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História

Guerra em dose dupla

Personalidades como Hitler, Mussolini e Churchill também atuaram na Primeira Guerra Mundial. Veja o papel que cada um desempenhou durante o conflito.

Texto: Tiago Cordeiro | Design: Andy Faria | Imagens: Wikimedia Commons


Adolf Hitler


Na 1ª Guerra não quis saber de lutar por sua terra natal, a Áustria. Mas, quando a Alemanha entrou na guerra, alistou-se como voluntário no 1º Regimento de Infantaria Bávara, em Munique, onde morava. Em meio à desordem e ao entusiasmo geral, ninguém questionou sua nacionalidade. Combateu na França e na Bélgica e foi condecorado por bravura.

Na 2ª Guerra, alçado ao posto de führer (“líder”) do 3º Reich, deu início ao conflito quando invadiu a Polônia, em 1939. Tentou expandir o território alemão enquanto aniquilava 6 milhões de judeus, além de ciganos, homossexuais e outras minorias. Prevendo a derrota, suicidou-se em abril de 1945 com uma cápsula de cianureto e um tiro na cabeça.

Winston Churchill


Como primeiro-ministro do Reino Unido, foi um dos personagens mais importantes da Segunda Guerra. Na Primeira, teve um papel secundário, mas de muita responsabilidade: com 40 anos, era Lorde do Almirantado, o homem no comando da Marinha britânica. Nesse posto, acabaria autorizando uma das operações aliadas mais desastrosas de todo o conflito: a ocupação do estreito de Dardanelos, na Turquia, em 1915.

Aquela era uma posição de alto valor estratégico. Controlando o estreito, seria possível bloquear os inimigos turcos e garantir apoio às tropas russas simultaneamente. Só que o plano deu errado. A vitória otomana, após oito meses de combate, deixou um saldo de 250 mil britânicos mortos e custou-lhe o posto na Marinha. “Foi a primeira de muitas vezes em que Churchill foi considerado morto em termos políticos”, diz o historiador Richard Overy, professor da Universidade de Exeter, na Inglaterra. Transferido para o Exército, ele passou a comandar o 6º Batalhão nas trincheiras da França.

Benito Mussolini


Em 1902, aos 19 anos, Mussolini se mudou da Itália para a Suíça com a intenção de escapar do alistamento obrigatório no serviço militar. Ao retornar, dois anos mais tarde, tornou-se jornalista e líder do movimento socialista – do qual seria expulso em 1915.

Com a eclosão da Primeira Guerra, o futuro comandante da Itália fascista acabou se alistando. Foi de soldado a cabo, passando por um período em que ficou doente, com febre tifoide. Em 1917, um morteiro explodiu ao seu lado, dentro de uma trincheira, deixando-o gravemente ferido e com mais de 40 estilhaços de metal cravados no corpo. Ao todo, acumulou nove meses de serviço na retaguarda.

Mussolini voltou à vida civil em Milão, para editar o jornal de extrema direita Il Popolo d’Italia (“O Povo da Itália”), que ele havia fundado em 1914. Em 1922, assumiria o poder em seu país e o conduziria para um pacto com a Alemanha nazista na Segunda Guerra.

George Patton


O maior general do Exército americano na Segunda Guerra foi um comandante ousado durante a Primeira. E criativo, muito criativo também. Como chefe do Corpo de Tanques dos Estados Unidos, ele desenvolveu uma estratégia curiosa para infiltrar informantes nas linhas inimigas: enviava soldados-corredores, que tinham preparo físico de atleta e levavam pombos-correio a tiracolo. As aves se encarregavam do leva e traz de mensagens.

Patton chegou à Europa com 31 anos de idade, em junho de 1917. Àquela altura, era capitão. Um ano e três meses depois, em setembro de 1918, já tinha virado tenente-coronel e estava liderando um corpo de tanques francês – mas operado por americanos – na Batalha de Saint-Mihiel. Sofreu um ferimento na coxa esquerda durante a ofensiva de Meuse-Argonne, ao comandar um ataque contra um ninho de metralhadoras alemãs. Depois de ser atingido, escondeu-se em um buraco, onde aguardou cerca de uma hora até ser resgatado. Enquanto esperava o resgate, respondia ao fogo inimigo com tiros de pistola.

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Bernard Montgomery

Sua história na Segunda Guerra Mundial é famosa. Como comandante do 8º Exército britânico, foi o grande responsável pelo triunfo dos Aliados na Batalha de El Alamein (1942), que marcou a virada das potências ocidentais sobre as forças do Eixo no norte da África. Logo em seguida, liderou as decisivas invasões aliadas na Sicília e na Itália.

