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Cultura

Os 10 melhores filmes sobre a Guerra do Vietnã

A opinião pública revoltou-se contra o envio de mais jovens para o Vietnã – e o cinema seguiu essa linha de contestação. Pela primeira vez na história dos filmes de guerra, o Exército americano assumia papéis de vilão.

Texto: Alexandre Carvalho | Design: Andy Faria | Imagens: Divulgação

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planeta todo comemorou. Sem a intervenção dos Estados Unidos na 1ª e, principalmente, na 2ª Guerra, a história do mundo seria outra. Provavelmente pior. O país parecia predestinado à glória nos grandes conflitos entre nações. Até que a decisão de se intrometer na guerra de um pequeno país do Sudeste Asiático deu fim à exuberância dessa autoimagem.

A Guerra do Vietnã durou muito mais do que as autoridades dos EUA imaginavam – mais que as duas grandes guerras juntas. Quase 60 mil soldados americanos morreram em combate – e militares abusaram de matar civis vietnamitas. A opinião pública revoltou-se contra o envio de mais jovens para a Ásia – e o cinema seguiu essa linha de contestação. Pela primeira vez na história dos filmes de guerra, o Exército americano assumia papéis de vilão.

Nascido para Matar

Stanley Kubrick – 1987

Honra ao mérito: Mostra a formação de soldados com um mergulho na psicose.

Os anos 1980 foram cheios de filmes a respeito de soldados em treinamento – A Força do Destino, O Destemido Senhor da Guerra… Mas nenhum deixa a sensação de uma joelhada no baço como este aqui. Seguindo a linha Kubrick de personagens diabólicos, o sargento Hartman é um sádico que comanda o treinamento de fuzileiros navais que vão para o Vietnã, num esforço para desarranjar o equilíbrio psicológico da rapaziada. Sua vítima preferida é o soldado Pyle (Vincent D’Onofrio) porque este – meio abobado – parece não saber o que foi fazer ali.

O oficial chega perto de estrangulá-lo por causa de um sorriso besta numa descompostura. Esse perfil psicótico também se revela no discurso. Em uma cena emblemática, o oficial se orgulha de Lee Harvey Oswald ter aprendido a matar com os marines – tão bem que acertou o crânio do presidente Kennedy num carro em movimento. Em outra cena, após dizer que os aprendizes estão casados com suas armas (“a única vagina em que vocês vão encostar”), manda que troquem o Pai-Nosso antes do sono por uma “Oração ao Rifle”. Pagar flexões é um refresco perto das bizarrices.

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O objetivo desse estorvo todo é anular as personalidades dos soldados e transformá-los em autômatos programados para matar – até seus nomes são trocados por apelidos pejorativos, uma forma de apagar qualquer traço de identidade. O problema é que esses robôs humanos podem ter reações imprevisíveis – como veremos no clímax ultraviolento dessa primeira parte do filme.

Veterano de guerra, o ator Lee Ermey, que interpreta esse sargento, havia sido contratado de início apenas como consultor militar – trabalho que já fizera em outras produções, como Apocalypse Now. Mas ele já chegou determinado a roubar o papel. Diante da recusa do diretor, que achava que ele não tinha cara de perverso, Ermey insistiu: aproximou-se de jovens atores que estavam fazendo testes para recrutas e começou a esbravejar ao estilo de um militar casca grossa, humilhando-os a ponto de os garotos desabarem em prantos. Kubrick ficou convencido na hora – estava diante de um intimidador nato.

Na segunda parte, os fuzileiros já estão em plena guerra. É quando o personagem principal, o soldado Joker (Matthew Modine), dá mostras da ambivalência que irrompe quando se é estimulado a matar. Dá para manter uma autoimagem positiva após tirar a vida de alguém? Em Além da Linha Vermelha, o soldado Bell, que nos é apresentado como um modelo de integridade e apego aos valores que deixou em casa, fica paralisado quando acerta um inimigo pela primeira vez: “eu matei um homem…”.

É uma pequena vitória, mas sua expressão é de incredulidade – “que espécie de pessoa sou eu agora?” Joker não chega às mesmas elucubrações filosóficas – lembremos que foi blindado emocionalmente –, mas compartilha dessa ambiguidade. Seu capacete tem o símbolo hippie da paz e também a expressão born to kill (“nascido para matar”). Já nas cenas finais, espantado ao descobrir que o sniper vietcongue que estava eliminando seus companheiros não passa de uma menina, Joker balançará entre a piedade e o puro prazer de puxar o gatilho. A conclusão, como nos melhores enredos, o diretor deixa a cargo do espectador.

