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O lado B da guerra dos sexos

“B” de biologia evolutiva: a ciência mais mal utilizada na hora de falar das diferenças entre homens e mulheres. Aqui, separamos o que é fato científico do que era apenas má compreensão histórica.

Homens e mulheres são diferentes. É fato. Homens são, em média, 15,2 cm mais altos, têm cerca de duas vezes mais força na parte superior do corpo. Vivem menos. São mais impulsivos. São piores pais. São naturalmente infiéis… Espera aí. Todas essas são frases que você já ouviu alguma vez na vida – mas quantas delas são verdades objetivas? O que começa como uma discussão de fatos aparentemente neutros – altura, peso, força – rapidamente degringola para o campo cinzento das interpretações. Para desembaraçar esse emaranhado, é preciso olhar para trás, para o início do estudo das diferenças básicas entre os sexos – e, mais especificamente, para a biologia evolutiva.

No princípio, era o sexo

As diferenças entre machos e fêmeas já intrigavam Charles Darwin:  “Machos de quase todas as espécies são dotados de paixões muito mais fortes que as fêmeas. Por isso, são os machos que lutam entre si e exibem seus encantos diante das fêmeas”, escreveu o pai da Teoria da Evolução em seu segundo livro mais importante (depois de A Origem das Espécies), A Descendência do Homem e a Seleção em Relação ao Sexo, de 1871. Aos machos, caberia lutar por praticamente qualquer fêmea. A elas, restaria o papel de selecionar o par ideal.

O Tinder reverbera a lógica de Darwin: quem faz a seleção, por lá, são as mulheres. O homem médio vai curtir metade (46%) dos perfis que aparecem para ele no aplicativo.  Já mulheres só aprovam 14% dos perfis que veem (e isso inclui as mulheres que curtem só perfis de mulheres). No Tinder do mundo animal, as coisas não são muito diferentes. Para atrair matches reprodutivos, o mais comum é que machos de uma espécie entrem mesmo em competição – e que vença aquele mais adequado ao gosto das fêmeas.

O pavão é um caso clássico: gerações e gerações de preferência por machos de caudas coloridas o transformaram num espetáculo visual. Características imponentes como a juba do leão e pares ameaçadores de chifres teriam surgido pelo mesmo mecanismo em diferentes espécies: esse tipo de traço amplia a vantagem de um macho perante os outros – seja aumentando sua capacidade de lutar contra a concorrência ou atraindo mais a atenção da fêmea.

Do ponto de vista dela, o objetivo seria escolher o macho com o melhor potencial genético. Quanto mais exuberante a cauda de um pavão, mais saúde ele tende a ter. Quanto maiores os chifres de um alce, maior sua capacidade de sobreviver a predadores e competir por recursos, como comida, por exemplo. Filhos desses pais já nascem com acesso a mais recursos – além de poder herdar os mesmos traços. Eles se tornam invólucros mais seguros para os próprios genes da mãe.

Passar seus genes adiante, aliás, é o objetivo implícito que une todo ser vivo na hora da reprodução. E é para isso que serviria toda a seletividade feminina: fazer filhos com sujeitos “superiores” ajuda a garantir o seu legado genético no futuro.

Ok: uma vez que compreendemos o Tinder e os pavões, fica fácil entender as bases da seleção sexual. Como Darwin sugeriu, o desafio de ser escolhido recai com mais frequência sobre machos do que sobre fêmeas. Ele só não sabia muito bem por que precisava ser assim.

O chute de Darwin é que isso tinha a ver com a mobilidade de espermatozoides versus a dos óvulos. Células sexuais masculinas vão, afinal, para fora do corpo, em grandes quantidades, em direção ao óvulo, que fica ali paradinho. É como numa maratona: quem compete e se degladia são os corredores, não a linha de chegada.

Algumas décadas depois surgiria uma explicação mais redonda para a forma como as “funções” da seleção sexual são divididas. Criada em 1948, ficou conhecida como o Princípio de Bateman  – e é a teoria mais famosa da história sobre os padrões reprodutivos de homens e mulheres.

Depois do primeiro match, o que fazem nossos pavões ou humanos tinderescos? Digamos que eles tenham sucesso em se reproduzir. Temos ali uma fêmea que vai passar nove meses grávida, e mais uma dúzia de meses amamentando. Durante todo esse período, ela fica fisicamente impossibilitada de ter outro filho.

Esse bebê específico, então, passa um bom tempo concentrando as melhores chances da mãe de deixar seus genes para a posteridade. Por isso, diz o Princípio de Bateman, faz sentido otimizá-las, e cuidar da cria como o cristalzinho frágil que ela é.

