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História

Como Atenas, Esparta e companhia se uniram para combater a Pérsia

No século 5 a.C., Atenas, Esparta e outras cidades independentes — e muito diferentes — se uniram pela primeira vez diante de uma ameaça comum: os persas.

Texto: Agência Fronteira | Edição de Arte: Juliana Vidigal | Design: Andy Faria | Ilustrações: Caco Neves


Licurgo era um legislador que visitou Creta, Índia, Egito e outros territórios antes de voltar a Esparta com o conjunto de leis que definiria o caráter da cidade por longos anos. Ele buscou respostas até no Oráculo de Delfos para dar conta da missão. Depois de fazer os governantes prometerem que suas leis jamais seriam mudadas, Licurgo foi embora e nunca mais retornou. Deixou como legado as regras que ajudaram Esparta a se tornar a maior potência militar da Grécia Antiga, uma cidade 100% dedicada a formar destemidos guerreiros.

Essa é a história que se contava na época. Mas tudo leva a crer que Licurgo não existiu: foi um personagem mitológico do século 8 a.C. que recebeu todo o crédito pelos avanços da sociedade espartana. As leis do suposto brilhante legislador, no entanto, pegaram. Meninos eram entregues ao Estado aos 7 anos para serem treinados como soldados. O código jurídico também previa decisões impensáveis para os dias de hoje: bebês considerados inaptos para a guerra, por exemplo, eram arremessados de penhascos. A constituição de Esparta definia cada aspecto da sociedade, fiel ao princípio de que a única atividade nobre para os homens era a guerra.

A agressividade de Esparta, de acordo com historiadores, é herança dos povos dóricos que dominaram a península do Peloponeso no século 10 a.C., dando origem a várias cidades independentes umas das outras: as cidades-estado, ou polis. Essas sociedades vizinhas compartilhavam o idioma (o grego e seus dialetos), mitos e ancestrais, mas tinham governos próprios e estilos de vida diferentes. O modelo espartano era sui generis e foi construído ao longo dos tempos – não surgiu de um só golpe, formulado pela cachola de um único homem, como Licurgo.

No século 5 a.C., Esparta tinha dois reis de dinastias distintas, cujo poder era limitado pela existência de cinco líderes eleitos (éforos) e de um conselho de 28 anciãos com mais de 60 anos (gerúsia). Aos governantes cabia o dever de zelar pelas Leis de Licurgo, o que significava treinar um povo patriota e xenófobo para lutar contra qualquer inimigo. Com os cidadãos focados em fortalecer exércitos, cabia aos escravos estatais (hilotas) o dever de prover alimentos, e a homens livres sem direitos políticos (periecos), as atividades do comércio e do artesanato.

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Esparta era única, assim como todas as demais cidades do mundo grego. Entre elas Atenas. Surgida de uma mistura de povos que ocuparam a península Ática lentamente e sem violência, Atenas virou um centro econômico, cultural e intelectual graças a seu empenho na navegação, que garantiu o domínio de territórios distantes e o controle de rotas comerciais no Mar Egeu. Uma cidade repleta de escravos, que organizou a sociedade de acordo com as necessidades dos habitantes mais poderosos.

Seu primeiro código de leis escritas veio em 621 a.C., com Drácon, um severo legislador que propôs punir com a morte não apenas homicídios, mas também furtos e delitos menores, e que transformou devedores em escravos até conseguirem quitar suas dívidas. Usamos até hoje “draconiano” para definir aquilo que é excessivamente rigoroso. Drácon legislou de forma tão severa que os atenienses, cientes do exagero, simplesmente pararam de cumprir suas leis.

Em 594 a.C., Sólon foi escolhido pela aristocracia ateniense, a dona do poder, para bolar leis mais justas e sábias, um conjunto de normas capaz de mudar de maneira profunda a estrutura econômica, social e política da cidade. Na época, a esmagadora maioria da população estava insatisfeita com seu papel na sociedade, o que gerava instabilidade para os poderosos donos de terra. Sólon foi o primeiro legislador a dar espaço para os cidadãos atenienses nas decisões políticas, uma prévia do espírito de participação que guiaria reformas democráticas feitas posteriormente por Clístenes e Péricles.

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Assim como Esparta era diferente de Atenas, Tebas não seguia as leis de Mileto, e Creta tinha perfil distinto de Corinto – e assim por diante. Alianças militares e comerciais existiam entre elas, é claro, mas o ideal era que esses acordos preservassem a autonomia local. Atenas, por exemplo, mantinha negócios com várias cidades e era importante aliada de algumas delas. Mas seu perfil expansionista e dominador não era bem-visto por outras pólis, que enxergavam Atenas como uma rival. Essas divergências, porém, foram deixadas de lado diante de uma ameaça comum: um invasor estrangeiro.

Rivais do oriente

Na virada para o século 5 a.C, o Império Persa era o maior do mundo, se estendendo do atual Paquistão até o Egito, e tinha sob o seu domínio cidades suntuosas, como Babilônia e Persépolis. Entre os terrenos conquistados estavam também cidades-estado gregas localizadas no outro lado do Mar Egeu (Mileto, por exemplo), hoje litoral da Turquia.

