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Depois de rejeitada por Freud, a hipnose foi remodelada por Milton Erickson a partir dos anos 1930, e serviria de base para a programação neurolinguística na década de 1970. O sucesso da nova metodologia impulsionou pesquisas sobre o transe. Hoje, a hipnose é uma realidade nos consultórios.

Texto: Agência Fronteira | Edição de Arte: Jorge Oliveira | Design: Andy Faria | Imagens: Getty Images


Em meados dos anos 1930, um jovem de 25 anos procurou o psiquiatra Milton Erickson para tratar a ejaculação precoce. O terapeuta induziu o rapaz ao transe hipnótico e inventou uma experiência envolvendo a filha de um pesquisador, que servia apenas de “inspiração” visual, um cinzeiro feito por ela, um desejo repentino de fumar, uma apreensão em ser pego fumando pelo pesquisador, um acidente em que o cinzeiro é quebrado e um desfecho onde o jovem deixava o local sem culpa.

Toda a história, contada no estudo Drama como Proposta de Compreensão da Clínica de Milton Erickson, do psicólogo Maurício da Silva Neubern, é uma metáfora repleta de elementos que a mente do paciente poderia usar para resolver a disfunção sexual. O cinzeiro era o corpo da mulher, a vontade de fumar era o desejo, o cigarro era o próprio pênis, a quebra do cinzeiro era a relação consumada e o desfecho indicava que tudo tinha acabado bem. A sugestão foi passada em uma única sessão. E o jovem, meses depois, disse que o sexo estava “prazeroso, confortável e tranquilo”.

Era uma nova abordagem para a hipnose. Até então, o transe em consultórios era usado de duas maneiras. O terapeuta podia empregar sugestão direta e ordenar que o paciente ficasse mais confiante, mais concentrado e menos ansioso no momento do sexo. Ou então poderia instigar a memória do jovem em busca de traumas responsáveis pelo distúrbio, fazendo o paciente trabalhar as lembranças e curar o problema. Erickson revolucionou o uso da hipnose clínica com a metodologia baseada em histórias criativas capazes de fornecer ao hipnotizado os elementos para remodelar suas experiências.

Quando Sigmund Freud rejeitou o transe como maneira de investigar e tratar neuroses, o uso terapêutico da hipnose perdeu espaço. Os transes não desapareceram por completo, tendo sido empregados, por exemplo, para anestesiar soldados da 1ª Guerra Mundial. Entretanto, no início do século 20, a hipnose aparecia mais no teatro do que nos consultórios. O ressurgimento da hipnoterapia como ferramenta de saúde veio com Milton Erickson, que, a partir dos anos 1930, viu futuro na técnica e desenvolveu as bases da hipnose aplicada à psicologia.

 

<strong>Erickson acreditava que moldar soluções criativas para cada caso era fundamental para o sucesso do tratamento com hipnose.</strong>

Erickson acreditava que moldar soluções criativas para cada caso era fundamental para o sucesso do tratamento com hipnose. (Nick Dolding/Getty Images)

Erickson nasceu em 1901, em Nevada, nos EUA. Um ataque de poliomielite aos 17 anos fez com que ficasse paralisado e sem falar por vários meses, período em que ele aprendeu muito sobre linguagem corporal e comportamento humano observando familiares e agregados que viviam na fazenda onde morava. Quando entrou para a faculdade de medicina, conheceu a hipnose por intermédio do professor Clark Leonard Hull. Passou então a desenvolver uma metodologia própria de hipnoterapia: o tratamento deveria ser criado sob medida para cada paciente.

Erickson nunca repetia sugestões, metáforas, analogias, anedotas ou qualquer recurso. E também não buscava no passado as causas dos problemas, preferindo oferecer ações imediatas para redesenhar a mente. Ele acreditava que moldar soluções criativas para cada caso era fundamental para o sucesso do tratamento. Uma ideia contrária a pressupostos clássicos da clínica médica, que priorizava métodos universais para solucionar os problemas. Ele via a hipnose como uma maneira de estimular o inconsciente a corrigir naturalmente os distúrbios, de fazer o paciente achar em si mesmo recursos para resolver seus conflitos.

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A partir do anos 1960, Erickson tinha nova companhia. Os Estados Unidos viram proliferar teorias e escolas de pensamento psicológico alternativo. Eram tempos de contracultura, dos hippies, das sabedorias orientais. Movimento forte o suficiente para vencer barreiras acadêmicas e levar para dentro de universidades – em especial na costa oeste americana – temas antes desprezados. Foi quando surgiram, por exemplo, terapias como o rebirthing, método de respiração para corrigir traumas, ou a terapia do grito primal, em que neuroses poderiam ser curadas com grito e choro. A hipnose pegou carona na onda e recuperou espaço entre os cientistas.