Já o macho não passou por nenhuma transformação física drástica nesse tempo todo. Seguiu fértil, capaz de espalhar suas células sexuais por aí, para qualquer fêmea que o aceitasse. Por isso mesmo, diz o botânico inglês Angus John Bateman, autor do Princípio, essa é a melhor estratégia para o moço. Ao contrário da fêmea, ele pode diversificar seus investimentos, em vez de colocar todas as fichas do seu futuro genético em um lugar (ou filho) só.

Dessa lógica, Bateman conclui que um homem até poderia se virar com uma única mulher, mas contrariando o seu impulso de ganhar na loteria reprodutiva. Já para a mulher, para quem ter um filho é um negócio mais “caro”, graças à gravidez e à amamentação, uma família estável seria o ideal.

Você se depara com o Princípio de Bateman toda vez que uma comédia romântica mostra uma mulher querendo casar e um homem querendo fugir.

Esse conceito de duas “naturezas” tão diferentes, porém, acabou levando a ideias totalmente equivocadas. Mesmo Darwin chegou a extrapolações nada científicas: ele acreditava que a seleção sexual teria colaborado para criar um sexo melhor que o outro, inclusive em termos de inteligência.

Para ele, a seleção sexual favoreceria apenas os machos. Graças à dura disputa pelas fêmeas, seria obrigatório que eles se desenvolvessem mais: ficassem mais fortes, e também mais espertos. Já a posição mais passiva das mulheres na seleção sexual as teria deixado para trás. Prova disso seria “o maior destaque que o homem alcança em qualquer atividade a que se dedique, quer isso exija profundidade de pensamento, raciocínio ou imaginação, ou tão somente o uso dos sentidos e das mãos”, escreve ele em A Descendência do Homem.

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(Natsy Alencar/Superinteressante)

Darwin estava errado: hoje sabe-se que a seleção sexual favorece a espécie como um todo, e não um sexo específico. É isso. Não existe prova maior de como as ideias científicas certas, mesmo vindas dos cérebros mais geniais do mundo, podem acabar levando a conclusões completamente tortas.

Também foi mais ou menos isso que ocorreu com Angus Bateman, e o experimento que ele criou para provar o seu princípio. Bateman estudou drosófilas, as mosquinhas das frutas. Ele juntava de três a cinco pares de machos e fêmeas em um potinho de vidro por vez, e observava como eles agiam no jogo do acasalamento. Os resultados pareciam comprovar suas ideias: moscas machos copulavam com um número maior de parceiras do que as fêmeas. E quanto mais promíscuos eram os machos, maior era o número de crias que eles deixavam.

As fêmeas, por outro lado, não tinham a mesma vantagem. Moscas que cruzaram com três ou quatro machos, disse Bateman, não tiveram ninhadas maiores do que as que tiveram só um ou dois parceiros. As mais “monogâmicas” até terminaram o teste com um número de filhotes maior que as demais. Conclusão: a monogamia seria ideal para as fêmeas.

Vinte anos depois, o biólogo americano Robert Trivers complementou os resultados de Bateman com outra ideia, que se tornou extremamente popular: a de que um óvulo grande e custoso, dos quais as fêmeas possuem quantidades limitadas, já era um investimento de energia muito maior do que um espermatozoide barato, que podia ser produzido o tempo todo, aos milhões, até o fim da vida.

Os conceitos de Rivers e de Bateman estão na raiz de todos os clichês do tipo “homens fazem sexo e mulheres fazem amor”, homens querem  liberdade, e as mulheres, formar família. Que os homens transam com qualquer coisa que tenha buraco, e as mulheres preferem se guardar ao melhor pretendente possível. Hollywood e os livros de autoajuda não estavam de todo errados – a maioria dos estudos segue afirmando que as mulheres são mais seletivas que os homens. Mas o Princípio de Bateman já foi atualizado por uma série de pesquisas mais modernas. Isso por causa dos próprios erros do experimento original.

O frasco de vidro e suas mosquinhas não eram um método à prova de falhas. Bateman já foi até acusado de ter escolhido só os resultados das “rodadas” de acasalamento que mais lhe agradavam. Cientistas replicaram o experimento de Bateman anos depois e, apesar de seguirem o procedimento tintim por tintim, chegaram a resultados bem diferentes. Assim como os machos, as fêmeas mais promíscuas também tiveram mais filhos. A monogamia não apresentava a vantagem reprodutiva clara que se acreditava para fêmeas.

