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Saúde

Psicanálise – Somos todos neuróticos

A partir do tratamento de mulheres histéricas, Freud desenvolveu os pilares de uma terapia revolucionária.

por Alexandre Carvalho Atualizado em 17 ago 2020, 19h00 - Publicado em 30 abr 2020 11h14

A partir do tratamento de mulheres histéricas, Freud desenvolveu os pilares de uma terapia revolucionária. Também explicou que é ok ser reprimido – a alternativa seria a psicose.

Texto: Alexandre Carvalho | Edição de arte: Estúdio Nono | Design: Andy Faria | Imagens: Getty Images


Anna O. era uma garota de brilho próprio: bondosa, gente fina e com uma inteligência acima da média. Vivesse nos dias de hoje, talvez brigasse pelos direitos das minorias, fosse dos Médicos sem Fronteira ou tivesse uma banda – no mínimo, faria sucesso com um canal só dela no YouTube. Mas Anna O. foi jovem na segunda metade do século 19, em Viena, nascida e criada numa família da burguesia judaica ortodoxa – ambiente nada acolhedor para meninas fora do padrão espera-marido. Um exemplo: apegada aos livros, queixava-se de ter oportunidades medíocres de estudo, enquanto um irmão, sem a mesma vocação, tinha todo o incentivo – e os investimentos – dos pais. Para ela sobravam o bordado e o piano.

Aos 22 anos, sem nunca ter tido um namorado, amava incondicionalmente o pai e obedecia, sem entusiasmo, às ordens da mãe severa, com quem não se dava bem. Toda uma juventude que poderia ter sido plena de experiência, trancada numa mente sem via de expressão.

Essa história tinha tudo para ser só mais uma entre as de tantas vidas opacas, naquela cidade e naquela época. Mas, a partir de julho de 1880, a trajetória de Anna O. deixou de ser só mais uma. Começou quando seu pai, um rico comerciante de cereais, teve um abscesso relacionado à tuberculose e ficou de cama por quase um ano. Até que morreu.

Desde os primeiros sintomas dessa doença, Anna O. instalou-se ao lado do pai, dia e noite. Estava obstinada em ser a melhor enfermeira que alguém pudesse ter. Mas, à medida que o estado dele só piorava, a filha foi tomando consciência da realidade dos fatos: a única pessoa que ela amava estava indo embora.

Foi justamente nesse período de agravamento da situação que começaram a surgir em Anna sintomas tão estranhos quanto inexplicáveis. Primeiro, foi uma tosse nervosa, sem motivo físico. Depois a moça ficou estrábica de uma hora para outra. E daí em diante só piorou, a ponto de a afastarem de perto do pai: paralisias no braço e na perna do lado direito, insensibilidade no cotovelo, estreitamento da visão (em um buquê de flores, só enxergava uma flor de cada vez). Também começou a repudiar qualquer alimento, mesmo sentindo fome, e a ter episódios de fúria e alucinações (via serpentes negras no lugar dos cabelos). Chegou ao extremo de esquecer a própria língua (durante um período, essa menina austríaca só conseguia se expressar em inglês). Também tentou o suicídio.

Outra família talvez tivesse trancado Anna O. num manicômio, que era o que a maioria fazia nessas condições, mas a dela decidiu apostar nos cuidados do fisiologista Josef Breuer (1842-1925). Uma decisão acertada. O médico logo reparou que a paciente tinha apagões ao longo do dia, quando parecia estar em outro mundo. E que, nesse estado, ela pronunciava palavras soltas de quando em quando, como se fizessem parte de uma história que Anna estivesse contando a si mesma. Até que, num desses apagões, alguém por perto mencionou, totalmente por acaso, uma das palavras que ela tinha dito.

Ao ouvir o som da palavra sendo repetida, Anna O. imediatamente começou a contar uma história, a história que continha aquela palavra – uma narrativa que, até então, estava apenas nos seus pensamentos. E o mais incrível: conforme falava, alguns de seus sintomas diminuíam, e ela parecia ir se acalmando… até que despertou do apagão, num estado muito melhor.

Breuer, claro, foi alertado. Então, para aprimorar esse sistema e conseguir provocar as narrativas a qualquer momento, o médico começou a hipnotizá-la. No meio dos transes, pedia novas histórias, e solicitava também que ela falasse sobre situações do dia anterior que a teriam perturbado. A conexão entre a melhora da garota e o falatório ficou tão evidente que, se numa determinada noite não houvesse sessão de hipnose, Anna O. precisava falar o dobro do tempo com Breuer na manhã seguinte para conseguir melhorar.

A sensação do médico era de que, nessas sessões, a paciente conseguia descarregar todas as angústias que ia acumulando ao longo do dia. (Como se um computador cheio de vírus precisasse ser formatado uma vez por dia para funcionar direito.) E a própria Anna O. teve essa impressão. Em seus momentos de lucidez, que iam aumentando cada vez mais, reconheceu que melhorava graças ao processo. Ainda se expressando em inglês, ela mesma batizou o tratamento de talking cure – cura pela fala –, associando essa descarga de emoções negativas a uma chimney sweeping – limpeza de chaminé.

