Clique e assine a partir de 8,90/mês
História

Epicuristas e Estoicos: a filosofia grega depois de Platão e Aristóteles

A Grécia foi conquistada por Roma, mas seguiu produzindo filósofos influentes

por Alexandre De Santi e Sílvia Lisboa Atualizado em 27 Maio 2020, 13h22 - Publicado em 20 Maio 2020 11h23

A Grécia foi conquistada por Roma, mas seguiu produzindo filósofos influentes

Texto: Agência Fronteira | Edição de Arte: Juliana Vidigal | Design: Andy Faria | Ilustrações: Caco Neves e Wikimedia Commons


Depois dos grandes voos metafísicos de Platão e Aristóteles, a filosofia se voltou para o homem comum. Filósofos como Epicuro e Zenão de Cício buscaram respostas para que o homem pudesse encontrar uma vida feliz em meio à falta de sentido do mundo. Na matemática, Euclides escreveu um dos livros teóricos mais influentes de todos os tempos. Vamos a eles.

Epicuristas

Aristóteles foi tão prolífico que a maioria dos pensadores gregos abandonou os grandes empreendimentos filosóficos após a morte dele. As questões da existência, que haviam ocupado os dias de Sócrates, Platão e Aristóteles, deixaram de fazer sentido em um mundo incessantemente sacolejado pelas guerras e destruição que marcaram o Mar Egeu nos séculos que se seguiram à morte de Alexandre. Por que se preocupar do que é feita a realidade se não se sabia como seria o dia seguinte? Era preciso ajudar o homem a sobreviver em meio ao caos e à aleatoriedade do mundo.

Essa foi a missão de Epicuro. Nascido em 341 a.C., ele foi o fundador de uma das escolas filosóficas mais importantes da época. O professor de gramática de Samos se mudou para Atenas por volta dos 35 anos, onde comprou uma casa com um quintal. Lá, em meio a árvores e flores, começou a dar aulas de filosofia, nas quais pregava a busca pela felicidade e o controle das emoções. Na verdade, Epicuro se autoproclamava um terapeuta do espírito, um médico das almas e um cirurgião das paixões.

Na escola que fundou, chamada de O Jardim, Epicuro acolhia mulheres, prostitutas e até mesmo escravos. A liberalidade do mestre gerava boatos de que O Jardim seria, na verdade, um local de orgias e depravação. De fato, sua filosofia era uma ode ao prazer, mas não havia espaço para a luxúria. O epicurismo pregava a moderação e a celebração das pequenas alegrias da vida. Conta-se que as aulas de O Jardim eram regadas a água e pão, nada de vinho. É de Epicuro a máxima: “Mais vale dormir tranquilo sobre um berço de palha do que ficar insone e atormentado sobre um trono de ouro.”

Continua após a publicidade

O filósofo dizia que nosso maior objetivo de vida era ser feliz. Mas não se tratava de buscar prazer a qualquer custo, porque isso resultaria em infelicidade. Para o mestre, a felicidade é a ausência de sofrimento. Ou seja, almejar e nutrir expectativas demais sobre a vida só geraria mais angústia e tristeza. Melhor aceitar as agruras da vida porque não há como evitá-las. E, se nada pode ser feito, melhor consolar-se recordando bons momentos ou imaginando dias melhores. Até em relação ao maior medo humano, a morte, Epicuro tinha uma resposta. Se ela é o fim de toda e qualquer sensação, não pode trazer dor física ou emocional. Logo, não há nada a temer. “A morte não é nada para nós”, sentenciou o mestre. Ao superarmos o medo de morrer, podemos, enfim, ser felizes.

Epicuro faleceu aos 72 anos. Não se sabe se estava completamente destemido em relação ao juízo final, mas há registros de que ele viveu exatamente conforme sua doutrina. Tinha dores crônicas na bexiga e no estômago, mas não se deixava abater. Em uma de suas últimas cartas, direcionada a um amigo, dizia: “A doença em meu corpo continua evoluindo, sem nada perder de sua habitual severidade; mas ignoro tudo isso e meu coração se alegra.” Epicuro deixou uma legião de seguidores. Durante escavações em sítios arqueológicos gregos e romanos foram encontradas várias pequenas estatuetas do filósofo, até mesmo em casas simples. Seus seguidores acreditavam que contemplar o rosto dele aquietava o espírito.

Estoicos

Anos depois da fundação d’O Jardim, uma outra escola filosófica tomou forma na Grécia. Zenão de Cício, nascido em 324 a.C., fazia palestras em locais públicos de Atenas. Um de seus preferidos era o prédio Stoa Poikile, ou Pórtico Pintado, situado na Ágora, a praça grega – por causa da palavra stoa, a doutrina foi batizada de estoicismo. Zenão acreditava que o Universo era uma sucessão de eventos cíclicos e idênticos: o que já aconteceu voltará a acontecer e assim por diante. Então, é inútil se preocupar com o futuro: tudo o que acontecer já estava determinado por uma espécie de sopro vital, a “razão universal”. Mas, se não podemos interferir no curso dos eventos, o que nos resta? Podemos mudar a forma como enxergamos o mundo, a nossa mente e aceitar os acontecimentos. Estoico virou sinônimo daquele que se resigna diante dos sofrimentos da vida. Um dos mais famosos conceitos da escola, a ataraxia, significava ausência de inquietação.

