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História

Os saques dos vikings pela Europa

Vikings – Saques pela Europa

O século 9 foi a era de ouro das pilhagens. Os homens do Norte continuariam atacando até o século 11, mas foram as expedições às grandes cidades europeias no início do período que fizeram a fama dos guerreiros loiros.

Texto: Agência Fronteira | Edição de Arte: Rafael Quick | Design: Andy Faria | Ilustrações: Luis Matuto


 

Lisboa e Sevilha – 844

Enquanto os vikings se expandiam para Leste e Oeste a partir da Escandinávia, o islamismo fazia movimento semelhante ao Sul, da Ásia ao Atlântico. Quando os primeiros ataques nórdicos ocorreram no Al-Andalus, a Península Ibérica sob domínio muçulmano, eruditos mouros fizeram a correta suposição de que aqueles saqueadores vindos do Noroeste eram do mesmo clã que já atuava no comércio do Oriente Médio. Em 844, uma esquadra viking com mais de 150 barcos navegou pelo Atlântico até Lisboa, então controlada pelo Emirado de Córdoba. Registros da época contam que as velas marrons cobriram o estuário do Tejo como pássaros negros. Após 13 dias de saques, três batalhas contra os mouros, sem porém ter conseguido conquistar a cidade, a frota seguiu em direção à Espanha.

Em 2 de outubro, a expedição subiu o rio Guadalquivir até Sevilha. Tomada com pouca resistência, grande parte da população fugiu para Carmona. Os homens que ficaram foram mortos; as mulheres e crianças, escravizadas. Durante seu domínio de cinco semanas em Sevilha, os vikings fizeram incursões por terra, saqueando vilarejos a cavalo. O emir de Córdoba organizou um exército e, com o elemento-surpresa e o uso de catapultas, retomou a cidade. Prisioneiros foram enforcados nas palmeiras e, para comprovar a vitória, 200 cabeças decapitadas foram enviadas ao emir de Tânger (Marrocos), incluindo a do líder da expedição.

Assim como os cristãos, os muçulmanos consideravam os vikings hereges e selvagens, devido à profanação de mesquitas. Porém, militarmente superiores e com um poder mais centralizado, os mouros organizaram defesas navais mais efetivas que as dos europeus. Ainda que ataques nas costas espanhola e portuguesa tenham sido constantes nos séculos seguintes, eles não ocorreram na mesma escala que nos reinos cristãos.

Paris – 845

No século 9, se um aristocrata nórdico de poucas posses precisava se capitalizar, a França era o melhor lugar para levantar fundos. Esquadras vikings atacaram a costa e os rios franceses, muitas vezes financiadas por Horik, um rei dinamarquês. Na Páscoa de 845, uma dessas expedições chegou até Paris, com 120 barcos navegando pelo rio Sena.

Para proteger a Basílica de Saint-Denis do saque, o rei Carlos, o Calvo, dividiu seu exército em dois, colocando metade em cada lado do rio. Liderados por alguém que os francos chamavam de Reginheri, que pode (ou não) ser o mítico Ragnar Lodbrok (veja mais na p. 24), os vikings atacaram apenas uma das margens do Sena. Do outro lado, o resto das tropas assistiu à vitória escandinava e ao enforcamento de mais de cem prisioneiros. Muitos dos soldados desertaram, forçando o monarca francês a pagar 3 toneladas de ouro e prata aos vikings para evitar um massacre maior.

A presença escandinava na França foi tamanha que Paris seria saqueada três vezes na década de 860, além de sitiada em 885. Melhor preparada do que nos anos anteriores, a cidade se negou a pagar tributos, resistindo ao cerco por oito meses e impedindo que os navios seguissem o curso do Sena. No fim, para descontentamento dos parisienses que mantiveram a cidade, o rei Carlos, o Gordo, permitiu a passagem dos vikings, desde que atacassem a Borgonha, então rebelada.

Mas os vikings também ganhavam a vida na França como mercenários contratados por nobres que se opunham ao poder central. Em 843, um Conde chamado Lambert, acreditando ter direito sobre a cidade de Nantes, enviou guerreiros nórdicos para tomar o local no Dia de São João. O resultado, entretanto, não foi o esperado. A cidade estava cheia de devotos, e os vikings não refrearam sua habitual ferocidade, executando parte da população e roubando tudo que era de valor. A catedral foi invadida, fiéis e clero massacrados, inclusive o bispo que celebrava a missa. Suas últimas palavras foram Sursum Corda, “corações ao alto”. Por seu martírio, a Igreja o santificou Gohardus de Nantes. A ação foi tão violenta que pouco sobrou para o conde governar depois da partida dos vikings.

No século 10, outra tática de defesa se mostrou mais efetiva. Os franceses entregaram grande parte do norte da França a Rollo, líder viking exilado da terra natal, em troca de vassalagem e da proteção contra ataques de outros grupos. Os descendentes de Rollo adotariam a fé cristã, a língua e os costumes franceses. Seus domínios seriam conhecidos como Normandia, em referência aos senhores nórdicos.