Um pouco mais adiante, Breuer decidiu pedir, durante a hipnose, que Anna O. falasse também sobre as emoções que tivera na época em que os sintomas começaram. E ficou espantado quando, por causa de uma fala a respeito desse período, um dos transtornos sumiu – justo um associado à história que ela contou. Foi o seguinte: Anna O., durante um tempo, sentia repulsa a qualquer tipo de líquido. Mesmo passando sede, só conseguia ingerir a água presente em alimentos, como nos melões. Isso durou até esse dia em que, sob hipnose, falou ao médico sobre uma dama de companhia, uma mulher de quem não gostava. Contou especificamente de uma ocasião em que, morrendo de nojo, viu o cachorrinho dessa empregada bebendo água direto de um copo. Ao descrever a lembrança, ainda hipnotizada, acabou pedindo a Breuer um pouco de água, e despertou do transe em meio aos goles. Mal acreditou que estava bebendo de novo, agora sem nojo nenhum. Estava curada – pelo menos desse problema.

O fisiologista imediatamente percebeu a relação de causa e efeito: a descrição de uma emoção incômoda, antiga, que não era lembrada conscientemente, fez com que um sintoma fosse removido. Breuer achou tão bom que tentou de novo e de novo – voltou a pedir que ela descrevesse situações traumáticas do passado. Logo, uma contratura da perna, que tinha surgido sem motivo físico, acabou desaparecendo. E assim também médico e paciente descobriram juntos a origem da tosse nervosa: numa hipnose, Anna O. disse que o problema tinha aparecido do nada quando, ainda na época em que cuidava do pai, ela ouviu música dançante numa casa vizinha. Naquele momento, a moça tinha desejado, ainda que só por um instante, também estar naquela festa – em vez de trancada em casa cuidando de um doente. Constatou então que a tosse voltava sempre que ouvia qualquer música mais agitada: uma autocensura pelo desejo impróprio. Relatada a situação original desse sentimento de culpa, a tosse desapareceu.

“A partir dessas descobertas – de que os fenômenos em Anna O. desapareciam logo que o episódio que provocara o sintoma era reproduzido na hipnose –, desenvolveu-se um procedimento técnico terapêutico”, explica o próprio Josef Breuer no livro Estudos sobre a Histeria (1895), que contava essa história pioneira de tratamento pela fala e do qual foi coautor ao lado de um amigo neurologista: Sigmund Freud. Dos tratamentos de oito mulheres descritos na obra pelos dois médicos, o de Anna O. – todas aparecem com nomes fictícios para preservar a identidade das pacientes – é o de maior importância histórica.

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Estava ali, na catarse pela fala transformada em processo terapêutico, a gênese da psicanálise – termo que só surgiria um ano depois da publicação do livro. A grande invenção de Freud é uma adaptação confessa da descoberta do colega fisiologista – Josef Breuer, um nome que a maioria das pessoas que passam por sessões de psicanálise ignora.

Histeria

Anna O. era uma histérica. Mas não pense na ideia que fazemos hoje em dia de pessoa histérica, gente com reações descontroladas e irracionais por coisas à toa – como a criança que se joga no chão e tem um “ataque histérico” na loja do shopping, porque os pais lhe negam um brinquedo, ou a pessoa que grita como se fosse morrer por ter visto uma barata. O conceito de histeria no século 19 era outra coisa – e coisa de mulher. Pelo menos era o que se pensava na época.

A palavra “histeria” vem do termo grego hystera, que significa “útero”. Essa ideia veio da Antiguidade: o grego Hipócrates, considerado o “pai da medicina”, achava que a histeria era uma doença orgânica, provocada por uma circulação irregular do sangue, saindo do útero da mulher e indo para o cérebro. Ou seja, os homens estariam imunes, claro. Já nos tempos de Freud, era considerada histérica a pessoa – geralmente mulheres, mas não só elas – que tinha quadros clínicos variados sem um motivo físico aparente – como as paralisias de Anna O. Valiam também algum tipo de cegueira, um problema respiratório, vertigens, desmaios etc. Era um diagnóstico tão vago quanto o de “virose” hoje em dia, mas mais perigoso: qualquer probleminha que um médico fosse incapaz de identificar – o que acontecia muito naqueles tempos – podia render uma internação forçada em hospitais e manicômios, levando mulheres sadias ao encarceramento.

Naquela época, a medicina caracterizava uma doença pelo tipo de lesão que a provocava – e podia ser lesão no cérebro também, o que geralmente era a primeira suposição dos médicos quando esbarravam num transtorno mental. Sem lesão, sem doença. Daí o fato de muitos especialistas acharem que as histéricas eram mentirosas, que fingiam seus problemas – o que não era o caso – para chamar atenção dos outros. Outros doutores simplesmente se viam impotentes diante de um quadro clínico que não conseguiam explicar.

