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Cultura

Os 50 filmes mais inteligentes de todos os tempos – Vida extraterrestre

Os aliens costumam aparecer como seres antropomórficos. Mas há belas exceções a essa falta de criatividade.

por Alexandre Carvalho Atualizado em 7 jul 2020, 15h42 - Publicado em 4 mar 2020 18h51

Por tocar em temas do universo da ciência, os bons filmes de ficção científica, vira e mexe, exigem mais de seus roteiristas. E nos permitem viajar aos extremos da inteligência no cinema.

Texto: Alexandre Carvalho | Edição de arte: Estúdio Nono | Design: Andy Faria
Ilustrações: Cristina Kashima | Imagens: Divulgação


Os aliens costumam aparecer como seres antropomórficos. Mas há belas exceções a essa falta de criatividade: em A Chegada, eles são polvos; em Solaris, todo um planeta é um cérebro gigante que brinca com as nossas memórias.

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A Chegada (2016)

Por que está aqui: é baseado na hipótese de que aprender uma língua molda a sua mente.

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Arrival | Direção: Denis Villeneuve | Roteiro: Eric Heisserer


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Imagine que, fora da ficção, extraterrestres invadissem a Terra, estacionassem naves gigantescas nos céus de 12 países e demorassem para comunicar qual sua intenção por aqui. E que uma delas parasse sobre uma cidade dos EUA. É difícil prever qualquer resposta que não fosse uma ação militar contra os invasores.
Já o filme do canadense Denis Villeneuve é otimista: nessa exata circunstância, antes de partir para um ataque armado, o Exército convoca uma tradutora, Louise Banks (Amy Adams), para tentar comunicação com os aliens – entender sua língua e se vieram em paz. É no trabalho, e num drama familiar, dessa linguista que o filme mantém seu foco. E sua originalidade também.

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Diferente da maioria dos alienígenas da cultura popular, que têm perfis baseados no corpo humano (com duas pernas, dois braços, cabeça etc.), os de A Chegada parecem um desenho distorcido de um polvo alongado, com sete tentáculos multitarefa. Esses heptapods, como são chamados, soltam grunhidos distantes de qualquer compreensão. Mas seus membros lançam um tipo de vapor preto, que escreve no ar. Ou desenha: eles formam glifos, que lembram carimbos circulares com tinta escorrida ou em falta em alguns pontos do desenho. Diante desses sinais, Louise faz duas descobertas: que a escrita é independente dos sons dos ETs, o que abre caminho para uma conversa por símbolos; e que cada mancha ou ausência “de tinta” nos círculos tem um significado, que pode ser um simples “oi” ou toda uma frase.

Essa sintaxe desconhecida exige um cuidado maior. Eles entenderiam que uma pergunta é só uma dúvida que se quer esclarecer? Isso é bastante delicado porque a indagação “Vocês vieram atacar a Terra?”, por exemplo, pode soar como uma afirmação, “Vocês vieram atacar a Terra!” – arriscando uma reação hostil.

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Só essa questão já rende um mundo de reflexões sobre os ruídos na comunicação. Mas a grande sacada do filme está relacionada à hipótese de Sapir-Whorf – também chamada de relativismo linguístico –, que trata do condicionamento recíproco entre a percepção e a linguagem. Essa tese, proposta em 1940, defende que a nossa língua acaba, de alguma forma, moldando a nossa mente – a maneira como você fala e escreve determina (ou pelo menos influencia) o seu modo de pensar, e a sua concepção de mundo também.

Os heptapods são seres que não entendem a existência de uma forma linear, pois não enxergam qualquer distinção entre passado, presente e futuro. Sua escrita, os glifos circulares, reflete essa perspectiva. Quando então a linguista americana se aprofunda no idioma dos extraterrestres, ela também passa a enxergar essa “paisagem temporal”, na qual tudo o que já foi, o que é e o que virá acontecem ao mesmo tempo.

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Esse superpoder será decisivo em sua tentativa de evitar uma guerra entre as nações terráqueas e os alienígenas bonzinhos. E também para que Louise fique em paz com um trauma – localizado em algum lugar nesse tempo que só ela e os aliens são capazes de enxergar.

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Distrito 9 (2009)

Por que está aqui: Usa ETs para falar de racismo e xenofobia.

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District 9 | Direção: Neill Blomkamp | Roteiro: Terri Tatchell e Neill Blomkamp


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Quase todas as histórias de extraterrestres os descrevem como uma raça superior, capaz de inspirar admiração ou medo nos terráqueos. Este filme inverteu a ordem das coisas. Distrito 9 é o nome de um gueto tomado pela miséria onde alienígenas, tão violentos quanto subnutridos, são mantidos pelo governo da África do Sul. (A escolha do país não é gratuita, como você logo vai perceber.) “Manter todos eles aqui é caro, e podiam investir em outras coisas… mas pelo menos eles vivem separados de nós”, diz uma mulher entrevistada pela TV. Outra cena mostra uma placa à frente de um estabelecimento na qual se lê: “Apenas para uso de humanos”. Sim, o filme é uma alegoria a respeito de segregação, racismo e xenofobia. E se passa justamente no país do apartheid – com aliens no papel dos negros.

