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Cultura

Os 5 melhores filmes de guerra no Oriente Médio

Terroristas, como nazistas, são figuras sem meios-tons: inimigos banhados em psicopatia. E pior: elegeram os EUA como o grande Satã. Assim, a ordem inicial das coisas voltou a imperar nos filmes de guerra... de guerra ao terror. São mocinhos americanos contra a própria encarnação do mal, promotora das mais terríveis distopias.

Texto: Alexandre Carvalho | Design: Andy Faria | Imagens: Divulgação

O espetáculo aterrorizante que foi a queda das Torres Gêmeas teve o efeito de uma bomba nuclear sobre o orgulho americano. A ressonância desse ataque terrorista na psique do país é incalculável – e vai se estender por um tempo impossível de imaginar, mesmo 18 anos depois do atentado. Para o cinema, em contraste, o ataque restabeleceu uma harmonia perdida desde a Guerra do Vietnã. Terroristas, como nazistas, são figuras sem meios-tons: inimigos banhados em psicopatia. E pior: elegeram os EUA como o grande Satã. Assim, a ordem inicial das coisas voltou a imperar nos filmes de guerra… de guerra ao terror.
São mocinhos americanos contra a própria encarnação do mal, promotora das mais terríveis distopias.

Guerra ao Terror (2008), de Kathryn Bigelow

Honra ao mérito: Deu o 1º Oscar de direção a uma mulher – num gênero dominado pelos machões.

Numa perspectiva histórica, a Guerra do Iraque ainda é material recém-nascido. Mas já rendeu um dos melhores filmes a respeito da intervenção militar dos Estados Unidos em outros países. E num contexto original: a ação de soldados que atuam longe das vanguardas do Exército, arriscando a pele num esquadrão antibombas. São militares que encaram a morte todos os dias – teriam dificuldade em fazer um seguro de vida – para desligar (ou explodir em segurança) artefatos bélicos, que no Iraque frequentemente eram do tipo IED (Improvised Explosive Devices – dispositivos explosivos improvisados) – um tipo de bomba escondida em escombros, que pode ser detonada tanto ao contato quanto a distância, por celular. A tarefa é ainda mais complicada quando o inimigo que vai apertar o botão pode ser o velhinho da esquina ou outro civil de aparência inofensiva.

Em vez de mandar na frente um robô com câmera para investigar se há de fato uma bomba em meio a destroços suspeitos, o impaciente William James (Jeremy Renner) decide ele mesmo entrar na “zona da morte” – o perímetro em que uma explosão já seria fatal. E às vezes até sem o uniforme de proteção. Esse sargento recém-chegado à tropa de elite alocada em Bagdá é um rebelde que parece amar o risco, indisciplinado na tarefa que mais exige disciplina no mundo. Não é à toa, portanto, que o instinto autodestrutivo do sargento acabe criando faíscas no relacionamento com o resto do time, que tem mais amor à vida.

De certa forma, o protagonista representa muitos dos soldados reais, que experimentam uma espécie de euforia e plenitude enquanto estão sob perigo – e se tornam viciados na adrenalina. Tanto que acabam se sentindo deslocados ao voltar para casa, desconfortáveis em tempos de paz. A neurociência já explicou que o estresse pode causar um pico de prazer natural ao ativar os centros de alerta e atenção em nosso sistema nervoso periférico. E também pode despertar os circuitos neurais ligados ao desejo – exatamente como as drogas fazem.

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Ao direcionar sua câmera para esses conflitos dos militares, deixando de lado o questionamento – mais comum à época – sobre as razões de os EUA estarem invadindo o Iraque, o filme se concentra na essência do soldado, e não na essência da guerra. E haja suspense numa trama em que cada cena pode trazer uma explosão.

“Fiz esse filme para mostrar o preço do heroísmo”, explicou a diretora Kathryn Bigelow à época do lançamento. “Porque, no final das contas, toda guerra deve ser medida pelo número de vidas perdidas e de lares arruinados. Não pelas políticas que surgem dos conflitos.” Também dá para chamar de heroica toda a equipe presente nas locações. As filmagens foram feitas na Jordânia – empregando refugiados iraquianos como figurantes – em meio a tempestades de areia e um calor de 46 graus. Um transtorno físico diário, que rendeu uma insolação para o diretor de fotografia e uma tortura para alguns dos atores – aqueles que precisavam se vestir com os trajes verdadeiros dos técnicos militares que desarmam bombas.

Mas o sacrifício valeu a pena: foi acertadamente recompensado na premiação mais popular do meio cinematográfico. A festa do Oscar 2010 estava toda armada para coroar a superprodução Avatar, do diretor James Cameron. Mas esse Golias acabou levando só prêmios técnicos para casa. E ainda viu Guerra ao Terror, um trabalho de baixo orçamento – e pouca bilheteria –, faturar seis estatuetas, incluindo melhor filme do ano, direção e roteiro.

A grana para a produção era tão irrisória que nenhuma cena filmada ficou fora da edição final. Mas o filme entraria para a história por outro motivo. Em pleno século 21, na 82ª edição do Oscar, pela primeira vez uma mulher estava na direção do filme campeão. Uma conquista tão difícil quanto desarmar bombas.

A Hora Mais Escura (2012), de Kathryn Bigelow

Honra ao mérito: Reconstitui a operação militar que matou Bin Laden.