A Viena de um século e meio atrás era o cenário perfeito para a histeria, por todo um aspecto cultural que se encaixava nessas manifestações. Diferentemente dos dias de hoje, quando as pessoas têm ansiedades pela combinação indigesta entre vazio existencial e excesso – de comunicação, de exposição, de entretenimento, de informações –, no século 19 as pessoas eram muito reprimidas, tanto na sua sexualidade quanto na sua liberdade de expressão. E a coisa era muito pior para as mulheres. Inclusive para as da burguesia, porque um sinal de status econômico do vienense era justamente ter mulheres ociosas. Sim, se o maridão mantinha uma esposa e filhas olhando para o teto em casa, sem nada para fazer, isso significava que ele podia pagar quem fizesse: a criadagem.

<strong>Sessão do neurologista Jean-Martin Charcot, que hipnotizava “histéricas” em Paris. O francês foi uma grande influência para Freud.</strong>
Sessão do neurologista Jean-Martin Charcot, que hipnotizava “histéricas” em Paris. O francês foi uma grande influência para Freud. API/Getty Images

Dessa situação de cidadã de segunda classe, figurante da personalidade do marido, obediente e quietinha no seu canto, reprimida em todos os seus desejos, é que vinha esse distúrbio: um transtorno na mente que se desenvolve em sintomas físicos e psíquicos, mas sem causa orgânica. “Para exprimir sua aspiração à liberdade, as mulheres não tinham outro recurso senão a exibição de um corpo atormentado”, afirmou a historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco, biógrafa de Freud.

Acha que é frescura? Tente passar uma semana, um mês, um ano da sua vida dentro de casa… sem TV nem internet. A história da psicanálise começa justamente com Sigmund Freud levando a sério a “frescura” dessas mulheres reprimidas, e encontrando ferramentas para tratá-las. Mas ele só começou a achar que isso fosse possível depois que conheceu o trabalho de um médico francês genial, descobridor do aneurisma e das causas das hemorragias cerebrais: o neurologista Jean-Martin Charcot (1825-1893).

Psicossomáticas

Charcot chamou atenção no Hospital Salpêtrière, em Paris, por fazer demonstrações com pessoas histéricas sob efeito de hipnose. Durante o transe, ele conseguia remover completamente o sintoma do paciente: fazia alguém com paralisia nas pernas voltar a andar, ou um suposto cego enxergar novamente. Mas ele não curava a histeria – passado o transe, os sintomas voltavam.

O importante dessas experiências é que Charcot conseguiu comprovar hipóteses fundamentais para que os transtornos viessem a ter um tratamento adequado no futuro. Ele provou ao mesmo tempo que a histeria não era caso de possessão demoníaca, como acreditavam os medievais, nem era provocada por uma lesão física – não há hipnose que faça um paralítico andar ou um cego voltar a ver. (De quebra, ele ainda expôs à comunidade médica que homens também podiam ser histéricos, para a revolta de muitos colegas.)

O que existia por trás do sofrimento dessas pacientes só podia ser uma doença de caráter neurótico: um conflito mental que algum mecanismo misterioso transformava em problema físico. E isso fascinou um dos ouvintes mais atentos das apresentações de Charcot no Salpêtrière. Freud, óbvio – que passou uma temporada em Paris para buscar os insights que não encontrava entre a classe médica vienense.

A identificação de Freud com Charcot foi imediata. No ápice de sua fama, o cientista francês foi chamado de “Napoleão das neuroses”, já que era uma autoridade em alterações patológicas do organismo com origem psíquica – no conceito que se fez das neuroses naquela época, além da histeria, encaixaram-se o comportamento obsessivo e as fobias… sempre transtornos relacionados com ansiedade.

Charcot, aliás, foi acusado de falta de ética por atentar contra a dignidade dos pacientes nessas apresentações. E os acusadores tinham razão: o francês não estava tratando a histeria das pessoas, apenas usando-as como cobaias para provar suas teorias. Para Freud, no entanto, isso pouco importava. As palestras de Charcot haviam fornecido uma iluminação: se a hipnose, que causa uma alteração no estado de vigília, permitia que um médico eliminasse sintomas histéricos, é porque esses problemas têm origem numa outra parte da mente, muito além da nossa consciência. Sinal de que, além de uma realidade material, palpável, com a qual a gente lida racionalmente, existe uma realidade psíquica fora do nosso alcance.

Você já viu aqui que a morada dessa outra realidade é o inconsciente. Restava a Freud descobrir como acessá-lo. Até que a experiência de Josef Breuer com a histérica Anna O. abriu uma porta que jamais seria fechada.

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Da Catarse à Psicanálise

A partir da “cura pela fala” de um amigo fisiologista, Freud criou a estrutura de sua terapia, a mais influente de todos os tempos.

A terapia que recebeu o nome de psicanálise é uma derivação do método catártico praticado por Josef Breuer – aquele processo todo que teria curado Anna O. Freud sempre deu esse crédito ao amigo, de verdadeiro descobridor de um novo caminho de exploração do inconsciente, e descreveu esse tratamento no artigo O Método Psicanalítico de Freud: “[o tratamento de Breuer] pressupunha que o doente fosse hipnotizável e se baseava na ampliação da consciência que sucede na hipnose. Tinha como objetivo a eliminação dos sintomas, e o alcançava fazendo o paciente retornar ao estado psíquico em que o sintoma surgira primeiramente.