Persas e gregos entraram em guerra por disputas territoriais. Depois que o rei Ciro, o Grande, chegou ao poder em 559 a.C., os persas iniciaram uma expansão frenética de seus domínios. Insatisfeitas com o controle persa, Mileto e outras cidades se rebelaram, recebendo apoio de duas aliadas de peso: Atenas e Erétria. Assim que a revolta foi contida pelos persas, o rei Dario decidiu avançar sobre o território helênico. A meta era se vingar contra o apoio aos revoltosos e, de quebra, aniquilar os concorrentes no controle do comércio.

Foi durante a Primeira Guerra Médica (os gregos chamavam os persas de medos, nome de um dos povos que formavam a Pérsia) que ocorreu um dos episódios mais conhecidos da Grécia Antiga. Os persas atacaram os gregos em 490 a.C. Após arrasar Erétria e outras cidades insulares, a frota de Ciro descarregou suas tropas na planície de Maratona, a leste de Atenas, com o objetivo de conquistar a cidade. A estratégia logo se mostrou equivocada. Mesmo sem o apoio de Esparta, atenienses fizeram uma defesa impecável de seu território. Entre 10 e 15 mil gregos armados com lanças e escudos de bronze partiram para a luta corpo a corpo contra cerca de 30 mil persas. Encurralados contra o mar, os adversários orientais bateram em retirada para seus navios.

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O general ateniense Milcíades então mandou o soldado Fidípides correr até Atenas para anunciar a vitória. Assim que completou o percurso de 42 km e deu a boa notícia, Fidípides (que poucos dias antes havia percorrido 250 km até Esparta para pedir ajuda) caiu morto devido ao esforço. A corrida de Fidípides deu origem, em 1896, à prova da maratona, uma das mais prestigiadas das Olimpíadas.

Após o recuo persa, Atenas avançou sobre terras ocupadas pelo inimigo e aumentou seu domínio sobre a região. Os gregos, no entanto, sabiam que o forte Império Persa poderia atacar novamente. Mantendo suas diferenças de lado, eles decidiram se unir em uma aliança militar acertada em 481 a.C., na qual ficou estabelecido que a cidade de Esparta seria responsável por comandar exércitos terrestres em caso de uma nova invasão estrangeira. Atenas comandaria as forças marítimas.

300 famosos

Foi o rei Xerxes, filho de Dario, quem liderou a segunda ofensiva persa, em 480 a.C, na Segunda Guerra Médica. Cerca de 300 mil guerreiros persas desembarcaram em Termópilas, praia da região central da Grécia rodeada de elevados paredões naturais de pedra. A defesa grega era formada por apenas 7 mil homens, mas tinha a seu favor o terreno. Ele oferecia apenas uma estreita passagem aos inimigos, que podiam assim ser facilmente derrubados. A “retranca” grega foi eficiente nos primeiros dias, mas os donos da casa foram surpreendidos por uma traição: Efialtes, morador local, mostrou aos persas um caminho alternativo que permitiu aos invasores chegar até a retaguarda grega durante a madrugada.

Quando o general espartano Leônidas percebeu que o bloqueio havia sido rompido, liberou os soldados vindos de outras cidades gregas da batalha certamente perdida e encarou o exército inimigo com ajuda de seus 300 valentes guerreiros espartanos — e de mais alguns homens de Téspias e Tebas que decidiram resistir. Como esperado, os gregos foram aniquilados. A derrota, no entanto, não foi em vão.

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Seguindo as Leis de Licurgo, os 300 bravos espartanos venderam caro suas vidas, mataram milhares de persas e atrasaram o avanço inimigo, dando aos gregos a chance de se reorganizar. A Batalha de Termópilas entrou para a história e rendeu fama aos “300 de Esparta”, eternizados, também, na graphic novel de Frank Miller e no filme 300, lançado em 2006 (com o ator brasileiro Rodrigo Santoro no papel de Xerxes).

Os persas avançaram pelo território grego, mas Atenas foi evacuada antes da chegada dos invasores, que enfim destruíram a cidade e vingaram a derrota anterior. A alegria estrangeira durou pouco tempo. As forças de Xerxes foram atraídas pelo general Temístocles até o estreito de Salamina, onde suas embarcações não foram capazes de reagir ao ataque das esquadras gregas. Uma virada alcançada graças ao talento do estrategista naval ateniense.

No ano seguinte, em 479 a.C., os persas foram definitivamente derrotados na planície de Plateias, quando enfrentaram uma aliança de tropas gregas vindas de Esparta, Atenas, Corinto e Mégara. O consórcio das cidades-estado gregas não duraria muito tempo, mas a vitória teve pelos menos duas consequências para o futuro. Primeiro, deu ao fragmentado universo helênico a primeira grande vitória enquanto povo unido – um ideal que rondava as penínsulas desde que a Ilíada sugeriu que, juntos, gregos poderiam superar troianos e outros inimigos. Um gostinho daquilo que hoje chamamos de Grécia. A imposição sobre os persas também consolidou Atenas como potência regional, o que facilitou a implantação de mudanças profundas na sociedade e conduziu a pólis para o seu período mais iluminado.