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História

O Incidente Nimitz

Em 2020, o Pentágono confirmou a autenticidade de três vídeos de objetos voadores não identificados. Um deles foi gravado em novembro de 2004, quando os objetos se aproximaram de porta-aviões americanos – e foram perseguidos por caças F/A-18. Depoimentos inéditos, de militares que estavam lá, revelam novos detalhes sobre o caso.

Reportagem: Tim McMillan, da Popular Mechanics | Ilustração: Ju Sting | Design: Juliana Krauss | Tradução: Bruno Garattoni

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o ano passado, o jornal New York Times obteve e publicou três vídeos de OVNIs, gravados por caças da Marinha americana em 2004, 2014 e 2015. As gravações chamaram a atenção da opinião pública, e em abril de 2020 o Pentágono atestou a veracidade delas. Um relatório produzido pelos militares classificou os objetos, que se deslocavam em velocidades e trajetórias surpreendentes, como “Veículos Aéreos Anômalos”, ou AAVs. Nesta reportagem, você lerá os depoimentos de cinco militares que testemunharam os eventos de 2004 – e agora, mais de 15 anos depois, finalmente aceitaram falar a respeito (Bruno Garattoni).

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Os cinco homens demonstram uma afinidade instantânea. Fica claro que têm um vínculo em comum. Mas Gary Voorhis, Jason Turner, Ryan Weigelt, Kevin Day e PJ Hughes compartilham algo muito maior do que ter feito parte da Marinha. Eles testemunharam um dos eventos mais intrigantes da história moderna: o Incidente Nimitz, uma série de avistamentos que recentemente foram confirmados e classificados pela Marinha como “fenômenos aéreos não identificados”. Os cinco veteranos revelam, pela primeira vez, detalhes intrigantes sobre o que aconteceu naquela semana de novembro de 2004, em que o Esquadrão 11 (CSG-11) navegava a 160 km da costa sul da Califórnia. São informações novas, que um ex-analista do Pentágono, responsável pela investigação do Incidente Nimitz, não quis confirmar, negar ou sequer discutir com este repórter. Os cinco marinheiros podem ser a chave para entender um evento que, nas palavras de um expert da indústria de Defesa, “provavelmente não era nosso” [humano]. Se não era “nosso”, de quem era?

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A interceptação

Aquela seria a última jornada do terceiro oficial Gary Voorhis num navio da Marinha. Ele estava no USS Princeton, um cruzador que se preparava para participar de exercícios de rotina. Depois de quase seis anos na Marinha, Gary se sentia pronto para começar uma vida nova, longe dos mares. Mas, antes, restava aquela última missão. “Tínhamos vários sistemas novos, como o radar Spy-1 Bravo. O objetivo era testá-los e resolver eventuais problemas”, conta ele.

Durante um dos testes, os técnicos do USS Princeton começaram a se queixar de “ruído” e “sinais fantasmas” no radar. Para Voorhis, responsável pelo sistema Aegis (o software que coordena os radares e mísseis do navio), qualquer anomalia do tipo era especialmente preocupante. Ele achou que o Spy-1 estivesse com algum problema, e resolveu desligar e recalibrar tudo para tentar eliminar os erros.

“Depois que nós terminamos de fazer a recalibração e ligamos o radar, aqueles sinais estavam mais claros e nítidos”, diz. “Às vezes eles apareciam numa altitude de 60 ou 80 mil pés. Outras vezes surgiam a 30 mil pés, se deslocando a uns 100 nós [185 km/h]. A identificação de radar não batia com nenhuma aeronave conhecida.”

Sentado no centro de controle do USS Princeton, o chefe sênior de operações Kevin Day tinha como tarefa proteger o espaço aéreo acima do Esquadrão 11. “O meu trabalho era ficar de olho nos radares e identificar tudo o que aparecesse no céu”, declarou ao documentário The Nimitz Encounters. No dia 10 de novembro de 2004, aproximadamente a 160 km da costa de San Diego, ele começou a ver sinais estranhos no radar, na área da ilha de San Clemente. “Apareciam em grupos de cinco a dez, bem perto uns dos outros. Estavam a 28 mil pés, se deslocando na direção Sul.” O oficial especialista em motores Ryan Weigelt, que também estava no navio, se lembra da atmosfera naquele momento. “O chefe Day era chamado pelo interfone, sem exagero, a cada dois minutos. Eu percebi que alguma coisa grande estava acontecendo, mas não entendi direito o quê.”

Enquanto Day e os controladores de tráfego aéreo monitoravam os sinais estranhos, Voorhis decidiu tentar enxergar aqueles objetos voadores. “Quando apareciam no radar, eu anotava a localização aproximada, corria até a ponte [centro de controle do navio] e olhava naquela direção usando um binóculo de alta potência”, diz. “À noite eles [os objetos] emitiam um brilho meio fosforescente, e eram um pouco mais fáceis de ver do que durante o dia.”

