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Os 10 melhores filmes sobre o Japão na Segunda Guerra

Aliados dos nazistas, os japoneses deram trabalho para os Aliados no Pacífico – um conflito que rendeu alguns dos melhores filmes de guerra da história.

Texto: Alexandre Carvalho | Design: Andy Faria | Imagens: Divulgação


Túmulo dos Vagalumes (1988), de Isao Takahata

Honra ao mérito: Se não cair no choro, cuidado: você pode ser um robô.

O romancista japonês Akiyuki Nosaka viveu uma tragédia familiar na 2ª Guerra Mundial. Com a morte dos pais em bombardeios dos Aliados, ele ficou tomando conta das irmãs, e duas morreram de desnutrição – em meio à escassez de cidades devastadas pelos ataques aéreos. O escritor se culpou o resto da vida por essas mortes e transformou a experiência traumática em arte, no livro Túmulo dos Vagalumes, que virou este filme dirigido pelo craque da animação Isao Takahata (morto em 2018, realizador de obras delicadas, como O Conto da Princesa Kaguya).

Com toda a sofisticação visual da moderna animação japonesa, Takahata mostra o horror da guerra pelo microcosmo de uma dupla de órfãos: o adolescente Seita e sua irmãzinha Setsuko, que num bombardeio sobre a cidade de Kobe perdem a mãe, queimada no incêndio generalizado (o pai foi para a guerra e nunca mais voltou). Eles têm então de morar com uma tia, mas é um arranjo que não dura – por conta de como a guerra acaba afetando a personalidade dessa mulher. Antes receptiva e preocupada com o bem-estar dos sobrinhos, a tia vai se tornando amarga, mal adaptada às restrições forçadas pelo conflito – e começa a implicar com as crianças.

Quando ela chega ao extremo de lhes negar comida, os irmãos partem para se virar sozinhos entre as ruínas de Kobe, até que encontram um pequeno abrigo abandonado. É ali que o jovem Seita se esforça para reconstruir um ambiente familiar amoroso para sua irmã, inventando brincadeiras num cenário de total precariedade. Faltam comida e os recursos mais básicos. E faltam sobretudo os pais – os alicerces daquele núcleo, que desabaram junto com as casas atingidas pelo fogo. Para a iluminação do abrigo, à noite, os irmãos só contam com a luz verde de dezenas de vagalumes – insetos usados como metáfora da situação daqueles órfãos, conforme vão se enfraquecendo e perdendo a luz na iminência da morte. A progressiva fragilidade de Setsuko nessa jornada de sobrevivência – como soubemos da biografia do escritor que a inventou – será o golpe final na miséria do seu irmão mais velho: junto com a perda de sua irmãzinha, o garoto perde a vontade de viver. (Nota do editor: não assista ao filme sem um estoque de lenços ao lado.)

Túmulo dos Vagalumes foi produzido ao mesmo tempo que outro clássico da animação japonesa, Meu Amigo Totoro, de Hayao Miyazaki (criador de A Viagem de Chihiro). À época, os produtores acharam que seria uma boa estratégia comercial exibir os dois filmes em sessões duplas no Japão. Mas não deu muito certo. Os pais logo perceberam que este drama de guerra não era apropriado para meninos e meninas que iam assistir às aventuras dos personagens mágicos de Totoro – que tem uma história muito mais leve. Conforme a notícia se espalhou, o público começou a abandonar as salas após a exibição do filme “para criança”. Um lançamento que não fez jus à grandeza desta animação sensível – incluída na lista de melhores filmes de um dos maiores críticos de cinema da história, o americano Roger Ebert.

A harpa da Birmânia (1956), de Kon Ichikawa

Honra ao mérito: Faça uma oração, não faça a guerra.

O Japão também teve sua Nouvelle Vague, e um dos expoentes do movimento foi Kon Ichikawa. Neste filme, indicado ao Oscar de melhor estrangeiro, o diretor usa a 2ª Guerra como pretexto para falar de espiritualidade e transformação.