O enredo mostra a agonia de um burocrata (Sharlto Copley) que tem contato com um fluido alienígena e começa a se transformar, aos poucos, em um deles. Sua jornada para reverter o processo – encontrar uma “cura-alien” – o obriga a juntar forças com um dos ETs, que pode ter o antídoto. Detalhe: o humano se infectou enquanto cumpria ordens de despejar os extraterrestres de seu gueto, de modo a mudá-los para um campo de refugiados mais distante da população. Algo semelhante ao que acontecia na África do Sul antes do governo Mandela, quando, confinados em “bantustões”, os negros era vulneráveis a remoções constantes, num vaivém de moradias que tinha sempre o objetivo de isolá-los ainda mais – ou de tirá-los de um terreno que pudesse ter valor imobiliário para a minoria branca.

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Solaris (1972)

Por que está aqui: Sua alienígena nasce de fragmentos da memória humana.

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Solyaris | Direção: Andrei Tarkovsky | Roteiro: F. Gorenshteyn e Andrei Tarkovsky


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Tarkovsky ganhou o Grande Prêmio do Júri de Cannes por esta ficção científica – considerada uma resposta da Rússia a 2001. E conseguiu fazer um filme tão filosófico quanto o de Kubrick. Kris Kelvin é um psiquiatra que vai ao espaço investigar as mudanças no comportamento de cosmonautas que chegam perto de um planeta recém-descoberto – o Solaris, do título. Um deles cometeu suicídio. E é no envolvimento desse médico com uma força alienígena enigmática que o enredo revela toda a sua novidade.

Aquilo que parece ser um oceano cobrindo o corpo celeste é uma forma gigantesca de inteligência extraterrestre – capaz de sondar a mente dos humanos e transformar memórias em materializações. Essas emanações mentais vão provocar o reencontro de Kelvin com sua esposa – ou com uma réplica, já que ela está morta há anos. Ele sabe, mas releva. Vê que a materialização alienígena, além de amorosa, tem qualidades morais e sofre com a falta de lembranças autobiográficas – que só a esposa original poderia ter.

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Contato (1997)

Por que está aqui: Transforma um contato extraterrestre numa reflexão sobre a fé.

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Contact | Direção: Robert Zemeckis | Roteiro: James V. Hart e Michael Gondenberg


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Estamos sozinhos no Universo? A resposta de Carl Sagan era: “isso seria um tremendo desperdício de espaço”. Este filme, baseado em um livro do astrônomo, trata de um de seus principais campos de interesse: a procura de vida extraterrestre.

Ellie Arroway (Jodie Foster) é uma cientista da Seti (Search for Extraterrestrial Intelligence), projeto da vida real que analisa emissões de ondas eletromagnéticas vindas do espaço, à espera de detectar tentativas de contato de alguma civilização extraterrestre. Quando ela recebe uma mensagem contendo uma sequência de números primos, emitida da estrela Vega – a 25 anos-luz do nosso sistema solar –, a notícia agita o mundo: sim, existe vida inteligente lá fora! E os ETs querem um encontro com o pessoal daqui – tanto que a mensagem já traz um esquema para a construção de uma espaçonave com tecnologia inimaginável para este mundo. Mas Contato não é uma ficção científica juvenil, baseada em ação. Seu conflito está no debate entre ciência e o dogma religioso. Ellie quer ser a astronauta a arriscar a vida nessa viagem imprevisível, mas seu ateísmo vira um obstáculo – rivais defendem que um embaixador terráqueo precisa representar a maioria da população, que acredita em Deus.

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Ao finalmente conseguir um meio de embarcar, a astrônoma tem uma experiência improvável em seu contato imediato, semelhante à dos religiosos diante de uma aparição – e aí ninguém na Terra quer acreditar nela. Sua conexão é tão transcendental que não tem como ser descrita em linguagem científica.

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Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977)

Por que está aqui: É o melhor filme a respeito de ufologia.

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Close Encounters of the Third | Direção e roteiro: Steven Spielberg


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Depois que vê OVNIs durante um blecaute, Roy (Richard Dreyfuss) começa a se sentir atraído para uma região isolada nos EUA – sem entender por quê. Mas há uma razão. É lá que o Exército prepara uma reunião com formas de vida alienígena. A classificação em graus dessas interações foi criada em 1972 pelo ufologista J. Allen Hynek.

O primeiro grau seria ver um disco voador. O segundo, ter evidência física de uma visita extraterrestre. O terceiro, fazer contato direto com um ET. Na noite desse encontro, os cientistas usam o Método Kodály de pedagogia musical para se comunicar. O que começa com a repetição de uma frase de cinco notas é respondida pela nave-mãe com variações de registro, de oitavas e de ritmo – como se os aliens estivessem nos ensinando um vocabulário tonal, uma língua em comum.

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Fenômeno pop instantâneo, Contatos Imediatos… foi a obra que estabeleceu marcas registradas de Spielberg: estão lá a criança perdida, as autoridades pouco confiáveis, o indivíduo em busca de um sentido para a vida.

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