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As aparições continuaram por quase uma semana, até 14 de novembro. Havia um exercício aéreo programado para aquela manhã, e Day obteve permissão do superior hierárquico para usar os aviões numa tentativa de interceptação. Isso foi feito: dois caças F/A-18 decolaram do porta-aviões USS Nimitz, que fazia parte do Esquadrão 11 e também estava participando daquele treinamento. O piloto David Fravor, comandante de um dos caças, encontrou o que o relatório oficial depois descreveria como “um ovo alongado, ou uma forma de ‘Tic Tac’, com um eixo horizontal no meio”, com 14 m de comprimento.

Os marinheiros a bordo do USS Princeton ouviam as comunicações de rádio dos pilotos dos caças. O objeto não identificado escapava com facilidade dos aviões, demonstrando “uma capacidade avançada de propulsão, aceleração e aerodinâmica”. Driblados pelo objeto, Fravor e o outro piloto desistiram e voltaram ao USS Nimitz. Num voo posterior, realizado por outro F/A-18, o tenente Chad Underwood conseguiu filmar o que seria batizado pelos militares de Anomalous Aerial Vehicle, ou AAV (“veículo aéreo anômalo”).

Durante os 13 anos seguintes, a história dos encontros entre a Marinha dos EUA e objetos voadores não identificados passou despercebida. Somente em 2017, depois que a To the Stars Academy of Arts & Science, uma ONG fundada pelo cantor americano Tom DeLonge [ex-vocalista da banda Blink-182], e o jornal The New York Times publicaram um trecho do vídeo gravado pelos militares, o mundo tomou conhecimento do Incidente Nimitz.

Mas até hoje ninguém discutiu o que as testemunhas viram acontecer depois da interceptação do “Tic Tac”. Seu depoimento levanta muitas questões e discussões novas, e até um pouco de controvérsia.

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O mistério

Como muitos dos outros marinheiros a bordo do USS Princeton, o terceiro oficial Jason Turner sabia que alguma coisa estava acontecendo, mas não exatamente o quê. Foi somente graças a um encontro por acaso, quando ele estava levando suprimentos para o centro de controle de radar, que Jason acabaria se tornando mais uma testemunha do incidente envolvendo OVNIs. Um vídeo, que estava rodando num dos monitores do painel de controle, imediatamente chamou a atenção dele. Na gravação, o “Tic Tac” realizava uma série de manobras aparentemente impossíveis – e que não aparecem no clipe divulgado ao público em 2017.

“Aquele negócio fazia umas curvas loucas, que colocariam forças G enormes sobre o corpo de um humano. Ele estava sendo seguido [pelos aviões] e aí sumia. Num instante. O vídeo que você vê hoje é só um pedacinho do começo da gravação. Aquele negócio era muito mais do que aparece no vídeo”, afirmou Turner em 2018. Até hoje ele parece visivelmente perturbado pelo que viu naquele dia. “Eu perguntei a um colega se aquilo era parte do treinamento”, diz. “Não. Isso é real”, respondeu o outro.

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Ilustração: Ju Sting / Design: Juliana Krauss/Superinteressante

O oficial Ryan Weigelt também foi parar na cabine de comando do USS Princeton, onde foi chamado para um exercício de combate simulado. Ele diz que também viu o vídeo do “Tic Tac”, e que ele é muito mais longo que o trecho liberado ao público. “Eu fiquei lá bastante tempo, e [a gravação] estava na tela o tempo inteiro”, afirma. O especialista em radar Gary Voorhis foi outro a ver o vídeo, que acessou pela rede interna do navio. “Tinha de 8 a 10 minutos, e era muito mais nítido [que a versão divulgada]”, diz.  Pergunto se o que ele viu se parecia com algum tipo de avião. “Hum… não!”, ele responde, rindo. “No vídeo que eu vi, você nota bem como o piloto tinha dificuldade em acompanhar aquela coisa. O objeto ficava fazendo curvas fechadas, de 90 graus.”

Mas os ex-marinheiros fazem uma alegação ainda mais chocante: o que aconteceu com as gravações dos OVNIs.

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Os visitantes

O oficial Patrick “PJ” Hughes estava no deque do porta-aviões USS Nimitz, a quilômetros de distância de Gary Voorhis, Jason Turner, Ryan Weigelt e Kevin Day [todos no USS Princeton]. Ele não sabia dos objetos voadores que haviam aparecido ao longo dos últimos dias. Uma das tarefas de Patrick era coletar os discos rígidos do E-2 Hawkeye, um avião de reconhecimento que usa radares para patrulhar o ar – e estava presente no USS Nimitz. “Nós chamamos [os discos rígidos] de ‘tijolos’. Eles armazenam o software de controle do avião e também gravam, ou podem gravar, dados coletados durante o voo.”