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E vale aqui um comentário final para lamentar que, entre tantas traduções desastrosas de nomes de filmes, “Nascido para Matar” seja especialmente infeliz – e incorra em dois pecados capitais. O primeiro é que a versão original tem estreita relação com essa perda da humanidade pela qual os jovens passam no treinamento. Full Metal Jacket diz respeito ao revestimento de metal mais duro de certas balas, uma analogia com o processo da perda de sensibilidade dos soldados. O segundo pecado é que o título em português acaba vendendo a grande arte de Stanley Kubrick como se fosse uma das vendetas brucutus de Charles Bronson.

PLATOON

Oliver Stone – 1986

Honra ao mérito: Deu o 1º Oscar de direção a um veterano de guerra.

Se as drogas e o alcoolismo não tivessem abreviado a vida do cantor, em 1971, Jim Morrison, dos Doors, talvez fosse o ator principal deste filme – um primeiro esboço do roteiro estava com o Rei Lagarto quando ele morreu numa banheira em Paris. Morrison era o artista que Oliver Stone queria para viver na tela as experiências que o diretor teve no Vietnã – Stone foi ferido duas vezes em combate e recebeu medalhas por bravura e heroísmo. Depois, virou militante contra a guerra.

O diretor queria que seu filme fosse uma resposta a Os Boinas Verde, de John Wayne, que glorifica a intervenção americana no Sudeste Asiático. Para Stone, não havia o que exaltar. A guerra era um inferno para onde partiam garotos cheios de ilusões de grandeza. Jovens que voltavam transformados com a degradação humana. A cena em que o soldado Chris Taylor (Charlie Sheen, que entrou na “vaga” de Morrison) impede que uma garota vietnamita seja estuprada por americanos é inspirada num acontecimento real – o próprio Stone interveio para impedir a violência num vilarejo.

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Por essas e outras, Stone foi um diretor obcecado em resgatar o que viu, a ponto de encomendar pacotes especiais de Marlboro – ele queria que o tom cereja dos maços fosse idêntico ao que era nos anos 1960. Tanta exigência de realismo, nas locações selvagens das Filipinas, foi demais para alguns atores. Johnny Depp vomitava de nervoso entre as tomadas.

Assim como tinha acontecido com o diretor, Chris Taylor é um universitário que vai para o Vietnã como voluntário. Mas, assim que chega ao campo de batalha, todo o seu entusiasmo se transforma em angústia e impotência. Além de ter de enfrentar o inimigo, o soldado precisa sobreviver às hostilidades entre os recrutas no próprio pelotão – e conviver com sargentos muito diferentes entre si. Elias (Willem Dafoe) é quase um hippie, compreensivo e que serve como mentor dos mais novos. Já Bob Barnes (Tom Berenger, no melhor papel de sua vida) é um oficial cuja violência está marcada em seu rosto, cheio de cicatrizes.

A rivalidade entre esses dois sargentos será um dos pontos altos do filme, transformando a visão do protagonista quanto à natureza da guerra. Diferente de produções que destacam a ascensão do homem comum ao panteão dos heróis, Platoon revela que, do ponto de vista do cume, da infantaria, a guerra é muito mais uma questão de sobrevivência que de valentia.

Corações e Mentes

Peter Davis – 1974

Honra ao mérito: É o registro definitivo da Guerra do Vietnã.

Este documentário virou de ponta-cabeça a maneira como os americanos percebiam a Guerra do Vietnã. Àquela altura, o conflito já agonizava, a opinião pública já era consensual de que os soldados deveriam voltar para casa. Mas, vista e editada pela TV, a guerra parecia algo possível de absorver – fruto de uma ação estruturada, ainda que polêmica.

O filme de Peter Davis acabou com essa ilusão. Ele mostra, sem o filtro da ficção, quão contraditória, desorganizada e cruel foi a intervenção dos EUA no Vietnã. E também quão racista era a ideia que se tinha do inimigo. Numa cena, o general Westmoreland diz que o oriental não dá o mesmo valor à vida que o ocidental. Imediatamente, o filme responde com cenas de luto dos locais. Outro ataque a essa visão estereotipada acontece graças a uma inovação: pela primeira vez, um documentário dá voz aos vietnamitas.