A principal novidade derivada da hipnose foi a programação neurolinguística, ou PNL, criada no início dos anos 1970. Essa mistura de ciência da comunicação e psicoterapia tinha objetivo de oferecer rápidas mudanças de comportamento usando padrões linguísticos específicos. Uma artimanha que “reprograma” a mente do paciente.

A ideia foi desenvolvida pelo matemático Richard Bandler e pelo linguista John Grinder, da Universidade da Califórnia. O primeiro traçava comparações entre o cérebro humano e computadores. O segundo estudava linguagem verbal e corporal e entendia a mente humana como um conjunto de programas.

A semelhança de visões uniu os pesquisadores em torno do projeto: tornar as pessoas capazes de escolher os conteúdos que gostariam de ter instalados na mente e também de deletar os padrões indesejados. Mas como fazer isso?

Bandler e Grinder entraram em contato com Erickson para saber melhor como funcionava o modelo de sugestões do terapeuta. A técnica de Erickson era a forma mais eficaz para instalar ou excluir programas da mente humana, uma metodologia que reduzia a resistência às mudanças. O uso de hipnose na PNL tem o objetivo de deixar a mente preparada para as mudanças, focada em receber os conteúdos. O transe hipnótico virou uma ferramenta fundamental para a difusão da metodologia.

No fim dos anos 1970, a programação neurolinguística já era amplamente divulgada em seminários e livros, prometendo melhorias em vários campos: parar de fumar, de beber, dormir melhor, curar fobias, eliminar sentimentos negativos, melhorar o aprendizado, ampliar a concentração. Foi uma das técnicas que desbravaram o caminho da vasta literatura de autoajuda.

Apesar de não ter escrito uma tese formal sobre suas descobertas, Erickson teve uma carreira bastante movimentada. Foi professor em várias faculdades, dirigiu centros psiquiátricos, fundou a Sociedade Americana de Hipnose Clínica e criou a revista American Journal of Clinical Hypnosis, da qual foi editor por dez anos. Além disso, visitou diversos países para palestras e seminários, escreveu mais de uma centena de artigos acadêmicos e publicou alguns livros.

Em 1980, quando morreu, já era considerado um dos mais influentes terapeutas do século 20, ciente do legado deixado para seus seguidores. Daí em diante, a hipnose nunca mais cairia no ostracismo.

Hoje, nos consultórios, a hipnose é utilizada em diferentes tipos de psicoterapia em busca de maior eficácia. Os entusiastas da técnica dizem que, com transe hipnótico, o tratamento costuma durar menos tempo. A hipnose também é usada na tentativa de impedir que os pensamentos negativos voltem à tona recorrentemente. A ideia não é apagar lembranças, comportamentos ou concepções, mas adestrar o cérebro para que imagens que fazem mal não dominem a mente.

<strong>A hipnose auxilia no tratamento da depressão e ajuda a evitar o retorno da doença.</strong>

A hipnose auxilia no tratamento da depressão e ajuda a evitar o retorno da doença. (Gary Waters/Getty Images)

Um grande leque de pesquisas científicas comprova o êxito da hipnose para tratar vários males. É o caso, por exemplo, da depressão. O psicólogo americano Michael Yapko é a maior referência em tratamento de depressão com uso de hipnose. Autor de dezenas de livros e artigos sobre o assunto, o terapeuta escreveu Transe: Uma Introdução à Prática da Hipnose Clínica, estudo publicado em 2012 no qual ele mostra que sugestões hipnóticas são eficientes para reduzir sintomas comuns em depressivos, como ansiedade, agitação, insônia, fadiga, perda de apetite e sentimento de desamparo. A hipnoterapia, segundo Yapko, ainda reduz as chances de recaídas ao quadro depressivo.

Outro benefício da hipnose estaria no tratamento de vícios. Um trabalho de 2000 realizado pelos americanos Joseph Green e Steven Jay Lynn revisou 59 estudos sobre o uso de hipnose no combate ao tabagismo. Eles concluíram que ainda não é possível comprovar que a hipnoterapia é melhor que outras opções de tratamento, mas viram que esse método é eficaz, sobretudo como terapia auxiliar, combinada, por exemplo, com adesivos de nicotina. Pesquisas mostram ainda que transes hipnóticos são úteis para combater estresse, obesidade, anorexia e bulimia, além de tratar males psicossomáticos como úlceras nervosas e irritações na pele.

Na opinião do médico Vladimir Bernik, coordenador da equipe de Psiquiatria do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, a utilização da hipnose em consultório deve ser encarada como parte de um tratamento que precisa levar em conta medicamentos e outras terapias. “Para uma série de doenças mentais, por exemplo, é importante associar terapia e remédio”, ele diz. “Com o transe hipnótico, é possível alcançar níveis mais profundos da consciência. E isso resulta em tratamentos melhores e mais curtos.”