Hughes não sabia, mas os discos rígidos que ele estava guardando num cofre, naquele 14 de novembro, tinham acabado de sair de um Hawkeye que tentara se aproximar dos OVNIs. Logo depois de guardar os “tijolos”, ele diz que foi procurado por seu chefe e dois indivíduos desconhecidos. “Eles não estavam no navio antes, e eu não os vi embarcar. Não sei como eles chegaram.” Hughes diz que seu chefe o mandou pegar os discos. “Nós os colocamos em sacolas, ele pegou tudo e foi embora com os dois indivíduos.”

Voorhis, a bordo do USS Princeton, recebeu uma visita similar. “Dois caras apareceram num helicóptero, o que não era incomum. Mas logo em seguida, uns 20 minutos depois, meu superior hierárquico me mandou entregar todas as gravações do sistema Aegis”, diz. Além de entregar todos os discos, ele teve de reinstalar softwares do Combat Engagement Center (CEC), o centro de controle do navio – que haviam sido totalmente formatados, incluindo os drives que continham as gravações de voz. “Eles também me disseram para apagar tudo o que estivesse no meu departamento, até as fitas em branco”, diz. Voorhis conta que, em toda a sua carreira militar, só teve que entregar e apagar gravações uma vez: após [testemunhar] um acidente aéreo em combate.

Ryan Weigelt afirma que os dois homens pousaram no USS Princeton, mas logo depois decolaram em outro helicóptero, um SH-60B, no qual voaram por algum tempo. Depois voltaram com “um monte de sacolas”. Eles se dirigiram à cabine do comandante do navio e colocaram um guarda na porta.

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O cético

Numa entrevista ao podcast The Fighter Pilot, o comandante David Fravor, que pilotava um dos caças que interceptaram o “Tic Tac”, disse que os vídeos do episódio desapareceram de forma misteriosa. Na opinião dele, devem ter gravado por cima sem querer. “Alguém olha e diz: ei, essas fitas devem estar em branco. Vamos usá-las.”

Segundo Vincent Aiello, piloto aposentado de F/A-18, várias pessoas têm acesso aos cofres onde as gravações são guardadas. “É muito comum, mesmo com fitas que você marcou para guardar, que elas voltem a cair em circulação, e sejam gravadas por cima. Eu acho a opinião do comandante Fravor a explicação mais plausível [para o sumiço das gravações]”, diz. “Contudo, muitas pessoas têm acesso a esses materiais, então isso deixa a possibilidade de que alguém possa ter pegado [as fitas dos F/A-18] intencionalmente.”

Embora Fravor admita o sumiço das gravações, questiona os relatos de alguns dos marinheiros. Diz que só ele e mais três pilotos de fato viram o “Tic Tac”, nenhum deles assinou acordos de confidencialidade, e que nunca apareceram “homens de terno” nos navios. “Há grupos de pessoas inventando coisas, como ‘eu vi o vídeo inteiro e ele tem 10 minutos’. Isso é besteira”, declarou numa entrevista em 2018. Fravor acredita que, como um dos militares mais graduados do navio, teria tomado conhecimento de uma investigação sobre OVNIs, se ela existisse. “Eles não falariam com os caras que viram e perseguiram o objeto?”

“Normalmente, os pilotos dos aviões não são notificados se o radar do navio ou outro tipo de informação está sendo usado em uma investigação”, diverge Guy Snodgrass, ex-piloto de F/A-18. Ele não quis comentar o Incidente Nimitz, mas conhece o copiloto que participou da interceptação dos OVNIs, junto com David Fravor. “É um oficial talentoso e dedicado à aviação naval”, diz Snodgrass. Esse indivíduo nunca se pronunciou publicamente – e não terá seu nome revelado nesta reportagem, pois ainda trabalha na Marinha. “Ele tem o discernimento para caracterizar corretamente qualquer coisa fora do comum que possa ter visto. Então eu daria credibilidade ao relato dele”, afirma.

Ao investigar essas alegações, a reportagem conseguiu localizar e contatar mais uma testemunha, que estava no Esquadrão 11 em novembro de 2004. Alegando questões de segurança, essa pessoa só aceitou falar se seu nome não fosse divulgado. “Eu me lembro muito bem dos eventos de 2004”, diz a testemunha, que na época trabalhava como especialista de operações no USS Princeton. “Eles decidiram mandar dois caças investigar. Pelo que os pilotos descreveram, o movimento do OVNI desafiava as leis da física.”