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E aí fica impossível não se sensibilizar com histórias como a de um homem que ganhava a vida fazendo caixões. “Muitas bombas, muitos caixões”, ele explica. “Estes aqui são para crianças, 800 ou 900 por semana. Eu mesmo perdi sete filhos. Mas isso não é nada perto do que está acontecendo no interior. Lá morre mais gente, não tem caixão para todo mundo.” Nixon e Kissinger recusaram-se a falar para o documentarista. Dá para entender por quê.

O Sobrevivente

Werner Herzog – 2006

Honra ao mérito: Deixa claro que na guerra, manter a sanidade é a grande batalha.

Diretor de filmes de arte aclamados, Herzog de vez em quando se envolve em produções comerciais para pagar as contas. Mas mesmo esses são filmes acima da média. Sua história sobre um piloto (Christian Bale) que se torna prisioneiro no Vietnã vai muito além do arroz com feijão. O primeiro passo para que um plano de fuga dê certo é lidar com o estado psicológico – em frangalhos – de seus companheiros de cárcere. E dele mesmo.

Sob a Névoa da Guerra

Errol Morris – 2003

Honra ao mérito: Traz Maquiavel para o século 20.

Antes de apelidar um filme qualquer como uma aula de história, primeiro veja este aqui. Ganhador do Oscar de melhor documentário, tem um professor que é também protagonista na vida real de alguns dos acontecimentos capitais do século 20: Robert S. McNamara, o secretário de Defesa dos EUA nos governos Kennedy e Lyndon Johnson. Numa longa entrevista, esse senhor, já aos 85 anos, responsável por políticas que decidiram sobre a vida de milhares de pessoas, conta tudo o que viu.

Fala sem papas na língua a respeito da crise dos mísseis em Cuba (“foi só a sorte que evitou um conflito nuclear”) e onde o país errou na Guerra do Vietnã. Aliás, onde ele próprio errou. “Somos a nação mais poderosa do mundo. Mas jamais deveríamos aplicar nossa força econômica, política ou militar de forma unilateral. Se tivéssemos seguido essa regra no Vietnã, não teríamos ido.”

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E tira daí 11 lições, ao estilo de A Arte da Guerra – o tratado militar de Sun Tzu, top 1 entre os gurus corporativos. Como esta: “Para fazer o bem, você pode ter de praticar o mal”. O diretor emoldura esse Maquiavel do século 20 em composições assimétricas, nas quais o rosto de McNamara domina todos os espaços. Como se oprimisse o espectador de forma a não deixar dúvida: esse foi um homem que se deveria temer. Os vietnamitas que o digam.

Fomos Heróis

Randall Wallace – 2002

Honra ao mérito: Tem ação garantida – helicópteros no 1º grande combate da guerra.

Sabe todos esses filmes de Vietnã com pinta de Woodstock? Muita maconha, trilha de rock…? Esqueça. Não é o caso aqui. Não quando se tem Mel Gibson como líder inspirador de uma cavalaria de helicópteros. Também porque o filme trata de uma época em que ainda havia idealismo na causa: 1965, ano da primeira batalha dos EUA contra os norte-vietnamitas.

Bom Dia, Vietnã

Barry Levinson – 1987

Honra ao mérito: Lançou ao mundo um dos melhores comediantes do cinema.

A carreira de Robin Williams estava longe de ser um estouro até meados dos anos 1980. Só havia chamado a atenção com o papel principal de Popeye – uma comédia mediana, e olhe lá. A oportunidade que mudou sua vida foi interpretar um radialista americano iconoclasta em pleno Vietnã – era a chance de soltar sua espalhafatosa metralhadora de palavras. E seu personagem existiu mesmo: o DJ Adrian Cronauer atuou em Saigon nos anos 1960, com a missão de entreter as tropas.

Apesar de ter sido inovador, rejuvenescendo as transmissões, o próprio Cronauer assume que nunca chegou nem perto da irreverência do retrato que Williams faz dele. Chegou a comentar que, se dissesse as coisas que o ator fala ao microfone – grande parte improvisos do artista –, provavelmente acabaria preso e julgado pelo Exército. Corte Marcial talvez até fosse um exagero – mas faz algum sentido, sim.

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Como na sequência hilária em que Cronauer/Wiliams (mais Williams que Cronauer) insere a própria voz fazendo perguntas na gravação de uma coletiva de imprensa de Richard Nixon, alterando o sentido das respostas. Olha só.