Tá. Mas e entre humanos? A narrativa tradicional da biologia evolutiva exclui a possibilidade de promiscuidade dupla (feminina e masculina) como estratégia ideal para o Homo sapiens. Já falamos de como a gravidez e os cuidados parentais custam caro. Uma cria vai ter muito mais chance de sobreviver se tiver os recursos adequados – e isso depende quase que totalmente dos pais. Com uma promiscuidade que valesse para os dois lados, porém, como é que um pai saberia se está gastando seu suor para trazer recursos ao seu próprio filho (ou seja, para a perpetuação dos seus próprios genes) ou ao filho do Ricardão? (A mulher, é claro, não tem esse problema.) Por muito tempo, esse cenário foi usado por biólogos evolutivos para explicar por que um padrão de fêmeas naturalmente promíscuas era uma realidade improvável, senão impossível.

Uma espécie de primata que vive no Grande Deserto Indiano, porém, oferece uma forma diferente de pensar no assunto. O langur é um animal que, por muito tempo, pareceu se enquadrar nos hábitos sexuais clássicos. Fêmeas monogâmicas, machos poligâmicos e competitivos. Até que pesquisadores flagraram as fêmeas “flertando” com vários machos. O intuito? Cruzar com tantos machos quanto possível, de forma que a paternidade de um possível filho ficasse abertamente indeterminada. Isso para evitar que machos concorrentes atacassem a prole um do outro. Sem querer correr o risco de matar os próprios filhotes, os machos deixavam a prole inteira da mãe em paz. Vitória evolutiva.

Loteria evolutiva

Outro ponto que costuma pesar a favor do modelo “fêmea casta, macho promíscuo” é o fato inegável de que, no tempo que uma mulher leva para completar um ciclo ovulatório, um homem poderia ejacular (e, teoricamente, fertilizar alguém diferente) cem vezes – mais ou menos três vezes por dia.

Em termos estritamente biológicos, uma mulher poderia ter cerca de 15 filhos ao longo da vida. Um homem, seguindo o mesmo critério, poderia gerar 15 filhos em cinco dias. Seria impossível, dizem os psicólogos evolutivos, que isso não tivesse moldado os instintos sexuais do homem moderno de maneira, no mínimo, favorável à variedade de parceiras.

Quem fez o exercício matemático de colocar esse raciocínio à prova foi a psicóloga e especialista em filosofia da ciência Cordelia Fine. Ela partiu do princípio que um homem monogâmico, transando livremente com sua parceira exclusiva, pode razoavelmente esperar um filho no espaço de um ano. E só. O que Fine queria calcular é: para superar esse um filho em um ano, com quantas mulheres um homem poligâmico precisaria transar em 365 dias?

Numa aberração estatística bizarra, ele até poderia dar a sorte de fertilizar todas as parceiras que encontrasse. Mas quais as chances matemáticas disso, levando em conta que uma mulher, mesmo em período fértil, tem a chance máxima de 9% de engravidar em um único encontro sexual aleatório?

Segundo Fine e seu colega Carsten Murawski, os números são surpreendentemente… broxantes. Para chegar a 90% de chance de produzir dois filhos em um ano, o homem poligâmico precisaria estar disposto a observar 136 eventos fracassados (ou seja, 136 transas com mulheres diferentes que não geraram filho algum).

Ou seja: a estratégia de “espalhar espermatozoides” não é tão vantajosa para a reprodução quanto Bateman e Trivers prometiam. Mais: se ela já é altamente ineficiente para um homem só, imagina o problemão que seria para uma espécie inteira.

Tanto que, historicamente, sociedades humanas só adotaram esse comportamento em contextos muito específicos. É o caso dos haréns. O Rei Salomão, diz a Bíblia, tinha 700 esposas e 300 concubinas. Genghis Khan e seus descendentes, que também tiveram haréns, geraram tantos rebentos que uma em cada 200 pessoas vivas hoje é descendente do mongol.  Mesmo assim, as sociedades que produziram haréns foram relativamente raras. Só existiram quando poucos homens dominantes concentravam quantidades tremendas de recursos.

Se essa fosse a formação constante ao longo da evolução humana, haveria, de fato, um Genghis Khan dentro de cada homem, só esperando juntar o suficiente para sair acumulando concubinas.

O problema é que os humanos ancestrais viviam de maneira profundamente diferente. Chegamos aqui aos caçadores-coletores: comunidades primitivas nômades nas quais primatas do gênero Homo se organizaram por 99,9% de sua história evolutiva (até surgir a agricultura).

