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Cultura

Os segredos de “A Última Ceia”

Da Vinci retratou a cena como nenhum outro pintor tinha feito, deixando de fora símbolos importantes da cristandade.

Texto: Carol Castro | Edição de Arte: Leonardo Drehmer | Design: Andy Faria | Imagens: Domínio Público

Nada, nem um único detalhe parece ser fortuito no afresco A Última Ceia, uma das obras mais famosas do mestre renascentista. Os especialistas acreditam que tudo nele obedece a um propósito minuciosamente planejado pelo artista. Cada fisionomia carrega um significado diferente. Cada gesto, uma mensagem subliminar. Da Vinci usou uma técnica denominada têmpera – basicamente, pigmentos misturados com gema de ovo e aplicados sobre gesso seco. A obra ficou linda, mas não durou muito por causa da umidade. Ali pelo ano de 1560, já estava bem deteriorada.

“Um de vós me trairá”

1 • SANTO GRAAL – O cálice que, segundo o relato bíblico, teria sido usado por Cristo durante a ceia simplesmente não aparece na pintura. Alguns teóricos defendem que, ao deixar o objeto sagrado de fora, Da Vinci estaria deliberadamente ignorando o símbolo da aliança entre Deus e os homens. Sua intenção seria agredir a Igreja, então comandada pelo papa Alexandre 6º, seu desafeto.

2 • SEM AURÉOLAS – Da Vinci não pintou auréolas em ninguém, algo inédito até então. É que o artista engrossava as fileiras do Catarismo, um movimento cristão que não venerava santos e enxergava Jesus Cristo como um homem comum.

3 • SOMA DOS ÂNGULOS – A figura de Cristo com os braços estendidos forma um triângulo. Acredita-se que seja uma referência à perfeição matemática (a soma dos ângulos de qualquer triângulo é sempre igual a 180°).

POLARIDADE – Cada apóstolo está em uma relação de polaridade com aquele que ocupa posição simétrica à sua, do outro lado da mesa. O gesto expansivo de Mateus, por exemplo, tem contrapartida na postura receptiva de André. Assim como a aparente sinceridade estampada na cara de Felipe contrasta com a feição dissimulada do traidor Judas Iscariotes.

REFEITÓRIO – O afresco começou a ser pintado por Da Vinci em 1495 e só foi concluído três anos depois, em 1498. Ele ocupa uma parede do antigo refeitório dos monges no Convento de Santa Maria Delle Grazie, em Milão. Encomendado pelo duque Ludovico Sforza, tem 8,8 metros de largura por 4,6 metros de altura.

EQUILÍBRIO E SIMETRIA – A composição é perfeita. O rosto de Cristo ocupa o centro da pintura, ponto para o qual convergem todas as linhas de fuga. A distribuição dos 12 apóstolos é harmoniosa: seis de cada lado, subdivididos em quatro grupos de três. O equilíbrio da pintura é reforçado pela simetria do cenário de fundo. As portas e janelas em perspectiva garantem profundidade à obra.

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4 • TRAIDOR DE CRISTO – A cena retratada é uma das mais famosas passagens do Novo Testamento: o momento em que Jesus Cristo revela que um dos apóstolos vai traí-lo. Segundo a Bíblia, o traidor é Judas Iscariotes – único da cena com o rosto parcialmente encoberto por uma sombra. Bem na frente dele, há um saleiro caído sobre a mesa. Pode se tratar de uma representação de mau agouro (uma pista deixada por Da Vinci, indicando qual dos 12 apóstolos era o traidor do Profeta).

5 • ADAGA DA DISCÓRDIA – A única arma que aparece na cena não está na mão de Judas Iscariotes, mas de Pedro. A interpretação de alguns teóricos: Pedro, fundador da Igreja, simbolizaria o papa. Seria mais uma alfinetada em Alexandre 6º – para Da Vinci, o verdadeiro traidor. Há quem defenda, porém, que a faca é uma menção ao fato de que o apóstolo cortará a orelha de um servo romano na noite da prisão de Cristo.

6 • LINGUAGEM CORPORAL – As faces e os gestos dos personagens representam sentimentos humanos (desconfiança, apreensão, desespero, aflição, incredulidade, espanto, ira, medo, tristeza… E por aí vai). O único rosto verdadeiramente sereno, livre de qualquer pesar, é o de Jesus Cristo.

7 • EU SOU VOCÊ – Pode ser que Da Vinci tenha pintado seu próprio rosto ao retratar Judas Tadeu. As feições do apóstolo são parecidas com um autorretrato feito por ele três anos depois.

8 • AMIGO ÍNTIMO – À esquerda de Judas Tadeu, em vez do apóstolo Mateus, o artista teria pintado Marsílio Ficino, amigo íntimo e tradutor dos textos do filósofo grego Platão para o latim.

9 • HOMENAGEM PLATÔNICA – Judas Tadeu (Da Vinci) e Mateus (Marsílio Ficino) olham para o homem na ponta da mesa. Deveria ser o apóstolo Simão, mas talvez seja Platão. Seus traços na pintura lembram bastante os de um busto do filósofo grego exibido em Florença.

O milagre da restauração

Ao longo dos anos, A Última Ceia sofreu todo tipo de maus-tratos. Os monges do Convento Santa Maria Delle Grazie chegaram a abrir uma porta no meio do mural durante uma reforma. Sabe-se também que muitos restauradores mais estragaram do que recuperaram a pintura.

A última grande restauração durou mais de duas décadas, de 1976 a 1999. Graças a ela, a pintura que hoje se vê é bem mais fiel ao trabalho original de Da Vinci. Os tons fortes utilizados por restauradores anteriores foram substituídos por cores mais suaves, definidas com base na análise científica do estilo do artista.

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