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Ciência

O supertransgênico

As pragas da lavoura estão ficando resistentes aos agrotóxicos. A resposta da engenharia genética é o milho MON 87429, que contém DNA de cinco seres vivos – e suporta o uso de cinco herbicidas. Ele é a coisa mais sofisticada que a agroindústria já criou. E a mais polêmica também.

Reportagem: Bruno Garattoni e Eduardo Szklarz |  Foto: Studio Oz |  Design: Juliana Krauss

O

glifosato é um herbicida, ou seja, mata plantas. Ele bloqueia a ação de uma enzima, chamada EPSP, sem a qual os vegetais não conseguem sintetizar três aminoácidos essenciais: tirosina, triptofano e fenilalanina. Algumas semanas após a aplicação do produto, as plantas param de crescer, começam a definhar e morrem. O problema, por assim dizer, é que o glifosato é eficiente demais: tende a matar todas as plantas, não só as ervas daninhas que os agricultores querem combater. Por isso esse agrotóxico, que foi lançado em 1974, só era usado para “limpar” o solo antes do plantio. Mas a coisa mudou em 1996, quando a Monsanto, inventora do produto, apresentou ao mundo um novo tipo de vegetal, a soja transgênica. Essa planta continha um gene, extraído da bactéria Agrobacterium tumefaciens, que dava a ela um superpoder: imunidade ao glifosato.

É que essa bactéria, como algumas outras, também produz a enzima EPSP, só que numa variação um pouco diferente, resistente ao glifosato. Graças ao gene da bactéria, a planta da Monsanto também adquiriu essa característica. Pela primeira vez, era possível usar o glifosato durante o plantio de soja. Foi uma revolução. Ele se tornou o agrotóxico mais utilizado do mundo – e a ciência desenvolveu versões transgênicas do milho e do algodão, também compatíveis com o produto. Mas, junto com o sucesso, também surgiram más notícias.

Como animais não produzem a enzima EPSP, o glifosato sempre foi considerado inofensivo para eles. Mas, ao longo das décadas, estudos foram mostrando que doses altas do produto podiam provocar efeitos negativos em cobaias, e em 2015 a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, um órgão da OMS, classificou o glifosato como “provavelmente cancerígeno em humanos” (1). (Ela inseriu o produto na categoria 2A, que reúne substâncias obviamente venenosas, como gás mostarda e nitrotolueno, mas também coisas triviais, como carne vermelha e chás muito quentes, acima de 65 graus.) Nos anos seguintes, começaram a surgir casos de agricultores e jardineiros que tiveram câncer, atribuíram isso ao glifosato e foram à Justiça. Em 2020 a Bayer, dona da Monsanto, aceitou pagar US$ 10 bilhões em indenizações nos EUA. O glifosato continua no mercado – e seu fabricante sustenta que, se utilizado de forma correta, ele é seguro.

Mas o produto e as lavouras transgênicas viriam a sofrer um revés muito maior. Em 2011, começaram a aparecer as primeiras pragas resistentes ao glifosato. O uso maciço dele estava acelerando a evolução das ervas daninhas – que, pelo processo de seleção natural, foram se tornando imunes. Hoje, há pelo menos 38 espécies de praga resistentes ao glifosato, que já foram encontradas em lavouras de mais de 30 países (2)

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E isso não está acontecendo só com as plantas transgênicas. Nas últimas décadas, ao menos 262 espécies de ervas daninhas, em 70 países, desenvolveram resistência a herbicidas (3).  No Brasil, pragas como o azevém e o caruru-palmeri geram perdas anuais de R$ 9 bilhões aos produtores de soja (4). Isso é normal e, até certo ponto, inevitável. Da mesma forma que bactérias criam resistência a antibióticos, as pragas tendem a ir derrotando os pesticidas. Mas, enquanto a medicina reage inventando antibióticos, a agroindústria vai por outro caminho. Em vez de desenvolver agrotóxicos, aposta na engenharia genética.