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Londres – 851

A ilha inglesa se encontrava no centro de uma área de grande interesse dos nórdicos, que tinham bases permanentes em Shetland e nas Órcades, na Escócia, além da Irlanda, onde fundaram Dublin. Em 838, os vikings se uniram aos celtas da Cornualha contra os saxões liderados pelo rei Egbert. Ao Sul, frotas escandinavas se revezavam em saques nos dois lados do Canal da Mancha.

Na época, Londres não era capital de nenhum dos reinos ingleses, porém, era um porto importante e movimentado. Depois de saquear a cidade em 842, os vikings voltaram a navegar no Tâmisa em 851, com uma frota estimada na época em 350 barcos. Número hoje considerado exagerado pelos pesquisadores, mas sem dúvidas um ataque sem precedentes na ilha, com embarcações na casa das centenas.

O novo ataque a Londres foi um grande massacre, e os vikings ainda pilharam a Cantuária antes de, pela primeira vez, montar um acampamento de inverno na Inglaterra. Quatro anos depois, os nórdicos repetiram a experiência, no que é considerado um prelúdio para um movimento muito maior, conhecido como a invasão do Grande Exército.

Mediterrâneo – 859

Expedições à costa atlântica da Península Ibérica e do norte da África podem ter sido constantes, mas poucos são os relatos de incursões no Mediterrâneo. A exceção é uma viagem iniciada na França, em 859, por 62 langskips que, segundo as sagas nórdicas, eram lideradas por Hastein e um dos filhos de Ragnar Lodbrok, Björn Flanco de Ferro. Após cruzar o estreito de Gibraltar, os vikings atacaram a cidade espanhola de Algeciras, onde queimaram uma grande mesquita. Depois tomaram Nador, no Marrocos, onde escravizaram a população litorânea. Dali, seguiram trajeto semelhante ao dos turistas da atualidade. Passaram pelas Ilhas Baleares e Valência, e depois se concentraram no sul da França, inclusive fixando-se por algum tempo próximo a Arles.

Da Côte d’Azur, chegaram ao norte da Itália, atacando Pisa e outras cidades costeiras. Segundo as lendas, ao chegar em Luna, Hastein pensou ter alcançado Roma. Ao perceber o erro, mandou matar todos os homens da cidade. É possível que dali a frota tenha se dirigido ao sul da Itália, chegando à fronteira oeste do Império Bizantino, na Sicília.

O certo é que a viagem de retorno não foi tão bem-sucedida. Muitas embarcações foram perdidas para os mouros e tantas outras para o mau tempo no golfo de Biscaia. Para diminuir o prejuízo, sequestraram o rei de Navarra, em Pamplona, recebendo 70 mil moedas de ouro como resgate. Quando finalmente retornaram à França, três anos depois, a esquadra de Hastein e Björn contava com apenas 20 navios.

Constantinopla – 860

Os vikings já navegavam pelo Báltico séculos antes de atacarem a França, e no século 9 governavam as atuais Ucrânia e Bielorússia. Lá, eram conhecidos como varegues ou rus. Foram os rus que percorreram o leste europeu. Muitas vezes, carregavam barcos em terra firme entre um rio e outro, percorreram o Mar Cáspio e chegaram até Bagdá em caravanas de camelos. Mas a grande ambição rus era Constantinopla (atual Istambul). Capital do Império Bizantino, era a maior cidade do mundo na época, além da mais rica.

Em 8 de julho de 860, uma frota de 200 langskips viajou pelo Mar Negro até o Estreito de Bósforo, encontrando a cidade despreparada. O imperador Miguel e a elite militar estavam fora de Constantinopla, lutando contra os árabes. Monastérios e vilarejos foram pilhados e destruídos, e suas populações dizimadas. Só os que estavam dentro da cidade fortificada saíram ilesos. Após um mês de cerco, os rus partiram frustrados, sem conseguir superar as muralhas.

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Luis Matuto/Superinteressante

O ataque causou forte impressão nos bizantinos, que adotaram regras comerciais para se proteger: os rus só podiam entrar em Constantinopla desarmados e em pequenos grupos, não podiam passar a noite na cidade e deviam ser escoltados o tempo todo. Em 941, com o Império Bizantino mais um vez em guerra contra os árabes e sua capital desprotegida, os rus lançaram mais um ataque, dessa vez com cerca de 350 barcos. Cientes da sua inferioridade naval, os bizantinos prepararam uma armadilha. Usaram embarcações velhas e em pouca quantidade para defender o Bósforo.

Quando foram cercados pelos vikings, lançaram Fogo Grego, uma substância cuja fórmula hoje está perdida, altamente inflamável e que não apagava ao entrar em contato com a água – pelo contrário, flutuava. O Fogo Grego jorrava de dentro de sifões, como um lança-chamas primitivo. Os vikings lançaram-se ao mar. Poucos sobreviveram. Impressionados com os guerreiros nórdicos, entretanto, os bizantinos acabaram formando a Guarda Varegue, composta exclusivamente por vikings a serviço do imperador. Diversos mercenários viajaram até Constantinopla, fazendo carreira e fortuna na Guarda. Quanto aos rus, acabaram miscigenando-se com os eslavos, adotaram a fé ortodoxa e deram origem ao povo russo.

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