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Cultura

O gambito do rei: Bobby Fischer e a era pop do xadrez

Em 1972, uma criança-prodígio do Brooklyn desafiou a hegemonia soviética no xadrez, virou a Guerra Fria no tabuleiro e despertou um surto de popularidade do jogo – que respingou até no Brasil.

 

Texto: Rafael Battaglia | Ilustração: Vinicius Capiotti | Design: Juliana Alencar | Edição: Bruno Vaiano

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Rússia é para o xadrez o que o Brasil é para o futebol. A diferença é que eles nunca levaram um 7×1. O histórico de paixão é longo: Ivan, o Terrível, estava jogando uma partida quando um derrame o matou, em 1584. A Condessa de Stroganoff, da família que deu nome ao prato, organizou um duelo entre a imperatriz Catarina 2ª e o rei sueco Gustavo 4º em 1796. Detalhe: era xadrez gigante, com peças humanas.

Em uma foto de 1908, o líder bolchevique Vladimir Lênin joga uma partida com seu rival de partido Alexander Bogdanov – autor de ficção científica e médico pioneiro da transfusão sanguínea. Eles estão na casa do célebre escritor Maxim Gorki, na Itália. Lênin (que, segundo Gorki, tinha chiliques mimados quando perdia) não deixou de jogar nem durante o exílio de três anos na Sibéria antes da Revolução de 1917: os movimentos das peças iam e voltavam por correspondência.

O xadrez surgiu a partir de um jogo indiano do século 6, chamado chaturanga – que tinha um elefantinho no lugar do bispo. Chegou aos persas, espalhou-se pela Ásia e entrou na Rússia pela Sibéria no século 9. Deu match com o temperamento russo e virou o passatempo preferido da aristocracia imperial. Mas só caiu de vez no gosto do povo séculos depois, de maneira premeditada – quando foi transformado em arma política pelos soviéticos. Nikolai Krylenko, um influente assecla de Stálin, disse: “Vamos organizar brigadas de choque de jogadores, e começar um plano quinquenal”.

A ideia era que um jogo lógico e racional – o favorito do alemão Karl Marx, diga-se – servisse como demonstração da superioridade intelectual da URSS sobre os países capitalistas. Seria fácil implantá-lo: as peças podem ser fabricadas em larga escala, e a única infraestrutura necessária é uma mesa. Além disso, a população já nutria alguma simpatia pelo tabuleiro alvinegro, e havia um herói nacional recente para exaltar: Mikhail Chigorin, que esteve no top 5 mundial no final do século 19 e batizou vários lances. Logo, o xadrez foi incorporado ao treinamento de todos os recrutas das Forças Armadas.

“O Partido Comunista acreditava que o xadrez poderia ser de grande utilidade para elevar o nível cultural das massas trabalhadoras”, escreveu o historiador Michael A. Hudson. “O encorajamento oficial fez do xadrez um componente cultural significativo na vida dos cidadãos.” Stálin mobilizou a máquina de propaganda, e seus assessores chegaram a forjar as sequências de movimentos de partidas fictícias do ditador.

Todo esse incentivo rendeu frutos em 1948, quando Mikhail Botvinnik venceu o primeiro Campeonato Mundial organizado pela Federação Internacional de Xadrez, a Fide. Foi o início da hegemonia soviética na competição: todos os campeões das duas décadas seguintes eram de lá. Os EUA, do outro lado da Guerra Fria, sequer conseguiam chegar à final. Vontade de provocar os soviéticos não faltava. Faltava tradição mesmo. A sorte ianque só começou a mudar no fim dos anos 1960, graças a um garoto tímido do Brooklyn.

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Design: Juliana Alencar/Superinteressante
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O gênio

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xadrez não é algo que enlouquece as pessoas. O xadrez é algo que mantém as pessoas loucas sob controle”, disse o psicólogo (e enxadrista) William Hartston. De fato, Robert James Fischer – vulgo Bobby Fischer – era uma criança obcecada. Durante as refeições, era comum haver livros de xadrez sobre a mesa, dividindo espaço com a comida. Ele jogava contra si mesmo até no metrô – mexendo peças de velcro em um tabuleiro portátil de tecido enquanto o trem cruzava as pontes de ferro de Nova York.