No paciente hipnotizado afloravam lembranças, pensamentos e impulsos até então ausentes de sua consciência, e depois que ele comunicava ao médico esses eventos psíquicos, sob intensas manifestações afetivas, o sintoma era superado e o seu retorno não ocorria”. Os casos narrados em Estudos sobre a Histeria envolveram predominantemente tratamentos catárticos, ou hipnóticos. Para Breuer, e para Freud na época, a eficácia terapêutica dessa catarse estava na possibilidade de descarga, via hipnose, de uma emoção reprimida, ligada a algum tipo de trauma que não tinha chegado à consciência.

Freud tinha até uma interpretação própria para a origem desse trauma. Acreditava que a dissociação mental que resultava na histeria vinha de uma autodefesa da mente contra uma lembrança insuportável: especificamente a de ter sido abusado na infância por um adulto, geralmente pelos pais – uma ideia, aliás, que Breuer não assinava embaixo de jeito nenhum. Essa proposta era baseada em relatos que Freud ouvia de suas pacientes, e ficaria conhecida como sua Teoria da Sedução. Mas ele logo veio a perceber que a conta não fechava. Para que todo mundo que passava pelo seu consultório tivesse, de fato, esse histórico de abuso, seriam necessários mais pais e mães molestadores de crianças do que o bom senso permitiria acreditar. Além disso, Freud foi notando que muitos dos relatos de seus pacientes traziam contradições, exageros… fantasias. E assim foi mudando sua teoria da psicogênese das neuroses – como faria com várias de suas ideias ao longo da vida.

Num primeiro momento, assim que rejeitou a Teoria da Sedução, passou a crer que o trauma ainda fosse sexual, ok, mas não gerado por uma lembrança, e sim por uma fantasia do neurótico: era o desejo sexual que a criança sentia por um dos pais que criava o pensamento reprimido, resultando num sofrimento psíquico. Depois, Freud sofisticaria sua teoria, apontando que histerias e outras neuroses viriam de um conflito mental entre nossos desejos e nossas autocensuras.

Aliás, falando em neurose, é bobagem xingar alguém de neurótico. Para Freud, neuróticos somos todos nós: pessoas que têm conflitos internos e lidam com eles por meio de repressões mentais. O austríaco diz que todo mundo tem de lidar mentalmente com desejos que precisam de uma boa dose de autocensura. (Só vira sinônimo de distúrbio mental quando o indivíduo não consegue lidar bem com seus conflitos.) Se você nunca reprime os seus desejos, isso é uma evidência de psicose: quando não há barreira entre a sua consciência e as suas vontades mais malucas, de sexualidade e de agressividade – essa, sim, seria uma situação que você pode chamar tranquilamente de loucura. Sem repressão, sua vida viraria um caos; assim como uma sociedade seria caótica – ou psicótica – se deixasse todo mundo tocar fogo no circo.

Além de mudar de ideia sobre a origem dos distúrbios mentais, o gênio de Viena resolveu mudar de tática nos tratamentos. O primeiro passo foi desistir da hipnose – o que acabou sendo conveniente, já que Freud nunca foi um bom hipnotizador. Seu argumento foi de que nem todo mundo pode ser hipnotizado, por maior que seja a habilidade do terapeuta, e assim a mudança visava a uma aplicabilidade universal da terapia (essa democratização do alcance da psicanálise também seria colocada de lado, diga-se, como veremos ainda neste capítulo).

O substituto que Freud encontrou para a hipnose foram as falas espontâneas dos pacientes – acordados mesmo –, principalmente nas partes mais involuntárias dessas falas, em detalhes que as pessoas descartariam em circunstâncias normais. Um processo que ele chamou de associação livre, e que se tornou um dos pilares do tratamento psicanalítico. É exatamente desses pilares que vamos tratar a seguir, os componentes essenciais de uma sessão de psicanálise clássica nos moldes freudianos: a associação livre, a transferência e a interpretação.

Associação livre

Quando consolidou um processo terapêutico em substituição ao catártico, Sigmund Freud passou a atender em seu consultório da seguinte maneira: tudo começava com o paciente se deitando no famoso divã. A pessoa não precisava fechar os olhos: Freud ficava sentado atrás, perto da cabeça do analisando, para ouvir bem o que ele diria, mas fora do seu alcance de visão – de modo que nada na postura ou semblante do terapeuta pudesse atrapalhar a espontaneidade da pessoa.

Então o paciente era estimulado a falar. Não exatamente sobre o problema que o havia feito procurar a psicanálise, mas qualquer coisa que lhe viesse à cabeça. Qualquer coisa. Sem censura, tema ou direcionamento. Não deveria deixar nada de fora, por mais vergonhoso que fosse o seu pensamento – aliás, deveria se esforçar para incluir no relato os detalhes vergonhosos, que qualquer pessoa preferiria omitir. Podia ser um sonho, uma reflexão, uma lembrança, um desejo… ou algo banal que tivesse acabado de acontecer: “Fui comprar meus cigarros na esquina, acabei esbarrando na mulher do vendedor e fiquei impressionado com o tamanho das mãos dela. Depois fui ao teatro e jantei com amigos, mas não consegui parar de pensar naquele encontro na venda”.