Caçadores-coletores dependiam (adivinhou!) da caça e da coleta, coisas naturalmente escassas. Sabemos tão bem como eles viviam porque ainda existem sociedades de caçadores-coletores mundo afora. E sabemos também que esse modo de vida não possibilita muita segmentação. É preciso que todo mundo faça de tudo um pouco, com um só foco: conseguir comida suficiente. Os homens, na média, caçam mais que as mulheres. Elas compensam na coleta de alimentos mais perenes. O cuidado parental é dividido – não só entre homens e mulheres, mas entre as famílias nucleares diferentes: ficar com as crianças é um trabalho coletivo e rotativo, para liberar tanta gente quanto possível para sair e buscar comida.

Nessas condições, a concentração de recursos é diminuta. Era impossível ter um Genghis Khan porque nenhum homem caçador-coletor era Genghis Khan. Não dá para existir alguém muito mais “rico” e poderoso que os outros se mal existem recursos excedentes para acumular.

E, se são raros os casos de homens com várias esposas e um número de filhos muito acima da média em sociedades humanas primitivas, o que vemos nessas culturas, por outro lado, são “pais postiços” de todo tipo. Na Venezuela, o povo Motilón-bari tem um caso curioso de estímulo à “promiscuidade” de grávidas. Nessa cultura, todos os homens que têm relações sexuais com a mãe naquele período são os pais, de maneira dividida, da criança. Todos eles vão contribuir com comida e o que mais aquela cria precisar, a vida toda – o que acaba sendo uma vantagem enorme. As crianças que crescem mais fortes e saudáveis costumam ser aquelas com as mães mais “promíscuas”.

Hormônios sexuais são ferramentas refinadas para ajudar pessoas a se adaptar a diferentes desafios da vida – e isso não depende de gênero.

De acordo com a bióloga evolucionista Marlene Zuk, da Universidade de Minnesota, a poligamia, tanto de homens como de mulheres, provavelmente existiu ao longo de toda a história humana – nunca como forma principal de reprodução, mas sempre servindo para tornar a sexualidade humana mais bem adaptada a vários contextos.

E não está sozinha: os hormônios sexuais também servem para nos dar o maior jogo de cintura possível.

Isso é contraintuitivo: costumamos pensar na testosterona como o elixir da masculinidade – quimicamente culpada pelo comportamento mais agressivo, pela libido maior, pela competitividade e facilidade com que homens se expõem a riscos. Um “suco” especial que divide os sexos.

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(Natsy Alencar/Superinteressante)

Novamente, não é assim que a banda toca. Hormônios servem para que um organismo se adapte a diferentes situações numa escala de tempo absurdamente rápida. Se tornar toda uma espécie mais adaptada a mudanças no ambiente costuma levar séculos, os hormônios precisam cumprir essa função (numa escala obviamente menor) em minutos, para ajudar um mesmo indivíduo a encarar diferentes situações ao longo da vida.

De novo, a reprodução é exemplo perfeito disso. Solteiros, sejam eles homens ou mulheres, tendem a ter níveis mais elevados de testosterona do que casados. A testosterona baixa nos anos logo antes e logo após o casamento, e aumenta durante o divórcio. Ela sobe justamente no momento em que o corpo precisa se adaptar ao territorialismo (afinal, divisões de bens costumam ser competitivas) e também à retomada da busca por parceiras sexuais.

Esses são indícios de como a testosterona funciona, tanto para homens como para mulheres – ela sempre colabora com o contexto. Sobe para você arranjar um par ou brigar, desce para você investir na família e nos descendentes. Pais de filhos pequenos apresentam menos testosterona no sangue e na saliva que os não pais. Quanto mais tempo o pai passa com o pequeno, maior é a redução hormonal. Ou seja: não é que a testosterona divida homens entre garanhões e homens de família. Ela reage para facilitar que o homem seja o que quiser – e se o que ele quer é ser um bom pai, a testosterona, obediente, vai ajudá-lo.

Com tudo isso, o que vemos é a história dos papéis sexuais de homens e mulheres sendo reescrita. Não porque a biologia evolutiva do passado estivesse errada, mas porque a ciência do presente traz novas peças que complementam o quebra-cabeça que Darwin e Bateman começaram a desvendar.

As consequências disso para além da nossa vida sexual são óbvias, pela clara importância que a biologia evolutiva sempre teve na maneira como enxergamos o que é “ser mulher” e “ser homem”.

Nesse aspecto, temos boas notícias: a evolução da ciência mostra que nem os genitais, nem os hormônios sexuais condenam homens e mulheres a uma forma rígida de existência. As diferenças entre eles são reais, e o legado ancestral que carregam é importantíssimo – mas se tem uma coisa que ele prova é o quanto somos absurdamente flexíveis. A seleção natural nos fez assim: nos moldou, por milhões de anos, como seres bem mais complexos do que teimamos em perceber. E tudo isso por uma questão de eficiência.