No início, só a tela escura e um emaranhado de vozes – mensagens de rádio e diálogos telefônicos. “Acho que sequestraram o avião.” “Mãe, você deve saber que um avião atingiu o World Trade Center 1. Estamos bem.” “Vocês vão mandar alguém? O andar está em chamas.” “Uma das torres desabou.” “Meu deus…” Do desespero crescente nas falas das vítimas e testemunhas do 11 de Setembro, o filme pula dois anos para a frente, para uma prisão secreta em “local não identificado”. Na cela mal iluminada, um dos terroristas envolvidos com o ataque é torturado por agentes da CIA – por simulação de afogamento. O objetivo é obter informações que levem ao mandante do atentado que matou 3 mil americanos, em plena Nova York, e levou o país à Guerra do Afeganistão: Osama bin Laden.

Outra incursão de Kathryn Bigelow no Oriente Médio – é a mesma diretora de Guerra ao Terror –, A Hora Mais Escura dramatiza os anos de erros e acertos dos EUA na caça ao inimigo público número 1 do país. E isso inclui 25 minutos de uma reconstituição de arrepiar da missão que localizou e matou Bin Laden. Jessica Chastain interpreta uma agente obcecada pela perseguição e que, a despeito do pouco caso dos colegas homens, descobre pistas fundamentais que levarão ao esconderijo do terrorista. A personagem é baseada numa pessoa real. Robert O’Neill, o SEAL da Marinha que puxou o gatilho contra a cabeça do chefão da Al-Qaeda, afirmou em sua autobiografia que a agente por trás da ficção foi a mulher mais corajosa que ele já viu.

Três Reis (1999), de David O. Russell

Honra ao mérito: Brinca de caça ao tesouro na ressaca da Guerra do Golfo.

Este filme ficou mais conhecido pelos nervos à flor da pele durante as filmagens: George Clooney se revoltou com a forma arrogante como David O. Russell tratava a equipe técnica e deu um soco no diretor. Mas Três Reis é muito mais interessante que seus bastidores. A começar pela época em que a história se situa: o final da Guerra do Golfo (1991), quando Saddam Hussein já tinha entregado os pontos, e soldados americanos e iraquianos se viam entre o alívio e o risco de mais violência. É nesse contexto que dois sargentos (Mark Wahlberg e Ice Cube) descobrem um mapa que supostamente levaria às barras de ouro escondidas de Saddam.

Liderado por um major encrenqueiro (Clooney), o trio ganancioso parte clandestinamente para uma região proibida do deserto, descobrindo que não vai ser fácil roubar essa Mega Sena das fortalezas do ditador. E o que se vê na tela é uma boa combinação de gêneros: um filme de guerra que também é caça ao tesouro, que tem passagens hilariantes e uma reviravolta humanista.

Restrepo (2010), de Tim Hetherington e Sebastian Junger

Honra ao mérito: Documentário que coloca o espectador na mira dos talibãs.

Este documentário é uma impressionante demonstração de coragem de seus diretores. Os dois acompanharam, ao longo de um ano, um pelotão do Exército americano em combate contra os talibãs. Filmaram os soldados em plena troca de tiros, com as balas passando de raspão por suas cabeças… e matando militares ao lado dos cineastas.

Colocar a câmera no centro da ação é o que dá ao espectador a sensação de ver uma guerra de verdade. A cada colega morto nos enfrentamentos, há choro e desespero – diferente da imagem de homens de aço que a ficção mostra. E os soldados são só garotos – que poderiam estar numa festa de faculdade. O filme alterna as cenas no Afeganistão com depoimentos em estúdio, feitos posteriormente. Fica óbvio que alguns entrevistados estão em choque pós-traumático.

E não é para menos. A missão deles era estabelecer um posto de observação numa das regiões mais perigosas para os americanos, o vale Korangal, onde o pelotão fica muito exposto aos ataques do inimigo. Corajosos? Sim. Mas o documentário também mostra o lado ruim da natureza humana. Soldados divertem-se atirando, como se jogassem videogame. E numa dessas matam civis, ferem crianças… Restrepo é o fim da ingenuidade de quem está de fora.

O Grande Herói (2013), de Peter Berg

Honra ao mérito: Mostra um fracasso gigante dos EUA no Afeganistão.

Este filme de muita ação conta a história verdadeira de Marcus Luttrell (interpretado por Mark Wahlberg), um SEAL da Marinha americana, e a malfadada Operação Red Wings, na Guerra do Afeganistão. Quatro combatentes são designados para eliminar um líder talibã em território inimigo. Mas pastores aparentemente bonzinhos denunciam o grupo para os terroristas. Resultado: eles sofrem uma emboscada e são encurralados num desfiladeiro. O resultado você pode concluir traduzindo o título original do filme – faça seu próprio spoiler.

3 GUERRAS AFRICANAS

Conflitos armados no continente negro que fizeram bonito nas telas.

A Batalha de Argel (1966), de Gillo Pontecorvo

Este épico a respeito da revolução que levou à independência da Argélia, opondo os locais ao Exército francês, é um dos grandes clássicos do cinema. O filme é exibido até hoje na CIA e no Pentágono por mostrar a visão dos guerrilheiros africanos, que serviria como referência para entender a mente de terroristas.

Falcão Negro em Perigo (2001), de Ridley Scott

Em 1993, os EUA lideraram uma ação das Nações Unidas na Guerra Civil da Somália – segundo os críticos, os americanos estavam atrás de petróleo. O filme mostra o episódio real em que dois helicópteros das Forças Especiais são abatidos – e os esforços para resgatar os sobreviventes em meio ao fogo somali.

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Beasts of No Nation (2015), de Cary Joji Fukunaga

Neste que é o primeiro filme original da Netflix, o diretor de True Detective mostra o drama das crianças que vão para a guerra à força na África. O menino Agu tem sua infância devastada ao se juntar a um grupo de soldados de um país fictício – e se torna testemunha (e participante) das maiores atrocidades.

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