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Cultura

Micronacionalismo: o hobby de quem governa países de mentira

Conheça o micronacionalismo brasileiro: uma comunidade de fanáticos por diplomacia, história e cultura que criou um mundo para chamar de seu.

Texto Maria Clara Rossini Edição Alexandre Versignassi Ilustração Gustavo Magalhães Design Juliana Briani


2 de abril é aniversário de um evento que mudou o cenário global. Foi quando países como Kárnia-Rutênia e Reino do Manso assinaram o Tratado de Persenburg. O documento anulava o reconhecimento do Império Alemão, do Reino da Itália, do Reino da Escandinávia, entre outras nações. Em pouco tempo, os países afetados publicaram declarações oficiais repudiando o tratado. Após dias de negociações (e confusões) diplomáticas, alguns países optaram por não ratificar o documento.

Esse evento não ocorreu no século 19, como um leitor incauto poderia imaginar pelos nomes dos países. A confusão aconteceu em 2020. O detalhe é que esses não são países de verdade, e sim algumas das chamadas “micronações”. O Império Alemão e Reino do Manso são apenas alguns exemplos das dezenas de países de mentirinha – criados e liderados
por brasileiros.

A palavra “micronação” tem sentidos diferentes. A 12 km da costa da Inglaterra, fica o Principado de Sealand: uma base militar abandonada que se declara nação soberana desde 1966. Já Liberland é um pântano de 7 km² entre a Sérvia e a Croácia que almeja ser uma nação 100% livre de impostos (500 mil pessoas já pediram cidadania para morar no pedaço alagado de terra, aliás). São piadas, basicamente. Algo tão legítimo quanto você comprar um terreno e dizer que aquilo não é mais parte do Brasil – uma ideia que não resiste à primeira conta de IPTU.

Só que também existe o micronacionalismo praticado como hobby. Ele só existe na imaginação de uma comunidade de aficionados por geopolítica, e não tem pretensões separatistas ou anarcocapitalistas. São só objeto de diversão.

Uma micronação, nesse sentido, pode ter “território” – um terreninho, uma casa, um quarto. Ou nem isso: residir só no papel mesmo. Quem toca a diplomacia dessas nações virtuais é gente interessada em história, direito, heráldica, ou que simplesmente quer exercitar a criatividade. Nas próximas páginas, vamos explicar como eles surgiram e o que se passa dentro dos países de brinquedo.

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A pré-história das micronações

Em setembro de 1992, um estudante de 10 anos anunciou para sua turma da escola que estava criando um novo país. Ele desenhou um mapa, e os colegas escolheram onde seriam suas casas, bolaram os nomes das ruas, uma história fictícia de fundação. Aos poucos, foram formando a identidade do local imaginário, que se chamaria Porto Claro.

Ele não sabia na época, mas estava inaugurando no Brasil um hobby que já dura quase 30 anos. Se tem um tema em que todos os micronacionalistas concordam é que Porto Claro foi a primeira micronação criada por um brasileiro. Na imaginação do menino, esse território ficava entre a Guiana Francesa e o Amapá.

O menino de 10 anos se chama Pedro Aguiar, e hoje é professor universitário. Para ele, o contexto da época era propício para a brincadeira. A União Soviética e a Iugoslávia tinham acabado de ser dissolvidas, e novos países independentes começavam a pipocar no Leste Europeu (Estônia, Bósnia-Herzegovina, Eslovênia…). A política internacional estava na boca do povo.

Mais tarde, Pedro entraria em contato com o micronacionalismo internacional. Na internet ainda incipiente de 1996, ele descobriu que muita gente lá fora já levava a brincadeira a sério bem antes de ele ter criado sua Porto Claro.

Pedro ficou surpreso ao conhecer Talossa. Fundada em 1979 pelo americano Robert Ben Madison, que tinha 14 anos na época, ela é considerada a primeira micronação do mundo – na acepção puramente imaginária do termo. Lá, todos os que preenchiam o formulário (online) de cidadania deveriam aprender a falar a língua oficial do país, criada por Madison e desenvolvida pela comunidade ao longo dos anos. O vocabulário talosso tem 120 mil palavras (não é pouco – o português tem 400 mil).

