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Cultura

Hera – Rainha dos deuses

Estuprada por Zeus, seu irmão gêmeo, Hera acaba se casando com ele. Sua trajetória se baseia em controlar, sem sucesso, as traições do marido. E se vingar contra amantes e os frutos do adultério divino.

Texto: Maurício Horta | Edição de Arte: Estúdio Nono | Design: Andy Faria |
Imagens: Adobe Stock e Getty Images

NOME ROMANO – JUNO • DIVINDADE – RAINHA DOS DEUSES, DEFENSORA DA FIDELIDADE CONJUGAL

Na machista mitologia grega, a mulher é um mal necessário. É a barriga que consome, como um imposto, o alimento que o homem pena a produzir, e que, por nunca estar satisfeita, manipula-o pela sedução e pela mentira para sempre obrigá-lo a trabalhar mais. No entanto, se não assumir o fardo que a mulher representa para ele, o homem grego pagará mais tarde com a ausência de um filho que o apoie na velhice. Mulher, assim, é pena e prazer, sacrifício e segurança.

Entre os humanos, o mito que melhor representa essa visão misógina é Pandora, a primeira mortal, criada sob ordens de Zeus, dotada de beleza, audácia, força, persuasão, habilidade manual, mas também falsidade. Seria o castigo que a humanidade carregaria depois de Prometeu, o primeiro homem, ter roubado o fogo dos deuses. Ela recebe dos céus uma caixinha que seduziria os mortais e os levaria à perdição. Quando seu marido, Epimeteu, abre a terrível caixa, imediatamente surgem todos os males que recaem sobre a humanidade.

E os deuses? Estariam eles livres da maldição feminina? De forma alguma. Depois de ter devorado Métis, Zeus personificou a astúcia. Isso não quer dizer que suas mulheres não tentarão manipulá-lo, mas que ele saberá contornar o que a mitologia mostra como um vício feminino. Ao seu lado, terá eternamente a ciumenta Hera, irmã e esposa que se dedicará quase que exclusivamente a persegui-lo em suas escapadelas conjugais.

Tudo começa depois de Zeus confinar seu pai, Cronos, na escuridão do Tártaro. Liberado da opressão paterna, o rei dos deuses começa a cortejar sua irmã gêmea em Creta. Mas a indiferença da moça não supera a sagacidade de Zeus. Num instante, ele se disfarça como um filhote de pássaro cuco ferido. Tomada de pena pelo bichinho, Hera delicadamente o coloca em seu seio, como mandaria seu instinto materno. Basta ela começar a acariciá-lo para que ele tome sua forma original e a agarre à força. Desonrada, Hera se vê obrigada a se casar com o irmão para encobrir a vergonha de seu estupro.

Em uma charrete conduzida pelo deus Eros, de asas douradas, o casal chega à mais grandiosa de todas as festas organizadas pelos olímpicos, à qual todos os deuses, toda a humanidade e todos os animais foram convidados. Para o casamento, foi escolhido o lugar mais belo do Universo – o Jardim das Hespérides, no extremo Ocidente do mundo, onde moram ninfas primaveris da fertilidade, protegidas pelas grutas das Greias (três irmãs que compartilhavam um olho e um dente) e das Górgonas (monstros femininos com cabelo de serpente), além de terríveis dragões de cem cabeças.

Para enfeitar o jardim, Gaia, a avó do casal, planta às margens do Rio Oceano uma cobiçada árvore de maçãs de ouro, que leva à juventude eterna. Um único ser se recusa a comparecer – a invejosa ninfa Quelone, que fica em casa. Para castigar essa birra feminina, o deus mensageiro Hermes, que convidou a todos, desce do Olimpo, inunda sua casa e transforma a ninfa em uma tartaruga, condenada a carregar sua moradia nas costas pelo resto da vida.

<strong>O casamento de Hera com seu irmão, Zeus, é um ato de reparação após o estupro incestuoso.</strong>
O casamento de Hera com seu irmão, Zeus, é um ato de reparação após o estupro incestuoso. DEA / Icas94/Getty Images

Terminada a bela cerimônia de casamento, o casal divino parte para a Ilha de Samos, onde os noivos terão uma noite de núpcias de 300 anos. É assim que Hera se torna rainha de todos os deuses e senhora dos céus e da Terra. Por mais amantes que Zeus tenha, somente Hera pode sentar-se ao seu lado no trono dourado do Olimpo e ostentar um cetro real. Quando os deuses se reúnem, ela é reverenciada da mesma forma que Zeus. E, quando ele tem dúvidas sobre como governar o Universo, é ela quem lhe dá conselhos.