A história gira em torno de um pelotão japonês diferente, que suaviza a disciplina militar com exercícios musicais. Em direção à Birmânia, o grupo fica sabendo que a guerra terminou, mas que um outro pelotão se recusa a entregar as armas ao Exército inglês. É quando Mizushima, o tocador de harpa, é destacado para convencê-los a evitar mortes desnecessárias. Mas os resistentes consideram que perecer na guerra é melhor que a desonra da rendição – esgotando a paciência dos ingleses.

Testemunha da morte coletiva, Mizushima tem uma revelação espiritual. Abandona as roupas de soldado, veste um manto budista e assume uma nova missão: enterrar os corpos dos militares espalhados por todo canto. Para ele, todos merecem dignidade e conforto – nem que seja só o dedilhar de sua harpa.

Realizado dez anos após o fim do conflito, A Harpa da Birmânia é uma das primeiras obras do cinema japonês a tratar da derrota de seu país – e de um ponto de vista antimilitarista por excelência.

TORA! TORA! TORA! (1978), de Richard Fleischer, Kinji Fukasaku e Toshio Masuda

Honra ao mérito: É a reconstituição mais perfeita do ataque a Pearl Harbor.

“Receio que tudo que tenhamos feito seja acordar um gigante e enchê-lo de indignação.” A última fala do roteiro sai da boca do almirante Isoroku Yamamoto – que, como a maioria dos personagens principais, existiu de verdade. Ele foi o responsável pelo projeto japonês de atacar Pearl Harbor, base naval dos EUA no Havaí – a ação que colocou os americanos na 2ª Guerra.

O ataque aéreo – que destruiu 21 navios e 347 aviões, matando mais de 2 mil pessoas – é o clímax deste filme. O bombardeio é de um realismo que causa espanto para uma produção de 1970, com efeitos que parecem do cinema de hoje. Mas o longa-metragem não se limita a esse massacre. Tudo começa bem antes, com embaixadores negociando e a preparação orgulhosa da Força Aérea japonesa.

Uma coprodução EUA-Japão, Tora! Tora! Tora! conta os dois lados dessa história – e surpreende pela honestidade. Do lado americano, ficam expostas as displicências que tornaram a base naval mais vulnerável – a ponto de os aviões inimigos se aproximarem sem ser incomodados. Já nas sequências do lado japonês – dirigidas por japoneses –, há a vergonha pelo serviço diplomático não transmitir a declaração de guerra antes da investida – um “cavalheirismo” já desnecessário à época. E mais: o receio de qual seria a dimensão do contra-ataque americano. Não imaginavam que aquela ação – o ápice da revolta contra um embargo comercial imposto pelos EUA – seria o rascunho de uma imagem que assombraria o planeta: o cogumelo atômico de Hiroshima.

Até o último homem (2016), de Mel Gibson

Honra ao mérito: Mostra um supersoldado – que nunca deu um tiro.

Adventista do sétimo dia, o americano Desmond Doss se alistou para ajudar seu país na guerra contra o Japão. Mas impôs uma condição a si mesmo: não encostaria as mãos numa arma. Jamais mataria alguém. E manteve sua convicção: foi para o combate sempre desarmado, atuando como socorrista. E virou uma lenda. Em 1945, na Batalha de Okinawa, salvou sozinho 75 homens feridos em ação – testemunhas dizem que foram mais. Por isso, tornou-se o primeiro objetor de consciência a receber a Medalha de Honra do Congresso.

Acostumado a retratar heróis que se destacam à custa dos maiores sacrifícios – como em Coração Valente ou A Paixão de Cristo –, Mel Gibson encontrou nesse soldado (interpretado por Andrew Garfield) o personagem arquétipo do seu cinema. E apostou certo. Indicado ao Oscar, Até o Último Homem foi a redenção do diretor, após ter se tornado um pária na indústria. (Depois de beber umas e outras, o Mad Max fez declarações antissemitas – e ninguém mais queria saber dele em Hollywood.)