Podia começar assim. Ou não. A partir daí, Freud incitaria o indivíduo a fazer associações. (É importante isto: o próprio analisando é quem faz as associações, não o terapeuta.) Por exemplo, ele podia perguntar no que aquelas mãos da mulher do vendedor o faziam pensar: “As mãos grandes daquela mulher me fizeram agora lembrar do meu pai, que era um sujeito alto… Meu pai morreu de câncer do pulmão… Quando vi a esposa do vendedor, por um segundo achei que lembrava um pouco minha mãe… Faz tempo que não visito minha mãe”.

O exemplo aqui é meio óbvio, e não precisa ser doutor em psicologia para arriscar uma interpretação freudiana. Mas a essência da associação livre está presente: ligações feitas entre partes de depoimentos espontâneos. No exemplo que eu dei, talvez o paciente descobrisse, na sessão de psicanálise, que suas crises de ansiedade estão relacionadas a um mal-estar com a mãe, que o censura por fumar muito, igualzinho ao pai que morreu disso. Esse incômodo com as broncas maternas talvez fosse a causa inconsciente do indivíduo não aparecer na casa da mãe – e sentir culpa, um conflito psíquico, por essa ausência.

Freud concluiu que a associação livre era o método ideal de acessar o inconsciente das pessoas. As emoções, lembranças e representações vinham à tona com muito mais facilidade. E vinham de maneira mais confiável que na hipnose. Segundo Freud, a hipnose não permitia que o médico identificasse resistências – as maneiras com que o paciente tenta, mesmo sem perceber, manobrar suas falas para que o terapeuta não descubra o conteúdo que a repressão tenta manter oculto. Foi um achado tão importante que Freud considerou esse método da associação livre a “regra de ouro da psicanálise”.

Não que fosse perfeito, claro. Psicanalistas logo perceberiam a atitude de pacientes conhecedores da “regra de ouro”, que, propositalmente ou não, passam a falar incoerência atrás de incoerência, com o objetivo de inviabilizar uma interpretação correta. Ainda que a coerência não seja critério do que vale ou não vale numa sessão psicanalítica. Pelo contrário: na fala do paciente, vale tudo – desde que seja espontâneo, livre de censura ou premeditação.

Transferência

Freud descobriu mais um elemento importante para sua psicoterapia ao tratar de Dora – outro nome fictício, o verdadeiro era Ida Bauer –, uma garota de 18 anos que, ao longo do tratamento, começou a associar o terapeuta à figura do próprio pai, por quem era muito apegada. Lá pelas tantas, Dora interrompeu de repente o tratamento e se despediu de vez, para nunca mais voltar – um comportamento esquisito porque, até então, as sessões pareciam estar progredindo bem.

Freud reconheceu nesse comportamento uma vingança contra um pai simbólico – ele, no caso – que não atendesse às vontades da menina. E entendeu que era importantíssimo identificar essa tendência de os pacientes substituírem alguém importante de suas vidas pela pessoa do terapeuta. Porque isso poderia apontar sinais de desejos inconscientes.

Para esse processo ficar mais claro, vale a pena eu explicar o que é o setting na clínica psicanalítica. São os arranjos práticos que organizam a interação entre terapeuta e analisando: o horário das sessões; a forma como o analisando ficará acomodado – na psicanálise clássica, deitado de costas para o terapeuta, mas outras terapias que usam conceitos da psicanálise colocam os dois sentados frente à frente –; o estilo do terapeuta – alguns nem dão bom-dia para o analisando, e isso pode ser dito nessa combinação inicial –; a duração das sessões; a duração do tratamento e, inclusive, a data certa de o analisando pagar pelas sessões.

Tá, mas o que isso tudo tem a ver com a transferência? Muita coisa. Por exemplo, se o analisando começa a atrasar o pagamento, ao mesmo tempo em que fala na associação livre sobre sua rotina de esbanjar dinheiro – ou seja, grana não lhe falta –, o terapeuta pode identificar aí um desejo de magoar um pai ou uma mãe, deslocados para a figura do psicanalista – que, coitado, é quem fica esperando pelo dinheiro. Outras desobediências, como chegar atrasado ou ficar em pé durante a sessão – contra a combinação de que deveria estar sempre deitado –, revelam também indícios de transferência.

<strong>O consultório de Freud. Colecionador de antiguidades, ele levaria seus objetos quando precisou se mudar para a Inglaterra. Sua casa em Londres é hoje um museu e abriga o famoso divã.</strong>
O consultório de Freud. Colecionador de antiguidades, ele levaria seus objetos quando precisou se mudar para a Inglaterra. Sua casa em Londres é hoje um museu e abriga o famoso divã. Hulton Archive/Getty Images

Daí a necessidade de uma contratransferência, que basicamente é o terapeuta identificar como esses deslocamentos acontecem e usar essa percepção a seu favor – dando o melhor rumo possível ao tratamento. Quem seria a pessoa que o analisando está transferindo para a pessoa do terapeuta? Sua mãe? Sua namorada? Seu personal trainer? Claro que não é tão fácil assim. O que fazer, por exemplo, quando o analisando parece estar apaixonado pelo psicanalista, transferindo para essa pessoa um desejo reprimido por outra?