As deusas ficam de coadjuvantes

Durante os períodos Paleolítico, Neolítico e até no Bronze Antigo, na Hélade, região em que se desenvolveria a civilização grega, povos sedentários cultuavam entidades femininas relacionadas à fertilidade da natureza. Divindades masculinas só passariam a se impor na região da Grécia com a vinda dos jônios, por volta de 1950 a.C. Ao contrário dos antigos habitantes da Hélade, que se ocupavam com a agricultura, os jônios eram nômades, que viviam de conquistas e se organizavam militarmente.

Tinham, assim, uma relação menor com a terra, e por isso reverenciavam divindades masculinas, que os protegiam do clima e lhes garantiam sorte nas batalhas. Com a sua chegada, trouxeram também elementos masculinos de suas crenças. O mesmo fizeram os aqueus, os eólios e os dórios. Foi dessas levas de povos indo-europeus que o panteão grego tomou as formas que conhecemos hoje, e foi assim que Zeus, de um deus dos fenômenos meteorológicos, estabeleceu seu domínio sobre as então veneradas deusas da fertilidade. E o feminino – seja das deusas, seja dos mortais – ficou em segundo plano.

O papel de Hera, deusa rainha e mestra dos céus, será, antes de mais nada, guardar seu casamento com Zeus – daí ela se tornar a divindade protetora do matrimônio. Para manter aceso o desejo do marido diante da competição eterna com mortais e imortais, ela empresta, de tempos em tempos, o irresistível espartilho de Afrodite e, banhando-se nas fontes do Rio Canatus, capaz de restaurar sua pureza, permanece sempre virgem – mesmo depois de parir Ares, Hebe e Ilítia.

A primeira-dama do Olimpo não é uma esposa dócil nem uma mãe dedicada. Muito pelo contrário. Nunca é representada como mãe, e sim como uma esposa revanchista e madrasta terrível, que investiga todas as saidinhas de Zeus. Para castigar as amantes e os filhos bastardos do marido, ela arma todos os tipos de intriga rocambolesca e castigo impiedoso. Condena Hércules à servidão, persegue Dionísio antes mesmo de seu nascimento e faz com que a mãe dele, Sêmele, seja acertada por um raio e um trovão de Zeus. Leva Ino, a ama de Dionísio, a se jogar no mar com seu filho.

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Condena as filhas do rei Proito a vagabundear pelo Peloponeso como vacas loucas. Persegue Io, a sacerdotisa de Argos. E gera, por partenogênese (desenvolvimento de um ser por um óvulo não fecundado), o filho Hefesto, deus ferreiro deformado. Toda a sua existência como mulher se limita ao ciúme doentio que sente do marido.

Gato e rato olímpico

Mal Zeus e Hera voltam da lua de mel tricentenária e a deusa já abandona o Olimpo em protesto contra a infidelidade do esposo. Buscando um plano para levá-la de volta a seu leito, Zeus vai até o rei Citerão, mais sábio do que qualquer outro humano, que o aconselha a criar um factoide que alimente o ciúme da esposa e mostre quão tola é sua apreensão. Zeus então talha o tronco de uma árvore nas formas de uma mulher e o enfeita com adornos de noiva. Uma procissão é organizada, e o tronco é carregado dentro de uma charrete nupcial. Tudo à vista de Hera.

<strong>Na mitologia machista da Grécia, Hera é a esposa chata que não deixa o marido se divertir.</strong>
Na mitologia machista da Grécia, Hera é a esposa chata que não deixa o marido se divertir. DEA Picture Library/Getty Images

Fica claro para ela que seu marido é realmente um canalha. Hera, então, desce até a clareira onde a procissão acontece, interrompe a cerimônia e arranca o vestido da noiva. Ao ver que Zeus se casaria com um pedaço de madeira, ela reconhece sua falta de razão e volta a seu trono dourado no Monte Olimpo. Desde então, o casal nunca mais se separa – o que não quer dizer que as brigas deixem de acontecer.