Mais de 260 pragas agrícolas já se tornaram resistentes aos herbicidas. Elas podem devastar plantações – e causar perdas bilionárias.
Mais de 260 pragas agrícolas já se tornaram resistentes aos herbicidas. Elas podem devastar plantações – e causar perdas bilionárias. Studio Oz/Superinteressante

A Bayer está pedindo autorização dos EUA e da Europa para lançar o milho MON 87429, o primeiro supertransgênico. Ele é, de longe, a coisa mais sofisticada que a agroindústria já criou, pois contém material genético de cinco organismos: o DNA do milho em si salpicado com genes de quatro bactérias [veja quadro abaixo]. Graças a isso, é capaz de suportar o uso de cinco herbicidas: dicamba, glufosinato, quizalofop e 2,4-D, além do glifosato. Todos são antigos, estão há décadas no mercado, mas não podiam ser aplicados diretamente sobre o milho, pois eram tóxicos demais. O MON 87429 resiste a esses produtos, permitindo que sejam usados durante o plantio. “Nosso produto oferecerá o pacote de tolerância a herbicidas mais completo do mercado”, afirma a fabricante.

A Bayer diz que os plantadores poderão escolher entre os cinco herbicidas e, assim, controlar as pragas. Mas há quem discorde. “Os agricultores vão gastar mais dinheiro para usar herbicidas, novamente de forma excessiva, jogando mais substâncias tóxicas no ambiente”, diz o agrônomo Franklin Egan, que trabalhou no USDA (Ministério da Agricultura dos EUA) e hoje dirige a Pasa, uma ONG de agricultura sustentável. Segundo ele, as plantas daninhas acabarão desenvolvendo resistência a todos os cinco herbicidas, levando os agricultores a ir aumentando as doses e depois recorrer a outros agrotóxicos. Seria o novo capítulo do pesticide treadmill (“esteira de pesticidas”), um fenômeno ao qual a agricultura está presa faz tempo [veja quadro abaixo].

Isso sem falar numa eventual combinação de herbicidas, que poderiam reagir entre si. “A aplicação de coquetéis não testados poderia ter graves impactos no solo e na saúde humana”, diz a bióloga Marcia Ishii-Eiteman, doutora pela Universidade Cornell e cientista sênior da ONG Pesticide Action Network. “Sozinhos, o 2,4-D e o glifosato têm sido vinculados, na literatura médica, a câncer e efeitos sobre a reprodução. Não há informações sobre os impactos à saúde humana quando eles são misturados”, afirma. 

A Bayer diz que, além de cumprir as normas das autoridades regulatórias, que são bastante rigorosas, também realizou seus próprios estudos de segurança (5) com o MON 87429. Segundo a empresa, o produto existe para dar opções aos agricultores (se um dos herbicidas falhar, será possível tentar outro), e não para que eles apliquem vários pesticidas ao mesmo tempo. Na prática, os lavradores nem sempre obedecem às instruções de uso dos agrotóxicos – o que, como ilustrou uma onda que varreu metade dos EUA em 2017 e 2018, pode ter consequências devastadoras. E as plantações brasileiras têm uma característica que torna o MON 87429 especialmente controverso (mais sobre isso daqui a pouco).

Por outro lado, o avanço das pragas é um problema sério, que está cada vez mais difícil de combater e ilustra como a agrociência, em que pesem todos os seus avanços tecnológicos, continua à mercê da natureza. Inclusive ao desenvolver suas ferramentas mais sofisticadas – uma das quais foi descoberta, por acaso, em volta de uma fábrica de agrotóxico.

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A "esteira de pesticidas"

No ano 2000, um grupo de sete biólogos da Universidade de Freiburg, na Alemanha, e do Instituto Federal de Tecnologia da Suíça publicou um artigo científico (6) apresentando ao mundo sua criação: um arroz transgênico, que recebera um gene da bactéria Erwinia uredevora e por isso produzia vitamina A em maior quantidade. A ideia era cultivar o novo alimento, que ficou conhecido como “arroz dourado”, para resolver a carência dessa vitamina, que afeta 140 milhões de crianças no mundo (e pode causar cegueira noturna, problemas de pele e imunológicos). Mas não rolou. O arroz dourado só recebeu as primeiras liberações, em apenas quatro países, em 2018. E até hoje não é plantado em grande escala. Ele mostra que é possível usar a transgenia para criar alimentos mais nutritivos. Mas, na prática, ela tem servido para algo diferente: o desenvolvimento de plantas resistentes a agrotóxicos.