Não demorou para que o prodígio ganhasse notoriedade no clube de xadrez de Manhattan e, depois, em torneios regionais. Em 1958, aos 15 anos, Bobby se tornou o mais jovem Grão-Mestre (GM) até então – e esse é o título mais alto que um enxadrista pode conseguir. A faixa preta. Na mesma época, conquistou o primeiro dos seus oito campeonatos nacionais. Em 1964, com 21 anos, participou de uma partida simultânea contra 50 pessoas e venceu 47 delas. Quem viu O Gambito da Rainha na Netflix já notou que ele é uma versão masculina da personagem Beth Harmon.

Fischer era a Beth Harmon da vida real: um americano contra a URSS.

Como Beth, o herói da vida real tinha problemas familiares. A mãe do prodígio, Regina, era suíça, filha de judeus poloneses, e fugiu para os EUA na 2ª Guerra para escapar dos nazistas em 1939. Bobby nasceu em Chicago em 1943, e a família viveu quase como nômade até se estabelecer na periferia de Nova York. A mãe criou sozinha Bobby e sua irmã mais velha, Joan, e escondeu dos filhos a identidade do pai – o jovem Fischer só descobriu que era filho de um cientista alemão aos 9 anos.

Nos anos 1960, Regina se tornou ativista ferrenha contra a Guerra do Vietnã, o que rendeu uma ficha de 994 páginas no FBI. Já é envolvimento demais com o governo para uma família só. Mas Bobby logo seria mais vigiado que a mãe: quando ficou claro que ele era o melhor enxadrista dos EUA, ficou claro também que ele era a única esperança do Tio Sam contra a hegemonia soviética no tabuleiro.

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O sumido

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Copa do Mundo do xadrez é o Torneio de Candidatos, disputado por 8 a 16 enxadristas. Esses jogadores de elite, que se qualificam jogando outros campeonatos, se enfrentam em um mata-mata tradicional: oitavas – caso haja jogadores suficientes –, quartas, semifinais e final. O vencedor ainda não é o campeão do mundo: ele ganha o direito de jogar uma partida contra o campeão do mundo. É como se o Palmeiras, após vencer a Libertadores 2020, tivesse um lugar garantido na final de 2021 – e aí os demais clubes brigassem para ver quem vai desafiar o porco.

Em um mata-mata de futebol, cada par de times disputa um ou dois jogos. No basquete da NBA, os times travam sete jogos entre si – quem ganhar quatro primeiro leva. No xadrez daquela época, as disputas eram de até 24 jogos, espaçados um ou dois dias entre si. Cada jogo valia um ponto; o empate, meio ponto.

Em outubro de 1971, com 28 anos, Bobby Fischer chegou à final do Torneio de Candidatos contra o soviético Tigran Petrosian, em Buenos Aires. Era uma melhor de 12. O americano ganhou cinco, Petrosian, só uma. Eles empataram três. Placar final: 6 ½ x 2 ½. Assim, Fischer pôde desafiar o soviético Boris Spassky, que detinha o título mundial desde 1969. O primeiro jogo ocorreria em Reykjavik, capital da Islândia, em 2 de julho de 1972. Bobby estava confiante. Contratou um treinador olímpico para praticar natação e musculação – incluindo exercícios para fortalecer o antebraço: “Quando eu apertar a mão do russo, quero que ele sinta para valer”.

Em uma entrevista no talk show de Dick Cavett, meses antes da final, Bobby simulou no tabuleiro a vitória contra Petrosian na Argentina. Egocêntrico, falava largado na poltrona e batia as peças com violência no tabuleiro, como se elas lhe devessem dinheiro. Cavett perguntou: “Se Spassky empatar todos os jogos de propósito, ele continua com o título. Um Grão-Mestre faria isso?” “Claro que faria. Mas eu não vou deixar.”

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Ilustração: Vinícius Capiotti/Superinteressante

A data se aproximou. E a mídia deu atenção inédita: após anos de soviéticos disputando o troféu entre si, a Guerra Fria finalmente seria encenada no tabuleiro. Spassky, na época com 35 anos, tentou driblar o fuzuê. Seguindo a cartilha de outros enxadristas soviéticos, chegou a Reykjavik 12 dias antes da final, para se ambientar. Em sua comitiva havia outros dois GMs, que o ajudariam a bolar estratégias. Por sua vez, Fischer se refugiou em uma casa isolada em Long Island, fora dos limites de Nova York. Permaneceu incomunicável até a data do jogo – e aí deixou o avião decolar para a Islândia sem ele. A Fide, consternada com a ausência, prorrogou o prazo, mas deu um ultimato: se Bobby não aparecesse nas próximas 48 horas, o título continuaria com o russo.