O terapeuta não pode misturar as coisas. Não pode ceder a arroubos românticos nem sair do sério por causa dos desrespeitos que a transferência pode provocar. Para ter esse sangue frio e investigar seus próprios sentimentos para com essa interação delicada, recomenda-se que também o terapeuta passe por sessões de psicanálise. O inconsciente alheio é uma terra que pode ser bastante hostil, e é comum pedir reforços.

Interpretação

Durante um período complicado de sua vida, na época em que seu pai morreu, Freud fez autoanálise. Passou a interpretar os próprios sonhos, suas lembranças e pensamentos para chegar a conclusões sobre sua personalidade – um exercício de autoconhecimento. Mas não tente repetir em casa. A interpretação dos conteúdos inconscientes que chegam à consciência só pode ser feita por um psicanalista treinado. Os pensamentos que emergem da associação livre, por exemplo, raramente fazem referência direta ao conflito psíquico. “É bem raro que as lembranças verdadeiramente patogênicas se encontrem assim na superfície”, disse Freud. Segundo ele, o que costuma surgir é um pensamento que é um ponto de partida para a emoção buscada, ou mesmo um elo dessa corrente de associações que vai chegar à chave do enigma – como se, de um filme surrealista, você tivesse só algumas cenas do meio.

É também no exercício da interpretação que o analista identifica a repressão agindo. Desde o momento em que o indivíduo conta para o terapeuta por que buscou a psicanálise, eventos reais são esquecidos, a ordem cronológica pode ser alterada e nexos causais são rompidos. Há uma verdadeira resistência contra a recuperação de certas lembranças. “Não existe caso clínico neurótico sem amnésia de alguma espécie”, apontou Freud.

A interpretação nada mais é que uma intervenção com o objetivo de fazer o analisando compreender significados inconscientes manifestos na sua fala. Mas isso não quer dizer que o psicanalista vá ficar explicando tudo a toda hora para o paciente – embora, só para contrariar a linha da boa psicanálise, Freud gostasse de ficar explicando. O processo de interpretação busca confirmar o entendimento do terapeuta, trazendo de volta à sessão algumas falas do analisando, incitando-o a falar mais sobre o assunto. Na psicanálise clássica, não espere respostas do analista para as suas dúvidas existenciais. Ele não vai explicar nada. Vai apenas agir como um facilitador para que você chegue sozinho às suas conclusões. (Em outras psicoterapias, porém, há conversas sobre o sentido das coisas.)

Um exemplo dessa intervenção que pode acontecer na psicanálise: o rumo das associações livres dá sinais de que uma mulher adulta tem hostilidade em relação à sua irmã dois anos mais nova, quer excluí-la de tudo o que faz parte da sua vida – e talvez tenha um desejo inconsciente de que a irmã morra. Então o terapeuta, nesse sentido de confirmar uma impressão e ajudar a pessoa a chegar às suas próprias verdades, pode questionar: “Você acha que, quando sua irmã nasceu, você se sentiu preterida já que sua mãe ganhou um bebê para cuidar e transferiu parte da atenção que tinha com você para essa criancinha? E agora, que ela é tão adulta quanto você, qual é o seu sentimento em relação a ela?”. Outro equívoco, para o qual Freud não cansava de alertar, são os exageros.

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Um clichê dos estereótipos ligados à psicanálise é ficar querendo interpretar tudo: a “mania de interpretação”, pela qual se tenta fazer brotar uma verdade oculta onde não existe nada. Discípulos de Freud viam símbolos sexuais em todo discurso, de forma até delirante – “às vezes, um charuto é só um charuto” é uma frase atribuída a Freud, e que faz todo o sentido aqui.

O problema de muitos desses exageros é que a finalidade da interpretação parece que fica sendo… a interpretação em si. Mas não. O objetivo da boa interpretação, ao fazer com que conflitos inconscientes se tornem conscientes, é contribuir para o autoconhecimento do indivíduo e melhorar a sua vida. E isso não quer dizer que a psicanálise vai mandar para o espaço um conflito, um trauma, uma lembrança dolorosa. A ideia é que, descobrindo a questão que o incomoda, você possa lidar melhor com ela. Ponto.

“O que você sabe de ruim sobre você, você controla. O que você não sabe pode te controlar”, explica o psicanalista Pedro de Santi, que ministra cursos sobre Freud na Casa do Saber, de São Paulo. “A psicanálise é o avesso da autoajuda porque mostra que é importante ter contato com aquilo que dói.” Ou seja, nunca vai chegar aquele momento transcendental em que o psicanalista vai virar para você e dizer “parabéns, você está curado”. A psicanálise não foi inventada para isso. O próprio Freud era questionado por pacientes sobre a validade da terapia, já que nunca seria capaz de eliminar as circunstâncias que provocam os conflitos internos das pessoas. A isso, Freud respondia desta forma: “De fato, não duvido que seja mais fácil para o destino do que para mim eliminar seu sofrimento. Mas você se convencerá de que muito se ganha se conseguirmos transformar a sua miséria histérica em uma infelicidade comum. Desta última você poderá se defender melhor com uma vida psíquica restabelecida”.