Para criar uma, o primeiro passo é olhar a natureza. Por mais venenosos que os pesticidas possam ser, quase sempre existem plantas e micro-organismos resistentes a eles. É só procurar bem. Veja o caso do dicamba, um dos cinco herbicidas “compatíveis” com o milho MON 87429. Esse agrotóxico foi inventado em 1967 e, assim como o glifosato, é letal para grande parte das plantas (ele faz o mesmo papel das auxinas, hormônios que regulam o crescimento vegetal, fazendo a planta crescer rápido demais e morrer por causa disso).

Por isso, seu uso sempre foi relativamente restrito. Até que cientistas descobriram algo estranho no solo em volta de uma fábrica do produto, no Texas: uma bactéria, a P. maltophilia, que era capaz de “comer” o dicamba, transformando-o numa substância inofensiva para ela. Os pesquisadores estudaram essa bactéria e descobriram o gene exato que dava a ela esse poder – que foi inserido pela Monsanto, em 2016, em um novo tipo de soja transgênica.

Nos anos 1990, os genes eram inseridos nas plantas por uma técnica chamada “biobalística”: os cientistas pegavam projéteis microscópicos, feitos de ouro ou tungstênio, e os revestiam com cópias do gene em questão. Aí disparavam as bolinhas contra o vegetal, usando uma arma de ar comprimido. Dentro da planta, algumas células acabavam incorporando aquele DNA novo, que passava a fazer parte do código genético da espécie. O problema desse processo é que ele é impreciso: não dá para saber em qual trecho do genoma o implante vai se fixar (e a planta também pode acabar absorvendo mais de uma cópia dele, o que pode causar erros genéticos). Por isso, hoje a técnica mais usada é outra. “O mais comum é usar bactérias, que vão infectar a planta. Você coloca o gene dentro da bactéria e ela o transmite para o milho, por exemplo”, diz Fernando Adegas, pesquisador da Embrapa Soja. Isso porque, quando uma bactéria ou um vírus infecta outro ser, parte do seu código genético pode ser incorporado ao hospedeiro. É assim com as plantas e com os animais também (acredita-se que 8% do DNA humano tenha vindo de vírus que contaminaram nossos antepassados ao longo dos tempos).

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Clique na imagem para ampliar. Studio Oz/Superinteressante

Os cientistas infectam vários embriões, que depois são plantados e analisados. As plantas que retiveram o gene são cruzadas com outras, que também adquirem aquele DNA – e geram as sementes transgênicas, que serão colocadas no mercado e vendidas aos agricultores.

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Mas blindar o milho (ou qualquer outra planta) por engenharia genética não impede que as pragas também adquiram resistência – por pressão seletiva. É fácil entender como isso acontece. Digamos que você seja fazendeiro, e na sua lavoura haja 1 milhão de plantas daninhas. Em tese, todas elas são normais, e suscetíveis à ação do herbicida. Mas lá no meio, escondida, existe uma planta daninha que é naturalmente resistente. Se você aplicar o herbicida, vai matar todas as pragas – menos essa. Ela, que antes tinha de competir com as outras e não se sobressaía, agora terá toda a plantação só para si. Com isso, vai se reproduzir cada vez mais, gerando descendentes imunes ao agrotóxico. Conclusão: com o tempo, você vai selecionando plantas resistentes. E elas se espalharão pela lavoura. “Foi o que aconteceu com a primeira geração de transgênicos resistentes ao glifosato”, diz Adegas. “Nós começamos a usar só glifosato, e acabamos selecionando algumas plantas daninhas resistentes a ele.”

Ou seja: a eficácia dos agrotóxicos tende a cair com o tempo. Qual a solução, então? O cultivo orgânico, sem pesticidas, a maioria dos agricultores não quer – pois é mais difícil controlar as pragas, a produtividade por hectare é menor (geralmente, 30% a 40% mais baixa) e o risco de perda da safra é maior. Então a indústria responde com produtos como o supertransgênico, projetado para permitir o uso de vários agrotóxicos – porque eles atuam de formas diferentes. Cada herbicida age contra um alvo específico dentro das plantas daninhas (esses alvos,  geralmente enzimas, são chamados de “sítios de ação”). “[Ter] múltiplos sítios de ação é importante para o manejo da resistência a herbicidas”, afirma a Bayer.

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Clique na imagem para ampliar. Studio Oz/Superinteressante

Quando uma praga se torna resistente ao sítio de ação de um determinado herbicida, já era: ela tende a ficar imune a todos os outros produtos que agem sobre aquele alvo. “Os agricultores têm abordado esse problema com a combinação ou a rotação de herbicidas com diferentes sítios de ação”, diz a empresa. A ideia é que, depois de plantar o MON 87429, o lavrador possa alternar entre os cinco herbicidas compatíveis. Isso evitaria o uso sistemático de apenas um deles – e, portanto, a seleção de pragas resistentes.