O sumiço não era novidade: o americano tinha um caso clínico de paranoia, e já havia abandonado campeonatos antes dizendo ser vítima de boicote. No caso da final contra Spassky, a primeira alegação foi que o prêmio (US$ 774 mil em valores de hoje) não condizia com a importância da partida. James D. Slater, um banqueiro e fã, dobrou a grana. Até o diplomata Henry Kissinger, assessor sênior e confidente do presidente Nixon, ligou para Fischer para convencê-lo a aceitar. A palhaçada ufanista atingiu níveis extraordinários: o enxadrista cedeu e embarcou em 4 de julho – dia da Independência dos EUA.

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O duelo

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Ilustração: Vinícius Capiotti/Superinteressante

O faniquito virou piada no mundo todo: “Se Fischer gostar da iluminação, não implicar com o peso das peças, achar boa a distância que os espectadores manterão e aprovar o ar de Reykjavik, então tudo estará bem. E começará hoje, às 17 horas (de Brasília), o primeiro dos 24 jogos entre ele e Boris Spassky pelo título mundial de xadrez.” Isso é um texto que saiu na Folha de S. Paulo em 11 de julho de 1972. Sim, na Folha. Xadrez, na época, era assunto para jornal.

Nervoso com a transmissão ao vivo, Fischer deu bobeira no final do primeiro jogo, pôs um bispo em uma posição ruim e perdeu. Consternado, não saiu do quarto do hotel para a segunda partida – e os juízes anotaram mais um ponto para Spassky. Impaciente com o sumido, Spassky concordou em realizar o terceiro jogo em um quarto de vassouras nos fundos da arena, para tranquilizar Fischer. Apenas uma câmera de segurança vigiava os dois. E assim Fischer anotou a primeira vitória. 2 x 1.

“No Brasil, as jogadas chegavam por telex [aparelho semelhante ao telégrafo]”, conta Herman Claudius van Riemsdijk, enxadrista brasileiro nascido na Holanda e três vezes campeão nacional. Ele manteve uma coluna sobre o esporte no Estadão por mais de 30 anos. “Assim que as informações chegavam, eu corria para escrever as análises. Em dias de jogo, ajudava também a Rádio Eldorado, que fazia boletins a cada meia hora.”

A sexta partida, em 23 de julho, é considerada a mais emblemática da história do xadrez. Fischer começou com as peças brancas, que sempre dão o primeiro lance. E, quando estava de brancas, ele fazia sempre a mesma coisa: começar andando duas casas com o peão que fica na frente do rei, na fileira E. É a abertura mais tradicional do jogo. Nessa ocasião, porém, abriu com o peão da fileira C, a do bispo. E aí transpôs a partida para algo chamado gambito da dama – quando as brancas oferecem um peão às pretas no lado esquerdo do tabuleiro (o lado da dama) em troca de uma posição melhor. Essa é a origem do nome da série da Netflix: em português, “rainha” é errado – o nome da peça é “dama”.

(Clique no gráfico para ampliar.)

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Design: Juliana Alencar/Superinteressante

Foi a primeira vez que Fischer jogou o gambito na vida. Spassky até ouviu boatos de que isso ocorreria e preparou uma defesa com a qual era invicto. Mas não foi suficiente. Fischer navegou a estratégia alienígena com perfeição e dominou o jogo do começo ao fim. Foi aplaudido de pé, inclusive por seu oponente. Dick Cavett comparou o evento ao Super Bowl, a final do futebol americano. Alguns jogos passaram a ser transmitidos nos telões da Times Square, em Manhattan.

A dupla jogou outras 14 partidas, que se estenderam até o final de agosto. No gráfico abaixo, você vê todas as vitórias, empates e derrotas, bem como a duração dos jogos. No dia 31, eles se encontraram para o 21º confronto. O placar, àquela altura, era 11 ½ x 8 ½ para Fischer. Spassky precisava no mínimo de um empate – se o americano ganhasse, faria 12 ½ e levaria o mundial.