Cronauer: “Sr. Nixon, obrigado pelo comentário político conciso, mas acho que seria melhor para os homens no campo de batalha que sondássemos algo mais pessoal. Como você descreveria os seus testículos?”
Nixon: “Eles são molengas e não servem para nada”. (Na verdade, o presidente se referia aos vietnamitas.)
Cronauer: “É isso mesmo que o senhor está dizendo?”
Nixon: “Sim, falta a eles força física”.

Tigerland – A Caminho da Guerra

Joel Schumacher – 2000

Honra ao mérito: Tem o melhor da rebeldia de soldados confinados.

As plateias americanas adoram ver seus soldados sendo humilhados – e por militares do próprio país. Filmes dedicados ao treinamento dos recrutas poderiam constituir um subgênero em si, tantas as produções com esse ponto de partida: Os 12 Condenados já era nessa linha, assim como Nascido para Matar.

Tigerland faz bonito nessa tradição. A trama envolve um pelotão sofrendo as agruras e vexações de um treinamento para ir à Guerra do Vietnã. Mas, antes de partir para a Ásia, eles ainda vão passar por uma simulação realista do que seria a selva asiática: os pântanos terríveis de um outro campo, que leva o nome que dá título ao filme. Se eles precisam desenvolver ódio ao inimigo, não há formação melhor: Roland Bozz (Colin Farrell) é um rebelde que faz tudo para irritar seus superiores – e alguns colegas também.

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É o caso do recruta psicopata Wilson, que vai tornar esse período em Tigerland mais arriscado para Bozz do que encarar um batalhão de vietcongs. Além da tensão constante, aliviada aqui e ali pela graça das insubordinações, o filme cresce com a transição da imaturidade para a liderança de Bozz. Uma passagem que Farrell transmite com solidez – neste seu primeiro grande papel no cinema.

O Exército Inútil

Robert Altman – 1983

Honra ao mérito: Prova que a intolerância está na gênese de qualquer guerra.

Embora seja uma obra menos conhecida de Altman, este é um dos melhores filmes a respeito da preparação para a Guerra do Vietnã. Enquanto outras produções com o mesmo tema apostam nos exercícios de simulação em campo, O Exército Inútil é teatro filmado – e quase tão claustrofóbico quanto um submarino. Tudo se passa dentro de um único cenário: um dormitório militar, onde um quarteto de jovens recrutas conversam, riem e tem conflitos enquanto espera a chamada para o embarque rumo à Ásia.

O diretor dá a entender – numa crítica velada – que esses garotos foram privados de toda a liberdade de pensamento. E talvez seja essa incapacidade de reflexão o gatilho para as angústias em relação uns aos outros, que vão aumentando de intensidade.

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No fundo, o confinamento pré-combate é o verdadeiro campo de batalha: um subterfúgio para que o grupo, protagonizado pelo soldado Billy (Matthew Modine), discuta questões como racismo e diferenças de classe. E tem mais. Este é o primeiro filme de Vietnã a abordar uma verdade inconveniente para a mentalidade militar: a presença de homossexuais entre os pelotões. Para quem foi proibido de pensar, isso pode ser mais perturbador que um fuzil apontado para o rosto.

Pecados de Guerra

Brian de Palma – 1989

Honra ao mérito: Mostra a bravura de ser a voz da razão – quando a razão está morta.

Em novembro de 1966, soldados americanos de um mesmo grupo resolveram que seria agradável ter alguma descontração entre as trocas de tiros. Então sequestraram uma jovem vietnamita e a submeteram a estupro coletivo – antes de assassiná-la. O sargento que liderou esse crime de guerra argumentava que o plano infame seria “bom para o moral” dos homens. Isso é história.

O Exército tentou esconder o caso de todo jeito até que, três anos depois, o jornalista Daniel Lang contou tudo na revista The New Yorker. Como é de se imaginar, não foi bom para o moral. Essa barbaridade foi a inspiração para que Brian de Palma abordasse a questão delicada de como guerreiros podem perder toda a ética em situações extremas – quando o próprio comando estimula um “vale tudo” contra o inimigo. Até a mais sórdida das transgressões.

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No filme, o contraponto à falta de limites é o soldado Eriksson (Michael J. Fox). Ele age como a consciência incômoda desse grupo, batendo de frente com o sargento Meserve (Sean Penn), o mais tarado e sociopata ali. Mas ele está em minoria. Eriksson aprende da maneira mais brutal que permanecer íntegro num contexto de violência generalizada é dos tipos mais complexos de heroísmo: o do tipo suicida.