Mas esse era um exemplo extremo. Pedro aprendeu que o mínimo para criar uma nação na comunidade internacional de países de brinquedo era ter um site oficial com os símbolos nacionais, Constituição, “documentos oficiais” e um formulário de imigração.

Uma das micronações mais famosas do Brasil é o Sacro Império de Reunião, cujo território imaginário é a ilha homônima localizada no Oceano Índico. Ela chegou a ter 3 mil cidadãos simultaneamente, mas deixou de aceitar novos “imigrantes” em 2009. A micronação ganhou tamanha proporção que a imprensa de Reunião (a verdadeira) recebeu o fundador Cláudio de Castro em três visitas à ilha. Em 2018, o jornal Le Quotidien local fez uma reportagem sob o título “Imperador de Reunião descobre sua ilha”. Por causa de matérias publicadas no New York Times e em outros jornais, muita gente mandava emails confundindo a micronação de Cláudio com um país real. E isso, claro, é o máximo para os micronacionalistas.

Pedro Aguiar e Cláudio de Castro foram os únicos secretários-gerais brasileiros da LOSS (sigla em inglês para Liga dos Estados Secessionistas), uma espécie de ONU das micronações. O objetivo era manter o registro dos países de mentirinha pelo mundo e atuar como intermediadora de conflitos. No micronacionalismo, um “ato de guerra” consiste em hackear o site do país ou invadir o grupo de conversas da nação inimiga. A organização deixou de ser ativa em 2009, mas o site ainda existe, e exala uma aura nostálgica da internet dos anos 2000.

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Gustavo Magalhães/Superinteressante
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As regras do jogo

Se você já começou a confundir o real com o ficcional, aqui vale um parêntese: os praticantes do micronacionalismo se referem ao mundo real como “macronacional”. É como se existissem duas realidades, uma “micro” e outra “macro”. Os cidadãos podem ser reis e ministros micronacionalmente – e advogados e jornalistas macronacionalmente.

Esse é o caso de Bruno Thomas, analista de risco durante os dias de semana e soberano do Império Alemão nas horas vagas. Ele é uma das pessoas que seguem há mais tempo no hobby, desde 2002. No micromundo, Bruno é conhecido como Guilherme 3º – é que o último líder do Império Alemão real, que existiu até 1918, foi Guilherme 2º. O território imaginário do império micronacional é a área antigamente ocupada pelo império real.

O mesmo ocorre com os reinos da Itália, França, Espanha, Bulgária, Iugoslávia… entre outras micronações fundadas pela comunidade brasileira de micronacionalistas. A maioria busca homenagear a cultura ou simular o modelo de governo dos países a que fazem referência. Não à toa, muitos dos chefes de governo ouvidos pela Super são, macronacionalmente, professores de história.

Criar micronações que fazem referência a países que existiram no passado é algo característico do Brasil. O hobby praticado em outros países, principalmente nos EUA, costuma ter nações apenas com elementos originais – cujos territórios são, aí sim, a casa ou o quarto do micronacionalista.

Isso gera um impasse: se um adolescente italiano quiser criar um país dentro do seu quarto, o Reino da Itália não poderia reconhecê-lo, porque seria uma violação do seu território, veja só. Também não daria muita liga a convivência entre o Império Alemão e, digamos, um Principado da Bavária enclavado ali no meio.   

Para evitar acintes à lógica, as micronações brasileiras não costumam reconhecer as de outros países, e vice-versa. E se você quiser participar de qualquer comunidade de micronacionalistas, terá de adotar algum território ainda não “reivindicado” por elas – porque, afinal, todo o sentido da coisa é se relacionar com outras nações.

Isso cria uma espécie de clube no micronacionalismo brasileiro (ou lusófono, termo que é usado pela comunidade). Os praticantes estrangeiros costumam reunir informações sobre suas micronações em uma enciclopédia chamada MicroWiki, enquanto os brasileiros alimentam outra, a Micropédia.

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Mas também existem micronações fundadas por brasileiros que preferem se inserir no meio internacional. É o caso de Kárnia-Rutênia. Atualmente, ela tem 286 cidadãos espalhados pelo globo, e seu território é composto basicamente por propriedades privadas. Ela se considera uma nação anglófona – o site oficial está em inglês.