Por que Zeus trai a esposa de forma tão sistemática? Hera acredita que tudo seja culpa da incontrolável vulnerabilidade masculina ao prazer carnal. Mas o rei dos deuses não concorda. “Na verdade, o prazer no homem é muito mais tedioso e fraco do que aquele que vocês mulheres compartilham”, diz, para a raiva de Hera. Para esclarecerem o assunto, os dois descem à Terra e consultam o sábio Tirésias.

Diante da pergunta de Hera e Zeus, Tirésias responde, sem dúvida: “Venerável casal olímpico, numa escala de dez, a mulher goza nove vezes a parte do homem”. A ira que já se acumulava no fígado celeste de Hera explode, e com essa resposta a deusa arranca a vista do pobre velho. Zeus, que é infinitamente justo, tenta reparar o ato da esposa dando a Tirésias o poder de prever o futuro e prolongando sua vida.

Certo dia, ela se cansa da infidelidade do marido e decide se vingar. Com outros deuses olímpicos, vai até seu leito para imobilizá-lo enquanto ele dorme, com cordas de couro cru presas por uma centena de nós. Ao despertar, Zeus os ameaça de morte, mas não consegue achar seu raio fulminante: os demais deuses tinham-no escondido e agora rolam de rir dos insultos.

A ninfa marinha Tétis prevê uma guerra civil no Monte Olimpo e corre em busca do hecatônquiro Briareu, que desenlaça cada nó com cada uma de suas cem mãos, libertando o rei dos deuses. Sabendo que o golpe foi liderado pela esposa, Zeus coloca Hera pendurada no céu, presa por braceletes de ouro nos pulsos e com uma bigorna amarrada em cada calcanhar, vulnerável às chibatadas do marido. Embora os outros deuses estejam horrorizados com a punição e os gritos da deusa, ninguém ousa socorrê-la, e Zeus lhes oferece liberdade em troca de um juramento de que nunca mais se rebelarão contra ele. Poseidon e Apolo são condenados a reconstruir a cidade de Troia, mas todos os demais conseguem ser dispensados dos trabalhos forçados.

OLIMPÍADA SÓ PARA MULHERES

Apesar de seus desmandos, Hera ganhou um papel forte nos cultos romanos e gregos. Entre os latinos, todo cônsul, ao assumir seu cargo, era obrigado a oferecer um sacrifício solene à deusa. Já os gregos chegaram a criar a Heraia, uma versão feminina da Olimpíada. Ainda assim, os jogos de Hera não ficaram em pé de igualdade com os dedicados ao marido: as mulheres, consideradas mais fracas, corriam apenas cinco sextos do percurso masculino.

OS 12 TRABALHOS DO BASTARDO

Um dos mitos mais populares da Grécia Antiga é relacionado ao ciúme de Hera – e sua vingança contra as traições de Zeus.

Hércules (Héracles para os gregos) é o maior herói mortal de toda a mitologia grega. Sua jornada é marcada por 12 trabalhos que só um semideus, sinônimo de força descomunal e muita astúcia, poderia realizar. Mas por que raios o fortão se engajou nessa dúzia de missões complicadas? Mais uma vez, foi uma combinação entre a infidelidade conjugal de Zeus – pai de Hércules com a princesa Alcmena – e a natureza “não vou deixar barato” de Hera, a esposa traída.

Entre diversas perseguições contra o herói, a pior maldade da deusa é enfeitiçar seu enteado para que ele tenha um surto psicótico e, descontrolado, mate a própria esposa e os filhos. Ao recuperar a razão, arrasado com o que fez, Hércules procura o Oráculo de Delfos (templo de consulta às divindades gregas) para ver como poderia se redimir daquele crime terrível. A resposta é que ele deve se submeter ao rei da cidade de Micenas, que lhe dá os tais “12 trabalhos de Hércules”, aparentemente inexequíveis.

As tarefas, todas devidamente concluídas pelo filho de Zeus, vão de matar um leão de pele invulnerável até limpar todo o cocô de boi acumulado por 30 anos nos estábulos de um rei pouco dado à higiene. Para não ter de pôr a mão no estrume, Hércules usa toda a sua força para desviar o curso de dois rios na direção dos currais. O lava-jato funciona, e também não é dessa vez que Hera consegue se vingar da traição de seu marido cafajeste.

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