Pouco se comenta, no entanto, sobre sua participação na Primeira Guerra. Montgomery quase morreu logo no início do conflito. No dia 13 de outubro de 1914, perto da fronteira entre a Bélgica e a França, ele foi atingido por dois tiros. Um acertou seu pulmão direito. O outro pegou um dos joelhos. Tinha 26 anos, era soldado e lutava pelo Regimento Warwickshire, do qual fazia parte desde 1908. Os companheiros de farda chegaram a cavar sua cova. Mas Montgomery não morreu. Voltou para o front dois anos depois, como major de brigada, a tempo de participar da Batalha do Somme. Também esteve nas batalhas de Arras e Passchendaele. Terminou a guerra como oficial.

Georgy Zhukov

O general mais premiado da história da União Soviética foi o responsável por impedir o controle dos nazistas sobre Leningrado (atual São Petersburgo) e Moscou na Segunda Guerra. Também liderou o ataque russo na Batalha de Kursk e, por fim, comandou a tomada de Berlim, em maio de 1945.

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Essa vocação para herói já podia ser notada na Primeira Guerra, quando Zhukov, então com apenas 19 anos, integrava o Corpo de Cavalarianos das tropas czaristas. Em 1916, uma mina pisada por seu cavalo explodiu, lançando-o longe. O incidente custou-lhe parte da audição. Pouco tempo depois, ele receberia suas primeiras condecorações: duas Cruzes de São Jorge.

Com a Revolução Russa, em 1917, o Corpo de Cavalarianos trocou de lado. De força a serviço do regime czarista, passou a unidade bolchevique. Dali em diante, Zhukov lutaria pelo Exército Vermelho – tanto nas últimas participações russas na Primeira Guerra quanto na guerra civil que viria a seguir e terminaria com a criação da URSS.

Hermann Göring

Braço-direito de Adolf Hitler na Segunda Guerra, Göring nasceu em uma família de tradição militar. Seu pai, Heinrich, era oficial de Cavalaria e foi o primeiro governador da Namíbia, então uma colônia alemã na costa oeste da África. Falava em seguir carreira nas Forças Armadas desde criança. Com 16 anos, foi enviado para uma academia militar. Aos 19, alistou-se no Exército. E aos 21, já estava indo para a frente de batalha.

No início da Primeira Guerra, lutou como soldado de infantaria. Mas não demorou a dar baixa dessa função, usando como pretexto a necessidade de se recuperar de problemas nos joelhos. Sua real intenção era seguir os passos do amigo Bruno Loerzer e se tornar aviador. Conseguiu ser transferido para o Serviço Aéreo, onde sucederia o lendário Barão Vermelho no comando do esquadrão JG1. Acumulou 22 vitórias. Quando a guerra acabou, tornou-se piloto comercial. Mais tarde, transformaria-se numa das figuras centrais do regime nazista.

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Rudolf Hess

Secretário particular de Hitler, protagonizou um dos episódios mais insólitos da Segunda Guerra. Em 1941, ele viajou de avião, sozinho, da Alemanha até a Escócia, ignorando o fato de que seu país estava em guerra com os britânicos. Supostamente levava consigo um acordo de paz, mas acabou sendo preso assim que colocou os pés em solo inimigo. Foi encarcerado na Torre de Londres, e permaneceu detido até morrer, em 1987.

Sua participação na Primeira Guerra Mundial foi repleta de percalços. Como homem de infantaria, teve de lutar doente em diversas oportunidades e foi ferido mais de uma vez – uma delas durante a sangrenta Batalha de Verdun, em 1916. Ao final da guerra, abraçou com entusiasmo o ideário nazista que florescia na Alemanha derrotada. Em 1920, filiou-se ao Partido Nacional Socialista (nome oficial da agremiação que conduziria Hitler ao poder). Treze anos mais tarde, já era o terceiro homem mais poderoso da Alemanha – atrás apenas do Führer e de Hermann Göring.

Erwin Rommel

Brilhante no norte da África durante a Segunda Guerra, o general alemão revolucionou as batalhas entre tanques ao usá-los com agilidade, realizando movimentos que os britânicos não conseguiam prever. Por alguns anos, antes de se tornar responsável pela defesa da Normandia, Rommel chegou a ser um dos militares mais populares da Europa.

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No conflito mundial anterior, ele já havia se mostrado genial: a forma como conduziu suas tropas na Batalha de Caporetto, em 1917, rendeu-lhe a cobiçada Pour Le Mérite, maior condecoração alemã da época. Àquela altura, era um jovem tenente, com apenas 25 anos de idade. À frente de uma unidade composta de aproximadamente 800 homens, avançou sobre as linhas inimigas, lutou por três dias seguidos e garantiu a tomada do monte Matajur, levando 9 mil italianos à rendição. “Ele já apostava na agilidade e no improviso”, diz o historiador americano Dennis Showalter. Até o fim da Primeira Guerra Mundial, seria ferido três vezes.