As regras do divã

Para Freud, a psicanálise só dava os melhores resultados em pessoas inteligentes, de boa índole e que estivessem plenamente de acordo com o tratamento, dispostas do fundo do coração a colaborar com a terapia. O método da associação livre não seria adequado a gente com má vontade para falar ou incapaz intelectualmente de fazer as relações que o analista estimula. “Freud sempre considerava o tratamento psicanalítico inapropriado para pessoas estúpidas, incultas, muito idosas, melancólicas, maníacas, anoréxicas ou em estado episódico de confusão histérica”, revela Elisabeth Roudinesco.

Mas Freud não era, de maneira alguma, um estrito seguidor dessas regras. “Poderíamos pensar, a crer em seu fundador, que a psicanálise se destina exclusivamente a sujeitos cultos, capazes de sonhar ou fantasiar, conscientes de seu estado, preocupados com a melhora de seu bem-estar, detentores de uma moralidade acima de qualquer suspeita e curáveis em poucas semanas ou meses. Ora, sabemos perfeitamente que a maioria dos pacientes que iam à Berggasse [a rua onde ficava o consultório de Freud] não correspondia a esse perfil.”

Sim, teve muita gente perturbada entre os 170 indivíduos que se trataram com Freud – pessoas que tinham como denominador comum uma origem na burguesia endinheirada. A maioria era de judeus, como ele próprio. E muitas dessas pessoas não chegaram a Freud por livre e espontânea vontade, mas forçadas por parentes; tinham neuroses às vezes suaves, mas havia também casos graves, que chamaríamos hoje em dia de psicoses. Sim, loucos.

<strong>Sigmund Freud (ainda menino aqui) decidiu fazer autoanálise para entender seus sentimentos diante da morte de seu pai.</strong>
Sigmund Freud (ainda menino aqui) decidiu fazer autoanálise para entender seus sentimentos diante da morte de seu pai. Mondadori Portfolio/Getty Images

Se Freud não obedecia às próprias regras, muito menos tinha qualquer compromisso com as diretrizes técnicas que se consolidaram entre os psicanalistas do mundo todo. Sabe-se que esses profissionais não devem analisar pessoas próximas, uma vez que esse conhecimento prévio pode influenciar a interpretação do que é dito pelo indivíduo. Mas Freud analisou por muito tempo sua filha Anna – que se tornaria uma das psicanalistas mais conhecidas da história – e também outros parentes, amigos, discípulos e os cônjuges dessas pessoas todas.

Além disso, hoje em dia, quem quer se tornar psicanalista precisa também se submeter à terapia e depois passar por uma supervisão. Freud não apenas nunca se deitou no divã de outro psicanalista como ainda admitiu ter analisado a si próprio. E isso vai contra um dos pontos de partida da psicanálise: a necessidade de um interlocutor. Porque o mecanismo da terapia reside no espelhamento: mostrar para o analisando aquilo que ele está mostrando para o terapeuta. Se a análise de uma pessoa conhecida já envolve o risco de influenciar as interpretações, imagine o quanto há de distorção numa autoanálise… Mas vá dizer isso a Freud – foi ele quem inventou a coisa toda.

O fato é que a psicoterapia praticada por seu inventor não era parecida com o que os especialistas chamariam hoje de uma consulta adequada. Para se ter uma ideia, Freud fumava charuto nas sessões – e não oferecia aos pacientes, o que deixava alguns chateados. Ele também falava muito mais durante a sessão do que um terapeuta freudiano falaria atualmente. Explicava muito sobre o processo da psicanálise, interpretava bastante durante a sessão e, pior, falava da sua própria vida e expunha suas preferências políticas, entre outras opiniões.

Dessa forma, atendia oito pacientes por dia, 50 minutos por sessão. E o tratamento era intenso: cada paciente comparecia em média seis vezes por semana. (Hoje mesmo, na psicanálise clássica, dificilmente um terapeuta aceitará um analisando que não se submeta a, pelo menos, três sessões semanais, o que demanda disposição e dinheiro por parte da pessoa interessada.)

Embora uns raros pacientes tivessem tratamentos muito longos, de idas e vindas, Freud não costumava passar de uns meses com a mesma pessoa em seu divã. Se não conseguia algum tipo de sucesso nesse período, desanimava e acabava desistindo.

O fim da histeria

Hoje, é difícil encontrar alguém que chame alguma doença de histeria. Na primeira versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), de 1952, a palavra histeria aparece 16 vezes, sem descrições minuciosas, em exemplos como “surdez histérica”, “paralisia histérica da laringe”, “incontinência histérica”, “histeria de angústia”… A partir da terceira edição do manual, de 1980, o distúrbio que levou o pai da psicanálise à investigação do inconsciente desapareceu de vez desse guia dos psiquiatras.