Além da linha vermelha (1998), de Terrence Malick

Honra ao mérito: É o mais poético dos filmes desta revista.

Resumir o filme ao drama de soldados na sangrenta campanha de Guadalcanal – ilha estratégica no Pacífico – não dá ideia do que é esta produção, marcada por reflexões e imagens de rara poesia. À época, Malick era um diretor bissexto. Além da Linha Vermelha foi sua primeira obra em 20 anos – mas a espera valeu.

Embora haja sequências eletrizantes, com os americanos muitas vezes superados pela infantaria japonesa, o filme é permeado por uma investigação espiritualista da essência do conflito. “Este grande mal, de que semente, de que raiz ele brota?”, pergunta o soldado Train (John Dee Smith) numa analogia entre a batalha e as forças da natureza. Já Bell (Ben Chaplin) mantém o alento pensando no amor de sua vida: “Querida esposa, algo se deforma na gente no meio de todo esse sangue, sujeira e ruído.

Eu quero permanecer imaculado para você. Quero voltar como o homem que eu era antes”. Mas, em matéria de filosofia, nada supera os diálogos entre o desertor Witt (Jim Caviezel) e o sargento Welsh (Sean Penn): diferentes em tudo, buscam compreender o papel do outro e de si mesmos naquela situação absurda – o estar em guerra. Querem descobrir a tênue linha vermelha que separa a loucura da sanidade.

O COMEÇO DO FIM

No início de 1943, o Exército japonês havia chegado ao topo de seus avanços na 2ª Guerra. A Batalha de Guadalcanal, vista em Além da Linha Vermelha, marca a virada de jogo dos EUA. Dali para a frente, o Japão iria se encolhendo ao próprio território até a rendição – não antes que bombas atômicas explodissem no país.

Cartas de Iwo Jima (2006), de Clint Eastwood

Honra ao mérito: É a perspectiva japonesa de uma batalha-chave.

“Se nossas crianças puderem viver um único dia a mais em segurança, terá valido a pena termos conseguido defender esta ilha por um dia a mais”, brada o general Kuribayashi (Ken Watanabe), no comando das forças de defesa. “Não esperem voltar vivos.” O tom suicida faz sentido. Os japoneses tinham menos recursos e estavam fragilizados. Mas a ilha de Iwo Jima era o último obstáculo entre os Aliados e o Japão. Os orientais lutaram como kamikazes, e atrasaram tanto quanto possível a conquista americana.

A conquista da honra (2006), de Clint Eastwood

Honra ao mérito: Expõe a farsa de um mito americano.

“Muito quente! Muito quente!”, gritava a menina vietnamita, correndo nua com o corpo queimando de napalm. A foto que registrou esse momento é a imagem mais icônica da Guerra do Vietnã. E é emblemática de uma intervenção americana duramente contestada. Diferente da participação na 2ª Guerra, quando não deixar barato o ataque a Pearl Harbor parecia uma questão de amor-próprio. Daí a lógica de a imagem mais simbólica dessa jornada ter expressado patriotismo e vitória: a foto de soldados fincando a bandeira americana em Iwo Jima, palco de um dos combates mais árduos do Pacífico.

A Conquista da Honra é o primeiro lançamento de Eastwood a respeito da Batalha de Iwo Jima, feito praticamente ao mesmo tempo que o número 6 desta página. E seu trunfo está em desafiar as lendas de retidão do episódio. Mostra que a indústria de mitos quis se beneficiar do sucesso da foto, resgatando da luta três dos soldados retratados e os expondo como garotos-propaganda – para levantar fundos. Os rapazes são pintados como super-heróis, enquanto só haviam estado na hora certa, diante do clique certo. Mas eles sabem disso. E sofrem os danos psicológicos de quem – sob os holofotes da glória – mais se envergonha que se orgulha.