“O que tornou o caso alarmante foi quando um helicóptero Blackhawk pousou no nosso navio, e levou embora todas as informações confidenciais”, diz a testemunha. “Nós todos ficamos chocados. Tornou-se uma regra implícita não comentar o caso, pois não queríamos prejudicar nossas carreiras.”

Para Vincent Aiello, é “inteiramente possível” que exista uma gravação mais longa do que a divulgada pela Marinha. “As fitas que usavam na época tinham capacidade para duas horas, e não era incomum deixá-las gravando quase o voo inteiro”, diz. “É plausível que eles só tenham copiado uma pequena parte dos vídeos para o CIC (centro de controle do navio), mas o resto deles tenha ficado guardado… até que alguém gravou as fitas por cima, ou seja lá o que aconteceu.” Aiello estava no porta-aviões Nimitz em 2004, mas diz que não tem nenhuma informação direta sobre o incidente.

As testemunhas ouvidas por esta reportagem dizem que é desapontador ouvir o piloto David Fravor questionar os relatos delas. Todas confirmam suas experiências, e dizem que só decidiram se manifestar porque queriam apoiar Fravor e os demais marinheiros. Fravor pode não acreditar no que as testemunhas dizem, mas outras pessoas acreditam. “A combinação dos relatos dos pilotos, dos operadores de radar, e da tripulação do E-2 Hawkeye me convenceu, acima de qualquer dúvida, da veracidade da história”, diz Paco Chierici, ex-piloto de F-14 e primeira pessoa a revelar o caso ao público, em 2015. “Eu conheço essas pessoas, e sei como aquele mundo [militar] funciona. Não há nenhuma possibilidade de que a história possa ter sido inventada, ou mal interpretada.”

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A busca pela verdade

Os relatos das testemunhas trazem múltiplos indícios de que alguém estava muito interessado no evento, quando ele ocorreu. Como nenhum dos pilotos ou das testemunhas diz ter sido interrogado na época, aparentemente o alvo foram as gravações do episódio. O que esses dados revelam, contudo, permanece um mistério.

A reportagem conversou com Luiz Elizondo, um homem que diz ter investigado OVNIs enquanto trabalhava no Departamento de Defesa dos EUA. Quando perguntado sobre a existência de um vídeo mais longo do que o liberado pela Marinha, Elizondo (que hoje é diretor da ONG To the Stars) diz o seguinte: “Infelizmente não posso comentar, neste momento, sobre o que o governo dos EUA tem em seu poder”.

Elizondo também se esquiva de perguntas sobre os dados de radar que teriam sido apagados: “Uma investigação completa foi realizada, incluindo várias fontes de dados. As conclusões permanecem em poder do governo dos EUA”. Sobre a possível ocultação de informações, ele afirma o seguinte: “Muitos dos sistemas e seus métodos de coleta de dados são confidenciais, para proteger as técnicas, táticas e procedimentos [das Forças Armadas]. Eu não posso discutir nenhuma dessas coisas”.

Elizondo diz que “certamente” encorajaria outras testemunhas a revelar o que viram. “Muitos dos oficiais são observadores altamente treinados. Informações obtidas por eles sempre são válidas, ainda que as nuances envolvidas não estejam imediatamente claras.”

O jornalista Nick Cook, ex-editor de aviação da revista Jane’s Defense Weekly [maior e mais respeitado periódico militar do mundo, fundado em 1898 pelo inglês Fred T. Jane], diz que há várias razões pelas quais os militares podem ter recolhido e apagado as gravações. “Elas podem conter informações sensíveis”, afirma. “Também pode significar que aquilo era um exercício.” Mas essa segunda possibilidade, de que o Incidente Nimitz teria sido algum tipo de teste militar secreto, é considerada improvável por Cook.

“Isso iria muito contra os padrões adotados no mundo black”, diz. [Nota do tradutor: os programas secretos das Forças Armadas americanas são chamados informalmente, pela indústria de Defesa, de “black programs”. Esses projetos, que geralmente envolvem novas tecnologias, são mantidos em sigilo extremo – e sequer aparecem, de maneira identificável, no orçamento militar oficial dos EUA.]

Cook passou uma década investigando black programs e as tecnologias aeroespaciais que eles tentaram desenvolver. Ele diz que é possível que o “Tic Tac” fosse algum tipo de drone altamente secreto, mas não é provável. “Eu procurei por dez anos, e nunca encontrei nenhuma evidência concreta de que esse tipo de tecnologia exista”, afirma. “Isso não significa que ela não possa existir… mas nunca encontrei nenhuma prova.” Qual a origem, então, da tecnologia dos OVNIs avistados pela Marinha? Cook responde com sobriedade. “Considerando as probabilidades, eu não acho que é aquilo seja nosso.

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Ilustração: Ju Sting / Design: Juliana Krauss/Superinteressante
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