Mas o estudo de Sigmund Freud sobre as profundezas da mente foi muito além da construção de um método terapêutico visando às histéricas. O termo psicanálise serve tanto para designar a psicoterapia que abordamos agora quanto, num sentido mais amplo, para dar nome à disciplina que ele fundou e que abrange as suas teorias.

Contraindicações

Em um texto de 1905, Psicoterapia, escrito originalmente para uma conferência no Colégio Médico de Viena, Sigmund Freud relacionou algumas contraindicações – situações (e pessoas) que deveriam ser evitadas na prática clínica pelos psicanalistas. Vamos às quatro principais.


• Se o paciente não for gente boa, o tratamento não vai prestar.

“Recusem-se os doentes que não têm certo grau de educação e um caráter razoavelmente confiável.”


• Descartar casos muito graves.

“Psicoses, estados de confusão e de abatimento profundo (tóxico, poderia dizer) também são inadequados.”


• Dos cinquenta para cima não têm mais jeito.

“A massa de material psíquico [dos mais velhos] já não pode ser dominada, o tempo necessário para a recuperação se torna muito longo, e a capacidade de desfazer os processos psíquicos começa a fraquejar.”


• A psicanálise não é pronto-socorro, não funciona para casos de urgência.

“Não se deve recorrer à psicanálise quando se trata de eliminar rapidamente manifestações ameaçadoras.”

Dá um abraço?

Considerado um dos maiores psicanalistas de todos os tempos, Sandor Ferenczi (1873-1933), colaborador íntimo de Freud, inventou em 1919 o princípio da técnica ativa: em vez de apenas interpretar o que o paciente diz, o terapeuta deveria intervir bastante ao longo da consulta, dando ordens e fazendo proibições. Até aí, aos olhos de um leigo, nada demais. Só que Ferenczi radicalizou. Querendo permitir a identificação do analisando com um genitor amoroso, que eventualmente tivesse sido ausente na infância da pessoa, Ferenczi incentivava alguns pacientes a lhe dar abraços e beijos.

É… E suas ideias extremas não pararam por aí. Em 1932, ele surgiu com o conceito de análise mútua, uma verdadeira troca de papéis: era o analisando quem conduziria a terapia. O terapeuta podia inclusive deitar no divã no lugar do paciente e, dependendo do caso, até lhe pagar pela sessão.

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A Verdadeira Anna O.

A paciente que inspirou Freud se tornou líder feminista e desafiou Hitler. Só nunca mais quis ouvir falar de psicanálise.

Foi apenas em 1953, mais de meio século após a publicação de Estudos sobre a Histeria, que o mundo veio a conhecer a verdadeira identidade de Anna O. Seu nome era Bertha Pappenheim (1859-1936), uma jovem amiga de Martha Bernays – a esposa de Freud. A revelação foi feita no livro A Vida e Obra de Sigmund Freud, por seu biógrafo Ernest Jones, e desagradou muito os herdeiros de Bertha. Até porque ninguém que a conhecesse mais velha poderia ligar a mulher de carne e osso à personagem atormentada que deu início à história da psicanálise.

Bertha Pappenheim foi uma figura importante do feminismo judeu alemão, fundando uma organização para promover a emancipação feminina por meio do trabalho. Em 1922, escreveu: “Se houver justiça no mundo de amanhã, esta será: as mulheres farão as leis, e os homens trarão os filhos ao mundo”.

Ela se manifestou contra a partida dos judeus da Alemanha, desafiando Hitler, e também foi ativista de causas humanitárias, viajando pelo mundo para estudar e combater o tráfico de escravas brancas. Como se não bastasse, foi ainda diretora de um orfanato e escreveu peças de teatro para crianças.

<strong>Nunca ficou claro que Bertha Pappenheim realmente tenha sido curada pela terapia de Breuer. O fato é que, mais tarde, ela renegou seu passado e proibiu os familiares de mencionar o período em que teve ataques.</strong>
Nunca ficou claro que Bertha Pappenheim realmente tenha sido curada pela terapia de Breuer. O fato é que, mais tarde, ela renegou seu passado e proibiu os familiares de mencionar o período em que teve ataques. Imagno/Getty Images

Uma supermulher. Nada mais distante daquela imagem que vimos no começo deste capítulo, da garota fechada em si mesma, cujo corpo sofria porque a mente não tinha canais de expressão. Aquela personagem, uma construção do texto de Josef Breuer, talvez correspondesse mesmo à Bertha mais jovem, antes de passar pelo tratamento catártico. Mas será? Bertha Pappenheim nunca quis falar do seu tratamento com Breuer e proibiu sua família de fornecer qualquer informação sobre esse período da sua vida. Passou a ser uma mulher hostil à psicanálise e aos psicanalistas.

Fato incontestável mesmo é que a epidemia de histerias no fim do século 19 – o suposto problema de Bertha/Anna – foi tão fundamental para o surgimento e a expansão da psicanálise que a própria definição da doença se transformou, tornando-se um conceito totalmente associado às teorias de Freud. O diagnóstico genérico de histeria fragmentou-se em diversas outras doenças, mais específicas de acordo com cada manifestação – e geralmente mais associadas à psicose que à neurose.

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