Fischer e Spassky passaram 4h40 no jogo. E aí concordaram em pausá-lo para pensar e dormir. Quando isso acontece, um dos jogadores anota qual será o primeiro lance do dia seguinte em um envelope – que só é aberto na hora de retomar o jogo. Na manhã seguinte, porém, os dois sequer apareceram. Após ponderar sobre sua posição no tabuleiro, Spassky desistiu por telefone. Fischer fugiu da imprensa para observar, sozinho, os animais em uma colina nos arredores da cidade. Ele era o Maradona do xadrez; seu personagem era tão grande quanto o talento.

(Clique no gráfico para ampliar.)

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Design: Juliana Alencar/Superinteressante
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O brasileiro

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e um dia para o outro, todo mundo quis ser enxadrista. “O número de membros do clube de São Paulo saltou de 300 para mais de mil”, conta Herman van Riemsdijk. Mas o verdadeiro fenômeno brasileiro já estava saindo do forno no Rio Grande do Sul – e calhou de viver o auge de sua carreira justamente na época em que o jogo viveu esse pico de popularidade.

Nos anos 1950 – quando os EUA nem sonhavam que venceriam a URSS um dia –, Herman e a família foram morar em Pelotas. Lá, o jovem holandês começou a jogar xadrez com um garotinho chamado Henrique Costa Mecking, o Mequinho. Com 5 anos, o garoto já era um gênio das damas. Com 6, aprendeu xadrez – e se tornou implacável. Aos 12 anos, Mequinho já era campeão estadual. Faltava o troféu nacional, que veio no ano seguinte. Em 1971, com 19 anos, venceu o seu primeiro torneio internacional e foi recebido no Aeroporto do Galeão por uma bateria de escola de samba da torcida do Flamengo.

O brasileiro Mequinho era o 3º do mundo em 1978 – foi capa da Veja.

No início de 1972, Mequinho se tornou o primeiro Grão-Mestre brasileiro. A conquista, aliada à proximidade da final Fischer vs. Spassky, fez com que ele virasse um ícone pop. Em 1973, estampou uma capa da Veja. Franzino, com cabelo mal-ajambrado e óculos fundo de garrafa, foi o primeiro herói nerd do Brasil. Herói mesmo. Em 1974, na música “Super-Heróis”, Raul Seixas cantou: “Quem que no Brasil não reconhece / o grande trunfo do xadrez? / Saí pela tangente disfarçando uma possível estupidez./ Corri para um cantinho pra dali sacar o lance de mansinho. / Adivinha quem era? Mequinho!”

Ele chegou a figurar em terceiro lugar no ranking mundial da Fide. Participou duas vezes do Torneio de Candidatos, mas não teve lance de mansinho: caiu na primeira fase em ambas.

Mequinho: aos 19 anos, o prodígio se tornou o primeiro Grão-Mestre brasileiro.
Mequinho: aos 19 anos, o prodígio se tornou o primeiro Grão-Mestre brasileiro. Ilustração: Vinícius Capiotti/Superinteressante

Outro enxadrista que Herman conheceu foi o próprio Fischer. O encontro aconteceu em Buenos Aires, na já mencionada final contra Petrosian – em que Fischer se classificou para desafiar Spassky. 

Herman saiu do Teatro San Martin, onde um dos jogos da série havia acabado de acontecer, deu uma passadinha no hotel e rumou em direção ao Clube Argentino de Xadrez, criado em 1905 (é o segundo mais antigo da América do Sul – só perde para o de São Paulo, fundado em 1902). O lugar fica em um antigo prédio de três andares com ornamentos clássicos de ferro nas portas e varandas. É fácil distingui-lo: na entrada, há o desenho de um cavalo. 

Herman estava sozinho em uma ala histórica do edifício quando avistou dois vultos subindo as escadas. Eram Miguel Quinteros, enxadrista argentino, e Fischer. O brasileiro já conhecia Quinteros, que tratou de fazer o meio de campo das apresentações. “Para a minha surpresa, Fischer não só sabia das partidas que eu já havia disputado, como também detalhes dos meus movimentos”, lembra Herman. “Tinha uma memória espetacular.”

Fischer também acabou indo para Tucumán jogar algumas simultâneas e estendeu o contato com Herman. No jantar de encerramento da competição, eles conversaram um tempão. “Fischer era reservado e desconfiado. Tinha medo de que as pessoas pudessem tirar proveito do seu sucesso. Mas, se ele simpatizasse com você, tornava-se alguém muito afável,” disse o brasileiro, que lamenta não ter tirado nenhuma foto com o jogador – avesso às câmeras. “O único registro daquela semana é uma imagem de Fischer observando um jogo comigo, de costas, atrás.” 

