Vamos, irmãs, ver quem será a primeira a feri-lo.” Elas avançam contra o rei, que ora se defende, ora se desculpa. Mas não adianta. Penteu é despedaçado pelas mulheres enquanto sua mãe, num grito de vitória, arranca a cabeça do filho e a enfia na ponta de sua espada.

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