A um passo da eternidade (1953), de Fred Zinnemann

Honra ao mérito: Transformou uns amassos na praia na maior cena de paixão do cinema. E isso num filme de guerra.

Em O Poderoso Chefão, Vito Corleone manda seu advogado convencer um produtor de cinema a empregar um artista protegido da máfia. O produtor se nega a princípio. E acorda na manhã seguinte com uma cabeça de cavalo encharcando sua cama de sangue. Essa passagem do filmaço de Coppola é inspirada numa lenda urbana: a de que a participação de Frank Sinatra em A Um Passo da Eternidade tivesse sido imposta por amigos mafiosos, numa época em que a carreira do cantor andava em baixa.

Se for verdade mesmo, o crime organizado fez um favor ao cinema: a atuação de Sinatra no papel de Maggio, um soldado rebelde, é tão pungente que o cantor ganhou o Oscar. Apenas uma das oito estatuetas que a produção levou, incluindo melhor filme.

Mas Maggio é só coadjuvante de uma história de bulling e romance, que se passa em Pearl Harbor – na iminência do ataque dos japoneses. Prewitt (Montgomery Clift) é um ex-boxeador que chega à base naval para delírio de um capitão, que deseja que o soldado represente a companhia numa competição. Mas Prewitt não quer mais saber de boxe. Por conta disso, sofre as piores perseguições a mando do oficial, que não se conforma com a negativa. Aliás, esse capitão não anda numa maré de sorte. Sua esposa se envolve com um sargento (Burt Lancaster), e os dois protagonizam uma das cenas mais antológicas de pegação do cinema: a imagem do casal se agarrando enquanto rola na areia da praia, com as águas do mar beijando seus corpos.

Império do Sol (1987), de Steven Spilberg

Honra ao mérito: Vê a ocupação da China pelos olhos de um menino.

O garotinho Jim, protagonista deste filme, é ele mesmo: Christian Bale, que ficaria famoso no futuro sob a capa do Batman. Aqui seu personagem é um estudante britânico rico que mora com os pais em Xangai. Mas durante a 2ª Guerra, péssima hora para se estar na China. A cidade é tomada pelos japoneses e, em meio ao caos, Jim acaba se separando da família. Fica por conta própria – e acaba num campo de prisioneiros. Mas as amizades que ele conquista o ajudarão a transformar essa crise numa jornada heroica.

Inferno no Pacífico (1968), de John Boorman

Honra ao mérito: Apresenta uma miniatura de EUA x Japão.

Um único cenário, dois personagens: inimigos que se enfrentam por domínio de território e para se sobrepor ao outro. Mas acabar com a raça do antagonista pode não ser bom negócio. Há quem vá se lembrar de um clássico da Sessão da Tarde com a mesma premissa: Inimigo Meu, com Dennis Quaid. Mas o filme dos anos 1980 era uma ficção científica, e os oponentes eram de galáxias diferentes.

Já os personagens de Inferno no Pacífico são todos terráqueos: há um piloto americano (Lee Marvin) e um capitão japonês (Toshiro Mifune, o principal ator do cinema do Japão, estrela de Os Sete Samurais). São soldados de nações em conflito, então eles próprios se sentem numa guerra particular, mesmo que sejam os únicos habitantes de uma ilha inóspita, onde foram parar não se sabe por quê – as cenas iniciais já apresentam os dois na praia deserta.

Boa parte do filme trata do duelo desses náufragos que se odeiam, não falam a mesma língua e usam da violência para disputar recursos essenciais de sobrevivência, como um estoque de água doce. Mas o ódio tem hora para acabar: logo vem a compreensão humana de que um precisa do outro. No mínimo para não enlouquecer – já que o verdadeiro inimigo nesse inferno é a solidão.