Para alguns especialistas, no entanto, o MON 87429 não resolverá o problema da resistência. “Ele pode desacelerar esse processo por um tempo, mas não é uma solução permanente. A evolução pode contornar isso, como já fez em outras circunstâncias”, diz o agrônomo Franklin Egan, da Pasa. Em 2019, por exemplo, cientistas da Kansas State University confirmaram que a Amaranthus palmeri, uma praga que ataca milho e soja, desenvolveu resistência a dois herbicidas: dicamba e 2,4-D. Já a A. tuberculatus, que afeta a soja, pode resistir a três tipos de herbicida: glifosato, derivados de triazina e inibidores da enzima PPO. São agrotóxicos com sítios de ação distintos. Ou seja, as pragas conseguem driblar o uso alternado de pesticidas diferentes. E como: a Lolium rigidum, que infesta o sul da Austrália, resiste a nada menos que 11 sítios de ação. A Bayer admite que, como um todo, as plantas daninhas já desenvolveram resistência a 23 dos 26 sítios conhecidos.

Uma possível saída é investir em soluções mais sustentáveis, como as “culturas de cobertura”. Essa prática, que é recomendada pela Embrapa, consiste em plantar determinadas espécies na entressafra da cultura principal. Se você cultiva milho ou soja, por exemplo, pode plantar Brachiaria ruziziensis entre uma safra e outra. Esse vegetal, que serve como ração bovina, cobre e protege o solo, evitando a proliferação de ervas daninhas. “A única saída é diversificar o sistema de cultivos”, diz a bióloga Marcia Ishii-Eiteman, da Pesticide Action Network. “Mas se você continuar plantando milho e soja em milhões de hectares, como fazem no Meio-Oeste dos EUA, então não haverá diversidade – e você criará problemas.” Segundo ela, os agricultores americanos usaram tanto glifosato que boa parte do solo do país está danificada. Com isso, as plantas ficam mais fracas e suscetíveis a doenças e pragas. “Então você aplica mais herbicidas”, diz.

Um círculo vicioso que acaba tendo consequências ruins para os agricultores, os consumidores e a própria indústria agroquímica. E pode afetar até plantações que sequer utilizam agrotóxicos.

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A nuvem de dicamba

Em outubro de 2016, o americano Mike Wallace estacionou sua picape numa estrada de terra nos arredores de Leachville, no Arkansas, e começou a mandar mensagens pelo celular. “Estou te esperando. Você vem?”, escreveu. Wallace, de 55 anos, plantava soja numa fazenda de mais de 2 mil hectares, mas naquele ano a colheita tinha sido ruim. A culpa, segundo ele, era do agricultor Curtis Jones, que havia pulverizado dicamba numa propriedade vizinha. Wallace alegava que o dicamba tinha sido levado pelo vento até sua fazenda e arrasado metade da sua plantação de soja, gerando um prejuízo milionário. Curtis não respondeu às mensagens, e então Wallace enviou mais uma. “Parece que você não tem muito a dizer agora.” Instantes depois, Curtis apareceu na própria picape. Puxou sua pistola semiautomática e matou Wallace com sete tiros. Foi condenado a 24 anos de prisão.

Esse foi o caso mais extremo de rixa entre produtores por causa do dicamba, mas não o único. Entre 2016 e 2017, o produto se espalhou por metade do território dos EUA e danificou 3,6 milhões de acres de soja convencional (cerca de 4% da produção do país). Isso acontece porque ele é altamente volátil. Quando um agricultor planta algodão ou soja transgênicos, e aplica o dicamba em sua lavoura, ele não para ali. O vapor do produto pode ser carregado pelo vento para outras plantações, que não são transgênicas nem tolerantes ao dicamba – e, por isso, acabam devastadas.

Não se sabe ao certo quão longe o dicamba pode ser carregado pelo vento, mas as estimativas falam em 4 a 5 km. Pode parecer pouco, mas é o suficiente para fazer bastante estrago. “Os danos causados pelo dicamba em Iowa em 2020 são os mais extensos desde a sua introdução nos anos 1960”, diz um artigo publicado pelos agrônomos Bob Hartzler e Prashant Jha, da Universidade Estadual de Iowa. Segundo eles, quase toda a soja convencional no Estado apresenta algum grau de dano causado pelo herbicida (7).

