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História

Ilusionistas – A jornada dos mestres

De magos a mágicos. De demônios a popstars. Conheça a história dos ilusionistas – desde a Antiguidade até os espetáculos de TV e grandes truques de rua.

Texto: Otavio Cohen | Edição de arte: Jorge Oliveira | Design: Andy Faria | Imagens: Wikimedia Commons – Domínio Público


No ano 2000, David Blaine foi confinado em um bloco de gelo numa plataforma erguida no meio da Times Square, em Nova York. Pela parede translúcida do bloco, todos que passavam por um dos endereços mais movimentados do mundo podiam ver seu rosto. Durante as 63 horas, 42 minutos e 15 segundos em que o ilusionista ficou dentro do cubo de gelo, ele não podia comer nem beber, nem dormir. O bloco era ajustado ao corpo de Blaine e ele quase não se mexia. Quase três dias depois de encarar o desafio, o ilusionista pediu para sair do cubo de gelo gigante. Desnorteado, com o olhar perdido e sem conseguir falar direito, afetado pela baixa temperatura, ele saiu de lá para entrar numa seleta lista de mágicos popstars.

É bem provável que ele não tenha ficado o tempo todo preso. De tempos em tempos, quando precisavam jogar gelo seco no cubo para mantê-lo congelado, criava-se uma fumaça e mal dava para ver lá dentro, só a silhueta do americano. Nessas horas, supostamente, um dublê entrava em cena, enquanto o mágico descansava fora do cubo. Com um estilo próprio, que mistura desafios de resistência com ilusões feitas no meio do povo, David Blaine protagonizou a maior mudança recente na história da mágica: ele a levou para a rua, sem deixar de lado o espetáculo e as proezas megalomaníacas dos ilusionistas modernos.

Levou não. Devolveu. A mágica nasceu e cresceu no meio do povo. Há mais de 3 mil anos, nas ruas do Egito Antigo, um homem conhecido como Dedi decapitava gansos e, em seguida, colocava a cabeça de volta no corpo do bicho, ressuscitando-o. A história toda é narrada nos Papiros de Westcar, escritos entre os anos de 1500 a.C. e 1700 a.C. E tem todos os elementos do sucesso: preparação (o ganso é mostrado), suspense (a plateia não sabe o que vai acontecer), virada (o ganso é decapitado) e surpresa final (o ganso ressuscita! Oooh!). Só tem um detalhe: como todas as histórias contadas nos Papiros de Westcar, o caso de Dedi é ficção. Ainda assim, revela que pelo menos o conceito de mágica – um show popular e emocionante, exatamente como é hoje – já existe há milênios.

<strong>Primeiros relatos de faquires indianos chegaram ao Ocidente no século 17.</strong>
Primeiros relatos de faquires indianos chegaram ao Ocidente no século 17. Stereograph Cards/Library of Congress, Washington, D.C./Public Domain

É difícil saber quando o primeiro mágico realmente surgiu, nenhum dos exemplos históricos antigos é muito confiável. Mas sabe-se que um dos primeiros números apareceu poucos anos antes do nascimento de Cristo. Em 50 a.C., os romanos inventaram o truque dos covilhetes (veja mais sobre ele no final da reportagem). Com destreza nas mãos, os mágicos faziam pedras sumirem e se multiplicarem dentro de copos pequenos, do tamanho de xícaras. E causavam frisson nas ruas de Roma.

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A moda pegou e desembarcou também nos impérios vizinhos. Gregos e egípcios começaram a entreter seus conterrâneos com ilusões parecidas. Um número famoso da época fazia aparecer imagens na fumaça do incenso, bem no meio da multidão. Não passava de um truque com placas de metal espelhadas e recortadas. Mas quem via aquilo achava mesmo que estava diante de um milagre divino. Ou satânico, aos olhos de outros espectadores. Com a expansão do Cristianismo nos séculos seguintes, qualquer coisa que a religião não fosse capaz de explicar era logo associada com o diabo.