O hobby é tão cheio de detalhes que os praticantes criaram seu próprio campo de estudo: a micropatriologia. De acordo com ela, Sacro Império de Reunião e os reinos europeus são considerados modelistas: eles contam com uma história pregressa e geralmente se baseiam em nações que existem de fato, ou que já existiram. Já Kárnia-Rutênia e o Reino do Manso não têm nenhuma história anterior, porque nasceram na cabeça de seus fundadores, e seus territórios oficiais são as casas deles. Essas são chamadas derivatistas.

São interpretações diferentes do jogo – e, como não existe manual de instrução, dá para se divertir dos dois jeitos. Mas essas vertentes distintas deram origem à discordância diplomática que mencionamos lá no início. Alguns países derivatistas assinaram um tratado que anulava o reconhecimento das nações modelistas – que são lideradas, em grande parte, pelos veteranos no hobby. O tratado, porém, não foi ratificado pelo Reino do Manso.

As discussões, reuniões e assinaturas de documentos costumavam acontecer em grupos de email – no início dos anos 2000, algumas micronações brasileiras chegavam a receber mais de mil emails por dia. Depois elas migraram para grupos de Facebook, WhatsApp e, mais recentemente, o Discord, uma plataforma de texto e áudio geralmente utilizada por jogadores de videogame. Foi lá que ocorreu a 2ª Convenção de Microestados Lusófonos (MicroCon) em abril de 2020, com o objetivo de estreitar os laços entre elas.

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Design: Juliana Briani | Ilustração: Gustavo Magalhães/Superinteressante

Em janeiro de 2021, ocorreu uma nova assembleia da MicroCon para definir os membros de um comitê de crise. Uma típica reunião entre líderes micronacionais é bastante organizada. O secretário-geral – nesse caso, o imperador da Alemanha – lê o protocolo e concede a palavra aos outros, sempre usando os devidos títulos. A reunião precisou ser adiada, pois alguns líderes não estavam presentes para compor o quórum mínimo – provavelmente, devido a imprevistos macronacionais.

Se antigamente as micronações mais famosas tinham milhares de cidadãos, o surgimento de outros passatempos online diminuiu o número de adesões. Hoje, elas raramente passam dos 40 cidadãos. Segundo o último censo, o Reino do Manso possui 35 habitantes – incluindo esta repórter. Sou cidadã manseana desde fevereiro de 2021.

De todas as micronações que eu poderia pedir cidadania, tenho que admitir que o Manso me atraiu devido à tradicional corrida de capivaras realizada anualmente. Mônaco, um nanopaís da vida real, não tem uma corrida? Então nada mais natural que Manso tenha um grande evento esportivo como parte de sua identidade nacional. O GP de capivaras não é com animais reais, claro – ele funciona como uma espécie de bingo virtual, em que os roedores avançam conforme saem os números.

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Qual é o sentido?

A verdade é que eu só entendi o sentido do micronacionalismo quando participei de uma reunião do parlamento do Manso. O partido liberal do país propôs um projeto de lei para regulamentar a criação de empresas. Um dos parágrafos definia que as questões judiciais deveriam ser respondidas pelo sócio majoritário. Mas o que define um sócio majoritário? Isso não estava resolvido em nenhuma lei anterior. A discussão em torno do tema se estendeu por uma hora e meia.

Daria para resolver em cinco minutos, se tanto. Mas a graça do negócio para os micronacionalistas é justamente a criação do debate que caracteriza a política da vida real. Isso e mais outros prazeres, que vão desde a produção de jornais micronacionais até a criação de times de futebol ou até novos esportes. O ministro da Cultura do Manso é arquiteto na vida real, e viu no micronacionalismo uma chance de elaborar o design de cédulas, selos e documentos, algo que jamais seria possível fora dali. Porque o macromundo é um tanto limitante mesmo. No micro, não existem fronteiras.

Agradecimentos: Reino do Manso, Reino de Bauru e São Vicente, Reino da Escandinávia, Principado de Belo Horizonte, Sacro Império de Reunião, Império Alemão, Porto Claro, Reino da Itália, Reino da França, Kárnia-Rutênia, Império Deltariano e todas as outras micronações que auxiliaram na produção deste texto.