Esse é o capítulo mais recente da novela envolvendo o produto. No dia 3 de junho, a Justiça dos EUA proibiu a comercialização e o uso de três pesticidas à base de dicamba: XtendiMax (Bayer), Engenia (Basf) e FeXapan (Corteva Agriscience, spinoff da DowDuPont). Muitos lavradores que haviam comprado e estocado os produtos entraram em pânico, temendo perdê-los. Alguns dias depois, o governo americano liberou o uso de dicamba, para quem já o tivesse, até 31 de julho. Mas aí o clima não ajudou – e criou a receita para um desastre.

Na região centro-norte de Iowa, por exemplo, a velocidade do vento superou 19 km/h em 10 dos 14 dias que os agricultores tinham para usar o produto. Ocorre que, para reduzir o risco de espalhamento, o dicamba só pode ser usado com vento entre 5 e 16 km/h. Ou seja, ele foi aplicado com pressa e em condições fora do ideal. E isso acabou fazendo com que o produto se volatilizasse como nunca antes – e causasse danos numa escala também inédita. Havia tanto dicamba no ar que cientistas de Iowa cunharam o termo “carga atmosférica” para descrever o fenômeno. A Bayer criou um novo produto com

dicamba, que se chama “XtendiMax com tecnologia VaporGrip” e supostamente “reduz o potencial de volatilidade em 90%”. Mas especialistas afirmam que a coisa não é tão simples assim – pois o produto só pode ser usado em condições altamente específicas. “Os rótulos das formulações de dicamba são tão complexos e restritivos que é quase impossível segui-los”, diz o químico Bill Freese, da ONG Center for Food Safety. De fato [veja quadro abaixo].

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Clique na imagem para ampliar. Studio Oz/Superinteressante

Neste ano, a Bayer anunciou um acordo para pagar US$ 400 milhões em indenizações a agricultores dos EUA cujas lavouras foram danificadas pelo dicamba. Mas o que a indústria perde por um lado, acaba ganhando de volta em outro. “Por causa da volatilidade, mesmo agricultores que não têm interesse em usar dicamba se sentem forçados a comprar as sementes resistentes, que são mais caras, para evitar danos aos seus cultivos”, afirma Freese. Nos últimos anos, os EUA tiveram problemas similares com outro pesticida: o 2,4-D, que também se espalhou e danificou plantações pelo país (ele foi criado nos anos 1940, e hoje é usado em lavouras transgênicas).

Isso mostra como é difícil controlar certos herbicidas, que só podem ser usados em determinadas lavouras (porque são tóxicos para as demais). O milho MON 87429, projetado para aceitar cinco agrotóxicos desse tipo, tende a aprofundar o problema.
E também traz consigo outro risco – que no Brasil, por uma questão climática, pode ser especialmente perigoso.

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Plantação tropical

Em países como os EUA, onde faz frio, costumam ter apenas uma safra por ano, na primavera/verão. O agricultor planta soja, milho ou trigo, por exemplo, e só volta a plantar no ano seguinte, cultivando a mesma coisa. No Brasil, e em outros países tropicais, é diferente: o clima permite plantar e colher o ano todo. Você planta soja, por exemplo, colhe e aí já planta milho ou algodão naquela mesma área, antes da próxima safra de soja. São as chamadas “culturas de sucessão”. O problema disso é que, após a colheita, sempre fica no solo algum grão de soja, alguma espiga de milho ou algum caroço de algodão, pois é impossível retirar tudo. E essas sementes vão germinar.

“Aquele grão de soja que sobrou no solo pode então se tornar uma planta daninha dentro da cultura subsequente de milho. E a mesma coisa o milho pode fazer para a soja ou o algodão”, explica Fernando Adegas, da Embrapa. São as chamadas “plantas voluntárias”, que antigamente eram eliminadas com glifosato. Mas e as versões transgênicas delas, que são imunes a esse produto? Como você as mata? Com glifosato, não dá mais. O que você cultivou antes se torna uma praga, que afeta o que você está plantando agora.
E agora você tem um problema difícil, ou impossível, de resolver com os próprios agrotóxicos.