De magos a demônios

Mas nem sempre foi assim. Toda civilização, da Antiguidade até a Idade Média, conta histórias de sábios misteriosos – com dons extraordinários, capazes de manipular a natureza, prever o futuro e interpretar as estrelas. Eram chamados de magos. Na Pérsia do século 7 a.C., esses primos esotéricos dos mágicos eram seguidores do Zoroastrismo, religião baseada no dualismo entre o bem e o mal. E é bem possível que os tais Reis Magos que visitaram Jesus fossem sacerdotes zoroastrianos. No quinto livro do Novo Testamento, dos versículos 9 ao 24 da Bíblia, também há referências a Simão Mago, um samaritano capaz de levitar. Além disso, homens e mulheres com poderes mágicos fazem parte da literatura chinesa, grega, celta, nórdica.

Só que lá pelo século 15, o inexplicável caiu na censura da Inquisição. Se David Blaine vivesse na Europa dessa época, seria acusado de bruxaria e condenado à morte. Foi o que aconteceu com o ilusionista francês Coulew de Lorraine. Ele ganhou fama por apresentar um truque impressionante: parar um tiro de revólver com a mão. A proeza enchia tanto os olhos que o truque existe até hoje. Só que a popularidade de Coulew não durou muito. Em 1613, ele foi morto a coronhadas depois de executar o truque, com a própria arma que fazia parte do espetáculo. O episódio não tem documentação histórica precisa. Mas uma das versões dos fatos diz que o assassino acreditava que Coulew tinha algum tipo de pacto maligno.

Como tudo o que é proibido é mais gostoso, apesar da perseguição aos ilusionistas, os truques feitos na rua ficaram bastante populares. Prova disso são obras de arte da época, como L’Escamoteur, do artista holandês Hieronymus Bosch, que mostrava pessoas entretendo – e enganando – plateias. Aliás, foi por causa desse gosto popular meio proibido e envolvido em misticismo que os ilusionistas, meros mortais, ganharam o título de mágicos.

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<strong>Obra de Hieronymus Bosch, no século 16, ilustra a popularidade dos mágicos de rua.</strong>
Obra de Hieronymus Bosch, no século 16, ilustra a popularidade dos mágicos de rua. Hieronymus Bosch/Wikimedia Commons

Mesmo na época, já havia quem achasse aquela perseguição exagerada. Escritores ingleses até publicaram livros para desbancar alguns feitos milagrosos e provar que bruxaria e magia não passavam de truques. Naquele tempo, o pensamento científico começava a questionar a religião. Surgiram conceitos de física, química, biologia – e a ciência apresentava explicações plausíveis para (quase) tudo o que acontecia. Ainda assim, a fama dos mágicos continuava forte. “Eles gostavam de ser esquisitos, misteriosos. Não hesitavam em deixar dúvidas sobre a natureza de sua habilidade”, conta Sophie LaChapelle, no livro Conjuring Science (Ciência da Conjuração). Mas, aos poucos, e graças à revolução científica, os mágicos deixaram de ser vistos como demônios.

A era de ouro da mágica

A caça às bruxas não acabou tão cedo, mas a perseguição aos ilusionistas deu uma trégua após a Idade Média. Tanto que os shows de mágica passaram a ser atrações cada vez mais comuns em feiras, circos e outros eventos públicos. Truques com moedas, baralho, pedras e outros objetos eram misturados com apresentações de contorcionismo e autômatos – pequenas máquinas complexas feitas de madeira ou metal.

Os primeiros mágicos que conquistaram fama internacional, como o inglês Isaac Fawkes e o italiano Giuseppe Pinetti, começaram assim. Na França, a maior estrela da mágica era Louis Comte – foi ele quem inventou o famoso truque da cartola, em 1814. Comte era tão popular que recebeu a maior condecoração da França, a Ordem Nacional da Legião de Honra. Mas acabou superado por um mágico mais novo: Jean Eugène Robert-Houdin. Ele tirou a mágica das ruas e levou para teatros e salões elegantes. Se até hoje os mágicos se apresentam de terno, é por causa dele – até então, os mágicos ainda usavam trajes de magos.

