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Por trás de todo truque há uma teoria científica. Saiba como os maiores mágicos usaram as descobertas da ciência para elaborar números novos.

Texto: Otavio Cohen | Edição de arte: Jorge Oliveira | Design: Andy Faria | Imagens: Wikimedia Commons e iStock


Em 1863, um homem se descontrolou ao ver o fantasma de sua mulher surgir no palco durante um espetáculo de mágica, em Paris. A falecida apareceu com um vestido de noiva semelhante ao que havia usado durante seu casamento. Aos prantos, o rapaz invadiu o palco e a viu desaparecer quando as luzes se apagaram. Não foi a única vez em que o número desenvolvido pelo holandês Henri Robin causou tumulto na plateia. “O efeito era tão realista que dizem que algumas mulheres desmaiaram durante o show”, conta Sofie LaChapelle em Conjuring Science.

Não havia ali nenhum segredo de outro mundo, claro. Robin usava um jogo de espelhos e lanternas para projetar no palco a figura de uma pessoa escondida no subsolo. Mas era o fim do século 19 e nem todo mundo entendia de ótica. O mecanismo do truque, aliás, nem era novo. Dois séculos antes, o cientista Giambattista della Porta (o mesmo que inventou a câmera escura, que deu origem à máquina fotográfica) descreveu um jogo de vidros espelhados que poderiam iludir um observador, de acordo com a maneira com que fossem iluminados.

Em 1862, outro cientista chamado John Henry Pepper aprimorou o experimento e levou as descobertas para o teatro – a primeira exibição foi durante uma cena de teatro adaptado do livro The Haunted Man (O Homem Mal-Assombrado), de Charles Dickens. Robin só precisou criar uma nova história para o número e levar a descoberta aos seus shows de mágica. Deu tão certo que até hoje o número ainda é apresentado – em feiras e circos, mágicos fazem mulheres se transformar em gorilas.

Não foi só Robin quem se aproveitou do conhecimento científico para fazer seus truques. Todo mágico pega carona com os experimentos e as novidades tecnológicas da sua época. Ainda que a popularização de hipóteses e teorias científicas tenha acabado com a aura mística e sobrenatural da mágica, os segredos de física, química e psicologia só ajudaram os mágicos a descobrir novas maneiras de criar truques cada vez mais elaborados e manipular melhor as emoções da plateia.

Direto do livro de ciências

Foi René Descartes quem disse que o corpo de um animal não passava de uma máquina cheia de peças e engrenagens que se articulam. Encarar a natureza a partir do ponto de vista mecânico virou moda na França a partir do século 17, e criar autômatos – máquinas com engrenagens, manivelas e articulações; tipo um robô de primeira geração – tornou-se passatempo para inventores.

Enquanto engenheiros desenvolviam equipamentos complexos que iriam parar nas fábricas e protagonizar a revolução industrial, Jean Eugène Robert-Houdin construía máquinas que fariam parte de seus shows de mágica. Uma de suas invenções mais famosas era um autômato que fazia sozinho o famoso truque das bolinhas e copos.

Por trazer boas explicações para o comportamento dos objetos, a física clássica sempre foi a grande aliada dos ilusionistas modernos. É ela quem ensina ao mágico quais cordas ele deve usar quando for apresentar uma ilusão de voo, ou em que posição ele deve estar em relação à plateia para ninguém notar o suporte que segura o corpo da assistente durante a suposta levitação.

Harry Houdini estudou a gravidade para bolar o truque da camisa de força. Ele sabia que a força gravitacional o ajudaria a se livrar das amarras enquanto estivesse pendurado de cabeça para baixo. Sabia também sobre fisiologia humana – e quanto tempo aguentaria ficar preso em um tanque de água até conseguir soltar as algemas.

Para realizar pela primeira vez o truque em que o mágico serra uma mulher ao meio em 1921, o inglês P. T. Selbit teve que descobrir antes até que ponto uma pessoa era capaz de se contorcer dentro de uma caixa apertada, sem que ninguém percebesse.

<strong>No Egito Antigo, os encantadores de cobras também eram considerados mágicos.</strong>

No Egito Antigo, os encantadores de cobras também eram considerados mágicos. (SteveAllenPhoto/iStock)

Nos últimos 200 anos, alguns conceitos científicos criaram raízes tão fortes nas nossas mentes que você não precisa ter sido um ótimo aluno em física para entender que incluir um ímã e uma bolinha de metal é um jeito simples e genial de aprimorar o truque dos covilhetes. Com a mesma facilidade, a mágica conseguiu assimilar as regras gerais que regulam o Universo e entender o corpo humano para desenvolver robôs mágicos. Era chegada a hora de um novo desafio.

3, 2, 1…

O primeiro laboratório dedicado a pesquisar formalmente a psicologia foi inaugurado em 1879 em Leipzig, na Alemanha. Bem antes, já tinha gente tentando compreender o funcionamento da mente. Mágicos que se diziam capazes de ler mentes e manipular pessoas existem desde o século 16. Só que os avanços nos estudos sobre o cérebro, que começaram a surgir no final do século 19, chamaram a atenção dos ilusionistas da época.

A palavra telepatia surgiu em 1882, mais ou menos na mesma época em que meios de comunicação como o telégrafo mostravam que era possível transmitir mensagens a longa distância. Como era meio complicado para um homem comum entender como aquilo funcionava, mágicos trataram de convencer o público de que era possível enviar mensagens de uma mente para a outra. Truques que simulavam transmissão de pensamento tornaram-se populares – Houdin fazia um desses truques com seu filho, que descrevia, de olhos vendados, objetos pertencentes a pessoas da plateia. Ilusionistas também aprenderam métodos de hipnose, outro conceito que começava a ganhar popularidade na mesma época, e os usavam para manipular a plateia.

Mas a verdadeira manipulação da mente acontece de um jeito mais sutil. Para começar: nós somos facilmente manipuláveis. Se um mágico pede para que você escolha uma carta em meio a um baralho, ele pode facilmente induzir a sua escolha sem que você perceba. Isso pode ser feito com movimentos sutis e rápidos com a mão, ou até mesmo com a lábia do mágico.

Essas pequenas falhas do cérebro humano são repetidamente exploradas por estudos psicológicos e neurocientíficos desde o início do século 20. Os mágicos só precisam encontrá-las. Do lado de cá da plateia, nos resta esperar pelo fim do truque, aceitar que gostamos de ser enganados (ainda mais quando não sabemos direito como isso aconteceu), e acreditar naquela frase famosa: não é feitiçaria; é tecnologia. E um bocado de ciência.

Aprendendo com os Mestres

No século 19, cientistas criaram um jogo de espelhos para fazer fantasmas surgirem no palco. Hoje, os mágicos copiaram o método para transformar mulheres em macacos.