Essa consequência diabólica pode ser especialmente marcante com o MON 87429, já que ele é imune a cinco herbicidas. Isso vale para todos os supertransgênicos – tanto o milho quanto outras plantas, como soja e algodão, que deverão ganhar versões do tipo nos próximos anos. E isso pode criar outro risco. Digamos que você plante uma soja supertransgênica, resistente a vários herbicidas, e logo depois plante milho supertransgênico. Se esse milho for resistente aos mesmos herbicidas da soja, a coisa complica. “Aí começa a acontecer um sistema de uso contínuo dos mesmos herbicidas”, diz Adegas. “E você pode começar a selecionar plantas daninhas resistentes a esses herbicidas.” Resultado? Pragas incontroláveis.

Você deve estar se perguntando: e o consumidor? O uso de vários herbicidas não poderá deixar resíduos tóxicos no milho MON 87429 e afetar a saúde de quem o comer? A ideia é que o agricultor use apenas um produto de cada vez, sem misturar herbicidas. Se essa norma for obedecida, em tese o milho supertransgênico não é mais nem menos perigoso que o milho atual. Mas como fiscalizar isso, e garantir que os produtores não acabem aplicando dois, ou três, herbicidas na mesma plantação? A possível interação entre essas substâncias já foi testada? Questionada pela Super, a Bayer foi genérica: “A segurança é nossa prioridade. Além dos requisitos regulamentares em países onde registramos nossos produtos, aplicamos nossos próprios padrões de segurança internos”.

Seja como for, a tendência é que o MON 87429 seja liberado nos Estados Unidos, até por uma questão burocrática. “O USDA (Ministério da Agricultura) costuma ter um enfoque estreito: só analisa a semente com os novos genes, avaliando se é uma ameaça para outras plantas. E deixa os herbicidas para a Agência de Proteção Ambiental (EPA)”, diz Ishii-Eiteman. “Mas a EPA só olha cada herbicida individualmente. Então ela dirá: ‘Como já aprovamos o 2,4-D há décadas, não temos que nos preocupar com ele’. A EPA dirá o mesmo sobre o dicamba e o glifosato, e concluirá que não há nada de novo no MON 87429.” “Temos duas agências reguladoras, mas cada uma regula uma parte. Nenhuma delas assume a responsabilidade por todo o sistema”, resume Freese.

O MON 87429 ainda nem foi liberado, mas a indústria já prepara seu sucessor: imune a seis herbicidas.
O MON 87429 ainda nem foi liberado, mas a indústria já prepara seu sucessor: imune a seis herbicidas. Studio Oz/Superinteressante

Em 2018, a Bayer pediu permissão à CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, órgão que orienta o governo federal em temas científicos) para plantar o milho supertransgênico, em caráter experimental, nas lavouras de teste que mantém no Brasil: Cachoeira Dourada (MG), Luis Eduardo Magalhães (BA), Não-Me-Toque (RS), Rolândia (PR), Santa Cruz das Palmeiras (SP) e Sorriso (MT). Isso foi autorizado, e hoje o MON 87429 está sendo cultivado nos campos da empresa – que não especifica em quais locais isso está sendo feito. Se o milho passar nos testes, e for aprovado pela CTNBio, será lançado comercialmente no país.

Mas ele não é o ponto final. A Bayer já está desenvolvendo sua próxima geração de transgênicos, os HT5, que toleram o uso de seis herbicidas: glifosato, dicamba, glufosinato, 2,4-D, PPO e HPPD. O mundo gira – e a esteira dos pesticidas nunca para de rodar.

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Fontes (1) monographs.iarc.fr/list-of-classifications (2) Overview of glyphosate-resistant weeds worldwide. Ian Heap e Stephen O. Duke, 2017. (3) International Herbicide-Resistant Weed Database (www.weedscience.org/Home.aspx). (4) Impacto econômico da resistência de plantas daninhas a herbicidas no Brasil. F Adegas e outros, 2017. (5) Endogenous tassel-specific small RNAs-mediated RNA interference enables a novel glyphosate-inducible male sterility system for commercial production of hybrid seed in Zea mays. L.H Yang e outros, 2018. (6) Engineering the Provitamin A (B-Carotene) Biosynthetic Pathway into (Carotenoid-Free) Rice Endosperm. P. Beyer e outros, 2000(7) Dicamba 2020: What went wrong in Iowa? B Hartzler e P Jha, 2020.

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