Robert-Houdin inspirou aspirantes a mágicos no mundo todo. Um deles, o jovem húngaro-americano Ehrich Weisz, mais conhecido por seu nome artístico: Harry Houdini. Seu estilo era bem diferente do francês. Destacou-se mais pelos números de escapismo – um ramo do ilusionismo em que o mágico escapa de situações extremas e perigosas. Os truques dele incluíam algemas, camisas de força, tanques de água fria, cordas, correntes e outros tipos de aprisionamento. A fama de Houdini marcou um novo capítulo na história. Os holofotes da mágica deixaram de se concentrar só na Europa.

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É claro, já havia quem fizesse truques em outros cantos. A ilusão do faquir indiano que levita ao segurar uma corda longa ficou famosa só no século 19, mas há registros de versões do truque feitas um milênio antes. Os chineses também já exportavam truques famosos, como o dos aros maciços de metal que se conectam e se desconectam diante do público. Mas a ascensão de Houdini foi o último tijolo na construção da reputação da mágica como um fenômeno mundial de entretenimento. Não havia mais espaço para perseguição. Mágica virou profissão.Tempos modernos

Em 1876, dois anos depois do nascimento de Harry Houdini, o inglês Louis Hoffmann (pseudônimo de Angelo Lewis) publicou Modern Magic (“Mágica Moderna”). Foi o maior tratado da época sobre a arte da mágica. O manual tinha desde dicas de como se vestir e falar durante a apresentação até o passo a passo dos truques mais famosos, e rendeu mais três volumes publicados ao longo de 40 anos. A primeira grande obra feita por e para mágicos virou best-seller – mais de 2 mil cópias vendidas em dois meses.

<strong>Houdini fez a elefanta Jenny desaparecer, em 1918.</strong>
Houdini fez a elefanta Jenny desaparecer, em 1918. White Studio/Public Domain

No fim do século 19, mágica virou cada vez mais uma arte séria e respeitada, regulada por um código próprio – um acordo de sigilo sobre os truques. A primeira grande loja especializada em produtos para artistas da ilusão, Martinka & Co., foi fundada em 1877 nos Estados Unidos. Vinte e cinco anos depois, a Sociedade Americana de Mágicos surgiu dentro da mesma loja. As duas instituições pioneiras ainda existem até hoje.

Depois disso, outras associações, lojas e livros sobre mágica apareceram mundo afora. Surgiram truques megalomaníacos: Houdini fez desaparecer um elefante em 1918 e P. T. Selbit “serrou” uma mulher ao meio pela primeira vez em 1921. Os gêneros que mais ganharam força nessa época foram os shows de cartas de baralho e mentalismo, tipo de manipulação mental influenciado por conceitos de psicologia e hipnose.

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<strong>P.T. Selbit e o truque da mulher serrada.</strong>
P.T. Selbit e o truque da mulher serrada. Jasper Maskelyne/Public Domain

Na segunda metade do século 20, os espetáculos chegaram aos grandes teatros de Nova York e foram palco para as carreiras de ilusionistas famosos: Penn & Teller, Jonathan e Charlotte Pendragon, entre outros. Em 1980, David Copperfield levou a mágica para os programas de TV. Deu tão certo que as emissoras brasileiras também se renderam a esses shows, com programas como Mister M ou o do brasileiro Issao Imamura.

Agora a mágica retornou às origens – com truques realizados bem perto do público, como faziam os artistas antigos. Só que, em pleno século 20, bolinhas que aparecem e desaparecem nos copos já não impressionam tanto. Os mágicos sabem – e incorporaram aos truques as descobertas científicas e tecnológicas. Mas isso não é novidade. Mágica e ciência sempre caminharam juntas.

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