Um dos mais notórios seguidores do estoicismo foi Sêneca (4 a.C.- 65 d.C.), o filósofo nascido na região de Córdoba que viveu grande parte da sua vida em Roma, como conselheiro de Nero. Por décadas, o epicurismo e o estoicismo disputaram a atenção dos antigos e seguiram travando embates na Ágora de Atenas. Apesar de distintas, as duas escolas tinham uma ética comum: ambas acreditavam que a filosofia era um modo de vida. Epicuro e Zenão defenderam princípios avançados para a época, como a igualdade entre os homens. O estoicismo pregava que cada pessoa é a manifestação de um espírito universal único, ensinamento alinhado ao cristianismo que viria logo a seguir.

Continua após a publicidade

276 a.C. – 194 a.C.

Erastóstenes

O matemático nascido na antiga cidade grega de Cirene, atual Líbia, foi o primeiro a calcular a circunferência da Terra usando um método incrivelmente simples e preciso para a época. Ele mediu a sombra que o Sol projetava em postes. Percebeu que, em diferentes cidades, a sombra dos postes era diferente ao meio-dia. Daí deduziu que esse fenômeno só poderia ocorrer porque um lugar estava mais inclinado em relação ao Sol que o outro no mesmo horário. Logo, pensou o grego, a superfície da Terra só poderia ser uma curva. Ele chegou a um valor de 40 mil km, de uma precisão incrível – no Equador, a distância entre os polos é de 40.075. Erastóstenes também inventou e batizou a geografia como disciplina.


Cerca de 330 a.C.

Continua após a publicidade

Euclides, o matemático didático

Pouco se sabe sobre a vida do mais famoso matemático de todos os tempos. Nascido por volta da década de 330 a.C., Euclides viveu entre a morte de Platão e Arquimedes e teria morado em Alexandria, a cidade fundada pelo imperador da Macedônia com o objetivo de se tornar o maior polo intelectual do mundo antigo. O principal legado de Euclides foi a obra Os Elementos, o mais antigo tratado matemático a sobreviver da Antiguidade. São 13 livros que contêm 465 proposições, 93 problemas e 372 teoremas – uma coleção das mais importantes lições de geometria, aritmética e álgebra conhecidas até então.

Na obra, Euclides desenvolveu ideias próprias, mas também reuniu teorias de outros pensadores gregos, como Eudoxo, Teeteto e Platão. Com Os Elementos, uma infinidade de estudantes aprenderam geometria plana, números, teoria das proporções e geometria do espaço a partir de uma metodologia racional e acessível, que permitiu o ensino de conceitos abstratos para crianças e adolescentes.


C. 287 a.C. – 211 a.C.

Continua após a publicidade

Arquimedes, o homem eureca

O rei Hierão 2˚, tirano de Siracusa, recebeu uma coroa que deveria conter boa quantidade de ouro. Mas o governante da cidade, que fica na ilha da Sicília, no bico da bota da Itália, suspeitava que o artesão não tinha usado todo o metal precioso, como havia prometido. Como descobrir se o rei havia sido roubado? A pergunta foi levada para Arquimedes, uma espécie de inventor e engenheiro que viveu no reino entre 287 a.C. e 211 a.C. Com o problema na cabeça, o pensador entrou na banheira e percebeu que o nível da água subia. Teve um estalo: o volume do seu corpo era equivalente ao aumento do fluido deslocado. Bastava medir o aumento do nível para saber o volume da coroa. Depois, pesaria o objeto e, dividindo massa por volume, obteria a densidade do artefato. E uma coroa de ouro é mais densa do que as outras. Se repetisse a operação com outro objeto de ouro puro, poderia comparar as densidades e saber se Heirão foi enganado. Arquimedes saiu gritando “heureka, heureka!” (“encontrei!”, em grego) pelas ruas de Siracusa. Era assim que Arquimedes fazia descobertas científicas, a partir de problemas reais da cidade.

O pensador foi uma espécie de Professor Pardal da Antiguidade. Além de fazer descobertas matemáticas e escrever livros (alguns que sobreviveram à ação do tempo), era um hábil inventor. No seu portfólio, estava um navio enorme, com capacidade para embarcar 600 pessoas, e a alavanca. Isso mesmo, o princípio de mover objetos pesados a partir de uma estaca. “Dê-me um ponto de apoio e moverei a Terra”, teria dito. Na Grécia, os pensadores que tratavam de problemas práticos, como Arquimedes, não tinham o mesmo status dos intelectuais que filosofavam sobre o Universo. Mas ele não estava atrás da glória. Queria soluções. Arquimedes criou sistemas de defesa, como um braço mecânico capaz de derrubar navios. A engenhoca se prendia aos invasores próximos da costa. A “garra de Arquimedes” foi testada com sucesso em 2005 na série Superweapons of the Ancient World, do Discovery Channel.

Tags Relacionadas