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A queda

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o longo da década de 1970, a fama e a paranoia de Fischer cresceram no mesmo ritmo. Em 1975, cobrou que a Fide acabasse com o formato de 24 jogos das finais porque ele estimulava que os jogadores forçassem empates. A Fide até acatou a exigência, mas eles discordaram nos detalhes e Fischer não quis defender o título, que caiu automaticamente nas mãos daquele que seria seu desafiante, o soviético Anatoly Karpov.

Com o tempo, a reclusão aumentou, Bobby parou de frequentar torneios e se envolveu com uma seita religiosa. Em 1992, Fischer e Spassky jogaram uma reedição comemorativa da final de 1972. O confronto aconteceu na Iugoslávia – que, na época, estava no meio de uma guerra que desmembrou o país. O problema: a presença de Fischer naquele território violaria um embargo das Nações Unidas, gerando um quiprocó diplomático para os EUA. O governo enviou uma carta a Bobby, pedindo para que ele não jogasse. Em uma coletiva de imprensa, ele cuspiu no documento.

Fischer venceu Spassky novamente, embolsou alguns milhões de dólares e nunca mais pisou nos EUA – havia um mandado de prisão esperando por ele. Passou o restante de seus anos como um nômade; morou na Hungria e no Japão. Vez ou outra, aparecia na mídia com opiniões dignas de caixa de comentários do G1: no 11 de Setembro, por exemplo, disse que “já era tempo de os EUA levarem uma surra”. Em 2005, a Islândia ofereceu cidadania e moradia a Bobby. Ele morreu em 2008, aos 64 anos, na mesma terra em que se consagrou.

Fischer, já idoso, ganhou abrigo na Islândia. Morreu em 2008, aos 64 anos.
Fischer, já idoso, ganhou abrigo na Islândia. Morreu em 2008, aos 64 anos. Ilustração: Vinícius Capiotti/Superinteressante

A carreira de Mequinho também foi interrompida prematuramente, aos 25 anos, quando descobriu ser vítima de miastenia, uma rara doença autoimune que compromete a comunicação entre o sistema nervoso e os músculos. Hoje, ele mora em Taubaté (SP). Quase curado, disputa torneios às vezes. É católico fervoroso e compartilha com Fischer a genialidade, o trauma dos soviéticos e a paranoia: “No terreno do xadrez houve muitos crimes e terrorismo”, afirmou em entrevista à Veja em 2020. “Tentaram derrubar meu avião para as Filipinas, ameaçaram envenenar minha comida. Não vou citar nomes, mas tem um país comunista que sempre quis que só os representantes deles fossem campeões.”

O xadrez dificilmente terá de novo a mesma relevância geopolítica dos anos 1970. Mas o jogo está passando por um surto de popularidade graças à pandemia e à série O Gambito da Rainha. No começo de 2020, segundo a Fide, rolavam 11 milhões de partidas diariamente. O número subiu para 17 milhões.

Muitos jogadores de alto nível atuais (incluindo Grão-Mestres) são youtubers millennials bem-humorados, que dão aulas em seus canais, fazem memes sobre lances bizarros e jogam ao vivo contra fãs. Esses novos ídolos têm algo em comum: todos já postaram um vídeo disputando contra uma inteligência artificial do site chess.com que simula Beth Harmon (a personagem tem um estilo próprio realista, já que a Netflix chamou GMs para criar as partidas da série). Se Bobby Fischer era o ídolo perfeito para os anos 1970 – um Rocky do tabuleiro vigiado pela CIA –, então a diva vintage da Netflix é uma heroína talhada para os anos 20 do século 21. Cada geração com seu grande trunfo do xadrez.

Fontes: livros Fischer-Spassky: Move by Move, de Larry Evans e Ken Smith; Reconstructing Lenin, an Intellectual Biography, de Tamás Krausz; The Immortal Game: A History of Chess, de David Shenk; documentário Bobby Fischer contra o mundo, da HBO; site Chess.com e acervos dos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, The New York Times e das revistas Veja e Time. Agradecimento: Marius van Riemsdijk, professor e árbitro internacional de xadrez.

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